Lembro de várias cenas bem escritas e que me emocionaram muito em livros, como a escolha dos nomes dos gêmeos em A Leste do Éden, a explicação de Max de Winter em Rebecca, a batalha de Minas Tirith em O Senhor dos Anéis (chorei lendo uma cena de guerra, pode?), o desespero de Heathcliff com a morte de Cathy em O Morro dos Ventos Uivantes, entre outros.
Uma das cenas mais bonitas que lembro de ter lido está no romance Em algum lugar do passado, de Richard Matheson.
A história ficou muito conhecida por causa do filme de 1985, com Christopher Reeve e Jane Seymour, um primor de romantismo com a bela música de Rachmaninoff. E o livro também é excelente.
Richard Collier é um autor teatral que está morrendo, e decide fazer uma viagem sozinho. Um impulso o faz parar no Hotel del Coronado, onde se hospeda. Ao ver o retrato da atriz Elise MacKenna no museu do hotel, ele se apaixona imediatamente por ela, e fará de tudo para reencontrá-la.
A cena que gostei foi quando, depois de vencer o tempo, Richard volta a 1912 para encontrar sua amada Elise, ele a encontra caminhando na praia perto do hotel. E o encontro dos dois é surpreendente para ele, que nunca imaginaria as primeiras palavras dela.
“Não sei dizer quando ela primeiro tomou consciência de mim. Minha única certeza é de que parou quando me viu, imóvel junto da água, com a silhueta destacada contra as últimas e pálidas fulgurâncias do sol que se punha. Seus olhos pousaram em
mim, eu podia dizer, embora sem vê-los e sem ver sua face ou imaginar com que
emoções ela via a minha aproximação. Sentiria medo? Eu não previra que Elise
pudesse acolher minha chegada com receio. Nosso encontro havia sido tão inevitável,
que nunca considerei essa possibilidade. Sopesei-a agora. O que fazer, se ela corresse
em fuga ou gritasse por socorro?
Depois de muito tempo, parei diante dela, silencioso, e nos entreolhamos. Ela
era mais baixa do que eu imaginara. Quase precisava tombar a cabeça para trás, a fim
de olhar-me no rosto. Eu não conseguia ver bem o dela, porque Elise tinha as costas
contra o sol que se punha. Por que estava tão quieta, tão estática? Senti algum alívio,
por ela não pedir socorro nem dar-me as costas e fugir. Entretanto, por que a falta
absoluta de reação? Seria possível que o medo a deixara muda, tolhera-lhe os
movimentos? Tal idéia deixou-me nervoso.
O que eu sentira, quando me aproximava dela, nada era em comparação ao que
sentia agora. Meu corpo e mente pareciam paralisados. Não me moveria nem falaria,
se minha vida dependesse disso. Um pensamento penetrou-me no cerebro. Por que
também ela estava ali, parada e muda, olhando para mim? De certa forma, percebia
que não era por causa de nenhum terror paralisante, mas, além disso, era impossível
avaliar seu comportamento ou reagir a ele.
Então, abrupta e inesperadamente, ela falou, e o som de sua voz me
sobressaltou.
— É você? — perguntou.
Se eu houvesse compilado uma lista de todas as frases de abertura que ela
poderia dirigir-me, aquela estaria no fim ou talvez nem mesmo fizesse parte dela. Fiteia,
incrédulo. Teria acontecido algum encantamento, inteiramente além de minhas
visões, para permitir-lhe já saber a meu respeito? Era difícil de crer. Entretanto, um
instante depois que ela falou, senti que me vinha ao encontro a miraculosa oportunidade
de ultrapassar o que poderiam constituir horas em persuadi-la a aceitar-me.
— Sou, Elise — ouvi-me respondendo.
Ela começou a tremer e estendi o braço rapidamente para ampará-la. E como
descrever, após todos os meus sonhos com ela, a constatação de que aqueles sonhos
adquiririam carne, a mesma que sentia sob meus dedos? Ela ficou tensa ao contato,
mas não a soltei.”
Para saber mais sobre o livro e o filme, leia o artigo que escrevi aqui no Rato.
É difícil crer que esta história emocionante tenha vindo do mesmo autor de Eu sou a Lenda e outras narrativas de suspense e horror. Mas então lembramos que Richard Matheson também criou uma bela história de amor, Em Algum Lugar do Passado, e concluímos que ele é, além de talentoso, um escritor versátil e sensível.
O título do livro, ‘What dreams may come’, vem do famoso solilóquio de Hamlet: “For in that sleep of death what dreams may come / When we have shuffled off this mortal coil, / Must give us pause.” O livro traz referências alegóricas da Divina Comédia, de Dante Alighieri, e também de Orfeu e Eurídice.
