Publicado em Março - 23 - 2011

Ensina-me a viver (Harold and Maude)



Harold (Bud Cort) é um jovem que adora simular suicídios para atormentar a mãe; Maude (Ruth Gordon) é uma mulher de 79 anos que, como Harold, frequenta enterros, mas é cheia de vida e ignora as regras e convenções da sociedade. Quando estas duas pessoas tão diferentes se conhecem, é o início de um relacionamento que mudará a vida de Harold, que vai literalmente aprender a viver.

Com os suicídios simulados, Harold tenta chamar a atenção da mãe, uma rica viúva cujas preocupações são os eventos sociais e “encaminhar” o filho na vida, seja para a carreira militar (como o tio) ou no casamento com uma das candidatas que lhe apresenta. A única vez que a mãe teve alguma reação foi quando pensou que ele havia morrido na explosão do laboratório de química da escola, e por isso Harold tenta despertar essa reação novamente, como uma criança que quer chamar atenção - qualquer tipo de atenção.

A condessa Mathilda (no livro, ou Marjorie, no filme) Chardin, ou simplesmente Maude, já teve sua cota de perdas e sofrimento. Em vez de lamentar o passado, Maude vive intensamente a cada dia e aprecia a natureza, as pessoas, as mudanças e transformações. Como dizia um sábio persa que ela cita, “isto também passará”; não adianta se apegar a situações, coisas ou momentos: tudo é transitório.

Com essa filosofia e alegria de viver, Maude mostra ao entediado Harold que a vida é um bem precioso, que cada pessoa é única e tem suas qualidades e defeitos, que as distinguem das demais. E mesmo assim, temos que crescer juntos. Construir pontes, e não muros.

“Então decidi”, ele afirmou solenemente, “que gostava de estar morto”.

Maude ficou quieta por um instante. Então falou calmamente.

“Sim, compreendo. Muitas pessoas gostam de estar mortas. Mas elas não estão mortas na verdade. Estão apenas fugindo da vida. Eles são jogadores, mas pensam que a vida é um treino e ficam se poupando para mais tarde. Então sentam no banco e o único campeonato que verão passa diante de seus olhos. O tempo está acabando, e eles podem entrar a qualquer momento”.

Maude pulou, gritando palavras de incentivo. “Vamos, rapazes! Vamos lá, arrisquem-se! Até se machuquem, quem sabe? Mas joguem o melhor que puderem”. Como se liderasse uma torcida no estádio lotado, ela gritou, “Vai time! Me dê um V. Me dê um I. Me dê um D. Me dê um A. V-I-D-A. VIDA!”

Ela sentou-se ao lado de Harold, muito elegante e séria. “Senão,” informou, “você não terá nada para comentar no vestiário”.

Maude me lembrou Rose, depois do Titanic. Ambas perderam tudo e tiveram de começar do zero (coincidentemente, na América). E as duas decidiram viver a vida plenamente, viver o máximo de experiências que pudessem, desfrutar o aqui e o agora. Outro ponto em comum é quando Maude joga ao mar o presente que recebeu de Harold, pois “agora eu sempre saberei onde ele está”. Parece familiar?

“Maude”, ele disse, “você está chorando”.

Maude segurou o passaporte. “Estava lembrando o quanto isto significava para mim”, disse lentamente. “Foi depois da guerra; eu não tinha nada - a não ser minha vida. Como eu era diferente naquela época; e ainda assim, como eu era a mesma pessoa.”

Harold estava perplexo. “Mas… você nunca chorou antes. Nunca pensei que você chorasse. Pensei que estivesse sempre alegre”.

“Oh, Harold”. Ela suspirou, puxando o cabelo. “Você é tão jovem. O que eles lhe ensinaram?” Ela enxugou as lágrimas que caíam pelo rosto. “Sim, eu choro. Choro por você. Choro por isto. Choro pela beleza, seja um pôr-do-sol ou uma gaivota. Choro quando um homem tortura seu irmão… quando ele se arrepende e implora pelo perdão… quando esse perdão é recusado… e quando é concedido. Alguém ri. Alguém chora. Duas características exclusivamente humanas. E a principal coisa na vida, meu querido Harold, é não ter medo de ser humano”.

