Publicado em Outubro - 15 - 2011

Meme literário de 1 mês 2011 - Dia 15

Dia 15 - Qual é o seu vilão literário favorito?

“Creio que há monstros nascidos no mundo de pais humanos. Pode-se ver alguns, disformes e horrendos, com enormes cabeças ou corpos minúsculos; alguns nascem sem braços, sem pernas, outros com três braços, com caudas ou bocas nos lugares mais estranhos. São acidentes e ninguém tem culpa, ao contrário do que se costumava pensar antes. Houve um tempo em que eram considerados punições visíveis a pecados ocultos.

Assim como há monstros físicos, não é possível que nasçam também monstros mentais ou psíquicos? O rosto e o corpo podem ser perfeitos, mas se um gene adulterado ou um óvulo disforme podem produzir monstros físicos, o mesmo processo não poderia gerar uma alma deformada?

(…)

Para um monstro, o normal deve parecer monstruoso, já que cada pessoa é normal para si mesma. Para o monstro interior, a situação deve ser ainda mais obscura, já que ele não tem qualquer escala visível para se comparar com os outros. Para um homem nascido sem consciência, um homem de alma abalada deve parecer algo absurdo. Para o criminoso, a honestidade é uma tolice. Nunca se deve esquecer que o monstro é apenas uma variação e que para um monstro o normal é monstruoso.”

Cathy Ames Trask é uma das personagens mais complexas e malignas da literatura. Provavelmente nasceu sem consciência, determinada a conseguir o que queria, mesmo que parecesse absurdo ou de pouco valor. E para isso, não hesitava em prejudicar quem quer que fosse.  Cathy matou os pais, atirou no marido, abandonou os filhos, enlouqueceu e levou homens ao suicídio, mentiu, arruinou vidas, envenenou e destruiu corpos e almas.

Jane Seymour como Cathy
Jane Seymour como Cathy

John Steinbeck escreveu um dos melhores romances da literatura norte-americana, e um dos meus preferidos: A Leste do Éden. Esta é uma história rica em simbolismo, que descreve o crescimento da nação americana e do culto ao individualismo, e explora emoções humanas universais, como o ciúme, a busca pela aceitação, a culpa, a luta pela liberdade e a capacidade de auto-destruição do homem. Também tem alguns dos personagens mais fascinantes já criados. Além da própria Cathy, meus dois personagens preferidos: Samuel Hamilton e Lee, dos quais já falei aqui.

Steinbeck aprofundou-se no tema de Caim e Abel e criou a saga de duas famílias, os Trask e os Hamiltons. Curiosamente, baseou os Hamiltons em sua própria família, descreveu sua mãe Olive e até incluiu a si mesmo na narrativa, como o menino John. Cathy é o símbolo do mal, do egoísmo e da depravação. Se é para escolher um vilão preferido, sem dúvida ela é um dos melhores. O próprio Steinbeck fala sobre Cathy:

“Cathy tem enorme poder sobre as pessoas porque ela simplificou as fraquezas alheias e não tem consciências da força e da bondade dos outros. A única pessoa que vocês não compreenderão neste livro é Cathy, pois vocês não a conhecem. Cathy às vezes diz a verdade… Você pode acreditar em suas mentiras, mas quando ela diz a verdade, ninguém acredita.

Por que Adam não escuta Cathy quando ela diz que vai deixá-lo? Não sei. Os homens não escutam o que não quwerem ouvir. Sei que eu não o fazia e creio que todos os homens são assim -todos os homens. Devo enfatizar isto claramente. Adam tem uma imagem de sua vida e continuará mantendo essa imagem, apesra de todas as influências, até que seu mundo desmorone. Sei que isso é verdade.”

Cathy foi inspirada na segunda mulher de Steinbeck, Gwyn Conger. Vinte anos mais nova que ele, ela bebia demais (Cathy não podia beber, pois falava a verdade e perdia o controle sobre si mesma), era preguiçosa, flertava e era adúltera, e por fim abandonou John e seus dois filhos. Cathy foi interpretada por Jo Van Fleet em Vidas Amargas (1955) e por Jane Seymour na minissérie de TV (1981).