Na introdução do livro, Matheson explica que “como seu tema é a sobrevivência após a morte, é imprescindível que você perceba, antes de ler a história, que apenas um aspecto dele é ficcional: as personagens e sua relações. Com algumas exceções, todos os demais detalhes são o resultado exclusivo de pesquisa.”
No final do livro há uma extensa bibliografia sobre reencarnação, vida após a morte, carma, contatos com os mortos, Edgar Cayce e O Livro Tibetano dos Mortos. Quando lemos o livro, entendemos o porquê.
O livro é narrado por Robert Nielsen, que conta como o manuscrito que vamos ler chegou às suas mãos. Ele recebeu a visita de uma mulher desconhecida, que disse ser médium e ter recebido aquela mensagem de Chris Nielsen, irmão de Robert, que havia falecido há mais de um ano. Apesar de não ser um homem religioso, Robert conta que o manuscrito continha detalhes da vida de seu irmão e família que a mulher não poderia saber, e que decidiu publicá-lo porque, “se o manuscrito é verdadeiro, todos nós precisamos examinar nossa vida. Com cuidado”.
Um parênteses:este recurso de atribuir a verossimilhança do texto a uma fonte externa é muito conhecido e foi utilizado (muito bem!) por diversos autores. Um dos mais famosos exemplos do “truque do manuscrito perdido” é o romance “O Nome da Rosa” de Umberto Eco (veja uma análise deste romance aqui), e também já foi usado pelo próprio Richard Matheson em “Em algum lugar do passado“, em que Robert Collier (de novo Robert!) apresenta o manuscrito/diário de seu falecido irmão Richard. Outro belo exemplo deste recurso é “As pontes de Madison“, de Robert James Waller, em que o autor teria recebido um pedido dos filhos de Francesca Johnson , que lhe pediram para escrever um livro sobre a história de sua mãe e publicá-lo. Um truque interessante, usado em ótimos livros. (fecha parênteses)
Voltando ao manuscrito psicografado de Chris, este começa descrevendo a sua morte e o período de negação inicial e posterior aceitação do fato, com riqueza de detalhes. Chris era casado com Ann havia 26 anos e ambos tinham quatro filhos crescidos. Chris e Ann eram um casal unido e apaixonado; ela passou por uma infância difícil, e sempre foi dependente emocionalmente dele, especialmente quando Chris a ajudou a recuperar-se de um colapso nervoso. A família era harmoniosa e os dois se completavam perfeitamente. Desesperado, Chris vê o quanto Ann sofre com sua morte e tenta em vão ajudá-la. Após perceber que está mesmo morto ele vê sua vida em retrospectiva, com todos os detalhes.
“Não entrarei em todos os detalhes, Robert. Não é a história que quero contar, isso levaria tempo demais. A vida de cada homem é um grosso volume de episódios. Considere todos os eventos de sua vida enumerados um por um com descrições completas. Uma enciclopédia de 21 volumes de eventos; no mínimo.
Deixe-me discuti-los brevemente. isso foi mais que um ‘relampejar diante dos meus olhos”. Eu era mais do que um espectador, isso logo tornou-se claro. Revivi cada momento com uma percepção aguda, experimentando e entendendo simultaneamente. O fenômeno era vivido, Robert, cada emoção infinitamente multiplicada por camada sobre camada de consciência.
A essência disto tudo – esta é a parte importante – foi o conhecimento de que meus pensamentos tinham sido reais. Não só as coisas que fiz e disse. O que passou pela minha mente também, positivo ou negativo.
Cada lembrança foi revivida diante de mim e dentro de mim. Eu não podia evitá-las. nem conseguia racionalizar, explicar. (…) Tentar me iludir era impossível, a verdade era exposta sem meios-termos. Nada como pensei que tivesse sido. Nada como eu esperava que tivesse sido. Apenas como tinha sido. “
Mais tarde ele encontra-se em um belo lugar chamado Terra do Verão, onde é acolhido por Albert, seu primo. O lugar é agradável e Chris descobre ele e Ann são almas gêmeas e que terá de esperar mais 24 anos até que chegue o momento de encontrar-se novamente com Ann, por ocasião da morte natural dela. Mas Ann, deprimida e desesperada com a perda de Chris, e sem acreditar que pudesse haver alguma coisa depois da morte, suicida-se para acabar com seu sofrimento. Com isso ela terá de ficar longe de Chris durante esses 24 anos, mas em um estado de sofrimento terrível, nos ‘domínios inferiores’ onde reinam a dor e o desespero.
“- Então, por que estou aqui? – perguntei – Aquele acidente foi o tempo natural da minha morte?
