Quando o roteirista Charlie Kaufman foi convidado a adaptar para o cinema o romance The Orchid Thief, de Susan Orlean, ele se deparou com uma tarefa ingrata: apesar do livro ser interessante não havia história, trama, complicações, nada que servisse de base para um bom filme. Então, o Sr. Kaufman transformou um limão amargo em uma torta de limão deliciosa.
“Charlie Kaufman: O livro não tem história. Não há história.
Marty: Certo. Então invente uma.”
Com sua conhecida criatividade, Charlie mostra o dilema do roteirista para criar o roteiro, e o filme é construído em camadas: flashbacks de Susan no processo de pesquisa para a reportagem da New Yorker que serviu de base ao livro, as agruras de Charlie Kaufman (Nicholas Cage) tentando espremer um roteiro de onde não havia nada, e o resultado visual do próprio roteiro que está sendo escrito.
Cage, gordinho e careca
A jornalista Susan Orlean (Meryl Streep) vai até a Flórida entrevistar John Laroche (Chris Cooper), acusado de roubar espécies raras de orquídeas com a ajuda dos índios seminoles. Durante as entrevistas, ela percebe como aquele homem estranho vivia movido pela paixão em tudo o que fazia, e quer saber como é se importar apaixonadamente por alguma coisa.
John viveu sempre motivado por alguma paixão; desde a criação de peixes tropicais até as orquídeas, cada interesse seu era cultivado até a exaustão, e depois abandonado sem motivo. Como Susan descreve em seu artigo, “a espiral de lógica e altruísmo e violação das regras em vista de um possível ganho financeiro é a especialidade de Laroche. Quando você percebe que ele é um pilantra, ele revela um motivo subjacente e nobre, mas também lucrativo, para sua pilantragem. Ele adora fazer as coisas do jeito difícil, se assim ele conseguir o que quer, e você fica pensando como ele conseguiu se safar. Ele é a pessoa amoral com mais moral que já conheci”.
Enquanto Charlie luta com seu roteiro, seu irmão gêmeo Donald (Nicholas Cage) resolve que vai tentar a carreira de roteirista e começa um curso com o famoso Robert McKee, o que Charlie diz que é inútil, pois os truques ensinados não garantem que ele escreverá um bom roteiro. Mesmo assim Donald começa a escrever um roteiro absurdo, “Os 3″, com todos os clichês do ramo.
Quanto mais Charlie se esforça para produzir um roteiro, somente consegue ficar fascinado por Susan Orlean e frustrado consigo mesmo. Charlie é inseguro e sem nenhuma auto-estima, enquanto Donald é extrovertido, descontraído e se dá bem com as garotas. Ironicamente, o roteiro de Donald é comprado por uma boa quantia enquanto o de Charlie continua empacado.
A partir do momento em que Charlie decide fazer o curso de McKee e pede ajuda a Donald, o filme muda completamente. A história fica mais ágil, e temos cenas de ação, perseguições, mistério, sexo, drogas e jacarés. O contraste entre os dois primeiros terços do filme e o terceiro ato é brilhante: não distinguimos o que é o roteiro original e o que é o roteiro escrito em conjunto entre Donald e Charlie; mas todos os truques baratos estão ali, inclusive um cascudo deus ex machina.
“Valerie Thomas: Quem sabe Susan Orlean e Laroche poderiam se apaixonar, e…
Charlie Kaufman: Certo. Mas o que estou dizendo é, não quero nada de sexo ou armas ou perseguições de carros, sabe… ou personagens aprendendo lições profundas de vida ou amadurecendo ou gostando um do outro ou superando obstáculos e se dando bem no final. Quero dizer… o livro não é assim, e a vida não é assim. Apenas não é. E… tenho certeza disso.”
O filme mistura de forma brilhante realidade e ficção, personagens reais e fictícios; Charlie, Susan, Laroche e McKee são reais, enquanto Donald não existe. Ainda assim, o roteiro é assinado por Charlie e Donald Kaufman, e ambos foram indicados para o Globo de ouro e o Oscar de melhor roteiro (apesar de a Academia ter avisado que, em caso de vitória, ambos dividiriam a mesma estátua). Meryl Streep traz uma atuação impecável como sempre, e Nicholas Cage divide-se entre a cara de cachorrinho pidão de Charlie e o jeito de moleque safado de Donald.
Kaufman brinca com a realidade e cria soluções criativas e incríveis, como fez em Quero ser John Malkovich e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Na minha opinião, ele é um dos melhores roteiristas de Hollywood, e craque em criar roteiros pra lá de originais. Como ele mesmo diz no filme, quando lhe perguntam por que ele não cria algo maluco como em ‘Malkovich’, “este é material alheio, não posso mexer com o trabalho dos outros dessa forma“. E ainda assim o fez, e muito bem. Recomendadíssimo!
Adaptação (Adaptation), 2002
Roteiro: Charlie e Donald Kaufman
Direção: Spike Jonze
Andrea Sachs acabou de sair da faculdade e conseguiu o emprego “pelo qual um milhão de garotas dariam a vida”: assistente da poderosa Miranda Priestly, editora da revista de moda Runway. Andy percebeu rapidamente que seu trabalho não seria fácil; mas ela levou um pouco mais de tempo para perceber o que era importante em sua vida…
Apesar de sonhar em trabalhar como jornalista no The New Yorker, Andrea aceita o emprego porque lhe fora dito que, após um ano como assistente de Miranda, se tudo corresse bem ela estaria apta a uma promoção, podendo até escolher em qual departamento trabalhar. Portanto, seria apenas um ano até conseguir o verdadeiro emprego dos seus sonhos.