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Veja aqui o post de hoje do Happy Batatinha, com os links para os outros participantes do Meme.

John Steinbeck na Wikipedia (inglês)

The woman on East of Eden: focus on Cathy - Oprah.com

Publicado em Novembro - 24 - 2010

24 - Meme literário - uma citação de livro que gosto

Dia 24 - Uma citação de livro que eu gosto

Vou voltar mais uma vez a um dos meus livros preferidos: A Leste do Éden. Nesta passagem temos Samuel, Lee e Adam conversando e discutindo uma passagem do Gênese, a história de Caim e Abel, quando Lee comenta que esteve analisando aqueles 16 versículos e ficou intrigado com uma palavra:

“-Lembra-se de quando nos leu os 16 versículos do quarto capítulo do Gênesis e discutimos o assunto?

-Lembro nitidamente, embora tenha sido há muito tempo.

-Há quase 10 anos. Pois a história me causou uma profunda impressçao e passei a analisá-la, palavra por palavra. Quanto mais pensava, mais profunda a história me parecia. Comparei as traduções que temos e são bastante parecidas. Havia apenas um trecho que me perturbava. A versão do rei James é diferente. Ao perguntar a Caim por que está furioso, Jeová diz: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta, seu desejo será contra ti, mas haverás de dominá-lo”. Foi esse “haverás” que me impressionou, pois era uma promessa de que Caim dominaria o pecado.”

Depois Lee conta que procurou os sábios chineses de sua comunidade para discutir a questão; os velhinhos se puseram a estudar hebraico para ler o texto original, e descobriram algo interessante e importante. O texto original dizia “Poderás dominar o pecado”.

“-É uma história fantástica - disse Samuel - Tentei acompanhá-la, mas talvez tenha me perdido em algum ponto do caminho. Por que essa palavra é tão importante?

A mão de Lee tremeu, enquanto ele tornava a encher os pequenos e delicados copos.

-Será que não percebe? A tradução da Bíblia Americana ordena que os homens triunfem sobre o pecado e se pode chamar o pecado de ignorância. A tradução do rei James faz uma promessa em “Haverás”, indicando que os homens inevitavelmente triunfarão sobre o pecado. Mas a palavra hebraica é “Poderás”, o que representa uma opção. Pode ser a palavra mais importante do mundo. Mostra que o caminho está aberto. E se volta contra o homem. Pois se “Poderás”, também é verdade que “Não poderás”. Não está percebendo?

-Agora, estou. Mas você não acredita que seja uma lei divina. Por que acha então que é tão importante?

-Há muito tempo que estou querendo lhe dizer isso. Até previ suas perguntas e estou devidamente preparado.Qualquer escrito que influenciou a vida de incontáveis pessoas é importante. Há milhões de pessoas em seitas e igrejas que aceitam como ordem: “Cumpre a ti”. Com isso, recaem na obediência. Há outros milhões que sentem a predestinação em “Haverás”. Nada do que façam poderá interferir com o que serão. Mas “Poderás”! Ora, isso faz com que um homem seja grande, proporciona semelhança com os deuses, pois, em sua fraqueza, corrupção e assassinato do irmão ele ainda tem a possibilidade da grande opção. Ele pode escolher seu curso, lutar até o fim e triunfar. “

*     *     *

A palavra hebraica é “Timshel”. Talvez seja mesmo a palavra mais importante do mundo, pois nos concede o maior presente que recebemos, além da vida: o livre arbítrio. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, e livres para fazê-las. Podemos ser grandes ou mesquinhos, generosos ou egoístas, podemos viver mil vidas diferentes e só nós escolhemos o que fazer, ainda que não pareça assim. E só nós pagaremos o preço de nossas decisões.

