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Consciências Mortas

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Em geral as traduções dos títulos de filmes deixam a desejar, especialmente de alguns filmes mais antigos. Mas esse não é o caso com Consciências Mortas, filme de 1943 estrelado por Henry Fonda e baseado no livro “The Ox-Bow Incident”, de Walter Van Tilburg Clark. O título em português resume bem a ideia central do filme, além de ter um grande impacto, visto que “Incidente em Ox-Bow” não faria sentido algum para o público brasileiro da época.

O livro é um clássico norte-americano e leitura recomendada nas escolas, mas apesar de ter sido lançado em Portugal (pela Editora Europa – América – 1987) com o título de “Incidente em Ox-Bow” e anunciado como ‘livro faroeste’, não é muito conhecido por aqui. Trechos do original em inglês podem ser lidos online no Google Books (link no final do artigo).

O livro conta a história real de um linchamento ocorrido em uma cidadezinha de Nevada no século 19. Um grupo de caubóis  sai à caça dos culpados pelo roubo de gado e assassinato de um fazendeiro vizinho, e decide fazer justiça com as próprias mãos, sem a autorização do xerife, que estava ausente. A história é narrada por Art Croft, um vaqueiro que chega à cidade no início do livro com seu colega Gil Carter.

O filme teve roteiro de Lamar Trotti baseado no livro de Tilburg Clark e foi dirigido por William Wellman. Apesar de ser um filme curto (apenas 75 minutos), a história que começa como um simples faroeste acaba evoluindo para um debate profundo sobre justiça e culpa.

Henry Fonda é Gil Carter, que chega à cidade de Bridger´s Wells com Art Croft após passar o inverno nas montanhas cuidando do gado. No salão local, eles ficam sabendo que um fazendeiro vizinho, Larry Kincaid, teve seu gado roubado e foi assassinado por forasteiros. O xerife está fora da cidade, e os moradores, liderados pelo Major Tetler, decidem caçar os assassinos, mesmo sem autorização oficial.

Homem1: Lá no Texas, de onde eu venho, nós vamos, caçamos um homem e o enforcamos.

Homem2: É isso mesmo!”

Apesar da excelente atuação de Fonda, não há um personagem principal; ao longo da história vamos conhecendo os diversos personagens do grupo de moradores: o Major Tetler (Frank Conroy), confederado que apesar de ter perdido a guerra, ainda ostenta seu uniforme e não se conforma com a falta de machismo do filho Gerald (William Eythe), que é contra o linchamento; o Major força seu filho a acompanhar o grupo, pois quer “fazer dele um homem”.

O assistente do xerife, Butch Mapes, um homem de natureza violenta que aproveita sua autoridade provisória e tenta incitar a multidão ao linchamento; o Major, percebendo isso, tenta organizar as coisas, e autodenomina-se líder do grupo.

Também há o velho Sparks (Leigh Whipper), que acompanha o grupo a contragosto, alegando que é preciso que alguém reze pelas almas dos homens que vão morrer. Ele conta que seu irmão também foi linchado; quando Carter pergunta se ele era culpado do que o acusavam, este responde “isso nunca ficou esclarecido”.

Jeff Farnley está ansioso para apanhar o assassino de Kincaid, e também lidera o grupo.

Na foto: Juan Martinez, Donald Martin, Gil Carter, Major Tetley e Jenny Grier (personagens)

A única mulher no grupo de linchadores é Jenny ‘Ma’ Grier (Jane Darwell), que é uma criatura bruta e escandalosa; portanto, não se encaixa no modelo feminino. A outra personagem feminina em cena é Rose Mapen (Mary Beth Hughes), objeto de afeição de Carter, que havia partido para San Francisco e reaparece no meio do filme, recém-casada. Apesar da cena parecer deslocada na história, para mim o encerramento definitivo desse caso serviu como contraponto e explicação para a decisão de Gil Carter ao final do filme.