Andrea logo percebe que seu trabalho incluía levar o cãozinho das filhas de Miranda ao veterinário, mandar suas roupas sujas para a lavanderia, providenciar para que as saias de Miranda fossem despachadas em seu jato particular para a propriedade de Oscar de la Renta no Caribe, fazer o impossível para descobrir uma cômoda que Miranda havia visto em um antiquário (qual? em que rua? nem pensar em perguntar a ela), embrulhar os presentes de Natal que seriam enviados em nome de Miranda, providenciar um almoço de 95 dólares que seria jogado no lixo porque Miranda já havia almoçado e esquecera de avisar. E, principalmente, estar à disposição dela 24 horas por dia, 7 dias da semana.
“Para a maioria das pessoas, a campainha do telefone era um sinal bem-vindo. Alguém estaria querendo falar com você, dizer um alô, saber como está, ou fazer planos. Para mim, desencadeava medo, ansiedade intensa, e pânico de fazer parar o coração. (…)
do ponto de vista de Miranda, simplesmente não havia razão, qualquer que fosse, para o celular ser desligado. Nunca deixaria de ser atendido. As poucas razões para tal situação que eu coloquei para Emily, quando recebi o celular - um suprimento padrão Runway - com a instrução de atender sempre, foram rapidamente eliminadas.
- E se estiver dormindo? - perguntei, de maneira idiota.
- Acorde e atenda - ela respondeu, lixando uma unha lascada.
- E em um jantar sofisticado?
- Seja como qualquer nova-iorquino e atenda à mesa do jantar.
- Fazendo um exame ginecológico?
- Não estarão examinando seus ouvidos, estarão? Está bem, entendi.
Eu detestava esse maldito celular, mas não podia ignorá-lo. Ele me mantinha atada a Miranda como um cordão umbilical, recusando-se a me deixar crescer, ou me soltar ou me afastar da minha fonte de sufocação. Ela ligava constantemente: e como um experimento pavloviano doentio que escapou do previsto, o meu corpo tinha começado a responder visceralmente à sua campainha. Triimm-triimmm. Aumenta o ritmo cardíaco. Trimmmm. Dedos se apertam e ombros se retesam automaticamente. Tríiiimmmmmm. Oh, por que ela não me deixa em paz, por favor, oh, por favor, esqueça que estou viva - o suor irrompe em minha fronte. “
Apesar de não ser preocupada com moda, depois de três meses tentando criar uma aparência aceitável (do ponto de vista deles) para o trabalho com suas próprias roupas, Andy desiste e começa a aceitar roupas e acessórios que o diretor de moda “emprestava” para as garotas. Quando começa a se vestir com roupas de grife, Andrea não recebe mais (tantos) olhares de reprovação de Miranda. Ela até começa a gostar de seu novo visual.
Uma coisa que acabou sendo irritante no livro é que a cada parágrafo havia pelo menos uma dúzia de nomes de grifes famosas, e os preços das coisas e principalmente o desperdício me davam nos nervos. Além do almoço de 95 dólares (!) mencionado acima, que foi para o lixo com taças de cristal e guardanapos de linho acompanhando, havia os cafés da manhã que eram comprados e jogados fora para serem comprados novamente, até que Miranda chegasse e o encontrasse em sua mesa, na temperatura certa.
Também havia as echarpes brancas Hermès, de duzentos dólares cada, as quais Miranda sempre usava uma, seja qual fosse a roupa que estivesse usando, e que esquecia por toda parte. Quando Hermès parou de fabricar aquele modelo, a revista comprou todo o estoque disponível (cerca de quinhentas), para que Miranda nunca ficasse sem sua echarpe branca. Depois de alguns anos de desperdício, ainda havia umas duzentas echarpes, e ninguém gostaria de estar por perto quando Miranda soubesse que elas haviam acabado.
As exigências de 14 a 16 horas por dia de trabalho desumano acabam afetando a saúde de Andrea e seu relacionamento com o namorado Alex e a amiga Lily; Andrea emagrece, não tem tempo para Alex, deixa de dar atenção a Lily, cujo comportamento vai se tornando auto-destrutivo, até que uma crise faz que ela perceba quais são suas verdadeiras prioridades. Andrea abandona Miranda em Paris (não sem antes dizer-lhe um sonoro palavrão) e volta para casa, para ficar com a amiga Lily no hospital. Depois de um tempo ela vende as roupas caríssimas que ganhou da revista ( o que dá um belo pé-de-meia de 38 mil dólares) e começa a trabalhar como jornalista freelancer, vendendo algumas histórias para a revista Seventeen.
Em seu primeiro romance, O Diabo veste Prada (2003), Lauren Weisberger conta de forma ficcionalizada sua experiência como assistente de Anna Wintour, editora da Vogue. O livro recebeu críticas mordazes após o lançamento; Kate Betts, editora de Harper’s Bazaar que também trabalhou com Wintour, aponta a ingratidão de Weisberger, que não reconhece a oportunidade inestimável de trabalhar com uma grande editora de moda.
“Ela esteve dentro de uma das grandes franquias editoriais em um negócio que exerce enorme influência sobre as mulheres, mas parece não ter compreendido quase nada sobre o isolamento e pressão do cargo de sua chefe, ou qual o preço de uma pessoa como Miranda Priestly se tornar um personagem como Miranda Priestly. Certamente há muitas forças sociais em ação no mundo da moda, como em todas as sub culturas, e as Mirandas do mundo, mesmo que pareçam vítimas de sua própria psiciologia, também são um reflexo de nós mesmos - nossas ideias sobre estilo, nossa fome de glamour, nossa necessidade ancestral de um antagonista consumado em um terninho vermelho elegante.” Fonte: resenha no New York Times
Filme
O romance foi adaptado para o cinema em 2006, com Meryl Streep encarnando a terrível Miranda Priestly e Anne Hathaway como Andrea Sachs. O elenco também tem Emily Blunt como Emily, a assistente sênior de Miranda, e Stanley Tucci como o diretor de moda Nigel. Tucci mais tarde trabalhou com Streep como o marido de Julia Child em Julie e Julia.
