Publicado em Dezembro - 13 - 2011
The Hunger Games / Jogos Vorazes

May the odds be ever in your favor.
Num futuro pós-apocalíptico, toda a América do Norte é um único país chamado Panem, com uma Capital e 12 distritos. Estes eram 13, mas quando o Distrito 13 liderou uma rebelião contra a Capital, foi dizimado e para punir os restantes e lembrá-los da autoridade e poder da Capital, todos os anos cada distrito sorteia dois tributos, um rapaz e uma moça de 12 a 18 anos, que deverão lutar contra os outros jovens nos Jogos Vorazes até que apenas um sobreviva.
Katniss Everdeen é uma garota de 16 anos que aprendeu a duras penas a arte de sobreviver. Depois da morte do pai, aos 11 anos ela tornou-se responsável por levar comida para casa, para sua mãe e irmãzinha Prim. Graças ao que ela e o amigo Gale caçam ilegalmente nas florestas que circundam a cidade, nenhuma das duas famílias passa fome. O Distrito 12 é o mais pobre de todos, e apenas uma vez teve um vencedor nos jogos.

- Katniss e Gale
O nome de Prim é sorteado para os Jogos e Katniss se oferece para ficar no lugar dela. O rapaz sorteado é Peeta Mellark, que uma vez salvou a vida de Katniss, dando a ela dois pães que evitaram que ela e a família morressem de fome e lhe deu novo ânimo para sobreviver. Agora ambos seguirão para a Capital e terão de lutar pela própria vida, e apenas um entre 24 tributos poderá sobreviver.
Este é o resumo dos dois primeiros capítulos de The Hunger Games, que podem ser lidos online em inglês aqui. Já sabia do que tratava a história, e os dois capítulos me conquistaram. Mas o livro vai além, e prende a atenção do leitor do início ao fim.
Suzanne Collins usou a estrutura clássica da saga do herói para compor seu livro: o herói é chamado para uma aventura e deve enfrentar o desconhecido; ele tem a ajuda de um mentor ou guia, e tem uma habilidade especial. Ele entra em um ambiente novo e misterioso, enfrenta perigos, conta com a ajuda de amigos ou aliados, vence seus medos, cumpre sua missão e volta para casa para ensinar o que aprendeu, modificado pela experiência.
Não por acaso, a autora disse que uma das inspirações para compor a história foi o mito de Teseu, em que a cidade de Atenas deve enviar rapazes e moças para serem devorados pelo Minotauro, para compensar a fúria de Creta contra os atenienses pela morte do filho do rei Minos.
Todas essas etapas, compiladas e descritas por Joseph Campbell em O herói de mil faces, estão no livro de Collins, assim como em muitas outras histórias queridas e de sucesso, como Star Wars, Harry Potter e tantas outras. E mais uma vez, temos um ambiente misterioso, hostil, inimigos ocultos e alguma violência.
“- Katniss, é como caçar. Você é a melhor caçadora que eu conheço - diz Gale.
- Não é apenas caçar. Eles estão armados. Eles pensam. - eu completo.
- Você também. E você teve mais prática. Prática de verdade - retruca ele. - Você sabe como matar.
- Não gente - digo.
- E qual é a diferença, no fundo? - diz Gale com um sorriso amargo.
O estranho é que se eu não lembrar que eles são gente, não há diferença nenhuma. “
Narrado em primeira pessoa, acompanhamos Katniss pela escolha dos tributos, a preparação para os jogos, o contraste entre a decadência e o luxo da Capital e o cotidiano de luta contra a fome e a miséria nos distritos, o suspense e a tensão dos jogos, a luta pela sobrevivência, os jogos televisionados que servem para diversão das pessoas na Capital e para reforçar o poder e a opressão sobre os moradores dos distritos. Os jogos são uma espécie de reality show; nunca vemos as câmeras, mas elas estão lá. O público acompanha os momentos de maior tensão, invade a intimidade dos competidores, patrocinadores enviam presentes que ajudam na sobrevivência dos tributos; para receber esses presentes, é preciso conquistar o público, e aqui vale tudo para vencer… ou sobreviver.
Além de serem do distrito mais pobre e o ‘azarão’ dos jogos, Katniss e Peeta enfrentarão competidores dos distritos mais ricos, que são voluntários e passaram a vida toda se preparando para os Jogos. Eles são cruéis, violentos e farão de tudo para vencer. Além disso, os Organizadores dos jogos manipulam o clima, criam catástrofes naturais e animais em mutação para manter o interesse do público.

