Publicado em Julho - 12 - 2010

Memento Mori: retratos da morte

Um dos costumes estranhos da era vitoriana eram os memento mori, ou fotografias dos mortos. Após a invenção do daguerreótipo na metade do século 19, tornou-se possível registrar imagens de pessoas e eventos especiais, o que antes era feito apenas em retratos pintados, um luxo só acessível aos muito ricos.

Com a popularização das fotos, a classe média podia guardar lembranças de pessoas queridas. Mas frequentemente, a única oportunidade de ter um retrato de alguém era após a morte, especialmente se o falecido era uma criança. Esse costume popularizou-se na segunda metade do século 19 e desapareceu no início do século 20, quando as fotografias ficaram mais baratas e acessíveis, e deixaram de ser novidade.

Memento mori significa “lembre-se que você vai morrer”; na Roma antiga, quando um general desfilava comemorando seu triunfo em batalha, um escravo seu tinha a tarefa de lembrá-lo que, apesar de estar saboreando a glória, amanhã ele poderia experimentar a desgraça e a morte. O escravo diria: “Memento mori“, e provavelmente o general responderia “Respice post te! Hominem te memento!” (Olhe atrás de si; lembre-se que não és nada além de um homem).

Na Idade Média, era comum haver igrejas com coleções de ossos e crânios, para lembrar os fiéis da transitoriedade da vida.  Ainda restam algumas igrejas com esse tipo de ‘decoração’ na República Tcheca e em Évora, Portugal.  Também eram comuns obras de arte moralizantes, com temas que lembrassem a morte e a necessidade de evitar os pecados para garantir a vida eterna.

detalhe do Ossuário Kostnice, na República Tcheca

Uma forma atual de culto aos mortos e lembrete de que a vida é efêmera são os eventos de Finados, especialmente as celebrações do Dia de los Muertos, no México e em outros países da América Latina. A data é celebrada com festas, doces e pães em formato de ossos e crânios, muitas flores e cores vivas nas oferendas aos mortos.

Antes da Idade Média, a morte era simplesmente parte da vida; os mortos eram enterrados rapidamente e sem cerimônias, a vida prosseguia normalmente, de forma coletiva. Com o passar dos séculos, a vida e a morte ganharam um aspecto individualista, primeiro nas classes mais altas, e bem mais tarde, nas camadas populares. No século 19, a morte era um assunto doloroso e que afetava emocionalmente a família. Os funerais ganharam grande importância, e as cerimônias eram uma forma de demonstrar a dor dos familiares pela perda do falecido. Era comum, entre as pessoas abastadas, a realização de funerais caríssimos e elaborados e túmulos luxuosos.

A morte foi tratada na sociedade do século 20 da mesma forma que o sexo na sociedade do século 19; o assunto era evitado, eram utilizados  eufemismos e isso não devia ser mencionado em público. Entretanto, a morte no século 19 era como o sexo no final do século 20: um assunto discutido abertamente, sem preconceitos.

Dessa forma, as fotografias eram uma forma de expressar essa dor e manter viva a lembrança do morto. No século 19, a sociedade estava mudando de um sistema coletivo de grandes famílias para núcleos familiares menores, em que a perda de uma pessoa querida era irreparável. Nessas situações é comum a negação do fato, e por isso muitos retratos de mortos tentavam mostrar a pessoa como se estivesse viva, ou dormindo. Contudo, também havia fotos dos mortos dentro dos caixões, e fotos do morto junto aos parentes vivos, como uma foto normal de família.

A alta taxa de mortalidade infantil explica o grande número de fotos de crianças pequenas e até recém-nascidas. Essa era a única oportunidade de registrar a imagem da criança. Nas primeiras décadas desse costume, isso também era verdade para as fotos post-mortem de pessoas idosas. Essas fotografias eram uma forma de  ajudar a família a superar a dor da perda.

Apesar de hoje parecer um costume macabro, as fotos eram apenas um modo de preservar a memória da pessoa falecida. Ainda hoje há pessoas que fotografam pessoas queridas mortas, e em alguns hospitais nos Estados Unidos, a equipe médica oferece aos pais de bebês que morreram ou de natimortos, câmeras descartáveis com fotos da criança, para que os pais revelem quando estiverem preparados para vê-las. Nesses casos, é a única lembrança do filho perdido e um gesto bonito da equipe médica, pois os pais poderiam nem se lembrar de registrar imagens do bebê.

A fotógrafa Annie Leibovitz usou a fotografia como modo de registrar e expressar a dor pela perda da companheira Susan Sontag, e fotografou-a em seu leito de morte e após o falecimento. Outros fotógrafos contemporâneos também registram imagens de pessoas mortas de forma artística, por vezes criando imagens com gosto duvidoso.

Como todas as formas de expressão, que parecem normais e aceitáveis no contexto da época, mas podem parecer bizarras ou estranhas com o passar do tempo, as fotos dos mortos foram um costume normal na era Vitoriana, como os hábitos alimentares (em especial os pratos de vísceras), os gêneros literários como os romances góticos, os shows de aberrações, as coleções de espécimes raros de culturas “primitivas” em museus de história natural, tudo isso nos parece estranho hoje, mas são frutos de sua época.

As fotos dos mortos aparecem no filme Os Outros, e além de ampliar o clima sombrio e misterioso da história, também auxiliam na revelação final.  Em outro filme excelente, Sociedade dos Poetas Mortos, o professor Keating mostra aos alunos as fotos dos ex-alunos do colégio, àquela altura já falecidos, e lhes diz uma mensagem importante: “Carpe diem” (aproveitem o dia). Esta também é uma forma de memento mori: vivam intensamente, pois um dia todos estaremos mortos.

Os monumentos em homenagem aos mortos em grandes catástrofes coletivas, como memoriais de guerra ou das vítimas do atentado ao World Trade Center, e também os campos de concentração como Auschwitz, transformados em museus, são formas de lembrar os que partiram e também um tipo coletivo de memento mori; hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar.

Memorial de Auschwitz - Birkenau

Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico e material de nossa época, ainda somos os mesmos seres humanos primitivos que devem enfrentar o medo da morte. Vivemos sem pensar nisso, e quando somos surpreendidos pela “indesejada das gentes”, temos dificuldade em aceitar o fato. Ainda assim visitamos os cemitérios, guardamos lembranças das pessoas queridas que partiram, lembramos aniversários de morte. O equivalente do século 21 dos memento mori seriam os perfis de pessoas falecidas mantidos nas redes sociais, que tornam-se locais onde os amigos podem deixar mensagens e demonstrar sua dor e saudade. Ainda precisamos nos lembrar de que morreremos um dia, e estar preparados para aceitar essa parte da vida.

(Texto publicado no Alma Carioca em 07/07/2010)

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