O roteiro mudou alguns detalhes do filme, como a cena em que Andrea desiste do emprego, o nome e profissão do namorado Nate (Alex no livro), o desfecho do quase relacionamento entre Andrea e o escritor Christian Thompson (Collinsworth no livro) e a personagem da amiga Lily, bem diferente no livro e no filme. O que também mudou foi o motivo por que Andrea teve de ir a Paris, acompanhando Miranda. Mas todas essas mudanças não prejudicaram a história, e deram mais agilidade ao roteiro.
Mas a maior diferença, embora sutil, é que a Miranda do filme chega a ser quase humana; ela se cansa, sofre com o divórcio, até desabafa com Andrea. No livro, ela é uma rainha de gelo, uma deusa cruel e inatingível, e a autora não deseja despertar a mínima simpatia pelo personagem. Quando ela é interpretada por Meryl Streep, tudo é possível, até transformar Miranda em um ser humano. Na verdade, é exatamente a interpretação de Streep que transforma esta adaptação em um ótimo filme.
A transformação visual de Andrea também é bem marcante no filme; de patinho feio em roupas caipiras, meias grossas e sapatos baixos e fechados, ela se transforma em um modelo de elegância na última moda, com roupas modernas, saias curtas, saltos altos, e sempre em preto e branco (provavelmente também de grife, mas eu não saberia dizer a diferença).
No filme, Andrea chega a compreender e admirar Miranda: “Miranda é vista como o diabo porque é mulher. Se fosse homem, suas ações seriam vistas como ótimas”. Ponto para o machismo.
“Nigel: Me avise quando sua vida pessoal virar fumaça; então você estará pronta para uma promoção.”
Esta foi a resenha de maio para o Desafio Literário 2010. O tema deste mês foi chick-lit, que não é o meu gênero preferido de leitura. Até que dei sorte, pois o livro foi interessante e eu já estava com boa disposição para lê-lo, por ter gostado do filme. Como na maioria das vezes, há diferenças entre o livro e o filme, e neste caso foi um empate técnico. O livro é mais detalhado (especialmente no calvário de Andrea e nas tarefas absurdas que ela tem de cumprir), mas a interpretação de Meryl Streep vale o ingresso. Ou a locação.
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O romance de estreia de Isabel Allende narra a história da fictícia família Trueba, ao longo de quatro gerações e de boa parte do século vinte, culminando no golpe de estado que levou os militares ao poder. Unindo uma narrativa ágil, realismo fantástico e personagens ricos e complexos, a autora criou um romance fascinante.
Apesar de ser um romance de ficção, Isabel Allende reconhece que boa parte da história foi inspirada em sua própria família. O livro foi lançado em 1982 e tornou-se um sucesso imediato, sendo traduzido para mais de 20 idiomas. O país onde acontece a história nunca é identificado, mas é possível saber que a autora está falando de sua pátria, o Chile.
A “casa dos espíritos” é o casarão na esquina que Estéban Trueba constrói na capital para sua esposa Clara. De origem humilde, Estéban trabalhou durante dois anos nas minas para guardar dinheiro e casar-se com Rosa del Valle. Mas a moça morre envenenada por engano e, desiludido, o rapaz decide reerguer a propriedade da família, a fazenda Las Tres Marias.
Estéban é um homem rude e com péssimo caráter. Autoritário e propenso a acessos de cólera, costumava violentar camponesas da sua fazenda e gerou um número enorme de bastardos. Após o casamento isso parou, mas seu mau humor e cólera continuaram até o fim de sua vida. Um de seus netos bastardos, Estéban Garcia, aparece mais adiante na história com o ódio acumulado em gerações contra as injustiças e abusos do patrão.
Muitos anos mais tarde, ele retorna à capital por ocasião da morte da mãe, de quem cuidou a vida toda sua irmã Férula. Estéban decide então pedir Clara, a irmã mais nova de Rosa, em casamento.
Clara é uma alma sensível e possui dons de telepatia, premonição, telecinese e um contato estreito com as almas do “mais-Além”. Ela pede a Férula que vá morar com eles e esta se ocupa do lado prático da vida doméstica, além de idolatrar a cunhada, o que causa ciúmes em seu irmão. Num acesso de fúria e ciúmes, Estéban expulsa a irmã de sua casa, e esta o amaldiçoa.
Estéban e Clara têm três filhos: Blanca e os gêmeos Jaime e Nicolau. Blanca se encanta desde a infância por Pedro Tercero Garcia, filho do capataz de Las Tres Marias. O menino cresce e tem contato com ideias de justiça e direitos dos trabalhadores, o que não agrada ao patrão. O que Estéban também não aprova é o amor de Pedro e Blanca, que se encontram às escondidas.
Quando os amantes são denunciados pelo Conde de Satigny, Estéban descarrega sua ira na filha e na esposa. Clara decide não falar mais com o marido, que casa Blanca com o Conde contra a sua vontade. Pedro consegue fugir e torna-se um cantor popular, que celebra os sonhos de liberdade e justiça do povo oprimido. Blanca mais tarde abandona o marido e volta à casa de Clara, que está cada vez mais ligada às coisas do espírito e menos às coisas da terra. Alguns anos mais tarde, Clara morre tranquilamente, e a única afeição de Estéban agora é sua neta Alba.
