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Flores de Aço

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(Steel Magnolias, 1989)

A história de seis amigas em uma cidadezinha do interior da Louisiana, contada entre aniversários, casamentos, natais, páscoas, nascimentos e funerais, é mais que apenas um “filme mulherzinha”. Ótimas interpretações, diálogos divertidos e um elenco de primeira fazem deste um dos melhores filmes da década de 80.

O filme começa com o casamento de Shelby (Julia Roberts) e Jackson, e durante os preparativos da festa conhecemos as outras personagens: M’Lynn (Sally Field), mãe de Shelby e mais dois rapazes; as vizinhas Clairee (Olympia Dukakis), ex primeira-dama da cidade, divertida e simpática, e seu oposto, a mal-humorada Ouiser (Shirley MacLaine).

Todas elas frequentam o salão de beleza de Truvy (Dolly Parton, sempre simpática), que acaba de contratar Annelle (Daryl Hannah), uma moça recém-chegada à cidade. Entre bobes, tinturas e pedicures há espaço para fofocas, conversas sérias, confidências e momentos de descontração.

Truvy: Não gosto dela. Não confio em alguém que enrola o próprio cabelo. Isso não é natural.”

Shelby é diabética, e o médico a aconselhou a não ter filhos, pois uma gravidez seria um grande risco à sua saúde. Ainda assim, ela fica grávida. Jack Jr nasce sem problemas e é uma criança saudável, mas a saúde de Shelby deteriora-se rapidamente.

“Shelby: Eu serei muito, muito cuidadosa, não vou desapontar nem muito menos incomodar ninguém.
M’Lynn: Com certeza não o Jackson.
Shelby: Você está com ciúme, porque não pode mais me dizer o que fazer, e isso a deixa maluca. Você está brava porque não pode mais mandar em mim.
M’Lynn: Não criei minha filha para falar comigo desse jeito.
Shelby: Sim, criou.

M’Lynn: Não, não criei.
Shelby: Sempre que um de nós perguntava o que você queria para nós quando crescêssemos, o que você dizia?
M’Lynn: Shelby,não estou a fim de joguinhos.
Shelby: Só diga o que você costumava dizer, mamãe, o que você dizia?
M’Lynn: A única coisa que eu dizia para vocês, é que eu queria que fossem felizes.
Shelby: Certo, então a única coisa que me faria feliz é ter um bebê . Se eu pudesse adotar eu o faria, mas não posso. Vou ter este bebê, e queria que também estivesse feliz.
M’Lynn: Vou lhe dizer o que eu queria. Droga, eu não sei o que eu queria.
Shelby: Mamãe, não sei por que tem de tornar as coisas tão difíceis. Ter um bebê é a chance da minha vida. Claro que há riscos envolvidos, mas é assim com todo mundo. Mas vamos conseguir e a vida continua. E no final haverá um pedacinho de imortalidade com a beleza de Jackson e o meu senso de estilo, espero. Por favor, preciso do seu apoio. Prefiro ter meia hora de maravilha a uma vida inteira sem nada de especial. “

Nos momentos difíceis de suas vidas, essas seis mulheres contam com o apoio umas das outras, e o filme é repleto de momentos intensos, demonstrações de carinho e amizade, diálogos ácidos e divertidos, cenas que nos fazem rir e chorar ao mesmo tempo.

Clairee: É como eu sempre digo… se não consegue pensar em algo de bom para falar de uma pessoa, sente-se aqui do meu lado.”

Julia Roberts, em um de seus primeiros papéis no cinema, tem um desempenho acima da média e mostra que é uma boa atriz; pena que mais adiante em sua carreira, tenha escolhido papéis que não valorizam tanto seu talento como este aqui. Sally Field atua de maneira impecável com o sotaque sulista que usaria mais tarde em Forrest Gump, e as cenas entre Olympia Dukakis e Shirley MacLaine são divertidas e deliciosas.

Entre as seis atrizes principais, temos doze indicações e cinco vencedoras do Oscar. Apenas Daryl Hannah e Dolly Parton não ganharam nenhum Oscar, mas Dolly foi indicada ao Oscar de melhor canção por Nine to Five, de Como Eliminar Seu Chefe, e  Travelin’ Thru, do filme Transamerica.