- Possivelmente – ele respondeu – Talvez não. De qualquer forma, você não foi responsável por aquela morte. Ann foi responsável pela dela. E tomar a própria vida é violar a lei porque ela impede que aquele ser resolva as necessidades de sua vida.
Ele parecia angustiado agora e balançou a cabeça. – Se as pessoas soubessem – ele disse – Elas pensam no suicídio como uma rota rápida para o oblívio, uma fuga. Muito pelo contrário, Chris. Ela apenas altera a pessoa de uma forma para outra. Nada consegue destruir o espírito. O suicídio apenas precipita uma continuação mais sombria das mesmas condições das quais se tentou escapar. Uma continuação sob circunstâncias muito mais dolorosas…”
Chris não aceita isso e diz que precisa ajudá-la, e pede a Albert para ajudá-o a encontrar Ann. Eles então partem ao domínio inferior à procura de Ann, e vemos descrições de lugares inimagináveis, terrores criados pela própria mente sofredora dos que ali estavam, e que contagiavam todo o ambiente.
SPOILER
Sem acreditar que estava morta ou que poderia receber ajuda, Ann se isolou e tornou difícil encontrá-la ou estabelecer contato com ela. Mas Chris a encontra e depois de muito esforço, quando percebe que seria impossível convencê-la de quem era ele e que ele poderia ajudá-la, decide ficar com ela naquele lugar de sofrimento. Em um longo monólogo amoroso, uma das declarações de amor mais lindas que já li, ele afirma seu amor por Ann e ela acaba reconhecendo o marido.
Por fim, de volta à Terra do Verão, ele descobre que ela teve de reencarnar para recuperar o tempo e a oportunidade que desperdiçou com o suicídio, e que o local escolhido por ela foi a Índia. Apesar de não precisar, Chris decide reencarnar também, como uma criança norte-americana que será médico e irá trabalhar na Índia quando adulto. Com isso ele pretende ajudá-a nesta nova vida.
No final do manuscrito, Chris termina com uma mensagem de esperança, dizendo que a morte não deve ser temida e que ele sabe que no futuro irá se encontrar novamente com Ann no Paraíso, ainda que de uma forma diferente.
FIM DO SPOILER
Além da história emocionante, o livro traz muitas descrições e explicações detalhadas sobre o processo da morte, nascimento, reencarnação, a vida após a morte, a lei do carma, as consequências dos nossos atos, e é uma leitura fascinante sem ser tediosa. Mesmo se não acreditarmos em todas essas idéias, com certeza o livro nos fará pensar bastante.
Matheson afirmou em uma entrevista, “Acredito que Amor além da vida é o livro mais importante (em termos de leitura) que já escrevi. Ele fez muitos leitores perderem seu medo da morte – o maior tributo que um escritor poderia receber”.
Filme
O filme baseado no livro foi lançado em 1998, com direção de Vincent Ward. Com belíssima fotografia e cenários, esta produção é um espetáculo visual e mantém a essência do livro, apesar de diferir em alguns detalhes.
Chris Nielsen (Robin Williams) é um pediatra casado com Annie (Annabella Sciorra), pintora e curadora de um museu. Eles viviam uma vida feliz e idílica em família com os dois filhos adolescentes, Ian (Josh Paddock) e Marie (Jessica Brooks Grant). Após a morte dos dois filhos em um acidente de carro, Annie foi hospitalizada devido a um colapso nervoso e tornou-se isolada e mentalmente instável devido à culpa. Após quatro anos ela e Chris reconciliam-se, mas no aniversário do acidente ele morre em um acidente de automóvel.
Chris vai para um local maravilhoso inspirado nas pinturas de Annie, em que vemos como efeitos especiais e computação gráfica podem ser usados também para criar arte e beleza. Chris recebe a orientação de Albert Lewis (Cuba Gooding Jr), seu antigo mentor na medicina. Quando, desesperada pela perda da família, Annie comete suicídio, ela vai para o Inferno. Chris decide ir até o inferno para buscá-la, e Albert encontra um “Guia” (Max Von Sydow) para ajudar Chris em sua jornada.
Com diversas referências da Divina Comédia (o rio Styx, o Cérbero – cão de três cabeças que guarda os portões do inferno, os sete níveis de inferno, a água cheia dos rostos dos condenados), este trecho do filme é sombrio e desolado, adequado ao desespero do local.
O Guia: Sua esposa o ama tanto assim? Nós a encontraremos. Mas quando a encontrarmos nada a fará reconhecê-lo. Nada quebrará sua negação. Isso é mais forte que seu amor. Na verdade, é reforçado pelo seu amor. Você pode dizer tudo o que quiser, até mesmo adeus. Mesmo se ela não conseguir entender. E você terá a satisfação de saber que não desistiu. Isso tem de ser suficiente. Chris Nielsen: Apenas me leve até lá, e eu decidirei o que é suficiente.