Harold piscou para afastar as lágrimas nos olhos. Ele tinha um nó na garganta; então engoliu em seco. Afastando-se, tomou a mão dela nas suas. Então, tocando gentilmente sua face, enxugou as lágrimas dela.”

Esta comédia de humor negro de 1971 foi dirigida por Hal Ashby (Shampoo, Amargo regresso, Muito além do jardim) e escrita por Colin Higgins, que após o lançamento do filme transformou o roteiro em romance (disponível no Scribd, e uma leitura bem gostosa). Higgins dirigiu Golpe Sujo e Como eliminar seu chefe, e escreveu o roteiro destes dois filmes, além de Ensina-me a viver, A melhor casa suspeita do Texas e a minissérie Minhas Vidas, em parceria com Shirley MacLaine. A trilha sonora do filme tem músicas de Cat Stevens.

Mesmo que em geral a tradução dos títulos de filmes seja lamentável, desta vez acertaram: Ensina-me a viver é um bom título e dá a dimensão do que seja esta história. Comovente e divertida, nos faz pensar no que significa viver, e em como nossos problemas são insignificantes comparados ao grande cenário. Harold percebe isso quando nota a tatuagem no antebraço de Maude; quem tem aqueles números não despreza o privilégio de estar vivo.


Ensina-me a viver também foi levada aos palcos brasileiros por Glória Menezes e Arlindo Lopes, e deve ter sido uma experiência e tanto. Confira se a peça ainda está em cartaz em SP (previsto até 27/03/11 no Teatro das Artes) e não perca!

(tradução de trechos do livro - Cristine Martin)

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Trailer - Harold and Maude

Publicado em Janeiro - 18 - 2011

Nossas Vidas

O que têm em comum dois monges da época medieval, um casal de camponeses apaixonados na Irlanda do século 11, um viúvo triste em Portugal no ano 1500, que acaba de perder a esposa querida de tantos anos, uma mãe solteira que parte em busca de uma nova vida no Oeste americano, uma indiana que morre no parto no início do século 20?

Estas e outras histórias são contadas em Nossas vidas, romance de Sinara Foss que traz o tema da reencarnação e de almas gêmeas que se encontram ao longo de várias épocas.  Os contos curtos, interessantes e aparentemente desconexos, se encontrarão na história final, que se passa nos dias atuais.

“- Prazer em te conhecer, Silvie! - Ele estende a mão que ela olha ainda com medo. Por fim ela decide estender a sua também.

- Prazer em te conhecer também, Mark. - Ela sorri pela primeira vez.

Não tem mais medo dele. Sente-se bem ao seu lado e tem a sensação de que o conhece há muito tempo. Vê que todos os seus temores iniciais são infundados e que pode confiar nele. Seus olhos demonstram que ele é justo e bom e que é incapaz de fazer mal a ela e a menina.”

O casamento de Saionara está em crise, e em meio aos problemas que enfrenta ela sente-se fascinada por um homem que não conhece. Enquanto procura resolver sua vida, ela acaba descobrindo que viveu outras vidas e que o dono daqueles olhos verdes pode ter sido sua alma gêmea, com quem dividiu várias existências.

“Naquele dia, pela primeira vez o rapaz a olha quando passa por elas. Ele a olha bem nos olhos e ela percebe que seus olhos são verdes, muito verdes. Por um momento leva um choque, os olhos dele são os olhos com os quais ela sonha há anos. Quantas vezes acordara

no meio da noite com a certeza de ter olhado naqueles olhos? Quantas vezes acordara pela manha com a certeza de que aqueles olhos pertenciam a alguém muito importante na sua vida? Mas como ela é espírita, sempre pensara que os olhos eram de alguém importante do seu passado. No momento que seus olhares se encontram um frio lhe percorre a espinha e sua boca fica seca. Meu Deus? Por que isso? Quem é esse homem e por que eu me sinto assim? Por que eu sonho com os olhos dele há tanto tempo? Que papel ele tem na minha vida?”

A autora, sempre preocupada com os animais e o meio ambiente, desta vez apresenta uma história intimista e pessoal, com toques de romantismo e esperança. Ainda que a morte separe duas almas que se amam e se entendem, resta a esperança de novos encontros em vidas futuras.

E o que diz a doutrina Espírita sobre a afinidade dos espíritos?

P- A afeição que dois seres mantiveram na Terra prossegue sempre, no mundo dos espíritos?

