Publicado em Maio - 17 - 2010

O Diabo veste Prada

Andrea Sachs acabou de sair da faculdade e conseguiu o emprego “pelo qual um milhão de garotas dariam a vida”: assistente da poderosa Miranda Priestly, editora da revista de moda Runway. Andy percebeu rapidamente que seu trabalho não seria fácil; mas ela levou um pouco mais de tempo para perceber o que era importante em sua vida…

Apesar de sonhar em trabalhar como jornalista no The New Yorker, Andrea aceita o emprego porque lhe fora dito que, após um ano como assistente de Miranda, se tudo corresse bem ela estaria apta a uma promoção, podendo até escolher em qual departamento trabalhar. Portanto, seria apenas um ano até conseguir o verdadeiro emprego dos seus sonhos.

Andrea logo percebe que seu trabalho incluía levar o cãozinho das filhas de Miranda ao veterinário, mandar suas roupas sujas para a lavanderia, providenciar para que as saias de Miranda fossem despachadas em seu jato particular para a propriedade de Oscar de la Renta no Caribe,  fazer o impossível para descobrir uma cômoda que Miranda havia visto em um antiquário (qual? em que rua? nem pensar em perguntar a ela), embrulhar os presentes de Natal que seriam enviados em nome de Miranda, providenciar um almoço de 95 dólares que seria jogado no lixo porque Miranda já havia almoçado e esquecera de avisar. E, principalmente, estar à disposição dela 24 horas por dia, 7 dias da semana.

“Para a maioria das pessoas, a campainha do telefone era um sinal bem-vindo. Alguém estaria querendo falar com você, dizer um alô, saber como está, ou fazer planos. Para mim, desencadeava medo, ansiedade intensa, e pânico de fazer parar o coração. (…)

do ponto de vista de Miranda, simplesmente não havia razão, qualquer que fosse, para o celular ser desligado. Nunca deixaria de ser atendido. As poucas razões para tal situação que eu coloquei para Emily, quando recebi o celular - um suprimento padrão Runway - com a instrução de atender sempre, foram rapidamente eliminadas.

-  E se estiver dormindo? - perguntei, de maneira idiota.

-  Acorde e atenda - ela respondeu, lixando uma unha lascada.

-  E em um jantar sofisticado?

-  Seja como qualquer nova-iorquino e atenda à mesa do jantar.

-  Fazendo um exame ginecológico?

-  Não estarão examinando seus ouvidos, estarão? Está bem, entendi.

Eu detestava esse maldito celular, mas não podia ignorá-lo. Ele me mantinha atada a Miranda como um cordão umbilical, recusando-se a me deixar crescer, ou me soltar ou me afastar da minha fonte de sufocação. Ela ligava constantemente: e como um experimento pavloviano doentio que escapou do previsto, o meu corpo tinha começado a responder visceralmente à sua campainha. Triimm-triimmm. Aumenta o ritmo cardíaco. Trimmmm. Dedos se apertam e ombros se retesam automaticamente. Tríiiimmmmmm. Oh, por que ela não me deixa em paz, por favor, oh, por favor, esqueça que estou viva - o suor irrompe em minha fronte. “

Apesar de não ser preocupada com moda, depois de três meses tentando criar uma aparência aceitável (do ponto de vista deles) para o trabalho com suas próprias roupas, Andy desiste e começa a aceitar roupas e acessórios que o diretor de moda “emprestava” para as garotas. Quando começa a se vestir com roupas de grife, Andrea não recebe mais (tantos) olhares de reprovação de Miranda. Ela até começa a gostar de seu novo visual.

Uma coisa que acabou sendo irritante no livro é que a cada parágrafo havia pelo menos uma dúzia de nomes de grifes famosas, e os preços das coisas e principalmente o desperdício me davam nos nervos. Além do almoço de 95 dólares (!) mencionado acima, que foi para o lixo com taças de cristal e guardanapos de linho acompanhando, havia os cafés da manhã que eram comprados e jogados fora para serem comprados novamente, até que Miranda chegasse e o encontrasse em sua mesa, na temperatura certa.

Também havia as echarpes brancas Hermès, de duzentos dólares cada, as quais Miranda sempre usava uma, seja qual fosse a roupa que estivesse usando, e que esquecia por toda parte. Quando Hermès parou de fabricar aquele modelo, a revista comprou todo o estoque disponível (cerca de quinhentas), para que Miranda nunca ficasse sem sua echarpe branca. Depois de alguns anos de desperdício, ainda havia umas duzentas echarpes, e ninguém gostaria de estar por perto quando Miranda soubesse que elas haviam acabado.