O final do filme é semelhante ao do livro, mas a reencarnação é uma escolha de ambos para poderem viver juntos em uma nova vida, não um processo inevitável da ordem natural das coisas. Na cena final Annie e Chris encontram-se novamente como crianças, lembrando a cena inicial, quando ambos se conheceram em um lago na Suíça.
Diferenças entre livro e filme
O livro tem uma abordagem mais científica enquanto o filme é sentimental e fantástico. No livro os quatro filhos (Louise, Richard, Marie e Ian) são crescidos e sobrevivem aos pais, enquanto no filme são adolescentes e morrem em um acidente de automóvel.
SPOILER
No filme, Chris descobre que Albert é na verdade seu filho Ian, quando lembra de uma conversa entre ambos em que havia dito ao filho “Se eu tivesse de atravessar o inferno, só há uma pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado”. O Guia que acompanha Chris no inferno é na verdade seu mentor Albert, que aproveita esta oportunidade para prestar um favor a Chris. Leona, uma guia que Chris encontra no paraíso, é na verdade sua filha Marie. Quando Chris e Annie retornam do Inferno eles se encontram com os filhos, antes de decidirem reencarnar.
FIM DO SPOILER
A descrição do ambiente e sofrimentos do inferno é muito mais violenta no livro que no filme. Chris não consegue mover-se, respirar ou mesmo ver, e sofre intensa tortura física nas mãos dos habitantes, o que mais tarde descobre ser causado pelo sofrimento da mente.
No livro Ann deve ficar apenas 24 anos no inferno, até o fim natural de sua vida na terra; no filme, ela ficaria lá pela eternidade.
O produtor do filme, Stephen Simon, conta: “Uma semana após o lançamento do filme, uma família de Milwaukee, Wisconsin, me ligou para dizer que sua filha de 17 anos que sofria de câncer tinha uma semana de vida e queria ver este filme que falava sobre a vida depois da morte. Enviamos uma equipe de vídeo ao hospital e toda a família assistiu ao filme junto com ela; o pai contou mais tarde que ela mudou completamente seu modo de ver a morte e teve uma atitude pacífica até morrer, dois dias depois. Esta é nossa definição de sucesso; eu não trocaria outros 100 milhões de dólares na bilheteria pelo modo como aquela garota terminou sua vida”. (mais informações aqui)
Os efeitos visuais do filme são estonteantes, com uma paleta de cores vivas e nítidas e efeitos que criam a ilusão que estamos dentro de uma pintura. Este espetáculo visual é o cenário perfeito para uma linda história de amor que ultrapassa os limites da morte. Recomendo o livro e o filme.
* * *
Livro (clique nos links para comprar na Livraria Cultura):
Este romance de ficção científica/horror escrito por Richard Matheson em 1958 conta a história de Robert Neville, aparentemente o único sobrevivente de uma praga biológica que teria ocorrido após a terceira guerra mundial (os detalhes não são explicados), e cujos infectados apresentam sintomas de vampirismo.
A esposa de Neville foi infectada e morreu; após ser enterrada, ela voltou como vampiro e ele teve de matá-la com uma estaca; sua filha também sucumbiu à doença e foi jogada em um poço de fogo contínuo onde os corpos infectados eram queimados.
Estamos em 1975. Neville vive sozinho em Los Angeles; sua casa é uma fortaleza bem equipada com geradores, uma grande geladeira, muitos livros e alho e boas trancas nas janelas. Durante o dia ele circula pela cidade em sua caminhonete, cravando estacas nos vampiros em coma diurno, e à noite refugia-se em sua casa enquanto os infectados gritam do lado de fora, tentando atraí-lo a sair. Entre eles está o vizinho e ex-amigo de Neville, Ben Cortman.
Neville é imune ao vírus, e acredita que isso se deve a ele ter sido mordido por um morcego. Enquanto tenta sobreviver, este homem comum sem preparo científico pesquisa em livros e analisa as variáveis para compreender os mecanismos de contágio e tentar descobrir a cura. Neville aos poucos desenreda o mito do vampiro e analisa cada elemento à luz dos conhecimentos e da ciência. Mesmo que algumas das explicações pareçam imprecisas, a verossimilhança é aceitável.
A princípio Robert ocupa-se com sua sobrevivência e defesa, mas aos poucos a solidão começa a tomar conta dele, e sua fuga é a bebida. Quando ele começa a pesquisar sobre a doença, descobre um objetivo em sua vida e para com os comportamentos autodestrutivos. Mas a solidão continua.