O filme, dirigido por Herbert Ross, é baseado na peça de teatro de Robert Harling, que também escreveu o roteiro e aparece no filme como o pastor que celebra o casamento de Shelby.  A peça foi baseada nos três últimos anos de vida de sua irmã Susan, que queria ajudá-lo a ser um escritor de sucesso, mas não sabia como. De certa forma, ela o ajudou, pois depois da estréia da peça, Robert tornou-se um escritor conhecido e escreveu os roteiros de O Clube das Desquitadas, Leis da Atração e da continuação de Laços de Ternura, O Entardecer de uma Estrela.

(Não resisti e coloquei a foto do bolo de tatu - com receita!)

(Não resisti e coloquei a foto do bolo de tatu - com receita!)

Este é um dos meus filmes preferidos, e também era de minha mãe, que morreu pouco tempo depois de o assistirmos pela primeira vez. Não por acaso, o conflito natural entre mãe e filha, além da amizade feminina, são os temas principais do filme.

Se você ainda não o viu, recomendo; entre tantos filmes feitos para o público feminino, este é uma ótima escolha, e agradará não só às mulheres. E se já o viu, que tal assistir de novo? ;-)

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Flores de Aço - trailer

A Lista de Schindler

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“Aquele que salva uma só vida salva o mundo inteiro.” (provérbio Talmúdico)

Oskar Schindler foi um empresário alemão sudeto durante os anos da II Guerra Mundial; aproveitando as oportunidades comerciais dos tempos de guerra, ele entrou para o Partido Nazista, fez amizade com diversos oficiais e conseguiu comprar uma fábrica falida de esmaltados. Mais tarde ele usaria sua posição e influência para salvar a vida de mais de 1200 judeus. Sua história é contada no livro “A Lista de Schindler” (originalmente Schindler´s Ark) do escritor australiano Thomas Keneally, e mais tarde levada às telas por Steven Spielberg.

Oskar e sua esposa Emilie em 1946

A fábrica de esmaltados de Oskar ficava em Cracóvia, na Polônia, e a princípio seus funcionários moravam no recém-criado Gueto de Cracóvia. Após o desmantelamento do gueto em uma ação violenta dos nazistas, os judeus sobreviventes foram levados para o campo de prisioneiros de Plaszóvia, comandado pelo nazista Amon Goeth. Cruel e sociopata, Goeth costumava atirar em prisioneiros sem motivo. Execuções sumárias e espancamentos eram comuns.

Bon vivant, mulherengo e astuto, a princípio Oskar usou seu carisma e habilidades sociais para construir sua carreira de empresário de sucesso. Empregar trabalhadores judeus era um bom negócio nos primeiros anos da guerra, e ele o fez. Mesmo assim, ele repudiava a ideologia e os métodos usados pelos nazistas. Mais tarde, quando percebeu o rumo que as coisas estavam tomando e conheceu as condições em que os judeus tentavam sobreviver, ele empenhou-se cada vez mais para salvá-los. Ao presenciar a Aktion dos nazistas no gueto,  Schindler tomou sua decisão.

“A infâmia de homens nascidos de mulheres e que tinham de escrever cartas para suas famílias (o que diziam nessas cartas?) não era o pior aspecto do que Schindler presenciara. Sabia que eles não tinham vergonha alguma do que estavam fazendo, pois o guarda na retaguarda da coluna não vira necessidade de impedir a garotinha de vermelho de assistir a toda a cena. Mas o pior era que, se não havia a menor vergonha, isso significava sanção oficial. Ninguém mais podia encontrar segurança na idéia de cultura alemã, nem nos pronunciamentos de líderes, que condenavam homens anônimos por terem ultrapassado seus limites, ou por olharem pelas janelas de seus escritórios para a realidade na rua. Oskar tinha visto na Rua Krakusa uma prova da política de seu governo, que não podia ser justificada como uma aberração temporária. Acreditava que os SS estavam cumprindo as ordens de seu líder pois, do contrário, o colega na retaguarda da coluna não teria deixado uma criança assistir à cena.