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Ficha:

A Leste do Éden (East of Eden, 1952)

John Steinbeck

1ª edição - 2005 - Ed. Record

Compre o livro na Livraria Cultura

Publicado em Novembro - 17 - 2010

17 - Meme literário - uma personagem que eu gostaria de chamar de meu (amigo)

Dia 17 - Uma personagem que eu gostaria de chamar de meu (amigo)

Na verdade, a proposta para este dia era uma personagem para chamar de meu… mas como sou uma senhôura respeitável, vou indicar dois personagens com quem gostaria de bater longos papos.

São dois personagens do mesmo livro, que não por acaso é um dos meus livros preferidos: A Leste do Éden, de John Steinbeck.

Samuel Hamilton e Lee são amigos e responsáveis pelos diálogos mais instigantes e deliciosos do livro.

Samuel é o patriarca de uma família numerosa e afetuosa. Homem sonhador e apreciador da filosofia, ele ensinou a seus filhos o valor do pensamento livre e dos laços de família, enquanto sua esposa Liza mantinha os pés de todos firmes no chão. Como era de se esperar, a família nunca conheceu a prosperidade, mas manteve-se unida pelo amor a Samuel. A personagem foi baseada em Samuel Hamilton, avô materno de John Steinbeck.

Lee é o cozinheiro chinês de Adam Trask, e após uma grande tragédia familiar torna-se o responsável pela criação dos gêmeos Aaron e Caleb, e pelo bem-estar físico e emocional de todos. Como na época havia muito preconceito com os chineses, Lee usava a estratégia de manter-se ‘invisível’ perto de pessoas preconceituosas, apenas usando o sotaque e modos subservientes. Mas era uma alma elevada, inteligente e sensível.

Lee e Hamilton se reconhecem como almas iguais e tornam-se amigos, unidos pela tragédia da família Trask. Enquanto discutem sobre os nomes que deveriam dar aos gêmeos, analisam a história de Caim e Abel, que é o tema subjacente a diversas histórias deste romance.

“Um dos gêmeos acordou, bocejou, olhou para Lee e voltou a dormir. Lee disse:

- Está lembrado, Sr. Hamilton, que eu lhe falei que ia traduzir alguma poesia chinesa antiga para o inglês? Não, não se preocupem. Não vou ler. Mas, trabalhando na tradução, descobri que algumas coisas continuam tão claras e vigorosas como esta manhã. E fiquei pensando por quê. É claro que as pessoas estão interessadas apenas em si mesmas. Se uma história não for a respeito do ouvinte, ele não a escutará. E aqui faço uma regra: uma história grande e duradoura é sobre todos ou não vai sobreviver. O estranho não é interessante, mas apenas o que é essencialmente pessoal e familiar.

- Aplique isso à história de Caim e Abel - disse Samuel.

Adam acrescentou:

-Não matei meu irmão…

Ele parou de falar abruptamente e seus pensamentos voltaram vertiginosamente no tempo.

-Acho que posso perfeitamente fazê-lo - disse Lee, respondendo a Samuel. - Creio que se trata da história mais conhecida do mundo porque é a história de todos. Acho que é a história que simboliza a alma humana. Esrtou agora procurando meu caminho… não me pressionem se não for muito claro. O maior terror que uma criança pode ter é a possibilidade de não ser amada. A rejeição é o inferno que teme. Acho que todas as pessoas do mundo, em grau maior ou menor, já experimentaram  a rejeição. E com a rejeição vem a ira, com a ira vem alguma espécie de crime em vingança, com o crime vem a culpa… e aí está a história da humanidade. Acho que se a rejeição pudesse ser eliminada, a humanidade não seria o que é. Poderia haver menos loucos. Tenho certeza de que não haveria tantas cadeias. Está tudo aí, o ponto de partida, o começo. Se uma criança vê recusado o amor por que anseia, chuta o gato e oculta sua culpa secreta. Outra rouba para que o dinheiro a torne amada. Uma terceira conquista o mundo. E sempre se encontra a culpa, a vingança e mais culpa. O ser humano é o único animal culpado.”

Digam, não dá vontade de bater longos papos com eles?

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A Leste do Éden na Wikipedia

10 livros em 10 dias - A Leste do Éden

Veja os links dos outros participantes no dia 17 no Blog da Happy Batatinha.