Um dia um cão aparece na rua, aparentemente saudável. Robert tenta atraí-lo com comida, e durante semanas ele tenta ganhar a confiança do animal. Quando consegue capturá-lo, o cão já está infectado. Neville tenta salvá-lo, mas o cão morre dali a alguns dias, junto com a esperança de uma companhia. A descrição deste trecho é simples, mas comovente. Conseguimos simpatizar com a necessidade de um homem solitário por algum tipo de companhia, e sentimos seu desespero quando essa possibilidade é perdida.
“Depois das últimas semanas, dava-se conta de que a esperança não era a resposta. Nunca havia se sentido assim. Naquele mundo de horror real não havia escapatória nos sonhos. Podia adaptar-se ao horror. Mas a monotonia era o pior obstáculo, compreendia agora. E essa descoberta o tranqüilizava; era como pôr todas as cartas sobre sua mesa mental e, as repassando, ordenar definitivamente o jogo.
A morte do cão não lhe havia alcançado o desespero que temia. De certo modo sentiu morrer as esperanças e as excitações vãs. Aceitando assim seu cárcere, sem tentar impossíveis fugas, nem golpear inutilmente os muros.
E assim, conformado, voltou para o trabalho.”
ATENÇÃO: SPOILER (não leia se não leu o livro)
Em 1978 ele encontra uma mulher, Ruth, caminhando à luz do dia e aparentemente saudável. Após o choque inicial, ela lhe conta sua história, que não convence Neville. Ele lhe pede para testar seu sangue e ela acaba concordando. Mas quando ele vê ao microscópio que ela está infectada, Ruth o acerta na cabeça e o deixa desacordado.
Ao acordar, Neville vê que Ruth se foi, deixando um bilhete. Ela fazia parte de um grupo de sobreviventes infectados que estavam lutando contra a doença e formando uma nova sociedade. Eles viam Neville como uma ameaça, pois ele matava tanto os vampiros mortos como os infectados vivos, e pretendiam exterminá-lo. Ruth pede que ele fuja.
Neville, percebendo mesmo sabendo o que o esperava, decide ficar, e é capturado pelos resistentes. Ao aguardar sua execução pública, Ruth o procura e lhe entrega algumas pílulas para que tudo ’seja breve’. Ele as toma.
“Tossiu pigarreando. Virou-se e se apoiou na parede enquanto tomava as pílulas.
O círculo se fechava. De sua morte nascia um novo terror, uma nova superstição penetrava a inexpugnável fortaleza da eternidade.
Eu sou lenda.”
FIM DO SPOILER
Eu sou a Lenda é uma narrativa pós-apocalíptica simples e direta, mas surpreendentemente seu tema subjacente não são os vampiros, mas a natureza humana diante da solidão. Neville passa por todos os estágios de perda, revolta, aceitação e reação; ele perde a família, sua rotina, sua noção de sociedade, suas próprias noções de ética (ao ter de matar os vampiros, e depois ao perceber que vinha matando também os infectados vivos), sua esperança e por fim, sua vida.
Ao final da história ele torna-se uma aberração aos olhos da ‘Nova Sociedade’ – enquanto eles são conformistas e tentam apenas sobreviver, ele é individualista e quer mudar as coisas, encontrar uma solução. A partir dali, os infectados sobreviventes seriam os normais e ele, o único imune, seria um monstro, um exemplar obsoleto da velha humanidade, um anátema, que teria de ser destruído.
Este excelente livro de Richard Matheson termina com uma nota de tristeza e impotência, como se nada pudesse ser feito para voltar o mundo ao que era. Um panorama pós-apocalíptico que nos faz pensar sobre a natureza humana, os conceitos de normalidade e a solidão.
No prefácio da reedição de I Am Legend, Stephen King reconhece a influência de Matheson em sua obra:
“Dizer que Richard Matheson inventou a história de horror seria tão ridículo como dizer que Elvis Presley inventou o rock´n roll – mas, poderiam perguntar os puristas, e Chuck Berry, Little Richard, Stick McGhee, os Robins e dúzias de outros? O mesmo é verdadeiro no gênero de horror, que é o equivalente do rock´n roll – um golpe seco na cabeça que afeta seus nervos e torna a dor tão boa. (…)
Quando as pessoas falam sobre o gênero, acho que mencionam meu nome em primeiro lugar, mas sem Richard Matheson eu não estaria aqui. Ele é meu pai como Bessie Smith foi a mãe de Elvis Presley. Ele chegou quando era necessário, e essas histórias conservam todo seu apelo hipnótico.