O grupo parte para as montanhas durante a noite e, ao chegar ao cânion Ox-Bow encontram três homens adormecidos. Ao serem interogados, o líder Donald Martin (Dana Andrews, em uma brilhante atuação) conta que esteve em Pike´s Hole para comprar 60 cabeças de gado de Kincaid, mas que não tem um contrato de venda para provar; os outros dois homens são seus ajudantes, o mexicano Juan Martinez (o jovem Anthony Quinn) e o velho Halva Harvey (Francis Ford). Eles não têm como provar sua história, e o grupo decide enforcá-los ali mesmo, sem esperar pela chegada do xerife.

Como a decisão não é unânime, o Major Tetley pergunta quem é contra o enforcamento imediato. Começando com o velho Sparks, sete homens, inclusive Gil Carter e Gerald Tetley, se adiantam e encaram a multidão.

Major Tetley: Outros homens com família morreram por esse tipo de coisa. Isso não é bom, mas é justiça.

Donald Martin: Justiça? O que você entende por justiça? Você não se importa nem se pegou os homens certos. Só sabe que perdeu algo e alguém tem de ser punido.”

Os temas levantados são mais importantes que a própria história. Quando Henry Fonda era pequeno, seu pai o levou à praça central de Omaha para lhe mostrar o resultado de um linchamento ocorrido na noite anterior. Quando o jovem Henry perguntou o que eles tinham com aquilo, seu pai respondeu: “Linchamento é da conta de qualquer homem que esteja por perto”. Henry Fonda pediu que essa fala (ou uma frase similar) fosse inserida no roteiro.

Major Tetley: Isso não é da sua conta, meu amigo. Lembre-se disso.

Gil Carter: Enforcamento é da conta de qualquer homem que estiver por perto.”

[ALGUNS SPOILERS]

Antes do enforcamento, Donald Martin pede para escrever uma carta para a esposa, e entrega-a a Davies, pedindo que alguém a leve até Miriam e consiga alguém para cuidar dela e das crianças. Juan Martinez pede para se confessar, e como não há um padre no grupo, ele o faz para um dos homens.

Apesar de Jenny Grier se oferecer para fazê-lo, o Major Tetley manda que seu filho empurre um dos cavalos para que os homens sejam enforcados. Quando Gerald diz que não pode fazê-lo, o Major ordena que o faça, e diz que “nenhum rapaz afeminado levará meu  sobrenome”. Jenny e Farnley empurram os cavalos do velho e de Martinez, que morrem na hora, mas Gerald não empurra direito o cavalo de Martin, e Farnley atira duas vezes para acabar com o sofrimento da vítima.

Após o enforcamento, com a chegada do xerife ficamos sabendo de algo que muda completamente o significado daquilo tudo.  De volta ao salão de Bridger´s Wells, Carter lê em voz alta a carta de Martin para a esposa:

“Minha querida esposa, o Sr Davies lhe contará o que aconteceu aqui esta noite. Ele é um bom homem e fez tudo o que pôde por mim. Creio que há outros homens bons aqui também, mas que não percebem o que estão fazendo. Sinto pena deles, porque para mim tudo estará terminado em breve, mas eles terão de se lembrar disto pelo resto de suas vidas. Um homem não pode tomar a lei em suas mãos e enforcar pessoas sem prejudicar todo o mundo, pois ele não estará violando apenas uma lei, mas todas as leis. A lei é muito mais que palavras em um livro dos juízes ou advogados ou xerifes que contratamos para aplicá-la. Ela é tudo que as pessoas sabem sobre justiça e o que é certo ou errado. É a própria consciência da humanidade. Não pode haver uma civilização a menos que as pessoas tenham uma consciência, pois se as pessoas chegam até Deus, como podem fazê-lo senão através de sua consciência? E o que é a consciência de uma pessoa se não uma pequena parte das consciências de todos os homens que já viveram? Acho que isso é tudo que eu tinha a dizer; beije as crianças por mim e que Deus os abençoe. Seu marido, Donald.”