Ficha:

A Leste do Éden (East of Eden, 1952)

John Steinbeck

1ª edição - 2005 - Ed. Record

Compre o livro na Livraria Cultura

Publicado em Novembro - 03 - 2010

03 - Meme literário - melhor livro dos últimos 12 meses

Dia 3 - O melhor livro que eu li nos últimos 12 meses

Este ano não li tanto quanto gostaria, por conta do excesso de trabalho e coisas que me arrumo pra fazer. Estou tentando acompanhar o Desafio Literário, e mesmo com atrasos, estou conseguindo. E o melhor livro que li este ano foi o mais recente do Desafio.

As Vinhas da Ira é um dos romances mais famosos de John Steinbeck, que lhe deu o Prêmiio Pulitzer e teve grande peso na sua escolha para o Nobel de Literatura. E foi merecido.

A história conta a saga da famíilia Joad, que migra para a Califórnia no final da década de 1930, em meio à Grande Depressão, tentando conseguir trabalho e quem sabe, uma vida melhor. O livro é muito bem escrito, intercalando a narrativa com capítulos em que o autor escreve sobre o tema principal, e nos dá um panorama melhor da situação daquela gente naquela época difícil.

Também é de Steinbeck um dos meus livros preferidos: A Leste do Éden, e depois de dois livros ótimos já percebi que quero ler os outros romances dele.

Para saber mais sobre o livro e o filme, leia a resenha de As Vinhas da Ira aqui no Rato.

Veja os links dos outros participantes no dia 3 no Blog da Happy Batatinha.

Ficha:

As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath) - 1939

John Steinbeck

2001 - Ed. Record

Compre o livro na Livraria Cultura

Publicado em Outubro - 30 - 2010

As Vinhas da Ira

(capa da primeira edição)

(capa da primeira edição)

Na época da Grande Depressão nos EUA, uma família de agricultores rendeiros abandona suas terras em Oklahoma e parte para a Califórnia em busca de emprego e uma vida melhor. Como milhares de pessoas que partiram em busca do mesmo sonho, eles encontraram miséria, desemprego e fome. Esta história que retrata as dificuldades de milhares de emigrantes, representados na família Joad, deu a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940.

O romance começa quando Tom Joad volta para casa depois de cumprir pena por matar um rapaz em uma briga. Ele encontra sua família pronta para partir para a Califórnia, pois a seca prolongada (o Dust Bowl, tempestades de areia causadas pelo esgotamento e desertificação do solo, e que duraram quase dez anos na década de 30) e a incapacidade de manter a fazenda, agora controlada pelos bancos como muitas outras da região, os forçaram a emigrar.

(Agricultor com os dois filhos durante uma tempestade de areia, no condado de Cimarron, Oklahoma, em 1936 - Foto: Wikipedia)

Eles carregam suas poucas coisas no velho caminhão e partem, atravessando o país pela Rota 66: O Pai, a Mãe, os filhos Tom, Noah, Al, a filha grávida Rosa de Sharon  e seu marido Connie, as crianças Ruthie e Winfield, o tio John, o Avô, a Avó e o ex-pregador Jim Casy, além de um velho cão da família.

A viagem é longa e difícil, e o grupo de treze pessoas e um cão vai sofrendo baixas pelo caminho. Ao chegarem à ilusória Terra Prometida, em vez de um grande pomar com frutas e empregos fartos, eles encontram um cenário desolador: milhares de outras famíias lutando para conseguir os poucos empregos disponíveis, o desprezo e perseguição por parte da polícia e os moradores locais, e a exploração dos patrões, que pagavam cada vez menos por causa do excesso de oferta de mão de obra.

Mesmo com a decepção, a Mãe luta pra manter a família unida e a não deixar que os ânimos se alquebrassem. Com dificuldades cada vez maiores, Mãe e Tom são as personalidades fortes e os lutadores, cada qual ao seu modo. Como na vida, cada um reage de forma diferente à adversidade e na família Joad também é assim: há os que abandonam o barco por não se sentirem com força para enfrentar a luta ou para não sobrecarregar a família, os que enfrentam tudo com coragem e amor, os que amadurecem no processo, e os que enfrentam seus demônios particulares, mesmo sem querer.