Mas cuidado: vocês estão nas mãos de um escritor que não pede nem concede clemência. Ele irá esgotá-los… e quando fecharem este livro ele os deixará com o maior presente que um escritor pode dar: ele os deixará querendo mais”
The Last Man on Earth (1958)
Esta história foi adaptada três vezes para o cinema: a primeira versão, de 1964, teve o título de The Last Man on Earth (no Brasil, chamou-se Mortos que Matam), uma produção italiana com Vincent Price como o Dr Robert Morgan e dirigida por Ubaldo Ragona. Matheson escreveu o roteiro, mas depois de algumas alterações ele não quis que seu nome aparecesse nos créditos e usou o pseudônimo “Logan Swanson”.
Este filme está em domínio público e pode ser baixado ou assistido online aqui.
A Última Esperança da Terra (1971)
A segunda versão cinematográfica da história, A Última Esperança da Terra(The Omega Man - 1971), foi estrelada por Charlton Heston como Robert Neville. Matheson não teve qualquer influência no roteiro, que removeu todos os elementos de vampirismo, exceto a sensibilidade à luz. Os zumbis, liderados por Mathias (Anthony Zerbe) temtam destruir Neville, que representa os males da ciência e do militarismo. Neville caça os zumbis de dia e esconde-se à noite. O final é ligeiramente diferente, pois há a esperança de cura através do sangue de Neville, apesar de ele não sobreviver.
O filme pode ser visto no YouTube (em inglês): aqui está o link para a parte 1
Eu Sou a Lenda (2007)
A terceira versão traz o mesmo nome do livro, Eu Sou a Lenda, e foi estrelada por Will Smith e dirigida por Francis Lawrence. Esta versão tem algumas diferenças quanto ao livro: o que causou a epidemia (no livro são bactérias) foi o vírus do sarampo, modificado pelo homem para curar o câncer, e que se tornou incontrolável. Três anos depois, ele dizimou 90% da população mundial.
Os infectados parecem-se mais com zumbis que com vampiros; eles também não suportam a luz do sol, são extremamente agressivos, sem muita inteligência e aparentemente canibais. Eles foram criados com CGI, assim como os animais do filme e boa parte da vegetação que cobre Nova York. Sim, o cenário da catástrofe também mudou, pois a produção achou que NY vazia causaria maior impacto que uma Los Angeles desabitada. E causa mesmo, as cenas do início do filme são ótimas.
Apesar de alguns flashbacks que contam como algumas coisas aconteceram, certos detalhes não são explicados: por que Neville é imune? Por que os zumbis/vampiros perderam completamente a inteligência (realmente não parecem humanos)? Não pergunte, apenas assista.
Neville agora tem uma companhia: a cadela Samantha (Sam), que era o cãozinho da família e que fica com ele quando sua mulher e filha embarcam no helicóptero para sair de Nova York. O animal (a pastora alemã Abbey) é adorável, tanto que Will Smith quis adotá-la após as filmagens, mas o treinador não concordou.
Robert Neville é um virologista militar que decide ficar para trás (no ‘Marco Zero’ – expressão bem americana e sugestiva) quando Nova York é evacuada, para obstinadamente tentar descobrir a cura. Ele tem um laboratório super equipado em sua casa, e tenta superar a solidão com a companhia de Sam, sua pesquisa e alguns manequins que ele dispôs pela cidade para criar a ilusão de outras pessoas. A primeira metade do filme lembra muito o filme ‘Náufrago‘, apesar de Sam ser mais interessante que Wilson.
Mas as maiores mudanças na trama acontecem na segunda metade do filme. A mulher que surge, Anna (Alice Braga) não é o mesmo personagem que Ruth, e o desfecho do filme é diferente do livro. O significado do título também foi interpretado de forma diferente que no livro. Aqui a explicação parece uma justificativa para o final escolhido em vez de uma metáfora simbólica.
O filme termina com uma nota de esperança (o que não acontece na história original), apesar de lembrar o final de “O Profissional“. Mesmo com as falhas no roteiro e o excesso de efeitos especiais (ei, afinal estamos no século 21!), é um bom filme. Gostei dele, e mesmo não sendo uma adaptação fiel do livro, vale a pena assisti-lo. Mas se quiser um bom entretenimento que o fará pensar, com certeza recomendo o livro.
Algumas curiosidades:
O quadro de Van Gogh (Noite estrelada) que é visto na casa de Neville é mesmo um Van Gogh; os quadros que decoram a casa do personagem foram emprestados pelo Museu de Arte Moderna de Nova York.
O CD que Will Smith toca e que é ‘o melhor álbum já feito’ é a coletânea de sucessos de Bob Marley, “Legend”, lançada após a morte do cantor.
Arnold Schwarzenegger, Ted Levine, Tom Cruise e Nicholas Cage já foram considerados para o papel de Robert Neville; a produção com Schwarzenegger, que seria dirigida por Ridley Scott, foi cancelada pelo alto orçamento para a época.
Richard Matheson disse que ‘The Omega Man’ estava tão diferente do livro que isso nem chegava a incomodá-lo.
