Publicado em Janeiro - 05 - 2010
Uma Prova de Amor
“A maioria dos bebês são acidentes; eu não. Eu fui planejada; nasci para salvar a vida da minha irmã.”
(My Sister’s Keeper, 2009) O resumo da história já sugere o que vem pela frente: Kate Fitzgerald (Sofia Vassilieva), de 15 anos, tem leucemia desde os 3. Sua irmã Anna (Abigail Breslin) foi concebida in vitro para ser geneticamente compatível com ela e doar sangue, medula e o que for necessário para salvar a vida da irmã. Doadora desde que era um bebê, ela agora precisa doar um rim para Kate, cujos rins pararam de funcionar. Aos 11 anos, ela procura o advogado Campbell Alexander (Alec Baldwin) e processa os pais, reivindicando emancipação médica, ou seja, ela quer ter o direito de decidir o que fazer com seu corpo.
Mesmo sabendo o que esperar, este filme foi uma boa surpresa; a família que parecia unida e amorosa, fazendo de tudo para melhorar a saúde de Kate, aos poucos vai revelando seus silêncios, suas distâncias e segredos. Por trás da atitude de Anna, que a princípio parece egoísta, ao recusar-se a doar o rim para a irmã e iniciar o processo judicial, há muito mais que apenas o desejo de uma adolescente de ter uma vida normal.
Da mesma forma, aos poucos vamos conhecendo melhor os personagens, e acompanhando através de alguns flashbacks, os acontecimentos que foram aos poucos transformando a vida daquela família. Por fim vemos que durante todo aquele caminho de sofrimento e dedicação, havia sim muito amor entre todos eles. A história nos faz questionar o que é ser um bom pai ou mãe, e até que ponto os pais podem interferir na vida dos filhos, ainda que pelo bem de outra criança.
A mãe das meninas, Sara (Cameron Diaz), só pensa em manter a filha mais velha viva, e acredita que por mais dolorosos que possam ser os procedimentos médicos para Anna, não podem ser piores que a ideia de ter de enterrar a outra filha. Durante todos esses anos ela submeteu Anna aos procedimentos sem sua permissão, sem pensar no que ela sentia a respeito. Quando ela se rebela e processa os pais, seu pai Brian (Jason Patric) compreende a posição da filha, enquanto a mãe é irredutível. Sara também não procurou saber o que Kate pensa a respeito dessa luta incessante para mantê-la viva.
O filme foi baseado no livro My Sister´s Keeper, de Jodi Picoult. O livro e o filme têm diferenças significativas; enquanto no livro o foco está em Anna e seu dilema, o filme concentra-se em contar a vida de Kate. O personagem Taylor Ambrose (Thomas Dekker), namoradinho de Kate que também tem leucemia, pouco aparece o livro, enquanto o episódio romântico foi mais explorado no filme. O final do livro também é muito diferente, e segundo a autora, foi mudado contra a sua vontade.
Apesar da história contada no livro ser ficção, ela é muito similar à história real das irmãs Ayala. Anissa Ayala foi diagnosticada com leucemia aos 16 anos e precisava de um transplante de medula óssea. Como não havia um doador compatível, seus pais tiveram outro bebê na esperança que ele fosse compatível. Com 14 meses de idade, Marissa-Eve doou medula para um transplante que salvou a vida da irmã. (fonte: IMDb)
Abigail Breslin está crescendo e continua a mostrar que é uma boa atriz. Mas quem ‘rouba a cena’ é Sofia Vassilieva, cuja interpretação consegue transmitir o drama da jovem que sabe que está morrendo e ainda assim, consegue aproveitar cada oportunidade de vida, consciente que seu problema afeta a todos à sua volta. O livro de recortes feito por ela mostra bem a sensibilidade da garota, que percebia tudo o que se passava com sua família e demonstrava seu amor por eles a cada momento.
Kate: “Eu não me importo que o câncer esteja me matando, mas está matando a minha família também”.
Sofia fala sobre seu personagem, Kate: “Há roteiros em que você se apaixona por seu personagem. Se tiver sorte e conseguir o papel, você não deve se recusar a ir até o fim para ser/interpretar esse personagem. Se tiver a oportunidade e não o fizer, é uma vergonha. Raspar meus cabelos foi o mínimo que eu podia fazer por Kate, para viver seu isolamento e a distância que ela teve de uma vida saudável ‘normal’. Interpretar Kate foi como me equilibrar entre duas realidades”. (fonte: IMDb)

O personagem da mãe transmite bem o drama da mulher que abriu mão de tudo em sua vida - sua carreira, sua vida pessoal, o mundo exterior - para cuidar da filha doente em tempo integral. Esse sacrifício, feito com a melhor das intenções, não deixa de trazer consequências para todos. Tanto amor e dedicação acaba transformando-se em apego e medo da perda, uma lição que Sara por fim acaba aprendendo.
O filme toca num ponto delicado, que é a aceitação da morte. Através de duas atitudes opostas - Kate, que sabe que está morrendo e aceita isso com serenidade, e Sara, que não consegue parar de lutar pela filha, por medo de perdê-la - o filme nos faz pensar sobre a hora de aceitar o inevitável e desfrutar de cada momento precioso, em vez de continuar uma batalha inglória. Nesse ponto, é bem similar a “Antes de Partir“, outro filme excelente.

A morte faz parte da vida, e apesar de sentirmos a perda e a saudade das pessoas queridas, também os amamos ao aceitar a hora da partida e deixá-los seguir seu caminho. Nunca é fácil, e poucos temos a oportunidade de dizer adeus e o quanto os amamos. Apesar do sofrimento, poder ter essa oportunidade é um privilégio.
Recomendo esse filme sensível, com bons atores e dirigido por Nick Cassavetes, que também escreveu o roteiro (com Jeremy Leven) e dirigiu o ótimo “O diário de uma paixão“. Prepare os lencinhos e passe na locadora.
Para saber mais:
- Página do filme no IMDb
- My Sister´s Keeper (livro e filme) na Wikipédia (em inglês)
- Artigo de Marc Siegel no Los Angeles Times sobre o filme e a verdade sobre as questões médicas levantadas
- Crítica do filme - Marcelo Hessel, no Omelete
- Crítica do filme - Angélica Bito, no Cineclick
Vídeo: Trailer de “Uma prova de amor”








