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O Morro dos Ventos Uivantes

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Apesar de ser um dos meus livros preferidos, demorei a escrever sobre ele. É difícil explicar o que torna um livro tão importante para nós. Li-o pela primeira vez na adolescência, e ele me conquistou de vez. Desde então já o reli inúmeras vezes (xingando algumas traduções que insistiam em traduzir nomes próprios - como suportar Catarina, Helena e A Granja Thrushcross?), e vi algumas adaptações para a tela. Foi por causa de uma delas que decidi escrever sobre esta história.

(Retrato de Emily pintado por seu irmão Branwell)

Esse clássico da literatura inglesa e mundial foi o único romance de Emily Brontë. A quinta de seis filhos de um pastor do Yorkshire, sua família passou por diversas tragédias, como a morte precoce da mãe e das duas irmãs mais velhas por tuberculose, e o fracasso da carreira e o alcoolismo do único irmão, Branwell. Toda a família amava os livros, e as três irmãs nos deixaram alguns dos melhores romances de língua inglesa: Anne Brontë escreveu Agnes Grey e Charlotte é a autora de Jane Eyre, Shirley e Villette.

(Retrato das irmãs Brontë, pintado por seu irmão, Branwell. Da esquerda para a direita: Anne, Emily e Charlotte)

As irmãs tiveram de publicar seus romances sob pseudônimos, pois na época não era de bom tom que uma mulher fosse escritora, ou qualquer outra profissão além de governanta ou professora, enquanto aguardava um bom casamento. Charlotte assinava como Currer Bell, Emily como Ellis Bell e Anne, como Acton Bell. Mais tarde elas revelaram a verdadeira identidade das autoras; ainda assim, o preconceito continuou imperando, além da pressão para que se casassem. Apenas alguns meses separam as mortes de Anne e Emily, pela tuberculose; Emily tinha 30 anos e Anne tinha 29. Charlotte foi a última sobrevivente da família; pouco menos de um ano após casar-se, ela morreu por complicações da gravidez aos 38 anos.

O Morro dos Ventos Uivantes, publicado em 1847, é a história de uma paixão violenta e possessiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff. Este foi trazido para casa (Wuthering Heights, a propriedade que dá o nome ao livro) pelo pai de Cathy e Hindley durante uma viagem a Liverpool. Taciturno e reservado, o menino é alvo do ciúme e crueldade de Hindley e do afeto irrestrito de Cathy. Após a morte do Sr. Earnshaw, a crueldade e ódio de Hindley aumentam cada vez mais, assim como o desejo de vingança de Heathcliff.

O amor entre ele e Cathy encontra alguns obstáculos; voluntariosa e caprichosa, Cathy fica dividida entre o selvagem e indomado Heathcliff e o cavalheiro e gentil Edgar Linton. Ferido, Heathcliff foge e Cathy decide casar-se com Edgar. Após alguns anos, o antigo amor de Cathy retorna, com a aparência de um cavalheiro e disposto a vingar-se de todos.

“Nelly, deve imaginar que sou uma egoísta; mas nunca lhe ocorreu que se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos mendigos? Enquanto que, se eu me casar com Linton poderei ajudar Heathcliff a erguer a cabeça, e retirá-lo de sob o poder de meu irmão.

-Com o dinheiro de seu marido, Srta Catherine? - perguntei - perceberá que ele não é tão maleável como imagina; e apesar de eu ser um péssimo juiz, creio que este é o pior motivo que já apresentou para tornar-se a esposa do jovem Linton.

- Não é, - retrucou ela, - é o melhor! Os outros eram para a satisfação dos meus caprichos; e também os de Edgar, para satisfazê-lo. Este é para o bem de alguém que compreende em si mesmo meus sentimentos por Edgar e por mim mesma. Não consigo exprimi-lo; mas certamente você e todos imaginam que há ou deve haver uma existência além desta. Qual o motivo de eu existir, se me limitasse a isto? Minhas grandes tristezas neste mundo têm sido as tristezas de Heathcliff, e eu as acompanhei e as senti desde o início; meu maior pensamento na vida é ele. Se tudo o mais perecesse, e ELE permanecesse, eu ainda continuaria a existir; e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim estranho e poderoso: eu não mais faria parte dele. - Meu amor por Linton é como a folhagem nas árvores: o tempo o mudará, estou certa, como as árvores se transformam com o inverno. Meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas que nos sustentam: talvez não sejam agradáveis, mas são necessárias. Nelly, EU SOU Heathcliff! Ele está sempre, sempre em minha mente: não como um prazer, do mesmo modo que nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser. Não fale mais sobre separação: isso é impraticável; e -’

Ela parou, e ocultou seu rosto nas dobras do meu vestido; mas eu o retirei à força. Havia perdido a paciência com suas tolices!”

Atormentada pela presença de Heathcliff, que decide conquistar Isabella Linton, irmã de Edgar, como parte de sua vingança, Cathy definha e morre ao dar à luz  Catherine Linton. Heathcliff chora a morte de Cathy como um animal ferido, e persiste em seus planos de vingança até na geração seguinte.

Mas Heathcliff não encontra a paz, mesmo após realizar sua vingança. Assombrado pelo fantasma de Cathy, ele só encontrará o seu paraíso quando ambos estiverem novamente juntos.