No filme de 1971 os sobreviventes são chamados de ‘A Família’, uma clara referência a Charles Manson e seus seguidores.
Esta bela história de amor e viagem no tempo foi um grande sucesso no Brasil desde seu lançamento, em 1980, mas curiosamente não fez tanto sucesso nos Estados Unidos. Apesar da fraca bilheteria e críticas desfavoráveis, ele conquistou uma legião de fãs quando foi lançado em vídeo e na TV, e hoje é considerado um clássico, tanto lá quanto aqui.
Filme
O jovem autor teatral Richard Collier (Christopher Reeve), durante a estréia de sua primeira peça na faculdade, recebe de uma velha senhora um relógio, e ela lhe diz: “Volte para mim”. Alguns anos depois, ao sair sem rumo, ele decide hospedar-se no Grand Hotel, e fica fascinado ao ver a foto de uma linda mulher na galeria do hotel. Ele descobre que ela é Elise MacKenna (Jane Seymour), atriz famosa que hospedou-se no hotel e lá encenou uma peça em 1912.
Richard fica mais intrigado ainda quando, ao pesquisar na biblioteca da cidade, descobre que ela é a senhora que havia lhe dado o relógio, e que havia morrido mais tarde naquela noite; que Elise era uma jovem cheia de vida e que isso mudou após sua apresentação no hotel, tornando-se reclusa e solitária.
Ele decide então usar as técnicas de auto-hipnotismo e fazer uma viagem de volta a 1912, para encontrá-la. Após muito esforço, ele é bem-sucedido e consegue encontrá-la. Ao vê-lo, Elise pergunta: ‘É você?”, ao que ele responde “Sim”.
Porém, William Robinson (Christopher Plummer), o empresário de Elise, teme que Richard a influencie negativamente e que ela deixe de atuar, e tenta afastá-lo dela. Mas Richard consegue convencer Elise a passear com ele, e aos poucos eles vão se aproximando. Durante a peça, ela improvisa um monólogo dirigido a Richard, na platéia. Isso enfurece Robinson, que faz uma armadilha para espancar e amordaçar Richard nos estábulos do hotel.
No dia seguinte ele consegue escapar e volta ao hotel, onde descobre que a companhia teatral já havia partido. Mas Elise volta e o encontra, e os dois passam sua primeira e única noite juntos. Após pedir Elise em casamento, numa brincadeira ele encontra uma moeda de 1979 no bolso e volta abruptamente ao presente.
Richard tenta em vão voltar a 1912, e vaga pelo hotel por algum tempo, até trancar-se no quarto, onde é encontrado em estado catatônico por Arthur, funcionário do hotel. Quando o médico chega, Richard vê a si mesmo pairando acima de seu corpo, e segue até a luz da janela, onde encontra Elise, que lhe estende a mão.
Livro
O roteiro do filme foi escrito por Richard Matheson, autor do livro ‘Bid Time Return‘, lançado em 1975 e que foi relançado após a estreia do filme com o mesmo título, ‘Somewhere in Time‘. Matheson afirmou que ” ‘Em algum lugar do passado‘ é a história de um amor que transcende o tempo, e ‘Amor além da vida‘ é a história de um amor que transcende a morte… Sinto que eles representam o melhor que escrevi em forma de romance”.
Richard também é o autor de vários livros e roteiros, como ‘Eu sou a lenda’ (filmado duas vezes, com Will Smith e Charlton Heston no papel principal), ‘Encurralado’, e diversos episódios de ‘Além da Imaginação’.
Durante uma viagem com sua família, Richard Matheson ficou encantado pelo retrato da atriz Maude Adams na Casa de Ópera Piper em Nevada. Maude era reclusa e misteriosa, e Matheson imaginou seu novo romance. Para escrevê-lo, ele hospedou-se por muitas semanas no Hotel del Coronado, cenário da história. Muitas informações biográficas de Elise MacKenna foram baseadas em Adams.
No livro, Richard Collier é um roteirista que sofre de tumor cerebral e decide passar seus últimos dias no Hotel Del Coronado. A maior parte do livro é o diário escrito por Richard em sua viagem. Richard fica fascinado pelo retrato de Elise MacKenna, que apresentou-se no hotel em 1896, quando teria tido um caso de amor com um homem misterioso que mudou sua vida. Richard se convence que pode voltar no tempo e ser esse homem misterioso.
O livro segue de maneira semelhante ao filme, e na parte final sabemos que Richard morre devido ao tumor, após voltar ao presente. Apesar do médico afirmar que a viagem ao passado acontecera apenas na mente de Richard o irmão dele, Robert Collier, decide publicar o diário em forma de romance.