Mais tarde, nesse dia, depois de ter ingerido uma dose de conhaque, Oskar compreendeu o teorema em seus termos mais claros. Eles permitiam testemunhas, testemunhas tais como a garotinha de verme lho, porque julgavam que as testemunhas iam todas também perecer. (…)

Bem mais tarde, em termos nada característicos do jovial Herr Schindler, o conviva predileto das festas de Cracóvia, o perdulário de Zablocie, isto é, em termos que revelavam - por trás da fachada de playboy - um juiz implacável, Oskar tomou naquele dia uma decisão da qual não mais se afastaria. “A partir daquele dia”, diria ele mais tarde, “ninguém, com capacidade de raciocinar, poderia deixar de ver o que iria acontecer. E agora eu estava resolvido a fazer tudo em meu poder para derrotar o sistema.”"

A vida dos trabalhadores da fábrica de esmaltados ‘Emalia’ era segura, ao menos por enquanto. Uma sopa substanciosa todos os dias e a esperança de sobrevida eram melhores que nada; quando Schindler conseguiu construir seu “sub-campo” junto à fábrica e levou seus funcionários para lá, as coisas ficaram um pouco melhores, sem a presença de Amon Goeth.

“O clima era de frágil estabilidade. Não havia cães. Nem espancamentos.

A sopa e o pão eram melhores e com mais fartura do que em Plaszóvia - cerca de 2.000 calorias por dia, de acordo com um médico que  trabalhava como operário na Emalia. Os turnos eram prolongados, freqüentemente de doze horas, pois Oskar continuava sendo um homem de negócios com contratos de fornecimento de material bélico e o desejo convencional de lucro. Contudo, é preciso dizer que o trabalho não era árduo e que muitos dos seus prisioneiros pareciam ter acreditado na ocasião que aquela atividade era uma contribuição em termos comensuráveis para a sua sobrevivência. “

Em 1944, com a decisão de fechar o campo de Plaszóvia e por consequência, o sub-campo da Emalia, devido ao avanço das tropas russas, o destino dos prisioneiros seria o campo de extermínio de Auschwitz. Oskar usa de toda a sua influência, contatos e suborno para conseguir transferir sua fábrica para Brnenec, na Tchecoslováquia. Para isso, ele precisaria levar seus trabalhadores ‘altamente especializados’ e apenas as pessoas cujos nomes estivessem na lista poderiam seguir para a nova fábrica. Estar na lista significava a vida, e o contrário era a morte certa nos campos.

Esbanjador, Oskar gastava rios de dinheiro em presentes para subornar autoridades, na compra de alimentos para seus funcionários e no que fosse necessário para manter seu esquema de salvamento dos judeus em funcionamento. No final da guerra, ele partiu sem um tostão e por fim, viveu de favores dos amigos e protegidos, os Schindlerjuden que ele havia salvo da morte.

Schindler não fez nada de notável antes nem depois da guerra; mas seus atos durante esses anos terríveis fizeram a diferença para mais de um milhar de vidas. Seus Schindlerjuden o ajudaram e homenagearam durante o restante de sua vida e, ao falecer em 1974, ele foi enterrado em Jerusalém, conforme seu desejo.

Thomas Keneally foi convencido a escrever essa história por Poldek Pffefenberg, um dos sobreviventes da lista, em cuja loja de malas Keneally parou para fazer compras. Após uma longa conversa ele convenceu o escritor, que passou os dois anos seguintes pesquisando e entrevistando sobreviventes,  a contar a história de Schindler.

Apesar de ser uma narrativa de romance, o livro é um ‘romance de não-ficção’; a história é contada com base em diversos depoimentos dos sobreviventes, e nada do que não pôde ser comprovado entrou para o livro. Todos os nomes e acontecimentos são verdadeiros, e Oskar é retratado como era, com todos os defeitos e peculiaridades. A narrativa flui muito bem, e mesmo com tantos detalhes não é um livro cansativo, especialmente do meio para o fim, quando acompanhamos com ansiedade o destino daquelas pessoas e nos revoltamos com as atrocidades cometidas em tempos de guerra.

Felizmente para os 1200 judeus de Schindler, para eles a história teve um bom final. Como eles diziam, “uma hora de vida é ainda vida”. Mas isso não evita a indignação por tudo o que aconteceu, e que esperamos nunca venha a acontecer novamente. Este é um relato honesto e humano de um dos poucos episódios bonitos em meio a tanta crueldade e desprezo pela vida.