“Sim, ela está morta! Respondi, controlando meus soluços e secando os olhos. ‘Foi para o céu, e espero que um dia possamos todos ir para junto dela se tomarmos cuidado e deixarmos de lado o caminho do mal para fazer o bem!’ (…)

- E… ela mencionou meu nome? - ele indagou, hesitante, como se temesse que a resposta à sua pergunta trouxesse detalhes que ele não suportaria ouvir.

-Ela nunca recobrou a consciência: não reconheceu ninguém desde o momento em que a deixou, - disse eu - Ela jaz com um doce sorriso nos lábios, e seus últimos pensamentos a levaram de volta aos dias felizes. Sua vida encerrou-se como um sonho suave - que ela possa despertar tão suavemente no outro mundo!

-Que ela desperte em tormento! - gritou ele, com veemência assustadora, batendo o pé e gritando em um paroxismo repentino de paixão desgovernada. - Ela é uma mentirosa até o fim! Onde está ela? Não Là - não no céu - nem morta - onde? Oh, você diz que não se importa com meu sofrimento! Pois faço uma única prece - e vou repeti-la até que minha língua endureça - Catherine Earnshaw, que você não descanse enquanto eu viver; você diz que eu a matei - assombre-me, então! A vítima costuma assombrar seu assassino, creio eu. Sei que os fantasmas costumam vagar pela terra. Fique comigo sempre - sob qualquer forma - enlouqueça-me! Mas NÃO me deixe neste abismo, onde não posso encontrá-la! Oh, Deus, é indizível! NÃO POSSO viver sem minha vida! NÃO POSSO viver sem minha alma!”.

Recentemente o romance recebeu novas atenções por ter sido mencionado nos romances da série Crepúsculo; a nova edição americana tem capa parecida com os romances da série, e traz na orelha do livro a frase “o livro favorito de Edward e Bella”. Pode ser uma jogada de marketing, mas se despertar o interesse de novos leitores, tanto melhor.

Na Tela

Esta história teve muitas adaptações para o cinema, mas vi apenas 3: a clássica versão de 1939, com Sir Laurence Olivier e Merle Oberon, que me deixou irritada no final, pois conta apenas a primeira metade do livro, omitindo a segunda geração. Apesar da interpretação de Olivier ser esplêndida, o filme me pareceu muito datado (de 1939, não da época em que se passa a história, a metade do século 18). Merle Oberon não convence como Cathy. Olivier queria que o papel ficasse com sua namorada, Vivien Leigh, mas os produtores não aceitaram, pois queriam Oberon como Cathy. Leigh e Olivier decidiram que o melhor para suas carreiras era ceder, e Vivien Leigh concentrou seus esforços em conseguir o papel de Scarlett O’Hara em E O Vento Levou. Perdemos uma ótima Cathy, mas ganhamos dois clássicos do cinema.

A segunda versão e minha preferida até então foi a de 1992, dirigida por Peter Kosminski e com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Faço parte do seleto grupo de gatos pingados que adorou esta versão, e gostei do clima sombrio e desolado das charnecas e da interpretação dos atores principais; esta foi a versão mais fiel aos detalhes do livro, e a trilha sonora de Ryuichi Sakamoto combina muito bem com o ambiente e a história.

A terceira versão que vi, graças à indicação da Naomi (sênquis, flor!) foi a minissérie de 2009 de PBS/ITD para a TV. Tom Hardy e Charlotte Riley são Heathcliff e Cathy, com as melhores interpretações que vi até agora. O Heathcliff de Hardy é contido mas intenso, exatamente como imaginei no livro. Selvagem e rude, ele tem uma verdadeira obsessão por Catherine e mesmo sob a aparência civilizada, podemos perceber sua natureza bruta e vingativa.

Outro detalhe interessante desta versão é que sugere como Heathcliff poderia ter sido uma pessoa diferente se não fosse pela crueldade de Hindley (Burn Gorman). Nas cenas em que Heathcliff e Cathy passeiam pelos campos, sem a presença de Hindley e sob a proteção do Sr Earnshaw, podemos imaginar um futuro feliz para o casal, sem obsessão por vingança ou o desespero pela ausência. Mas então, não haveria história.

Apesar de deixar de lado alguns detalhes, como o senhorio Sr. Lockwood, que narra a história no livro (ele está presente na versão de 1992), e da interpretação um pouco liberal de alguns detalhes, como o suicídio de Heathcliff, inexistente no papel, esta minissérie divide agora o posto de minha versão favorita de Wuthering Heights.

Um ponto em que todas as versões diferem do livro é que boa parte da história da primeira geração se passa na infância e início da adolescência dos personagens, enquanto que nas versões do cinema eles ‘crescem’ muito rápido e essas cenas (como quando Cathy é hóspede dos Lintons) são interpretadas pelos atores adultos.

Ainda há algumas versões recomendadas que (ainda) não vi, como a de 1998 para a TV britânica (com Robert Cavanah e Orla Brady), considerada pela Naomi como a melhor adaptação da obra; e em 2010 teremos mais uma versão, com Gemma Arterton e Ed Westwick. Pelo visto não há uma versão “definitiva” para o romance de Emily Brontë; a melhor versão ainda é a que criamos em nossa imaginação, ao ler o livro. E essa será perfeita, do jeito que quisermos.

*     *     *

Para saber mais:


Veja também:

  • Músicas traduzidas - Wuthering Heights, de Kate Bush (em breve)
  • Bolsas Cathy no Terracota Blog: aqui, aqui, aqui e aqui.
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