O tempo passa e Alba está envolvida com a causa popular, assim como seu tio Jaime e Miguel, irmão da antiga namorada de Nicolau, Amanda. Estéban Trueba é agora Senador do partido Conservador e luta com todas suas forças e influência para evitar que o candidato de esquerda chegue ao poder.
Quando isso finalmente acontece, apesar dos esforços de Trueba, o país sofre grandes mudanças, e os conservadores, com a ajuda de estrangeiros e dos militares, tramam um golpe de estado. O resultado é o caos e milhares de mortes, torturas e perseguições, das quais são vítimas vários personagens da história.
A última parte do livro é a mais intensa, e contrapõe o amor de Estéban Trueba e sua neta Alba e as diferenças ideológicas entre eles. No cenário violento após o golpe, antigos ódios são abrandados e, se não vemos um final feliz, pelo menos há a redenção para quem odiou durante toda a sua vida.
O livro é excelente e, apesar de longo, consegue prender a atenção nas mais de trezentas páginas. Com muitos detalhes e personagens secundários (muito bem construídos, por sinal), os episódios são narrados alternadamente por Estéban (na primeira pessoa) e por Alba (na terceira pessoa). O motivo das duas narrativas é explicado por ela no epílogo.
Uma curiosidade é que as quatro gerações de mulheres Del Valle têm nomes com o mesmo significado: Nívea del Valle é a mãe de Rosa e Clara. Clara del Valle Trueba é a mãe de Blanca, que por sua vez é a mãe de Alba. Como Clara explicou, “os nomes repetidos criavam confusões nos cadernos da vida”. Daí, os nomes diferentes que significam a mesma coisa. Em certo ponto, Clara comenta que Alba poderá recorrer a nomes estrangeiros para continuar o costume, quando tiver uma filha.
Não é surpresa que Clara mencione a futura filha de Alba; neste romance, as mulheres dominam a trama. Nívea, com a plácida aceitação de sua condição de esposa e mãe, protege Clara dos problemas do mundo e incentiva seus dons de clarividência. Clara, apesar de absorta e alheia ao mundo prosaico, mostra uma grande força interior quando se vê diante das dificuldades da vida. Férula no íntimo não aceita os sacrifícios que teve de fazer e mostra toda sua natureza amorosa retribuindo com cuidados e dedicação o amor que recebe de Clara. Blanca sabe o que quer, e sua determinação a mantém no caminho de seu coração, ainda que tenha de enfrentar oposição e dificuldades, e é uma mulher capaz de grandes sacrifícios pelos que ama. Alba cresceu protegida e cedo tomou contato com as injustiças do mundo, através dos olhos do amor e dos amigos. Os sofrimentos por que passou poderiam ter-lhe despertado o ódio, mas ao rever a história de sua família pôde compreender que nenhum acontecimento é inútil, e que os destinos de todos estão entrelaçados.
“Em alguns momentos tenho a impressão de que já vivi isto e que já escrevi estas mesmas palavras, mas compreendo que não sou eu, mas outra mulher, que escreveu nos seus cadernos para que eu viesse a servir-me deles. Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o transito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas.
Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória. E agora procuro o meu ódio e não consigo encontrá-lo.”
Filme
Em 1982 a história foi adaptada para o cinema com direção de Bille August e um elenco de estrelas. O filme tornou-se um sucesso de público, pois concentrou-se na história de amor de Estéban (Jeremy Irons) e Clara (Meryl Streep) e de Blanca (Winona Ryder) e Pedro (Antonio Banderas).
Toda a parte política da história, que no livro tem papel importante para compreender o caráter e as motivações das personagens, aqui é apenas um cenário. Mesmo o terremoto, que muda o curso de várias vidas e tem consequências trágicas, é mencionado apenas de passagem.
Ainda assim, o filme é adorável e, como sempre, Meryl Streep, Jeremy Irons e Glenn Close (Férula) confirmam o grande talento que têm.
Eu havia visto o filme quando foi lançado em vídeo, há mais de 20 anos, e não lembrava de muita coisa. Quando terminei de ler o livro decidi rever o filme, e tive a impressão de serem duas obras diferentes. Para que a longa história coubesse em pouco mais de duas horas de filme, reduziram-se muitos detalhes e episódios vividos por Blanca e Alba foram reunidos em uma personagem só (no caso, Blanca). Para isso, o espaço cronológico da história também foi encurtado em uns 20 anos.
Não é fácil adaptar um livro tão rico em histórias interessantes e detalhes para uma narrativa tão curta, mas o esforço valeu a pena. O filme é bem-feito e interessante, mas ainda assim, recomendo: não deixe de ler o livro, é muito melhor.
* * *
Este livro foi minha escolha para o Desafio Literário no mês de Abril, cujo tema eram os escritores latino-americanos. Adorei ter lido Isabel Allende, e não por coincidência ela tem sido um dos autores mais lidos do desafio este mês. Já descobri, através de ótimas resenhas, mais livros dela que quero ler:
“Eu tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas Ngong. O Equador passa por essas terras, cem milhas ao norte, e a fazenda ficava a uma altitude de seis mil pés. Durante o dia parecia que havíamos subido perto do sol, mas as manhãs e o fim da tarde eram límpidos e agradáveis, e as noites eram frias”.
“Eu tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas Ngong… Ali era a África mais pura, a seis mil pés de altitude, como a essência forte e refinada de um continente… Nas montanhas você acorda de manhã e pensa: estou aqui, onde deveria estar.”
Este belíssimo filme de 1985 é baseado na história real de Karen Blixen, a escritora dinamarquesa que escreveu diversos livros com o pseudônimo de Isak Dinesen, e mostra os anos em que ela viveu no Quênia, África.