O Filme

O livro foi lançado em 1982, e apesar de ter os direitos de filmagem e assumir a produção, Spielberg realizou este filme apenas em 1993, pois não se achava preparado para contar uma história tão importante sendo tão jovem na época. Ele queria entregar a direção a outra pessoa, mas acabou sendo convencido a dirigir o filme, pelo qual não aceitou pagamento algum.

O filme, em preto-e-branco, teve uma produção caprichada e atuações impressionantes tanto de estrelas como Liam Neeson (Schindler), Ben Kingsley (Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (Amon Goeth), quanto de atores pouco conhecidos que interpretam com talento e dignidade os sobreviventes da lista.

Com este filme Spielberg finalmente foi reconhecido pela Academia e recebeu seu primeiro Oscar de direção. O filme também recebeu o prêmio de Melhor Filme, em um total de 7 Oscars.

Com a bela música de John Williams, o filme termina com os verdadeiros sobreviventes da lista levando pedras ao túmulo de Schindler. Emocionante. Uma verdadeira obra-prima do cinema, que nos desperta emoções diversas e nos faz pensar sobre a vida e a morte, e como a diferença entre elas pode ser pequena.

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Esta resenha faz parte do Desafio Literário 2010, cujo tema do mês de julho foi “Adaptação para o cinema”. Este mês só atrasei um pouquinho, e a leitura valeu a pena. Recomendo o livro e o filme, que apesar de contarem uma história intensa e triste, também nos lembram que não há bem ou mal isolados, e  como uma pessoa pode fazer a diferença.

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Trailer - Schindler´s List

Adaptação

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Quando o roteirista Charlie Kaufman foi convidado a adaptar para o cinema o romance The Orchid Thief, de Susan Orlean, ele se deparou com uma tarefa ingrata: apesar do livro ser interessante não havia história, trama, complicações, nada que servisse de base para um bom filme. Então, o Sr. Kaufman transformou um limão amargo em uma torta de limão deliciosa.

Charlie Kaufman: O livro não tem história. Não há história.

Marty: Certo. Então invente uma.”

Com sua conhecida criatividade, Charlie mostra o dilema do roteirista para criar o roteiro, e o filme é construído em camadas: flashbacks de Susan no processo de pesquisa para a reportagem da New Yorker que serviu de base ao livro, as agruras de Charlie Kaufman (Nicholas Cage) tentando espremer um roteiro de onde não havia nada, e o resultado visual do próprio roteiro que está sendo escrito.

Cage, gordinho e careca

A jornalista Susan Orlean (Meryl Streep) vai até a Flórida entrevistar John Laroche (Chris Cooper), acusado de roubar espécies raras de orquídeas com a ajuda dos índios seminoles. Durante as entrevistas, ela percebe como aquele homem estranho vivia movido pela paixão em tudo o que fazia, e quer saber como é se importar apaixonadamente por alguma coisa.

John viveu sempre motivado por alguma paixão; desde a criação de peixes tropicais até as orquídeas, cada interesse seu era cultivado até a exaustão, e depois abandonado sem motivo. Como Susan descreve em seu artigo, “a espiral de lógica e altruísmo e violação das regras em vista de um possível ganho financeiro é a especialidade de Laroche. Quando você percebe que ele é um pilantra, ele revela um motivo subjacente e nobre, mas também lucrativo, para sua pilantragem. Ele adora fazer as coisas do jeito difícil, se assim ele conseguir o que quer, e você fica pensando como ele conseguiu se safar. Ele é a pessoa amoral com mais moral que já conheci”.

Enquanto Charlie luta com seu roteiro, seu irmão gêmeo Donald (Nicholas Cage) resolve que vai tentar a carreira de roteirista e começa um curso com o famoso Robert McKee, o que Charlie diz que é inútil, pois os truques ensinados não garantem que ele escreverá um bom roteiro. Mesmo assim Donald começa a escrever um roteiro absurdo, “Os 3″, com todos os clichês do ramo.

Quanto mais Charlie se esforça para produzir um roteiro, somente consegue ficar fascinado por Susan Orlean e frustrado consigo mesmo. Charlie é inseguro e sem nenhuma auto-estima, enquanto Donald é extrovertido, descontraído e se dá bem com as garotas. Ironicamente, o roteiro de Donald é comprado por uma boa quantia enquanto o de Charlie continua empacado.