A personagem mais marcante é a Mãe; mesmo sem ter um nome na narrativa, ela é uma mulher forte, cuja iniciativa começa a se manifestar quando ela percebe que o Pai estava se deixando levar pelo desânimo e decepção, e que precisaria agir para manter a família unida. Depois de perderem tudo, a família era só o que restava aos Joad. E Mãe, com sua filosofia simples e prática, vai  conduzindo a  família e fazendo o melhor que pode.

“_… Engraçado! A mulher tomando conta da família. A muher dizendo que vai fazer isto e mais aquilo, e que a gente deve ir pra lá ou pra cá. E eu nem ‘tou ligando a isso.

- Mulheres se acostumam mais depressa que os homens - disse Mãe com suavidade. - Uma mulher tem a vida toda nos braços, o homem tem ela na cabeça. Não te preocupa. Quem sabe?… quem sabe? Para o ano a gente terá uma fazendinha.

- Mas por enquanto não temos nada - disse Pai. - E agora vem o inverno, vem uma porção de tempo que não se pode trabalhar. Que é que a gente vai fazer? E não demora chega o dia da Rosasharn. ‘Tou tão desgostoso que nem posso mais pensar. Me afundo nos tempos antigos pra não pensar no futuro. Acho que a nossa vida já se foi, é coisa passada.

- Nada disso - sorriu Mãe. Não é não, Pai. E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. O homem vive saltando degraus… nasce uma criança e more um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida… Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e pequenas cachoeiras, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua… muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme.”

As Vinhas da Ira mostra de maneira contundente o caos e miséria que se instalaram por causa da Depressão e do controle da economia pelos bancos; o desemprego, os preços cada vez mais altos, a destruição de alimentos para manter os preços altos, um círculo vicioso que trouxe cada vez mais tragédia aos milhares de pessoas que tentavam sobreviver a cada dia: famílias inteiras trabalhando (quando o conseguiam) por alguns cents, que mal davam para comprar o jantar.

Como de costume, Steinbeck intercala a narrativa com capítulos em que discorre sobre o tema do livro, mostrando o cenário mais amplo e levantando questões que nos fazem pensar. No cap. 24 ele fala sobre a fartura da Califórnia, fruto do trabalho de técnicos e especialistas para produzir frutas cada vez melhores, e como o custo da produção, da mão de obra e das dívidas aos bancos faz com que os pequenos proprietários destruam boa parte da produção para manter os preços altos, até que por fim, percam suas propriedades para o banco. Enquanto isso, milhares morrem de fome.

“Os pequenos fazendeiros observam como as dívidas se aproximam deles, insensivelmente, como o crescer da maré. Borrifaram as árvores, sem vender a colheita, têm podado e enxertado, e não puderam recolher as frutas (…) Este pequeno pomar, no ano que vem, pertencerá a uma grande companhia, pois o proprietário será sufocado pelas dívidas.

As obras feitas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços em alta. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carroçadas de laranjas são atiradas ao chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar as frutas, mas agora não podia ser.. (…)

O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas no

chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de ca viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima.”

Nos últimos capítulos do livro paira no ar a posisbilidade de uma revolta dos homens famintos e explorados, que não chega a se concretizar. Mas permanece a sugestão, como única alternativa possível para a situação cada vez pior daqueles pobres diabos. Fugindo de suas terras, encontraram o desprezo dos californianos, que os chamavam de “okies imundos”, perseguiam as crianças que eram mandadas à escola, expulsavam-nos dos acampamentos “Hooverfield”, negavam-lhes empregos e um salário digno. A ira estava prestes a explodir.

O pregador Jim Casy, desesperançado no começo da história, depois de observar as pessoas e muito conversar, acaba por descobrir que a miséria era a causadora de todos os males e que a única solução seria a união do povo, que apenas juntos eles conseguiriam alguma coisa. Não por acaso, ele termina abatido pelos abafa-greves e suas últimas palavras são “Vocês não sabem o que estão fazendo”.