Em 1914 Karen Dinesen (Meryl Streep) partiu para o Quênia para casar-se com seu primo, o Barão Bror Von Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer). Eles iriam iniciar uma criação de gado leiteiro, mas antes de sua chegada Bror mudou os planos para uma plantação de café, sem consultá-la.
A princípio o casamento ia bem, mas as sucessivas infidelidades dele (que transmitiram sífilis a ela, fazendo que tivesse de voltar à Dinamarca para o tratamento) e as diferenças de temperamento levaram ao divórcio em 1925. Após a separação ela envolveu-se com o caçador britânico Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que foi o grande amor de sua vida. O casal esteve junto até 1931, ano da morte de Denys em um acidente com seu avião.
Após o fracasso de sua plantação de café e a morte de Denys, Karen voltou para a Dinamarca, onde viveu até sua morte, em 1962. Lá ela escreveu diversos livros, sendo o mais famoso deles Out of Africa (A Fazenda Africana), no qual esse filme foi baseado. Outra história conhecida de Dinesen é Festa de Babette, que também foi transformada em filme na década de 80.
O subúrbio de Nairobi que fica onde antes foi a fazenda de Karen é hoje chamado Karen. Nesse distrito, perto da antiga casa dela, fica o Karen Blixen Coffee House and Museum. Blixen foi muito respeitada por seus pares, como Ernest Hemingway e Truman Capote. Durante uma visita aos EUA em 1959, ela foi visitada por Arthur Miller, E. E. Cunnings e Pearl Buck. Após vários problemas gástricos ela morreu em 1962 em Rungstedlund, Dinamarca, aos 77 anos. Alguns de seus trabalhos foram publicados postumamente, incluindo contos removidos de antigas coleções e ensaios inéditos.
Confesso que o filme nunca me atraiu muito, apesar de adorar o trabalho de Meryl Streep. A princípio achei que era mais uma história de aristocrata entediada que arruma um amante (o péssimo título em português também não ajudou muito), mas resolvi dar uma chance à Meryl e por fim fiquei encantada com a história.
Karen é independente e inteligente, e esforça-se para o casamento dar certo; quando percebe que Bror não deixará seus casos, ela pede que ele se mude da fazenda. Ela administra o negócio sozinha (como, aliás, já vinha fazendo antes da separação) e põe as mãos na massa, inclusive trabalhando na secagem do café.
Ela também se preocupa com seus trabalhadores, pessoas da tribo Kikuyu que foram desalojados de suas terras com a chegada dos britânicos, passando a trabalhar para eles. Karen consegue a aprovação do chefe da tribo para alfabetizar as crianças, e fornece tratamentos médicos e vacinas a eles. Gostei do relacionamento de respeito e amizade entre ela e o criado Farah, que a ajuda como intérprete junto ao chefe da tribo. Quando ela está indo embora para a Dinamarca, pede que ele a chame pelo nome. Farah responde: “Seu nome é Karen, msabu“.
Apesar de não ser o ponto central do livro, o romance entre Karen e Denys é o foco do filme. A certa altura, ela pergunta se ele não se importa por ela ser casada com outro homem. Ele responde que o importante foi que ela tentou ao máximo.
No filme, Karen quer casar-se com Denys, mas ele não abre mão de sua liberdade, e alega que não irá amá-la mais por causa de um papel.
“Karen: Quando você parte… não vai sempre em um safári, não? Você só quer ficar longe.
Denys: Não queria magoá-la.
Karen: Mas magoou.
Denys: Estou com você porque quero estar com você. Não quero viver da forma que outra pessoa acha certo. Não me peça isso. Não quero descobrir um dia que estou no final da vida de outra pessoa.”".
Robert Redford parece que repete sua atuação em Nosso Amor de Ontem (coincidentemente, também dirigido por Sydney Pollack); tive vontade de dizer a ele, “você já perdeu Barbra Streisand, vai acabar ficando também sem a Meryl Streep, seu babaca”. Apesar de ser um ótimo ator ele destoa um pouco do personagem (na verdade, Denys era britânico e Redford desistiu de interpretar com sotaque britânico e passou a interpretá-lo como um americano). Mas não sei quem ficaria melhor no lugar dele; David Warner ou Jeremy Irons, talvez?
Em compensação, Meryl Streep está perfeita como Karen; sua interpretação meticulosa inclui o sotaque dinamarquês (aparentemente convincente), e a atenção aos detalhes, como de costume. Meryl criou o sotaque ouvindo gravações da própria Karen Blixen lendo seus textos. Pena ela não ter recebido o Oscar de melhor atriz nesse ano, que seria merecido.
A fotografia do filme é belíssima, especialmente na cena do passeio de avião, com imagens de tirar o fôlego (veja o vídeo no final do artigo). A trilha sonora de John Barry combina perfeitamente com o clima do filme, e ainda temos diversas músicas de Mozart como a cereja do bolo.
Tudo isso rendeu 11 indicações e 7 prêmios da Academia, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.
“Entre dois amores” me conquistou, e sinto só tê-lo assistido agora. Se você ainda não o viu, recomendo uma passadinha na locadora.
“Eu conheço uma canção sobre a África, sobre a girafa e a lua nova africana deitada de costas, os arados nos campos e os rostos suados dos trabalhadores que colhem o café, mas será que a África conhece uma canção sobre mim? O ar sobre a planície terá uma cor que eu usei, ou as crianças inventarão um jogo com meu nome, ou a lua cheia lançará uma sombra sobre os cascalhos do caminho que se pareça comigo, ou será que as águias das montanhas Ngong procurarão por mim?”
