Publicado em Julho - 13 - 2009

4 - Doador de órgãos – ser ou não ser

(Artigo publicado no Alma Carioca em 07/07/2009)

(Última parte da série sobre transplantes)

A doação de órgãos é uma decisão pessoal; há pessoas que não concordam em doar seus órgãos, e seu desejo deve ser respeitado. Pela lei brasileira, todos são doadores, a menos que deixem claro o contrário, avisando a família e amigos. Caso essa decisão contra a doação não seja feita em vida, após a morte um familiar (de até segundo grau de parentesco) pode autorizar, por escrito, a retirada dos órgãos. Se você quer ser doador, avise sua família. São eles que entrarão em contato e autorizarão os médicos a fazer o transplante. Avise também seus amigos, avise todo mundo que você quer ser um doador.

Não é necessário nenhum documento, mas se quiser pode fazer uma declaração escrita e levar com você; ela pode vir a ser útil. Uma declaração escrita ou um cartão de doador são um símbolo importante de sua vontade e que poderão ajudar em um momento de tomada de decisão. Algumas famílias podem não autorizar a doação por não conhecerem a vontade do falecido.

Você pode fazer o download do cartão de doador e/ou prencher o Cadastro virtual de doadores aqui.

Todas as religiões têm em comum os princípios da solidariedade e do amor ao próximo que caracterizam o ato de doar. Todas as religiões deixam a critério dos seus seguidores a decisão de serem ou não doadores de órgãos. Para saber qual a posição das principais religiões sobre a doação de órgãos, veja aqui.

Na prática, a doação é feita pela retirada de pacientes com morte encefálica comprovada e após a autorização dos familiares. Morte encefálica é a parada definitiva e irreversível do encéfalo (cérebro e tronco cerebral), provocando em poucos minutos a falência de todo o organismo. É a morte propriamente dita. No diagnóstico de morte encefálica, primeiro são feitos testes neurológicos clínicos, os quais são repetidos seis horas após. Depois dessas avaliações, é realizado um exame complementar (um eletroencefalograma ou uma arteriografia). Pessoas em coma não são doadoras, pois o coma é um estado reversível.

As principais causas de morte encefálica são:

  • Traumatismo crânio encefálico
  • Acidente vascular encefálico (hemorrágico ou isquêmico)
  • Encefalopatia anóxica e tumor cerebral primário

Após a morte encefálica, o coração bate à custa de medicamentos, o pulmão funciona com a ajuda de aparelhos e o corpo continua sendo alimentado por via endovenosa. A família não paga pelos procedimentos de manutenção do potencial doador, nem pela retirada dos órgãos. Os custos são pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Havendo receptores compatíveis, os órgãos são retirados por equipes médicas especializadas, e o corpo é liberado em no máximo 48 horas.A idade do doador não influi no processo de doação, desde que os órgãos estejam em boas condições. A retirada dos órgãos é feita como em uma cirurgia, e o corpo não é desfigurado nem a aparência alterada.

Uma das razões por que existem poucos doadores é o medo da morte. Temos medo de pensar nisso e não decidimos em vida qual nossa posição sobre o assunto. Deixamos isso para lá porque “não acontece comigo ou com minha família” ou “isso só acontece com os outros e eles que decidam”. Apesar de mais cômodo, esse tipo de pensamento evita muitas possíveis doações de órgãos.

Se você já decidiu ser doador, comunique sua decisão á família e aos amigos; se não quer doar, diga isso a eles também. Mas se ainda está em dúvida, procure se informar mais, pergunte, converse com outras pessoas e tome sua decisão. Aqui em casa as opiniões são divididas, mas todos sabem o que os outros membros da família decidiram. Com diálogo e comunicação, os desejos de todos serão respeitados em caso de uma fatalidade.

Crédito: material de divulgação do site da ADOTE

Crédito: material de divulgação do site da ADOTE

Um modelo de formulário

Para preencher um modelo de doador de órgãos e tecidos, clique aqui.

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Mais informações:

Adote – Aliança Brsileira pela Doação de Órgãos e Tecidos

ABTO – Associação Brasileira de Transplante de Órgãos

Banco de Olhos – Mogi das Cruzes - SP

Blog – Transplante Vida

Artigo: Transplantes de órgãos no Brasil – Revista da Associação Médica Brasileira

Artigo : “O drama do transplante de órgãos” – Isabel Clemente, Marcela Buscato, Ana Aranha, Flavio Machado e Marcelo Zorzanelli – Revista Época, 01/08/2008

Leia também:

Parte 1 - Doação e transplantes de órgãos

Parte 2 - A lista de espera e o sistema de classificação

Parte 3 - O cenário dos transplantes no Brasil

Publicado em Julho - 03 - 2009

3 – O cenário dos transplantes no Brasil

(Artigo publicado no Alma Carioca em 02/07/2009)

Na terceira parte de uma série de 4 artigos, publicados no Alma Carioca e no Rato de Biblioteca, vamos ver como está o cenário dos transplantes no Brasil.