Tom Joad, fugitivo depois de matar o camarada que matou Casy,  pensa e medita em seu esconderijo e percebe que “não presta isso de alguém estar sozinho no mundo”. Quando a Mãe lhe pergunta como vai saber se ele está bem, como terá notícias suas depois que ele se for, Tom responde:

” _Bem, pode ser que o Casy acertou quando diss’que a pessoa não tinha alma própria, mas só parte duma alma grande… e aí…

-Aí o quê, Tom?

- Aí, isso tudo não tem importância. Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar  à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um polícia ‘teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente ‘teja berrando de raiva…. e estarei onde crianças ‘tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu… aí eu também estarei presente. Sabe, já ‘tou falando direitinho como o Casy. É porque vivo pensando nele. Às vezes, até parece que ‘tou vendo ele.”

O livro causou grande impacto na época de sua publicação, em 1939. Ele foi banido, queimado, discutido, mas principalmente, lido. Steinbeck foi atacado e acusado de propaganda esquerdista e de ter exagerado a situação dos migrantes. Os maiores ataques vieram da Associação dos Fazendeiros da Califórnia. Ainda assim, apesar das acusações de exagero o escritor fez o oposto, suavizando as condições reais, que eram bem piores que as descritas no romance. Muitas das referências políticas e socialistas presentes no filme de John Ford estão ausentes do livro. Na verdade, tanto Steinbeck quanto Ford tiveram de prestar depoimento à Comissão de Assuntos Americanos da era McCarthy por suspeitas “pró-comunistas”.

As Vinhas da Ira, além de dar a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940, foi um dos principais motivos para o comitê do Prêmio Nobel conceder a ele o Nobel de Literatura de 1962. O livro é considerado sua obra-prima e um clássico da literatura norte-americana do século XX, e é lido e estudado nas escolas de segundo grau e universidades dos EUA.

Filme

O filme de 1940, dirigido por John Ford (que ganhou o Oscar de Direção), está em nº 7 na lista dos 100 Filmes mais Inspiradores de todos os tempos e em nº 23 na lista dos Melhores Filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute.

O começo do filme é bem fiel ao livro, contudo a segunda metade é um pouco diferente, e a controversa cena final do livro em que Rosa de Sharon, que havia dado à luz um natimorto, amamenta um homem que estava morrendo de fome, não foi incluída no filme por causa dos rígidos códigos de censura da época.  Como de costume, o filme deixa de lado detalhes da narrativa, personagens secundários, altera a ordem de alguns fatos por causa da modificação no final, mas ainda assim é uma obra-prima.

John Steinbeck adorou o filme e disse que ver Henry Fonda como Tom Joad o fez “acreditar em minhas próprias palavras“.  Jane Darwell, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está excelente como Ma Joad e transmite a coragem e a determinação da mulher que luta para   manter a família unida. O filme também é estrelado por Henry Fonda, indicado ao Oscar de Melhor Ator e John Carradine, como o ex-pregador Jim Casy.

A fotografia em preto e branco aproveita bem as cenas noturnas, dando destaque ao rosto dos personagens. A pobreza é bem visível, ainda assim é menos chocante que as descrições do livro e, segundo o produtor David Selznick, não tão ruim quanto a situação real dos migrantes, que foi ver de perto antes da produção do filme. Ironicamente, a exibição do filme foi proibida na então União Soviética por Joseph Stalin, que não gostou que o filme mostrasse que “até os americanos mais pobres podiam ter um automóvel” - o que, segundo ele, era mentira.

Curiosamente, o trailer do filme (veja no final do artigo) mostra mais o sucesso do livro e a compra dos direitos de filmagem que o próprio filme. Mesmo tendo sido indicado ao Oscar, perdeu para E o Vento Levou. Para corrigir a injustiça, no ano seguinte John Ford foi premiado pelo não tão brilhante “Como era Verde o meu Vale”. Coisas da Academia…

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Este artigo faz parte do Desafio Literário 2010 pelo mês de Setembro (OK, antes tarde do que nunca), cujo tema foi Romance Histórico. Para ver as outras resenhas de Setembro no Desafio, clique aqui. E não deixe de ler este livro e ver o filme, ambos são excelentes!