A partir do momento em que Charlie decide fazer o curso de McKee e pede ajuda a Donald, o filme muda completamente. A história fica mais ágil, e temos cenas de ação, perseguições, mistério, sexo, drogas e jacarés. O contraste entre os dois primeiros terços do filme e o terceiro ato é brilhante: não distinguimos o que é o roteiro original e o que é o roteiro escrito em conjunto entre Donald e Charlie; mas todos os truques baratos estão ali, inclusive um cascudo deus ex machina.

Valerie Thomas: Quem sabe Susan Orlean e Laroche poderiam se apaixonar, e…

Charlie Kaufman: Certo. Mas o que estou dizendo é, não quero nada de sexo ou armas ou perseguições de carros, sabe… ou personagens aprendendo lições profundas de vida ou amadurecendo ou gostando um do outro ou superando obstáculos e se dando bem no final. Quero dizer… o livro não é assim, e a vida não é assim. Apenas não é. E… tenho certeza disso.”

O filme mistura de forma brilhante realidade e ficção, personagens reais e fictícios; Charlie, Susan, Laroche e McKee são reais, enquanto Donald não existe. Ainda assim, o roteiro é assinado por Charlie e Donald Kaufman, e ambos foram indicados para o Globo de ouro e o Oscar de melhor roteiro (apesar de a Academia ter avisado que, em caso de vitória, ambos dividiriam a mesma estátua). Meryl Streep traz uma atuação impecável como sempre, e Nicholas Cage divide-se entre a cara de cachorrinho pidão de Charlie e o jeito de moleque safado de Donald.

Kaufman brinca com a realidade e cria soluções criativas e incríveis, como fez em Quero ser John Malkovich e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Na minha opinião, ele é um dos melhores roteiristas de Hollywood, e craque em criar roteiros pra lá de originais. Como ele mesmo diz no filme, quando lhe perguntam por que ele não cria algo maluco como em ‘Malkovich’, “este é material alheio, não posso mexer com o trabalho dos outros dessa forma“. E ainda assim o fez, e muito bem. Recomendadíssimo!

Adaptação (Adaptation), 2002
Roteiro: Charlie e Donald Kaufman
Direção: Spike Jonze

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Os Outros

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Grace mora sozinha com os filhos em uma mansão na Inglaterra, enquanto seu marido está na guerra. As crianças têm uma doença rara e não suportam a luz. Com a chegada de três novos empregados, fatos estranhos começam a perturbar a paz da família e o suspense vai aumentando até o desfecho surpreendente.

O ambiente isolado da família, as crianças presas dentro de casa, as cortinas sempre fechadas, portas que têm de ser fechadas ao passar de um cômodo a outro, a intransigência de Grace (Nicole Kidman) quanto às regras para proteger as crianças, vão criando uma atmosfera densa que fica cada vez mais opressiva conforme acontecimentos estranhos vão se sucedendo na mansão. Vozes que só as crianças ouvem, a presença de algo ou alguém na casa, portas que se abrem sozinhas, nos fazem grudar na cadeira.

Os empregados, solícitos e simpáticos, parecem guardar algum segredo; Grace vai ficando cada vez mais perturbada em seu esforço para proteger a família.

Os Outros (2001) é um suspense competente, que nos mantém presos à trama que vai se desenvolvendo aos poucos, e Amenábar mostra que sabe que apenas a sugestão consegue causar medo, sem recorrer a sustos e imagens fortes. Tudo aqui é sutil e discreto, o que torna ainda maior o envolvimento com  o drama da família.

O contraste entre a angústia discreta de Grace e a curiosidade e o conflito entre as crianças [Anne (Alakina Mann) não acredita que o irmão Nicholas (James Bentley) esteja vendo ou ouvindo a presença de estranhos], além da solicitude da criada Bertha (Fionulla Flanagan), são elementos que criam um clima de mistério que lembra os suspenses de Hitchcock. A mansão envolta em neblina, os passos ecoando nas escadas, o isolamento dos moradores, a tensão entre a mãe e as crianças, o contraste entre luz e escuridão, tudo tem seu lugar na construção deste filme.