Este romance de Gerald Green conta o vergonhoso episódio da história da humanidade através da história da família fictícia Weiss. O narrador é Rudi Weiss, o único sobrevivente da família, que nos narra sua história em 1952, quando está vivendo com sua nova família em um kibbutz em Israel.
Para dar verossimilhança à história e especialmente, para mostrar o ponto de vista dos nazistas, o autor utiliza os diários de Eric Dorf, um major da SS, cujos relatos intercala com os de Rudi Weiss em ordem cronológica. Através de “testemunhos” de várias pessoas sobreviventes, Rudi nos conta o que aconteceu com as outras pessoas de sua família.
Os Weiss eram uma família de judeus de Berlim. O pai, Josef, era um médico querido e respeitado. Bertha, mãe de Rudi, Karl e Anna, era uma mulher refinada e educada, que não acreditava que a ascensão de Hitler e a perseguição aos judeus pudesse representar um perigo real para eles. Por sua causa, a família permanece em Berlim até quando não é mais possível fugir do destino que os aguarda.
“A música de piano parecia mais alta, enchendo a casa. Por tudo o que ele simbolizava, nos manteve preso a Berlim. Éramos prósperos, seguros, pessoas com piano. Quem nos podia atingir? (Agora, um kibbutznik, um homem que não possui virtualmente nada e entrega seu magro salário à comunidade, percebo quão pouco as pessoas necessitavam para viver, como essas coisas materiais podem ser destrutivas. Não quero dizer que a fome ou a pobreza sejam enobrecedoras; longe disso. Mas ser um escravo das coisas? Definir nossa vida em termos de pianos e casacos de pele? Talvez isso explicasse - em parte, apenas - por que nós nos tínhamos cegado).”
O filho mais velho, Karl, era um artista e casado com a cristã Inga Helms. A família de Inga não aprova seu casamento e não esconde sua hostilidade aos judeus. Rudi era rebelde e determinado, e essas características o ajudarão a sobreviver. A caçula, Anna, era voluntariosa e esperta.
O livro começa em 1935 no casamento de Inga e Karl; Eric Dorf leva sua esposa Marta ao consultório do Dr Weiss, e mais tarde, por insistência da esposa, procura o General Reinhard Heydrich para pedir um trabalho na SS.
Em 1938 Dorf está lentamente progredindo na SS, sob as boas graças de Heydrich; vemos a Kristallnacht, ou noite dos vidros quebrados, que foi a primeira manifestação aberta de ódio aos judeus, com destruição material, violência e mortes. Aos poucos o cerco vai se fechando em torno dos judeus, que são forçados a usar a estrela amarela, não podem mais trabalhar ou ter propriedades, são deportados e começam a ser assassinados.
Através das histórias da família Weiss conhecemos os espancamentos nas prisões, a deportação para a Polônia, os estupros e mortes, o gueto de Varsóvia, os campos de Buchenwald, Theresienstadt, Babi Yar e finalmente, Auschwitz.
Um aspecto interessante do livro é o diário de Eric Dorf; a princípio relutante em participar da SS, ele começa a sugerir uma terminologia especial, cheia de eufemismos, para designar as atividades de extermínio: “recolonização”, “tratamento especial”, “remoção”, “comunidades judaicas autônomas”, “despiolhamento”. Podemos ver a metamorfose de Eric, de um rapaz tímido ao major insensível e frio que participa de operações de extermínio de milhares de pessoas sem demonstrar o mínimo de compaixão.
“Aproximou-se do Coronel Nebe e fez continência.
- Todos mortos, senhor, com exceção das duas crianças. Às vezes, as mães as protegem.
Caminhamos de volta ao carro do estado-maior.
- Não é um bom trabalho - falei.
- Sim, a gente pode ficar chocado mesmo quando se trata de judeus. Alguns dos homens não aguentam.
Olhei para Nebe com desprezo. Ele havia ordenado o massacre de centenas de milhares. Certamente estas eram as maiores lágrimas de crocodilo já derramadas por alguém. Duro e frio, como meus mestres, reprimi qualquer sentimento de piedade. Tornou-se relativamente fácil para mim desfazer a humanidade daqueles de que estamos livrando o mundo. A gente pode realizar milagres com a vontade.
- Não foi isto que eu quis dizer - falei. - Mas sim que é extremamente ineficaz e dispendioso.”
Além da crueldade extrema com que os judeus são tratados, o romance também mostra que a bondade humana encontra ocasião de se manifestar até em condições extremas, como na cena em que Bertha Weiss, consciente do que a esperava, oferece carinho e confiança a uma jovem em estado de choque enquanto elas vão para as câmaras de gás. Ou a devoção de Inga, que entrega-se aos nazistas para ir para Theresienstadt e ficar perto de Karl.
Mesmo que a grande maioria dos judeus preferisse não acreditar na verdade cruel, continuando a crer que estavam sendo enviados para campos de trabalho, uma minoria resistiu e lutou, como os últimos remanescentes do gueto de Varsóvia e os grupos de guerrilheiros errantes pelas estradas e campos, entre os quais estava Rudi.
“Os judeus estavam sendo mortos a tiros às centenas. (…) As vítimas caíam sem ruído, quase em câmara lenta, sobre a terra arenosa.
- Rudi, Rudi, são tantos - chorou Helena - As crianças, os bebês…
Apertei-a em meus braços, perguntando-me para onde iríamos, como poderíamos evitar as patrulhas da SS. As cidades representavam a perdição, a morte. Nossa única esperança era vaguear pelo campo. Seguramente alguns judeus haviam escapado. Parte da população local teria pena de nós.
- Quero morrer com eles - chorava ela.
- Não, não, nada disso - falei. - Você vai ficar comigo. Não vamos morrer parados, nus, humilhados. Mataremos alguns deles quando morrermos.