No final do filme, o grupo está com a moral arrasada, e tomados pela culpa. O Major Tetley entra em casa e tranca a porta, deixando o filho do lado de fora. Este retruca:

Gerald Tetley: Eu vi o seu rosto. Era o rosto de um depravado, de uma fera assassina. Somente duas coisas importam para você: poder e crueldade. Você não consegue sentir pena. Não consegue nem mesmo sentir culpa. Você sabia que eles eram inocentes, mas estava louco para vê-los enforcados. E me fez assistir. Eu poderia tê-lo impedido com uma arma, como poderia impedir qualquer outro animal. Mas não pude fazê-lo porque sou um covarde. Está feliz por ter me forçado a ir? Está orgulhoso de mim? Como é ter gerado um fraco, Major? Isso o faz temer que haja alguma fraqueza em você também? Que outros homens o descubram e comecem a falar sobre isso? Abra a porta! Quero ver seu rosto. Quero saber como se sente agora!”

Após essa fala, ouvimos um tiro, indicando o suicídio do Major. No livro, o Major se mata após o suicídio do filho, desgostoso por ter participado do linchamento. No filme apenas o pai se mata, e a cena não é mostrada, assim como o enforcamento, devido às restrições do Código Hays, que controlava o que podia ou não aparecer nas telas.

[FIM DOS SPOILERS]

Os diálogos do filme são excelentes, e nos fazem pensar sobre a justiça (ou a falta dela), e sobre o comportamento das massas. Os linchamentos eram comuns naquela época, apesar de ser uma prática violenta; ainda assim, uma pessoa em uma multidão provavelmente fará coisas que não faria se estivesse sozinha.

A massa não pensa; ela precisa de um líder, de alguém que pense por ela. Quando a ação é desencadeada, é quase impossível impedir seu curso, e as consequências podem ser desastrosas e imprevisíveis. No caso de um linchamento, fica difícil encontrar o culpado, pois todos têm culpa mas ninguém se sente culpado, pois o linchador não age por si próprio, mas em nome da sociedade ou do “bem comum”, acreditando que está fazendo justiça.

No excelente artigo de Gian Danton no Digestivo Cultural, ele explica:

“A criação de uma multidão passa por quatro estágios. No primeiro deles, há um acontecimento emocionante (a informação de que um estuprador foi preso, um trem de subúrbio que deixa de funcionar justamente na hora em que os trabalhadores voltam para casa).
No segundo, há uma “moedura”: os indivíduos se encontram, se chocam, começam a trocar ferormônios.
No terceiro, surge uma imagem, uma idéia de ação, a exaltação coletiva é direcionada para um objetivo (linchar o criminoso, quebrar o trem).
Finalmente, no quarto estágio, a multidão, já totalmente dominada pelos ferormônios, age.
Uma multidão é como um estouro de boiada: é impossível pará-la com a força ou com a razão.”

Consciências Mortas foi indicado para o Oscar de Melhor filme, mas não venceu; filmado em menos de trinta dias completamente em estúdio, para reduzir custos, ele foi um fracasso de bilheteria, apesar de até hoje ser considerado um dos melhores westerns já feitos. Além disso, é um dos filmes preferidos de Clint Eastwood.

É uma pena que este filme seja pouco conhecido; fiquei sabendo dele quando foi mencionado no programa Biografia de Henry Fonda, mas nunca o vi sendo exibido na TV. Felizmente ele foi lançado em DVD no Brasil, e vale a pena ser visto. Procure na sua locadora!

*     *     *

  • Verbete do filme na Wikipédia (em inglês e português)
  • Crítica excelente de Alexandre Koball (Cine Players)
  • Artigo “Público, massa e multidão” – Gian Danton, publicado em 30/08/2002 no Digestivo Cultural
  • Artigo “Injustiça com as próprias mãos”, publicado no site Pesquisa Fapesp
  • Trechos do livro em inglês para leitura online no Google Books

Trailer do filme com a apresentação de Henry Fonda, que comenta a importância do livro e como ele teve sorte de poder participar deste filme. Curioso e interessante!

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