O programa de transplantes no Brasil se destaca pelo crescimento no número de transplantes realizados nos últimos anos e pelo investimento público na especialização das suas equipes com conseqüente aumento do número de equipes habilitadas. O Sistema Único de Saúde (SUS) financia cerca de 86% dos transplantes realizados no Brasil e também subsidia todos os medicamentos imunossupressores para todos os pacientes. E não é pouco; um transplante de fígado custa R$ 50 mil; o transplante de rim com doador vivo sai por quase R$ 15 mil, enquanto que com doador cadáver custa R$ 19 mil. O transplante de córnea, o mais barato, sai por R$ 700,00, enquanto o mais caro, o de medula óssea, custa mais de R$ 66.000,00. A maioria dos planos de saúde não cobre esse tipo de tratamento.

O custo da não realização de transplantes também é alto; além do custo humano, das milhares de pessoas que morrem sem ter a chance de fazer o transplante, o Estado brasileiro consome mais de R$ 1,3 bilhão por ano com diálises e hemodiálises, que poderiam ser suspensas em caso de transplante. Sem falar do sofrimento físico e emocional dos pacientes na fila de espera.

Não existem grandes obstáculos à doação de órgãos no Brasil, visto que todo o processo está regulamentado. A melhor forma de um indivíduo se tornar doador após a morte é avisar os familiares, manifestando, em vida, este desejo. Quando isto ocorre, a família sempre concorda com a doação para satisfazer o “último desejo” deste indivíduo. Embora 60% da população concorde com a doação de órgãos, os profissionais de saúde de terapia intensiva e setores de emergência notificam apenas um em cada oito potenciais doadores.

Estima-se que, todos os anos, seja realizada, no Brasil, apenas a metade do número de transplantes de córnea necessários. A situação é mais grave no caso de rim, um terço, e ainda pior para os pacientes de fígado, um quarto. Os transplantes de coração equivalem a menos de 5% do que seria preciso. As filas de espera crescem tanto que, dependendo do órgão, 10%, às vezes até 30%, dos pacientes morrem antes de ir para a sala de cirurgia.

Mesmo com o grande número de vítimas da violência urbana e do trânsito no Brasil, que poderiam ser doadores, o desperdício é enorme, pois o tempo de aproveitamento do órgão após a retirada do doador cadáver depende do órgão, mas em todos os casos é muito curto.

Segundo estudos do Prof. Valter Duro Garcia, coordenador de transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, todos os anos o páis produz de 11 mil a 18 mil doadores de órgãos em potencial, pacientes com morte encefálica mantidos vivos à custa de aparelhos. Ainda assim, para cada transplante realizado, órgãos de 18 pacientes deixam de ser aproveitados. Desde 2001, o total de brasileiros que aguardam órgãos para transplante passou de 43.500 para mais de 66.000 pessoas.

Crédito: material de divulgação do site da ADOTE

Crédito: material de divulgação do site da ADOTE

Em entrevista concedida em 2003, o Dr José Osmar Medina Pestana, que é Diretor do Hospital do Rim e Hipertensão e Presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), fala sobre os transplantes no Brasil.

O perfil econômico das pessoas transplantadas é o baixo poder aquisitivo. A faixa etária média é entre 20 e 50 anos. Da mesma forma que com os pacientes de AIDS, o sistema de saúde pública oferece gratuitamente aos transplantados os melhores medicamentos do mundo, durante toda a vida do paciente.

O Dr. José Osmar conta que nos países desenvolvidos existe a tendência de distribuir os órgãos de maneira mais utilitária, por exemplo, evitar transplante em pessoas de mais idade ou dar preferência a pessoas com melhores condições sociais. No Brasil isso não acontece, pois todas as pessoas em condições clínicas são igualmente candidatas ao transplante, e aguardam na lista única.

Como o Brasil é um país muito grande, é difícil fazer uma lista do país inteiro, pois a distribuição dos órgãos depende do tempo de preservação do órgão, que não pode ser ultrapassado. No estado de São Paulo existe uma lista única de alguns órgãos, mas dependendo do local ela tem de ser regional. A distribuição regional tem a vantagem da família que doou ver o benefício. Além disso, com a divulgação na região é criada a cultura do transplante e aumentam as doações.

Ele cita o caso do banco de órgãos de Sorocaba (SP), que criou um sistema de procura de córneas nas duas funerárias da cidade. As famílias de todos os que morriam eram procuradas para doarem as córneas e atualmente, mais de 90% das pessoas que morrem são doadoras de córneas. Hoje não existe fila de espera por córnea naquela cidade.

Outro ponto importante apontado é que o problema não é a autorização da família, pois 70% das famílias concordam com a doação; o problema está na estrutura do sistema de saúde e notificação dos órgãos disponíveis para transplantes. De cada 12 potenciais doadores, ou seja, pessoas com morte encefálica comprovada e que continuam com acompanhamento médico, somente uma é notificada. Deve haver envolvimento dos médicos com o programa de transplante, pois eles precisam notificar que há órgãos disponíveis de um doador em potencial a tempo de retirar os órgãos e realizar o transplante.

Ainda assim, é importante a realização de campanhas informativas com a sociedade, para que as pessoas saibam mais sobre os transplantes e a doação de órgãos. No último mês de abril o Fantástico exibiu uma série de reportagens sobre transplantes, e com isso o número de doações aumentou bastante. Com a divulgação de informações, participação dos médicos e a maior organização do sistema de saúde, quem sabe a fila de espera possa diminuir.

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Mais informações:

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