No filme, Robinson havia dito a Elise que sabia que um homem surgiria na vida dela e a mudaria; no livro, essa informação é dada por duas videntes.
O relógio paradoxal
Se Richard recebeu o relógio de Elise em 1972, voltou a 1912 e o deu a ela, de onde veio o objeto? Esse paradoxo nunca é explicado, e existe apenas no filme (assim como o próprio relógio). Esse ‘furo’ é criticado por muitos fãs da história, mas ainda assim é perdoado.
EALDP e Titanic: coincidências demais
Estas duas histórias românticas têm muitas similaridades, que nos fazem duvidar de uma simples coincidência e imaginar até que ponto James Cameron era fã do romance e filme de Richard Matheson.
Nos dois casos a história começa com uma velha mulher, temos um retrato de um momento de felicidade, uma peça de jóia que faz um círculo completo no tempo, e uma tragédia que separa os dois amantes para sempre depois de uma única noite de amor. Até a cena final é bem parecida; após a morte de Rose, ela retorna ao Titanic e reencontra Jack, que lhe estende a mão enquanto a imagem dos dois dilui-se na luz; após a morte de Richard, ele vai em direção à luz, onde encontra Elise, que espera por ele e lhe dá a mão.
Outras coincidências:
Elise é atriz, e Rose será uma; ambas perdem o amor de suas vidas em circunstâncias dramáticas e suas vidas mudam radicalmente depois disso.
As duas atrizes, Kate Winslet e Jane Seymour, são inglesas e interpretam o papel de uma americana.
As duas posam para uma foto/retrato enquanto olham nos olhos do homem que amam.
Ambas devolvem a jóia (o relógio a Richard e o colar, ao mar) e morrem logo em seguida, cercadas por objetos e lembranças do passado.
Tanto Jack quanto Richard morrem jovens; ambos são artistas, e passam por dificuldades para ficar junto da mulher amada.
Ambos vestem roupas inadequadas ao ambiente social em que estão, na maior parte do tempo.
As duas histórias começam no presente, voltam ao passado, e terminam no presente.
As duas histórias acontecem no mesmo ano, 1912.
Curiosidades sobre o filme
O Grand Hotel, onde foram feitas as filmagens, fica na Ilha Mackinac, onde não são permitidos automóveis; alguns carros foram levados para lá especialmente para as filmagens, mas não podiam ser usados pelos atores ou a equipe fora dos momentos da filmagem.
O diretor Jeannot Szwarc chamava tanto Christopher Reeve quanto Christopher Plummer de ‘Chris’, e ao dirigir aos dois em uma cena, ambos responderam ao mesmo tempo; para evitar confusões, ele passou a chamar Christopher Plummer de ‘Mr Plummer‘ e Chris Reeve de ‘Big Foot‘ (pé grande).
O momento em que Richard vê o retrato de Elise também foi a primeira vez que Chris Reeve o viu. O diretor quis obter uma reação verdadeira, e manteve o retrato escondido do ator até o momento da filmagem.
Foi perguntado às atrizes que fizeram teste para o papel de Elise se haviam se apaixonado antes; Jane Seymour foi a única que respondeu ‘não’. Ela compareceu ao teste vestindo um traje de 1912 e chegou dizendo: ‘Eu sou Elise McKenna e tenho de fazer este papel’.
O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Figurino, mas perdeu para Tess. EALDP ficou em cartaz nos cinemas americanos por apenas 3 semanas; hoje ele é um dos filmes mais alugados nos Estados Unidos, e quando estreou nos cinemas do Oriente em 1984, ficou em cartaz por 18 meses em um cinema de Hong Kong, com filas.
A trilha sonora, composta por John Barry, foi um sucesso de vendas e a mais vendida desse compositor, mais que o total de todas suas outras trilhas sonoras (que incluem sucessos como Perdidos na Noite, King Kong (1976), Entre Dois Amores, Dança com Lobos e vários filmes de James Bond, como Goldfinger, Dr No, Os diamantes são para sempre, Moonraker, Octopussy e outros).
Jane Seymour e Christopher Reeve tornaram-se grandes amigos após as filmagens, até a morte do ator, em 2004.
Fãs do filme organizaram o primeiro ‘Somewhere in Time Weekend‘ no Grand Hotel em 1991, com participação do autor, Richard Matheson, o diretor, Jeannot Szwarc, entre outros; em 1994 Christopher Reeve participou do encontro anual e em 2002, Jane Seymour voltou à ilha pela primeira vez após as filmagens, para participar da reunião.
Vídeo: coleção dos melhores momentos do filme, ao som de ‘Rapsódia sobre um tema de Paganini’, de Sergei Rachmaninoff, e ‘Somewhere in Time’, de John Barry, cantada por Martin Nieverra.