R- Sim, sem dúvida, se ela se baseia numa verdadeira simpatia; mas se as causas de ordem física tiveram maior influência que a simpatia, ele cessa com as causas. As afeições entre os Espíritos são mais sólidas e mais duráveis que na Terra, porque não estão subordinadas ao capricho dos interesses materiais e ao amor-próprio.”

(Livro dos Espíritos, pág. 172, 39ª edição - 1979)

No mundo espiritual, os semelhantes se atraem; pessoas com afinidades e com a mesma vibração costumam prosseguir juntas seu caminho através de várias vidas. Da mesma forma, pessoas com vibrações negativas atraem outros espíritos sofredores, o que só agrava sua situação.

Neste livro conhecemos duas pessoas que se encontraram diversas vezes, e que mesmo sem se reconhecerem sentiram-se atraídas e viveram juntas em diversas vidas. Esse tema também foi abordado por Shirley MacLaine em diversos romances,  em que ela conta como reconheceu pessoas em sua vida atual que haviam convivido com ela antes, e dos problemas, alegrias e dores que haviam partilhado em outras existências.

Não por acaso deixamos de recordar as nossas vidas anteriores; devemos prosseguir sem lembranças do bem ou mal que recebemos e fizemos, para que isso não influencie nossas decisões em uma nova etapa da existência. Esse reconhecimento só é permitido se for benéfico para a compreensão de um problema ou se ajudar a superar um trauma ou fixação.

Neste romance, Sinara explora essa possibilidade de forma clara e interessante; as histórias iniciais são pequenos contos independentes, e o conto final explica e reúne todos os anteriores.  Uma história interessante e gostosa de ler, e que fala de amor e esperança.

O livro está em catálogo e pode ser comprado diretamente no site da autora, por e-mail ou pela livraria Cultura. Sinara Foss também é a autora de Divagações de Sissi, Memórias de um cachorro velho, Mulheres e Sissi no Futuro, que será lançado em abril de 2011.

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Ficha:

Nossas Vidas - encontro de duas almas gêmeas ao longo da história (2008)

Sinara Foss

1ª edição - Editora Biblioteca 24×7

Mais Sinara Foss no Rato:

Publicado em Dezembro - 13 - 2010

Memórias de um cachorro velho

Este foi o primeiro romance de Sinara Foss, escritora gaúcha preocupada com os direitos e a proteção dos animais. O livro é narrado pelo cachorro Xôlo, que conta sua história desde o nascimento em uma fazenda, as muitas dificuldades por que passou até a velhice tranquila depois de adotado por uma família que amava os animais.

O livro é bem escrito e interessante, apesar de algumas lágrimas serem inevitáveis. Através da narrativa do cão somos apresentados à maldade humana, que prefere sacrificar um cão ferido a procurar socorro, que abandona um animal à própria sorte apenas por ter sarna, que joga filhotes como se fosse uma bola. Enfim, coisas que infelizmente vemos por aí e que nos deixam perplexos com a capacidade do homem em fazer mal ao seu semelhante, seja humano ou animal, e com a insensibilidade diante do sofrimento alheio.

Mas esta não é apenas uma história triste. Depois de muito sofrimento, Xôlo encontra uma família que o acolhe, trata dele e o recebe como mais um filho canino. A história é verdadeira, e este cão por fim teve a sorte que muitos não tiveram.

“Decidi contar a minha vida não porque achei que daria um livro interessante. Existe uma razão muito maior do que essa por trás disso. Uma razão muito digna. Eu quero que vocês que leram a minha vida se conscientizem que um animal também tem sentimentos, que um animal também tem direito à vida, que um animal consegue ou não ser feliz da mesma forma que as pessoas. Eu queria que as pessoas mudassem o modo como tratam os animais…

(…)

Pensem antes de agredir um animal, pensem antes de deixá-lo passar frio, pensem antes de queimar, machucar, bater, escorraçar um animal. Pelo menos uma vez, coloquem-se no lugar dele!”

Sinara tem um estilo próprio de contar histórias; através dela os animais ganham voz, narram suas alegrias e tristezas, em linguagem acessível e objetiva. Em Divagações de Sissi, a cachorrinha conta sua história e a dos outros animais da família, e levanta temas como o vegetarianismo, o direito dos animais, o preconceito e o meio ambiente. Aqui Xôlo coloca o dedo (ou a pata) na ferida da crueldade humana, no abandono e desprezo sofrido pelos animais, e mostra como é possível salvar uma vida e ganhar um amigo.

