Publicado em Fevereiro - 26 - 2010
Aladdin
Este foi o livro reserva escolhido para o mês de fevereiro no Desafio Literário. Como o livro principal que escolhi (Psicanálise dos contos de fadas) é enorme e meu tempo estava curto este mês, resolvi escrever sobre o livro reserva, mas não abandonei o principal não; assim que terminar de lê-lo faço a resenha aqui no Rato.
Para esta resenha, li o e-book em inglês, disponível para download no Projeto Gutemberg (link no final do artigo).
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Aladdin é um conto tradicional de origem medieval, que faz parte das histórias d’As Mil e uma Noites (ou Arabian Nights, em inglês). O conto foi incluído na coletânea original durante o século 16 pelo tradutor francês, Antoine Galland, que o ouviu de um contador de histórias.
Uma amiga minha, que é egípcia, me contou que tem um dos raros exemplares em árabe de Arabian Nights, pois esses livros foram destruídos pelo Ministério da Cultura do Egito, porque traziam ‘insinuações sexuais’. Ela lembrou também que há muito tempo, quando Bagdá era um centro cultural da região, livros foram atirados ao rio no Iraque por um exército, para que seus cavalos pudessem atravessar. Com isso, muitos exemplares das Mil e uma Noites foram perdidos. Absurdo, não?
A história é bem diferente da que conhecemos pela versão da Disney. Além de violenta e machista, é bem rica em detalhes e reviravoltas.
Aladdin era filho de um falecido alfaiate, que vivia com sua mãe e não pensava em trabalhar. Um dia ele e a mãe recebem a visita de um homem que lhe diz ser seu tio, e pede a Aladdin que o acompanhe. Fora da cidade o homem atira um pó ao fogo e da terra surge uma caverna fechada por uma porta de pedra. O ‘tio’ lhe dá um anel para dar sorte e diz a Aladdin para descer e não tocar em nada além de uma velha lâmpada, que deveria trazer para ele. O rapaz obedece e quando retorna com a lâmpada, recusa-se a entregá-la antes de sair da caverna. O mágico enfurecido fecha a caverna e o abandona lá. Por dois dias Aladdin lamenta sua sorte, e quando chora esfrega o anel no rosto. Então surge o gênio do anel, que o tira dali.
Aladdin retorna à sua casa com a lâmpada e algumas frutas, que na verdade eram pedras preciosas. Sua mãe esfrega a lâmpada para limpá-la, e o gênio da lâmpada aparece. Aladdin pede comida ao gênio, e depois disso vive feliz e despreocupado com sua mãe.
Um dia eles ouvem uma ordem do Sultão para que todos ficassem em casa, pois sua filha passaria pelas ruas no caminho para o banho. Aladdin consegue vê-la e se apaixona, e diz à mãe que terá de casar com ela. Sua mãe leva as ‘frutas’ para o Sultão e pede a mão da princesa para seu filho. O Sultão, cheio de cobiça, concorda em casá-los dali a três meses, mas antes de dois meses a princesa se casa com o filho do Vizir.
Aladdin pede ao gênio da lâmpada que traga a cama com o casal para sua casa, e que leve o noivo para passar a noite lá fora, no frio. A seguir, ele deita-se ao lado da princesa assustada e dorme tranquilamente. De manhã, ele ordena ao gênio que leve o casal de volta. Isso se repete por várias noites, até que o noivo pede o cancelamento do casamento, e Aladdin consegue se casar com a princesa, não sem antes exibir muitos sinais de riqueza ao Sultão, a seu pedido. Tudo, é claro, obra do gênio.
Tudo corre bem, até que o mágico retorna, após ouvir rumores sobre Aladdin e sua boa fortuna. Ele se disfarça em pobre comerciante e bate à porta do palácio de Aladdin pedindo para trocar lâmpadas velhas por novas. A princesa, sem saber do valor daquela lâmpada velha que estava no salão, a entrega ao mágico. Este prontamente a esfrega e pede ao gênio que leve o palácio para a África. Aladdin, desesperado, vai até lá com a ajuda do gênio do anel e envenena o mágico com a ajuda da princesa.
O gênio traz o palácio de volta para a China (!) e tudo continua bem, até que o irmão mais novo do mágico africano chega para vingar a morte do irmão e procura Aladdin, disfarçado como uma curandeira famosa que ele havia matado. A princesa e Aladdin acreditam na história, mas são alertados pelo gênio sobre a verdadeira identidade e intenções da ‘curandeira’. Aladdin então mata o mágico e ele e a princesa vivem felizes para sempre.
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Apesar de Aladdin ser um conto do Oriente Médio, para os contadores de histórias medievais, a China seria o extremo Leste do mundo conhecido, enquanto o Marrocos (na África) seria o extremo oeste. A violência contida no conto original também era comum nas histórias da época, e também nas versões originais de vários contos de fadas europeus (por exemplo, João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e até A Bela Adormecida).
