Publicado em Julho - 07 - 2010
Adaptação
Quando o roteirista Charlie Kaufman foi convidado a adaptar para o cinema o romance The Orchid Thief, de Susan Orlean, ele se deparou com uma tarefa ingrata: apesar do livro ser interessante não havia história, trama, complicações, nada que servisse de base para um bom filme. Então, o Sr. Kaufman transformou um limão amargo em uma torta de limão deliciosa.
“Charlie Kaufman: O livro não tem história. Não há história.
Marty: Certo. Então invente uma.”
Com sua conhecida criatividade, Charlie mostra o dilema do roteirista para criar o roteiro, e o filme é construído em camadas: flashbacks de Susan no processo de pesquisa para a reportagem da New Yorker que serviu de base ao livro, as agruras de Charlie Kaufman (Nicholas Cage) tentando espremer um roteiro de onde não havia nada, e o resultado visual do próprio roteiro que está sendo escrito.

- Cage, gordinho e careca
A jornalista Susan Orlean (Meryl Streep) vai até a Flórida entrevistar John Laroche (Chris Cooper), acusado de roubar espécies raras de orquídeas com a ajuda dos índios seminoles. Durante as entrevistas, ela percebe como aquele homem estranho vivia movido pela paixão em tudo o que fazia, e quer saber como é se importar apaixonadamente por alguma coisa.
John viveu sempre motivado por alguma paixão; desde a criação de peixes tropicais até as orquídeas, cada interesse seu era cultivado até a exaustão, e depois abandonado sem motivo. Como Susan descreve em seu artigo, “a espiral de lógica e altruísmo e violação das regras em vista de um possível ganho financeiro é a especialidade de Laroche. Quando você percebe que ele é um pilantra, ele revela um motivo subjacente e nobre, mas também lucrativo, para sua pilantragem. Ele adora fazer as coisas do jeito difícil, se assim ele conseguir o que quer, e você fica pensando como ele conseguiu se safar. Ele é a pessoa amoral com mais moral que já conheci”.
Enquanto Charlie luta com seu roteiro, seu irmão gêmeo Donald (Nicholas Cage) resolve que vai tentar a carreira de roteirista e começa um curso com o famoso Robert McKee, o que Charlie diz que é inútil, pois os truques ensinados não garantem que ele escreverá um bom roteiro. Mesmo assim Donald começa a escrever um roteiro absurdo, “Os 3″, com todos os clichês do ramo.
Quanto mais Charlie se esforça para produzir um roteiro, somente consegue ficar fascinado por Susan Orlean e frustrado consigo mesmo. Charlie é inseguro e sem nenhuma auto-estima, enquanto Donald é extrovertido, descontraído e se dá bem com as garotas. Ironicamente, o roteiro de Donald é comprado por uma boa quantia enquanto o de Charlie continua empacado.

A partir do momento em que Charlie decide fazer o curso de McKee e pede ajuda a Donald, o filme muda completamente. A história fica mais ágil, e temos cenas de ação, perseguições, mistério, sexo, drogas e jacarés. O contraste entre os dois primeiros terços do filme e o terceiro ato é brilhante: não distinguimos o que é o roteiro original e o que é o roteiro escrito em conjunto entre Donald e Charlie; mas todos os truques baratos estão ali, inclusive um cascudo deus ex machina.
“Valerie Thomas: Quem sabe Susan Orlean e Laroche poderiam se apaixonar, e…
Charlie Kaufman: Certo. Mas o que estou dizendo é, não quero nada de sexo ou armas ou perseguições de carros, sabe… ou personagens aprendendo lições profundas de vida ou amadurecendo ou gostando um do outro ou superando obstáculos e se dando bem no final. Quero dizer… o livro não é assim, e a vida não é assim. Apenas não é. E… tenho certeza disso.”
O filme mistura de forma brilhante realidade e ficção, personagens reais e fictícios; Charlie, Susan, Laroche e McKee são reais, enquanto Donald não existe. Ainda assim, o roteiro é assinado por Charlie e Donald Kaufman, e ambos foram indicados para o Globo de ouro e o Oscar de melhor roteiro (apesar de a Academia ter avisado que, em caso de vitória, ambos dividiriam a mesma estátua). Meryl Streep traz uma atuação impecável como sempre, e Nicholas Cage divide-se entre a cara de cachorrinho pidão de Charlie e o jeito de moleque safado de Donald.
Kaufman brinca com a realidade e cria soluções criativas e incríveis, como fez em Quero ser John Malkovich e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Na minha opinião, ele é um dos melhores roteiristas de Hollywood, e craque em criar roteiros pra lá de originais. Como ele mesmo diz no filme, quando lhe perguntam por que ele não cria algo maluco como em ‘Malkovich’, “este é material alheio, não posso mexer com o trabalho dos outros dessa forma“. E ainda assim o fez, e muito bem. Recomendadíssimo!
Adaptação (Adaptation), 2002
Roteiro: Charlie e Donald Kaufman
Direção: Spike Jonze
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Para saber mais:
- página do filme no IMDb
- Susan Orlean na Wikipedia
- Orchid Fever, o artigo original de Susan Orlean
- Deus Ex Machina na Wikipedia
- Adaptation na Wikipedia
Trailer - Adaptação