“Aprendi a amar as meninas e a mãe delas. Elas me curaram. Me deram novamente a vida, me deram carinho… e eu então nem precise de convite e passei a viver ali.

Não era preciso falar nada; eu pertencia àquela casa.

As pessoas que me conheceram quando eu estava doente não conseguiam acreditar em seus próprios olhos ao me verem depois. Paravam na rua e sem parar de me olhar perguntavam para as minhas donas:

-Escuta… esse não é aquele cachorro seco e sarnento que andava aí pelas ruas, é?

- É, é aquele mesmo. Nada como carinho, atenção e cuidados para recuperar um doente…

-Bah! E eu pensava que ele nem tinha mais cura! É difícil de acreditar que seja aquele coitado daquele cachorro mendigo!

Isso acontecia sempre, sempre. As pessoas não acreditavam na minha recuperação. Eu mesmo custava a acreditar. A felicidade havia me remoçado, a felicidade havia me dado novamente forças e vontade pra viver.”

Lançado em 1996, o livro teve sua primeira edição esgotada e em breve será lançada a segunda edição. Além de “Memórias”, a autora escreveu “Mulheres” (2008), livro de contos cujos temas são a vida e reflexões de mulheres de diversas idades e situações; “Nossas vidas - encontro de duas almas gêmeas” (2008), que conta a história de um casal através de várias vidas e em diversos períodos da história; e “Divagações de Sissi” (2010), em que a cadelinha narradora conta sua vida e incentiva o respeito e o amor aos animais. Estes três romances estão em catálogo e podem ser comprados pela Livraria Cultura ou pelo site da autora.

Memórias de um cachorro velho é um romance sensível, que despertará nos leitores a compreensão e empatia com as alegrias e os sofrimentos dos animais. Ao lê-lo percebemos a importância da adoção de animais adultos, que por não terem mais a fofura de filhote estão mais sujeitos ao abandono e à solidão. Se adotar é luxo, adotar um animal adulto é duplamente importante, e este livro cumpre seu papel de conscientização e educação. Recomendo.

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Ficha:

Memórias de um cachorro velho (1996)

Sinara Foss

1ª edição - edição do autor (esgotada)

Publicado em Dezembro - 02 - 2010

O Silêncio dos Inocentes

Uma estagiária do FBI deve conquistar a confiança de um psicopata para capturar um serial killer e salvar sua mais recente vítima antes que ela seja morta e esfolada. Esta história de suspense tornou famoso o psiquiatra e canibal Hannibal Lecter, um dos vilões mais assustadores da literatura e do cinema.

A história é baseada no livro O Silêncio dos Inocentes (1988), de Thomas Harris. Harris já havia apresentado o personagem no romance Dragão Vermelho (1981), e voltou a ele nas sequências Hannibal (1999) e Hannibal - A origem do mal (Hannibal Rising) (2006). Todos os livros foram transformados em filmes, sendo que este último teve duas versões no cinema, em 1986 e 2007.

Hannibal Lecter é um psiquiatra brilhante e também psicopata e canibal. No último livro é explicada a origem de sua fixação pelo canibalismo, devido a eventos traumáticos de sua infância e juventude, durante e após a II Guerra. Tanto em Dragão Vermelho quanto em O Silêncio dos Inocentes ele está preso e é consultado para ajudar na captura de outros serial killers.

Neste livro o FBI está à caça do assassino conhecido como Buffalo Bill, que mata e esfola suas vítimas. A estagiária Clarice Starling é incumbida por seu chefe, Jack Crawford, de entrevistar Lecter e tentar ganhar sua confiança para que ele ajude a descobrir a identidade de Buffalo Bill.

“O herói parte do mundo cotidiano e entra em uma região de maravilhas sobrenaturais: forças fabulosas são descobertas e ele deve conquistar uma vitória decisiva: o herói retorna dessa aventura misteriosa com o poder de conceder dádivas a seus companheiros.” (introdução de O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell)

Clarice é um aprendiz que parte em uma missão difícil: ela deve enfrentar o desconhecido (Dr Lecter, que também atua como o mentor do herói) para conquistar uma vitória decisiva, ou seja, derrotar Buffalo Bill (Jame Gumb) e salvar a donzela (Catherine Martin). Ao retornar, ela recebe honras (se torna agente do FBI) e pode ajudar seus companheiros, ou seja, proteger a sociedade contra o mal.