Ela começou a gritar.
- Chega! Chega!
Puxei-a para junto de mim e apertei uma das mãos sobre sua boca. Ela teria de aprender a não chorar, não gritar, não correr o risco de trair nossa presença. Também teria de aprender a odiar, a desejar vingança, a perceber que não havia nenhuma saída para nós senão correr, esconder e tentar lutar. Eu teria que lhe contar coisas piores, também. Que precisávamos estar preparados para morrer, mas morrer de uma maneira corajosa, oferecendo resistência. Eu estava cansado de ver pessoas placidamente se colocando em fila, dando desculpas a si mesmas, obedecendo a ordens e caminhando para a morte.
O dia todo os fuzilamentos continuaram. Filas de judeus eram conduzidas para o ponto de reunião atrás da ravina. A terra ficou escura com o sangue judeu. Os nazistas compreenderam algo que o mundo levou muito tempo para aprender. Quanto maior o crime, menos as pessoas acreditarão que ele aconteceu. Mas eu o vi ocorrer. Nunca mais seria o mesmo; nem Helena.”".
A partir do final de 1943, os nazistas percebem que a derrota é iminente e inevitável, e ordenam o desmantelamento dos campos de concentração. Temem que a opinião pública os condene por terem “escrito uma página de glória na história alemã”. Os russos tomam o campo de Lublin e aos poucos o segredo nazista vai sendo revelado ao mundo.
“Hoje estou de novo em Auschwitz, tentando executar as ordens de Himmler: desmantelar, destruir, queimar, oblitar as provas. Que farsa! Mas estou tentando fazer o que ele mandou.
E, no entanto, há ocasiões em que me pergunto se esses esforços serão tão fúteis quanto parecem. Durante muitos anos, apesar de rumores e até mesmo de informações diretas, o mundo recusou-se a acreditar que estivéssemos fazendo o que fazíamos. Nós sabíamos enganar. E encontramos pessoas dispostas a crer em nós. Nossa linguagem esopiana funcionava muito bem. Naturalmente. Os judeus. Problemas. Têm de ser recolonizados, vocês compreendem.
Como foi espantosa a maneira como o mundo recuou, aceitou nossa palavra, confiou em nós!”
Quanto maior o crime, mais difícil será acreditar nele; infelizmente tudo aquilo foi verdade, e através da história da família Weiss Gerald Green conseguiu traçar um retrato do que aconteceu a milhões de pessoas naqueles anos negros. Os fatos narrados ultrapassaram o limite do que podemos imaginar para a crueldade humana; talvez por isso ainda hoje existam pessoas que não acreditam que o Holocausto aconteceu. Nem mesmo os fatos e provas conseguem convencê-los da terrível verdade.
Minissérie
Em 1978 foi ao ar na TV americana a minissérie de 7 horas e meia dirigida por Marvin J Chomsky e baseada no livro Holocausto. Recentemente exibida pelo canal TCM e disponível em DVD pela Amazon, a minissérie conta com atores como Meryl Streep (Inga Weiss), James Woods (Karl Weiss), Sam Wanamaker (Moisés Weiss), Rosemary Harris (Bertha Weiss), Joseph Bottoms (Rudi Weiss), Michael Moriarty (Eric Dorf) e David Warner como Reinhard Heydrich. Warner foi Jack, o estripador no filme Um Século em 43 minutos e Lovejoy em Titanic. Uma curiosidade; no filme Hitler’s S.S.: Portrait in Evil, de 1985, ele também interpretou Heydrich.
Reli o livro enquanto assistia à minissérie e pude comparar as cenas e diálogos (idênticos); as condições e fatos contados no livro são bem piores que o que aparece na tela. Aparentemente o horror das imagens vai apenas até o ponto que o telespectador suporta ver em horário nobre (ao menos em 1978); a realidade era muito pior.
Quando a minissérie foi exibida na TV alemã, a polícia recebeu inúmeros telefonemas durante a cena da “Kristallnacht”, de confissões de pessoas que participaram dos acontecimentos reais quebrando vitrines de estabelecimentos judeus e sinagogas. Como o Estatuto da Libertação estava em vigor, apesar das confissões nenhuma ação pôde ser tomada quanto àquelas pessoas.
Filmes como Holocausto, A Lista de Schindler, QB VII, O Julgamento de Nuremberg e tantos outros podem não ser agradáveis, mas cumprem a missão de lembrar o mundo desses horrores, para que isso não aconteça mais. Mesmo que não tenhamos tido um único dia sem guerra no mundo no último século, hoje não é possível exterminar seis milhões de vidas sem que o mundo saiba, e permanecer impune. Felizmente.
A minissérie está disponível no YouTube, em 59 partes (em inglês, sem legendas). Na lista de reprodução há os links para todos os vídeos. A seguir, o vídeo da primeira parte:
Dúvida é um filme fascinante. Baseado na peça de mesmo nome, de John Patrick Stanley, seu ponto forte é a interpretação dos atores e os diálogos, cortantes e diretos.
Padre Flynn: “A dúvida pode ser um elo tão poderoso e forte como a certeza. Quando você está perdido, não está sozinho”.
A história se passa em St Nicholas, uma escola católica em Nova Iorque, no ano de 1964. A Irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), diretora da escola, suspeita que o Padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) tem tido uma conduta imprópria com um dos alunos. Donald Miller, de 12 anos, é o primeiro aluno negro do colégio. O recém-chegado é tímido, e ajuda no altar durante a missa. O padre Flynn, sempre bem-humorado e popular entre os alunos e alunas, parece proteger o rapaz para que ele não sofra nenhuma perseguição.