As exigências de 14 a 16 horas por dia de trabalho desumano acabam afetando a saúde de Andrea e seu relacionamento com o namorado Alex e a amiga Lily; Andrea emagrece, não tem tempo para Alex, deixa de dar atenção a Lily, cujo comportamento vai se tornando auto-destrutivo, até que uma crise faz que ela perceba quais são suas verdadeiras prioridades. Andrea abandona Miranda em Paris (não sem antes dizer-lhe um sonoro palavrão) e volta para casa, para ficar com a amiga Lily no hospital. Depois de um tempo ela vende as roupas caríssimas que ganhou da revista ( o que dá um belo pé-de-meia de 38 mil dólares) e começa a trabalhar como jornalista freelancer, vendendo algumas histórias para a revista Seventeen.

Em seu primeiro romance, O Diabo veste Prada (2003), Lauren Weisberger conta de forma ficcionalizada sua experiência como assistente de Anna Wintour, editora da Vogue. O livro recebeu críticas mordazes após o lançamento; Kate Betts, editora de Harper’s Bazaar que também trabalhou com Wintour, aponta a ingratidão de Weisberger, que não reconhece a oportunidade inestimável de trabalhar com uma grande editora de moda.

“Ela esteve dentro de uma das grandes franquias editoriais em um negócio que exerce enorme influência sobre as mulheres, mas parece não ter compreendido quase nada sobre o isolamento e pressão do cargo de sua chefe, ou qual o preço de uma pessoa como Miranda Priestly se tornar um personagem como Miranda Priestly. Certamente há muitas forças sociais em ação no mundo da moda, como em todas as sub culturas, e as Mirandas do mundo, mesmo que pareçam vítimas de sua própria psiciologia, também são um reflexo de nós mesmos - nossas ideias sobre estilo, nossa fome de glamour, nossa necessidade ancestral de um antagonista consumado em um terninho vermelho elegante.” Fonte: resenha no New York Times

Filme

O romance foi adaptado para o cinema em 2006, com Meryl Streep encarnando a terrível Miranda Priestly e Anne Hathaway como Andrea Sachs. O elenco também tem Emily Blunt como Emily, a assistente sênior de Miranda, e Stanley Tucci como o diretor de moda Nigel. Tucci mais tarde trabalhou com Streep como o marido de Julia Child em Julie e Julia.

O roteiro mudou alguns detalhes do filme, como a cena em que Andrea desiste do emprego, o nome e profissão do namorado Nate (Alex no livro), o desfecho do quase relacionamento entre Andrea e o escritor Christian Thompson (Collinsworth no livro) e a personagem da amiga Lily, bem diferente no livro e no filme. O que também mudou foi o motivo por que Andrea teve de ir a Paris, acompanhando Miranda. Mas todas essas mudanças não prejudicaram a história, e deram mais agilidade ao roteiro.

Mas a maior diferença, embora sutil, é que a Miranda do filme chega a ser quase humana; ela se cansa, sofre com o divórcio, até desabafa com Andrea. No livro, ela é uma rainha de gelo, uma deusa cruel e inatingível, e a autora não deseja despertar a mínima simpatia pelo personagem. Quando ela é interpretada por Meryl Streep, tudo é possível, até transformar Miranda em um ser humano. Na verdade, é exatamente a interpretação de Streep que transforma esta adaptação em um ótimo filme.

A transformação visual de Andrea também é bem marcante no filme; de patinho feio em roupas caipiras, meias grossas e sapatos baixos e fechados, ela se transforma em um modelo de elegância na última moda, com roupas modernas, saias curtas, saltos altos, e sempre em preto e branco (provavelmente também de grife, mas eu não saberia dizer a diferença).

No filme, Andrea chega a compreender e admirar Miranda: “Miranda é vista como o diabo porque é mulher. Se fosse homem, suas ações seriam vistas como ótimas”. Ponto para o machismo.

Nigel: Me avise quando sua vida pessoal virar fumaça; então você estará pronta para uma promoção.”

Esta foi a resenha de maio para o Desafio Literário 2010. O tema deste mês foi chick-lit, que não é o meu gênero preferido de leitura. Até que dei sorte, pois o livro foi interessante e eu já estava com boa disposição para lê-lo, por ter gostado do filme.  Como na maioria das vezes, há diferenças entre o livro e o filme, e neste caso foi um empate técnico. O livro é mais detalhado (especialmente no calvário de Andrea e nas tarefas absurdas que ela tem de cumprir), mas a interpretação de Meryl Streep vale o ingresso. Ou a locação.

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Para saber mais:

Trailer: O Diabo veste Prada

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