O monomito é simbolizado de forma brilhante nas diversas etapas da história: o momento em que Clarice entra no calabouço do hospital psiquiátrico para encontrar-se com Lecter simboliza a entrada no mundo desconhecido e sobrenatural. Ela recebe ajuda de um mentor e deve enfrentar seus fantasmas, o que acontece durante os diálogos com o psiquiatra canibal. No momento do desafio final, ela está sozinha e deve descer ao abismo (o porão de Gumb) para enfrentar o perigo e derrotá-lo.

Lecter e Clarice têm seus momentos mais brilhantes nos diálogos da prisão, em que ela tenta controlar seu medo e insegurança e ele tenta descobrir seus segredos e traumas de infância, como moeda de troca para as informações das quais ela precisa.

“Quando ele voltou a falar, seu tom era suave e agradável.

- Você gostaria de me analisar, policial Starling. Você é muito ambiciosa, não é? Sabe o que você me parece, com sua bela bolsa e seus sapatos baratos? Parece uma caipira. Uma caipira melhorada, limpa, com um pouco de bom gosto. Seus olhos são como pedras baratas do mês - tudo é brilho superficial quando você consegue uma pequena resposta. E por trás delas você é brilhante, não é? Desespera-se para não ser como sua mãe. Uma boa nutrição deu-lhe ossos mais longos, mas você não está fora das minas há mais de uma geração, policial Starling. Você é dos Starlings de West Virgínia ou de Oklahoma? Houve uma decisão de cara-ou-coroa entre a universidade e o Corpo Feminino do Exército, não houve? Vou lhe dizer algo específico sobre você mesma, estudante Starling. No seu quarto você tem um colar de ouro de contas soltas, e sente um choquezinho desagradável quando vê como agora se tornaram sem graça, não é verdade? Tantos cansativos agradecimentos vida afora, tantas mesuras e hesitações, banalizando cada uma daquelas contas. Cansativo. Cansativo. Te-e-edioso. Ser inteligente estraga uma porção de coisas, não é verdade? E ter bom gosto não é bom. Quando você pensar sobre esta conversa, vai se lembrar do estúpido animal ferido no rosto quando você se livrou dele. - E no mais suave dos tons, o Dr. Lecter acrescentou: - Se o colar de contas se tornou sem graça, o que mais perderá a graça no curso da sua vida? Você cisma com isso, não é, durante a noite?

Starling levantou a cabeça para encará-lo.

- O senhor enxerga longe, Dr. Lecter. Não nego nada do que acabou de dizer. Mas eis uma pergunta que está me respondendo agora mesmo, quer queira quer não: O senhor tem energia suficiente para voltar essa sua percepção de alta potência em direção a si mesmo? É difícil encarar isso, descobri nos poucos últimos minutos. O que é que o senhor acha? Questione-se e revele a verdade. Que assunto mais adequado ou mais complexo poderia encontrar? Ou será que tem medo de si mesmo?

- Você é uma pessoa dura, não é, policial Starling?

- Razoavelmente, sim.

- E odiaria pensar que é uma criatura comum. Isso não iria feri-la? Por Deus! Bem, você está longe de ser comum, policial Starling. Mas tem medo de sê-lo. De que tamanho são as contas do seu colar, sete milímetros?

- Sete.

- Deixe-me fazer uma sugestão. Arranje algumas contas olho-de-tigre avulsas e enfie-as alternadamente com as contas de ouro. Você poderá querer colocar duas-para-três ou uma-para-duas, conforme lhe parecer melhor. As contas olho-de-tigre vão refletir a cor dos seus olhos e os reflexos de seu cabelo. Alguém já lhe mandou um presente de namorado?

- Claro.

-  Estamos em junho. O Dia dos Namorados está a apenas uma semana. Bem, você está esperando algum presente?

- Nunca se sabe.

- Não. Nunca se sabe… Eu tenho estado a pensar sobre o Dia dos Namorados. Ele me lembra algo engraçado. Agora que estou pensando nisso, ocorre-me que eu poderia torná-la muito feliz no Dia dos Namorados, Clarice Starling.