O roteiro foi escrito pelo diretor, Alejandro Amenábar, que mais tarde faria Mar Adentro, outro excelente filme. Os Outros não é um filme de terror explícito; suas surpresas e revelações são sutis  e inteligentes, e ainda assim nos mantém presos à história. Este é um bom exemplo de roteiro inteligente, boa direção e atuações de primeira que, mesmo com baixo orçamento e sem efeitos especiais, conseguem criar um ótimo filme.

Ainda assim, a trama não é completamente original, e ao chegar ao final do filme nos lembraremos de outros filmes com enredos similares - não dá para nomear nenhum aqui sem estragar a surpresa. Este é um filme excelente; mas se tivesse sido feito antes de 1999, teria sido genial. ;-)

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Para saber mais:

  • Página do filme no IMDb

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Trailer - os Outros

Resultados da enquete: quando você gosta de um filme, costuma ler também o livro?

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Estamos encerrando mais uma enquete do Rato, com uma ótima participação dos leitores: 86 votos. Obrigada pessoal!

Perguntamos “se você gosta de um filme, costuma ler também o livro?”, e a resposta mais votada, o que não foi surpresa, foi de quem já leu o livro antes. Que legal, isso significa que a maioria gosta mesmo de ler, e prefere ler antes de ver o filme. Isso é ótimo, pois podemos imaginar os personagens como quisermos. Se acontece o contrário, lemos com a imagem dos atores na mente, é uma experiência completamente diferente.

E os resutados foram:

  • Em geral já li o livro antes de ver o filme… ;-) 26 votos (30%)
  • Prefiro ler o livro a ver o filme, os filmes sempre me decepcionam 20 votos (23%)
  • Sempre! Quando saio do cinema vou logo procurar o livro para ler 17 votos (20%)
  • Só se a história me interessar muito, pois prefiro ver o filme 10 votos (12%)
  • Quase nunca, gosto mais de filmes que de livros 9 votos (10%)
  • Não, pois não gosto de ler 4 votos (5%)

E vamos começar uma nova enquete agora: qual seu gênero de leitura preferido? Para quem gosta de vários gêneros (como eu) pode ser difícil escolher, mas sempre há aquele tipo de livro que lemos mais, que mais nos interessa. Qual é o seu?

Grande abraço!

Passageiros

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Após um grave desastre de avião, a psicóloga Claire é chamada para dar assistência aos poucos pacientes sobreviventes. Alguns comparecem às sessões de terapia em grupo, mas Eric prefere não ir. Durante as sessões individuais, ambos vão se aproximando, ao mesmo tempo em que o desaparecimento dos outros pacientes e a presença de um homem  misterioso vão aumentando o suspense até o desfecho surpreendente.

O filme Passageiros (2008) aposta no suspense para construir um drama pessoal e coletivo. Cada um dos passageiros sobreviventes tenta se ajustar à nova realidade após o acidente, e muitos lembram de uma explosão na asa durante o voo. Mas o funcionário da empresa aérea afirma que a culpa do acidente foi do piloto, que abandonou seu posto e entregou o comando ao co-piloto, e declara que com certeza foi causado por erro humano.

Claire (Anne Hathaway), intrigada pelas contradições, tenta descobrir a verdade; será que os passageiros estão dizendo a verdade e a empresa tenta encobrir sua responsabilidade? Ao mesmo tempo, ela se aproxima do arredio Eric (Patrick Wilson), que insiste que não é seu paciente e parece interessado por ela; eufórico com sua nova vida, ele decide mudar de carreira e começar a pintar.

Aos poucos a história vai se desenvolvendo e, em certo ponto, há a revelação que muda tudo. Não vou estragar a história com spoilers, mas posso adiantar que o trailer (veja no final do artigo) é completamente mentiroso, pois vende um filme que não é o que assistimos. Talvez tentassem tanto proteger o segredo do filme, que venderam o peixe errado ao público.

Mas o fato é que o peixe é bom; o filme está mais para drama que para suspense, o desfecho é interessante e o elenco tem muitos nomes conhecidos, como Dianne Wiest, David Morse e Andre Braugher (de Cidade dos Anjos). Não é o melhor filme que vi este ano, mas merece uma conferida.

Para saber mais:

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Trailer - Passageiros (legendado)

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