Suspeitando que há algo errado entre padre e aluno, a Irmã Aloysius pede à jovem professora Irmã James (Amy Adams) que fique atenta para qualquer comportamento suspeito. Ela conta à diretora que o Padre pediu que o garoto fosse à reitoria durante à aula, e que ao voltar, estava agindo de forma estranha e que sentiu hálito de bebida no menino.
A diretora então confronta Padre Flynn e o acusa de pedofilia. Não há provas, não há testemunhas, mas ela tem certeza de que a acusação é verdadeira. A partir de então o espectador acompanha os diálogos, justificativas e explicações dos diversos personagens, e cabe a nós decidirmos se o padre é culpado ou inocente.
Além de decidirmos sobre a verdade da acusação, o filme nos faz pensar sobre dúvidas e certezas; devemos ou não confiar em nossas suspeitas, na ausência de provas? até que ponto uma acusação infundada pode destruir a vida de uma pessoa? quais são os prejuízos que uma fofoca ou calúnia pode causar? podemos realmente confiar na declaração de inocência de uma pessoa? é lícito mentir para chegar à verdade?
Outro ponto de vista que abala nossas convicções é o da Sra Miller (Viola Davis), mãe de Donald. Ao saber da acusação sobre o comportamento do padre, ela reage de forma inesperada, ao menos para os padrões atuais e de “classe média”. Em um diálogo franco e chocante com a Irmã Aloysius, ela conta que está mais preocupada que Donald complete os estudos no colégio para que consiga vaga em uma boa escola de ensino médio e, quem sabe, possa chegar à universidade. Conta que o pai do garoto bate nele, e sugere que seja por causa da “natureza do menino”, não por causa do vinho.
“- Não se pode responsabilizar uma criança pelo que Deus lhe fez ser. Meu filho veio para sua escola porque o teriam matado na escola pública. O pai não gosta dele; ele vem para sua escola, os garotos não gostam dele. Um homem é bom para ele, esse padre. Então o homem tem suas razões, sim. Todos têm suas razões. Mas eu pergunto a esse homem por que ele é bom para meu filho? Não. Não me importa. Meu filho precisa de um homem que cuide dele e o ajude a chegar aonde ele quer ir. E graças a Deus que esse homem educado com um pouco de bondade quer fazer isso.
- Não vai dar certo.
- É só até junho.
(…)
- Irmã, não sei se a senhora e eu estamos do mesmo lado. Ficarei do lado do meu filho e daqueles que são bons para ele. Seria bom encontrar a senhora lá.”
Além das excelentes interpretações, o filme mostra o contraste entre os mundos masculino e feminino e a estrutura de poder e autoridade com base no gênero. Por exemplo, o jantar das irmãs é austero, silencioso, frugal. O jantar dos padres e o monsenhor é alegre, ruidoso, com vinho, conversas e piadas. Como a Igreja é uma instituição patriarcal, isso não causa espanto. Das mulheres é esperado, além da devoção e disciplina, o sacrifício.
Talvez por isso a luta da irmã Aloysius seja tão feroz; além de se opor a um padre e professor, ela está enfrentando todo o sistema patriarcal, e não pode vacilar. Ela não se permite ter dúvida, e no entanto todos os personagens têm seu lado humano, suas fraquezas; não há preto ou branco aqui, mas a complexidade de tons da verdadeira vida.
A Irmã Aloysius quer manter o colégio como antigamente: nada de rádios transistores, canetas esferográficas, músicas seculares no coral de Natal. O Padre Flynn, por outro lado, usa as tais canetas, conversa amigavelmente com os alunos e alunas, acha que o coral de Natal precisa ser modernizado para “chegar aos fiéis”, e que as crianças e seus pais devem ver os padres e freiras com parte de sua família. São duas visões e opiniões diferentes, e o confronto entre ambos não envolve apenas a acusação de pedofilia, mas também a administração da escola e a estrutura de autoridade e poder.
“Irmã Aloysius: - Esta manhã, antes de falar com a Sra Miller, tomei a precaução de ligar para sua última paróquia.
Padre Flynn: - E o que ele disse?
- Quem? -
- O pastor.
- Não falei com o pastor. Falei com uma freira.
- Você deveria ter falado com o pastor.
- Falei com uma freira.
- Você sabe que esse não é o procedimento correto a ser tomado, Irmã. A igreja é muito clara. Você deveria ter falado com o pastor.
- Por quê? Vocês tem um acordo, você e ele?”
A Irmã James quer acreditar na inocência do padre, enquanto a Irmã Aloysius tem certeza do contrário. A Sra Miller tem seus motivos para não querer um confronto, e o Padre Flynn afirma sua inocência. Cabe ao espectador decidir onde está a verdade. Como na peça de teatro, o final fica aberto para que nós decidamos se a acusação é verdadeira ou falsa. E como no teatro, o autor John Patrick Stanley contou apenas ao ator que interpreta o Padre Flynn se ele é inocente ou culpado. Nenhum dos outros atores ficou sabendo.
A peça ganhou o Prêmio Pullitzer de Drama de 2005, e o filme teve 5 indicações ao Oscar de 2009 (Melhor Ator Coadjuvante – Philip Seymour Hoffman, Melhor Atriz – Meryl Streep, Melhor Atriz Coadjuvante – Amy Adams e Viola Davis e melhor Roteiro Adaptado), sem receber nenhum dos prêmios.
Gostei muito do filme, e o recomendo. É muito bom poder ver um filme com bons diálogos e boas interpretações, e que ainda por cima nos faz pensar um pouco. Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman estão impecáveis como sempre, e o ótimo roteiro nos garante uma hora e meia de bom entretenimento.