- Como, Dr. Lecter?

- Mandando-lhe um maravilhoso presente. Terei que pensar nisso. Agora, por favor, dê-me licença. Adeus, policial Starling.

- E o estudo?

- Um recenseador tentou avaliar-me certa ocasião. Comi o fígado dele com favas e um grande vinho. Volte à escola, pequena Starling!

Hannibal Lecter, educado até o último momento, não lhe voltou as costas. Foi recuando da barreira para trás até chegar ao seu leito e, deitando-se, ficou tão alheio a ela como um cruzado de pedra esticado em sua tumba.”

O livro segue com um suspense crescente e narrativa ágil e detalhada, conforme Starling e Crawford seguem as pistas que Lecter sutilmente deixa escapar, mas mesmo assim exigindo lógica e raciocínio para serem decifradas.

“Starling estudara psicologia e criminologia numa boa escola. Durante a vida pudera observar algumas das horríveis e precipitadas formas com que o mundo destrói as coisas. Mas realmente não tinha jamais imaginado que às vezes os seres humanos produzem, atrás de um rosto com aparência humana, uma mente cujo prazer era aquilo que jazia na mesa de porcelana em Potter, West Virgínia, na sala forrada de papel decorado com rosas. Seu primeiro encontro com uma mente daquele tipo chocou-a mais do que qualquer coisa que pudesse ver em mesas de autópsia. Tal conhecimento ficaria entranhado na sua pele para sempre, e ela sabia que tinha de criar uma crosta ou aquilo a penetraria.”

Jame Gumb, o serial killer que retirava a pele de suas vítimas, foi criado a partir de quatro assassinos reais: Ed Gein (que fazia roupas com a pele de suas vítimas; ele também foi a inspiração para a criação de Norman Bates, de Psicose), Ted Bundy (que oferecia dicas psicológicas para ajudar a capturar outros assassinos) e Gary Heidnik (que mantinha as vítimas em seu porão).

Filme

A versão cinematográfica deste livro, dirigida por Jonathan Demme (1991), foi o terceiro filme a conquistar os cinco prêmios principais: Melhor Filme, Direção, Melhor Roteiro (adaptado), Melhor Ator e Melhor Atriz. Até então, somente Aconteceu naquela noite (1934) e Um Estranho no ninho (1975) haviam conseguido essa façanha.

Demme acertou na escolha do elenco: Jodie Foster (Clarice) mostra “a força e a determinação necessárias para o papel” (conforme Demme) ao mesmo tempo em que transmite seu drama interno, especialmente nas cenas com Lecter. Com este papel ela ganhou seu segundo Oscar e mais seis outros prêmios.

Ted Levine (Jame Gumb), apesar de não tão aclamado quanto Hopkins, também criou um vilão complexo e sutil; ele não é um gay ou travesti, mas uma mente atormentada que deseja ser sua mãe para, de certa forma, trazê-la de volta. A cena da dança causou controvérsia entre a equipe de produção, mas Ted insistiu em fazê-la, para mostrar ao público como o personagem se sentia em relação a si mesmo.

A interpretação magistral de Anthony Hopkins criou um Lecter educado, com boas maneiras, voz baixa; um contraste com seus feitos e com seus companheiros de prisão. No livro sua cela tem grades, mas os produtores decidiram usar uma grossa parede de plexiglas com furos (aproveitados na interpretação de Hopkins), que aumentou a sensação de proximidade e a tensão das cenas. Seus 17 minutos em cena foram a interpretação mais curta a ganhar o Oscar de Melhor Ator. Merecido.

E aí, vai encarar?

O filme procura mostrar o ponto de vista (literalmente) de Clarice, para criar uma identificação entre o público e ela. Hannibal e outros personagens olham diretamente para a câmera quando falam com Clarice, e quando ela responde, olha para um ponto ligeiramente afastado do centro da câmera. Esse recurso intensifica o suspense nas cenas entre Jodie Foster e Anthony Hopkins, com uso de vários close-ups que tornam o personagem dele ainda mais assustador. Por breves instantes no final, já no porão, o ponto de vista da câmera muda para Jame Gumb, o que torna a cena ainda mais tensa.