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Para saber mais:

Mais Henry Fonda no Rato de Biblioteca:

Trailer - As Vinhas da Ira (1940)

Publicado em Junho - 04 - 2010

10 livros em 10 dias - A Leste do Éden

A Diana me convidou para um desafio, proposto pela Luana, do blog Partes de um Diário: citar (não ler) dez livros em dez dias, segundo os critérios abaixo:

1° dia - Livro que você mais gostou;
2° dia - Livro que você mais odiou;
3° dia - Livro mais barato que você comprou;
4° dia - Livro mais caro que você comprou;
5° dia - Livro que mais te fez ter a atenção nele;
6° dia - Livro que menos te fez ter a atenção nele;
7° dia - Livro que você mais recomenda;
8° dia - Livro que você menos recomenda;
9° dia - Série de livros que você mais gosta e;
10° dia -Livro mais velho que você tem ou leu.

Achei a ideia boa, e decidi participar. Os blogs que também estão participando do desafio são:

- Luana (Partes de um Diário)

- Diana (Mundinho Extraterrestre)

- Laura (Laurices)

- Pâm (Garota It)

- Tathy (Eu sou assim…)

- Tábata (Happy Batatinha)

- Carol (Garota que lê)

- Kézia (O Fantástico Mundo da Arte)

- Luciana Naomi (Batata Transgênica)

- Karine (Caderninho da Tia Helô)

- Mica (Esperando o Esperado)

- Diana Pádua (Midiamorfose)

- Prof. Sérgio Jr (Blog do Prof. Sérgio Jr)

- Elaphar (Casa da Bilbiophilia)

Se você quiser participar também, fique à vontade (e me avise para que eu inclua seu nome e link na listinha). E vamos lá:

Dia 1 - Livro que mais gostei:

A Leste do Éden - John Steinbeck

Entre os meus livros preferidos, esse foi o que mais gostei. A ideia aqui não é fazer uma resenha, mesmo porque este é um livro que merece uma resenha caprichada, que ainda pretendo fazer.

Mas vamos a um resuminho: John Steinbeck conta a história de duas famílias, os Trask e os Hamilton. Tendo como cenário o Vale de Salinas, na Califórnia do início do século 20, seus personagens buscam a redenção de seus fantasmas interiores e a sobrevivência em um mundo em rápida mudança.

Samuel Hamilton, imigrante irlandês e patriarca de uma família numerosa, é um homem sonhador mas sensível, cujo bom senso norteia as decisões da família e amigos. Por algumas circunstâncias ele torna-se amigo de Adam Trask, ex soldado que emigrou da costa leste para a Califórnia para começar uma vida nova com sua esposa Catherine, mulher complicada e um “monstro”, segundo o narrador John, pois lhe falta  o sentido de bem e mal, e também consciência moral.

A partir da segunda metade do livro a história revive o drama de Caim e Abel através dos filhos de Adam, Caleb e Aaron. Esta parte do romance foi levada às telas no excelente filme de Elia Kazan, Vidas Amargas (1955), com James Dean no papel do torturado Caleb.

Mas meus personagens preferidos são Samuel e o chinês Lee, criado e amigo de Adam. Os diálogos entre eles são as partes mais deliciosas do livro, e nos fascinam pela mistiura de bom senso, curiosidade e filosofia. Imperdível!

Apesar de ter recebido o Nobel de literatura por As Vinhas da Ira, Steinbeck considerou que a Leste do Éden foi sua maior obra. Ele disse: “(o livro) tem tudo o que eu aprendi em minha profissão durante todos estes anos. (…) Tudo o mais que escrevi foi, de certa forma, uma prática para isto”.

Um ótimo livro, que adorei e recomendo!

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