- Peeta Mellark
“Que presa fácil eu sou! Qualquer tributo, até a pequena Rue, poderia me pegar agora, apenas pulando sobre mim e me matando com minha faca, e eu teria pouca força para resistir. Mas se alguém estiver nesta parte da floresta, ignora-me. Na verdade, sinto como se estivesse a milhões de quilômetros de outra alma viva.
Mas não estou sozinha. Não, eles com certeza têm as câmeras me seguindo agora. Penso nos anos assistindo tributos morrendo de fome, congelando, sangrando, ou desidratando até a morte. A menos que haja uma briga muito boa acontecendo em algum lugar, eu sou a atração.”
Além dos elementos de tensão e aventura, a autora consegue encaixar na trama o romance e a política, e deixa dois ganchos bem colocados para os próximos livros da série: Em Chamas e A Esperança. Não é difícil adivinhar o resultado dos jogos, tendo em vista que há mais dois volumes e a narração é em primeira pessoa. Mas a história nos reserva algumas viradas e surpresas, que é melhor manter em segredo até a leitura.
Aliás, como o filme será lançado em março de 2012, recomendo ler o livro antes de ver o filme. Comecei a ler ‘aos pouquinhos’, mas a certa altura não consegui largar e terminei o livro em dois dias (graças aos céus pelo fim de semana!).
Talvez pelo livro ser destinado ao público jovem, a autora não mostra requintes de violência, e de certa forma ‘poupa’ os personagens principais. Quando Katniss ou Peeta matam, isso acontece por um bom motivo, por acaso ou acidente, ou por misericórdia. Mas quando Cato ou os outros tributos “de carreira” matam, a ambição de vencer os move, e não há nenhuma compaixão.
Katniss passou boa parte da vida sendo o ganha-pão da família, e teve pouco tempo para pensar em si mesma. Ao final dos jogos, ela reflete sobre seus sentimentos, quem realmente é, e em tudo o que teve de fazer para sobreviver. E onde fica a ética nisso tudo.
Essas questões sobre ética, violência e manipulação do público também ficam na cabeça do leitor. É impossível não comparar os Jogos com os incontáveis reality shows que tornaram-se uma praga nas TVs de todo o mundo. Em um mundo sem nenhuma liberdade e com um governo autocrático, o show transforma-se em uma carnificina. Ainda estamos longe disso, mas em nosso mundo atual, até que ponto a mídia chegaria para manter o interesse do público?

“O ataque terminou. Os Organizadores não me querem morta. Pelo menos, não agora. Todos sabem que eles poderiam nos destruir em segundos a partir do gongo inicial. A verdadeira atração dos Jogos Vorazes é assistir aos tributos matarem uns aos outros. De vez em quando, eles matam um tributo só para mostrar aos jogadores que eles podem. Mas na maioria das vezes, eles nos manipulam para nos confrontarmos cara a cara. O que significa que, se não estou mais sendo atacada, deve haver pelo menos um tributo bem próximo.”
Um livro fascinante; uma distopia com elementos mitológicos e que mantém o suspense até além das últimas páginas. Recomendo!
_______________________________________________
Trailer legendado:
Ficha:
The Hunger Games, 2008, Scholastic Books, UK
Jogos Vorazes, 2010, Rocco
Autora: Suzanne Collins
Saiba mais:
- Ficha do filme no IMDb ( a ser lançado em março de 2012)
- Leia os dois primeiros capítulos de The Hunger Games no Scribd
- Resenha muito boa de Jogos Vorazes, de Taizze Odelli no Amálgama
- Mais uma boa resenha, de Aione Simões, no Minha Vida Literária
- Resenha da Nanda, do Viagem Literária (ela também resenhou os outros dois livros, links no artigo)
- Monomito ou a jornada do herói, na Wikipédia
- Compre os livros Jogos Vorazes ou The Hunger Games na Livraria Cultura







Titanic: Rose Dawson’s Story

Mesmo que em geral a tradução dos títulos de filmes seja lamentável, desta vez acertaram: Ensina-me a viver é um bom título e dá a dimensão do que seja esta história. Comovente e divertida, nos faz pensar no que significa viver, e em como nossos problemas são insignificantes comparados ao grande cenário. Harold percebe isso quando nota a tatuagem no antebraço de Maude; quem tem aqueles números não despreza o privilégio de estar vivo.


Este foi o primeiro romance de Sinara Foss, escritora gaúcha preocupada com os direitos e a proteção dos animais. O livro é narrado pelo cachorro Xôlo, que conta sua história desde o nascimento em uma fazenda, as muitas dificuldades por que passou até a velhice tranquila depois de adotado por uma família que amava os animais.