Jonathan Demme também usa alguns recursos de Hitchcock, como mostrar a identidade do vilão para o público, sem que o personagem saiba disso. Isso funciona muito bem para criar o suspense; um exemplo é a sequência da invasão da casa à procura de Jame Gumb. Os cortes e a ação simultânea confundem o espectador e aumentam o efeito da revelação. Edição de gênio!

Apesar de ser uma história sombria e assustadora, há poucas cenas de violência gráfica; o que assusta são os fatos, não o que é mostrado. Ainda assim, em uma sequência temos o canibal em ação, pois além de ser necessário para o desenvolvimento da trama, não devemos esquecer que aquele gentleman é na verdade um monstro assassino.

Filme e livro são excelentes; uma história muito bem contada, com simbolismos e personagens complexos, interpretada e dirigida com maestria, e que certamente mereceu todos os prêmios recebidos. Recomendadíssimo!

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Para saber mais:

Trailer - O Silêncio dos Inocentes

Publicado em Novembro - 30 - 2010

30 - Meme literário - o que estou lendo

Dia 30 - O que estou lendo

No momento estou relendo As Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley), que já li um monte de vezes e adoro; estou no livro 2, A Grande Rainha, e lendo um pouquinho de cada vez, quando sobra um tempinho.

Também estou quase no finalzinho de Tuesdays with Morrie (A última grande lição - Mitch Albom), que é o livro do Desafio Literário… de outubro! Estou atrasada, não nego, publico a resenha quando puder. E o livro é excelente, quero fazer uma resenha caprichada.

Fora estes, está esperando para entrar em cena Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago), que é o livro de novembro do Desafio. Será o próximo, para não atrasar ainda mais.

E estão encostadinhos na estante, esperando serem terminados: Do Androids Dream of Electric Sheep? (Philip K. Dick), o livro que deu origem a Blade Runner, que comecei e deixei de lado por falta de tempo.  E Paper Towns (John Green), que parei de ler no finalzinho. Pode isso? Bom, vou ter de reler alguns capítulos para lembrar onde parei.

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E terminamos o Meme Literário, que foi bem divertido. Além de lembrar de vários livros legais que li, vi várias dicas de leitura nos blogs participantes que ajudaram a engordar ainda mais minha listinha de livros para ler (rsrs).

Para o ano que vem estou planejando um meme um pouco diferente aqui no Rato, assim que acabarem as férias; vou divulgar com antecedência para quem quiser participar, fiquem de olho!

Veja os links dos outros participantes do dia 30 no Blog da Happy Batatinha

Publicado em Novembro - 29 - 2010

29 - Meme literário - um escritor que adoro/um escritor que detesto

Dia 29 - Um escritor que eu adoro e um escritor que eu detesto

Bom, que eu adoro são muitos… mas vou escolher um de quem já li alguns livros, e que pretendo ler mais. É Stephen King.

King é um dos escritores mais conhecidos de livros de suspense e terror. Suas histórias cutucam os medos que temos escondidos, criam situações que não desejaríamos viver e nos levam a lugares bons de visitar apenas na ficção. Ele mesmo comentou que escrever é para ele uma forma de exorcizar seus demônios internos, e que ao dar vida a seus medos, eles deixam de assombrá-lo.

“Os monstros existem.Os fantasmas também.Eles vivem dentro de nós.E, ás vezes, eles ganham”

Muitos livros de King foram adaptados para o cinema, e alguns deles foram muito bem-sucedidos; são adaptações bem feitas e filmes excelentes, como À Espera de um Milagre, Eclipse Total, Louca Obsessão, O Iluminado, Um sonho de liberdade e Carrie, a estranha, entre outros.

Entre as obras de King que li e recomendo, estão:

  • Eclipse Total (Dolores Claiborne) - 1992
  • A Zona Morta (The Dead Zone) - 1979
  • O Cemitério Maldito (Pet Sematary) - 1983
  • Quatro estações (Different Seasons) - quatro contos, 1982
  • Tripulação de Esqueletos (Skeleton Crew) - coletânea de contos, 1985

E ainda quero ler:

  • série A Torre Negra (The Dark Tower) - 7 livros, de 1982 a 2004

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Bom quanto a um escritor que detesto, vou continuar escolhendo Paulo Coelho, como já fiz no meme 10 livros em 10 dias. Li apenas dois livros dele (os dois primeiros), e não gostei do rumo que a carreira do autor tomou. Mas enfim, é só a minha opinião…

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