As histórias das Mil e Uma Noites eram transmitidas oralmente, e não eram destinadas a crianças, mas ao público adulto. Não haviam livros escritos, e os contadores de histórias transmitiam histórias folclóricas tradicionais das culturas árabe, persa, indiana, egípcia e da mesopotâmia. Os manuscritos árabes mais antigos são do século 14, mas acredita-se que as histórias datam do século 9. As versões escritas reuniram todas as histórias em uma estrutura comum: o rei persa Shahryar descobre a infidelidade da esposa e decide casar com uma sucessão de virgens, matando cada uma na manhã seguinte ao casamento. Scheherazade se oferece como esposa do rei e à noite começa a lhe contar uma história, mas não a termina. Curioso, o rei poupa sua vida para ouvir o final. Isso se repete por 1001 noites.
Adaptações
A história de Aladdin foi adaptada várias vezes para o teatro e também para a TV, na série criada por Shelley Duvall e exibida pela TV Cultura, “Contos de Fadas”.
Nessa versão, dirigida por Tim Burton, os dois gênios foram interpretados por um só ator (James Earl Jones); outros atores famosos interpretam Aladdin (Robert Carradine), a princesa Sabrina (Valerie Bertinelli) e o mágico africano (Leonard Nimoy). O episódio, assim como as versões anteriores para o teatro, basearam-se no conto original , mas desde 1992 a versão mais conhecida é a do desenho animado dos estúdios Disney.
O desenho da Disney
Aladdin é um longa metragem de animação em 2D dos estúdios Disney, e que foi lançado em 1992. Este foi o filme baseado em historias das Mil e Uma Noites mais bem-sucedido financeiramente. Como é tradição na empresa, a história foi modificada para se adaptar ao padrão Disney e omitiu a parte violenta, eliminou personagens e adicionou outros.
Aqui não há o gênio do anel; o gênio da lâmpada (Robin Williams) só pode conceder três desejos, com “algumas limitações”, e deseja a liberdade. O mágico africano e o vizir são um só personagem, Jafar (Jonathan Freeman), e a princesa Jasmine (Linda Larkin) é uma moça voluntariosa e que deseja ser livre e poder escolher com quem quer casar. Pela lei decretada por seu pai, o Sultão, ela só pode se casar com um príncipe, e nenhum deles a agrada, até que ela conhece Aladdin, que se apresenta como príncipe Ali (claro, obra do Gênio).
Aladdin (Scott Weinger, de Três é Demais) é um ladrãozinho de rua com bom coração que deseja casar com a princesa; a mãe de Aladdin não aparece no desenho, e uma bela canção composta por Alan Menken e Howard Ashman foi eliminada quando os roteiristas decidiram remover a personagem da mãe do roteiro. Felizmente a música (e alguns storyboards com som gravado) estão presentes nos extras do DVD; vale a pena ver. Confira o vídeo com a música “Proud of Your Boy”, gravada para o DVD por Clay Aiken, no final do artigo.
O filme ganhou os Oscars de melhor trilha sonora (Alan Menken) e melhor canção original (A Whole New World, de Alan Menken e Tim Rice).
Robin Williams dá um show à parte como a voz do Gênio; ele improvisou tanto durante as gravações que por fim havia mais de 16 horas de material gravado, e nem tudo era adequado para o público infantil. A sequência inicial, do contador de histórias/vendedor de lâmpadas, foi totalmente improvisada. Williams também canta a música de abertura (Arabian Nights), na qual alguns versos foram alterados depois de reclamações de uma organização árabe norte-americana. Os versos “vão cortar sua orelha pra mostrar pra você como é bárbaro o nosso lar” foram alterados para “é uma imensidão, o calor e a exaustão, como é bárbaro o nosso lar”. Os VHS de 1993 e os DVDs trazem a alteração em inglês. Na dublagem brasileira, só o DVD foi alterado.
Gostei de ler a versão original do conto de fadas e poder compará-lo com a animação da Disney. Mesmo diferentes, cada um tem seus méritos e são duas obras distintas, criadas para públicos diferentes. Para quem lê em inglês, vale a pena conferir o texto do Projeto Gutemberg. E o desenho da Disney é uma obra-prima de som e imagem que merece ser revista vezes sem fim. Recomendo ambos.
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Para saber mais:
- Aladdin and the Magic Lamp - texto para download no Projeto Gutemberg (em inglês)
- Aladdin na Wikipedia (em inglês e português)
- Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa (da série Contos de Fadas) na Wikipedia
- Arabian Nights na Wikipedia
- Aladdin (Disney) no IMDb
Vídeo: Proud of Your Boy, cantada por Clay Aiken










