Escolhi este livro para o mês de janeiro do Desafio Literário porque, apesar de não ser exatamente um romance de banca, encaixa-se na categoria de livros da Penguin, ou edições de bolso vendidas em banca. E também porque já estava na minha listinha de livros que eu queria ler.
Em Razão e Sensibilidade Jane Austen mostra os usos e costumes das famÃlias inglesas do século XVIII, desta vez concentrando-se nas duas personagens principais: as irmãs Dashwood.
Elinor e Marianne são as filhas mais velhas do Sr. Dashwood.  Após sua morte, a propriedade Norland fica para John, filho de seu primeiro casamento, e as irmãs ficam à mercê da boa vontade do meio-irmão e de sua esposa, Fanny.
Para evitar constrangimentos, a Sra Dashwood e suas três filhas (há ainda a caçula, Margaret) mudam-se para Barton, em um chalé alugado que é mais adequado ao seu orçamento; decisão essa que é tomada por Elinor, a irmã com bom senso. Marianne é a irmã com excesso de sensibilidade, impulsiva e com opiniões firmes, apesar de tais opiniões serem causadas pelo que as outras pessoas pensam e esperam dela.

Elinor é mais reservada, e analisa muito os fatos e pessoas antes de formar qualquer juÃzo. Apesar de tantas diferenças, as irmãs se adoram e querem a felicidade uma da outra.
A primeira versão do romance foi escrita em 1795, quando Austen tinha 19 anos. O tÃtulo era Elinor and Marianne, e este seu primeiro livro era um romance epistolar. As personagens principais foram inspiradas nela mesma e em sua irmã Cassandra, que era reservada e ajuizada. Desnecessário dizer que Jane era a irmã sensÃvel.
Durante o desenrolar da história ambas descobrem o amor: Elinor interessa-se por Edward Ferrars, irmão de sua cunhada. Marianne apaixona-se por Willoughby, um jovem cavalheiro cuja fortuna depende de uma possÃvel herança e das boas graças da Sra Smith. Mas os dois romances enfrentam dificuldades, e a reação das duas irmãs à desilusão amorosa não poderia ser mais diferente.

Elinor suporta estoicamente a desilusão, sem expressar seu sofrimento para poupar as pessoas queridas de ver sua aflição sem poder fazer nada a respeito. Marianne entrega-se ao desespero e à depressão, pois acredita que é impossÃvel amar mais de uma vez. Com paciência, o Coronel Brandon, vizinho mais velho e reservado, tenta ajudar Marianne a superar sua desilusão e a dar uma nova chance ao amor.
Depois de algumas histórias secundárias, mal -entendidos e complicações na trama, acontece o esperado final feliz.
O que é interessante nos livros de Jane Austen é sua minuciosa descrição dos costumes da época, um tempo em que as aparências e o dinheiro eram de suprema importância, as mocinhas aguardavam ansiosas o pedido de casamento, e muitos amores naufragavam porque era mais importante garantir uma boa renda de alguns milhares de libras, ou fazer a vontade de um parente rico que poderia ou não deixar-lhe uma polpuda herança.
Além disso, apesar das famÃlias descritas não serem ricas, ninguém trabalhava; um homem poderia dedicar-se à carreira militar, ao direito ou à vida eclesiástica, mas o que importava era quantos milhares de libras teria de renda por ano. Todos viviam desses juros, e tinham no mÃnimo um ou dois criados. Uma moça que não conseguisse casar poderia trabalhar como governanta para garantir seu sustento, pois as mulheres não podiam herdar nada. E o casamento deveria acontecer muito cedo na vida de uma mulher.
“-Mas pelo menos, mamãe, você não pode negar o absurdo da acusação, mesmo que reconheça que não foi por maldade. O Coronel Brandon certamente é mais jovem que a Sra. Jennings, mas ele é velho o suficiente para ser MEU pai, e se ele alguma vez já esteve animado a ponto de se apaixonar, já deve ter superado todas as sensações desse tipo. É muito ridÃculo! Quando um homem estará a salvo de tal ameaça, se a idade e a doença não o protegerem?
- Doença! - disse Elinor- Está dizendo que o Coronel Brandon é doente? Posso imaginar que sua idade pareça muito maior para você do que para minha mãe, mas você não pode negar que ele faça pleno uso de seus braços e pernas!
- Não o ouviu queixar-se de reumatismo? E não é essa a enfermidade mais comum no final da vida?
- Minha querida criança - disse sua mãe, rindo - a esta altura você deve estar em um terror contÃnuo quanto à MINHA decadência; e deve parecer um milagre que minha vida tenha se prolongado até a avançada idade de quarenta anos.
- Mamãe, você não está sendo justa comigo. Sei muito bem que o Coronel Brandon não é tão velho a ponto de deixar seis amigos preocupados com a possibilidade de perdê-lo por causas naturais. Ele pode viver ainda mais vinte anos. Mas trinta e cinco anos não têm nada a ver com o matrimônio.
-Talvez - disse Elinor - trinta e cinco e dezessete não devam ter nada a ver com o matrimônio entre si. Mas se uma mulher ainda estivesse solteira aos vinte e sete, não creio que o fato do Coronel Brandon ter trinta e cinco seria alguma objeção a casar-se com ELA.
-Uma mulher de vinte e sete - disse Marianne, após uma pausa - não pode esperar sentir ou inspirar afeição novamente, e se sua casa não for confortável, ou se sua fortuna for pequena, suponho que ela possa desempenhar a função de enfermeira do marido, para garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. O casamento com tal mulher não seria inadequado. Seria um acordo de conveniência, e o mundo estaria satisfeito. A meus olhos não seria de forma alguma um matrimônio. Para mim seria apenas um contrato comercial, no qual cada parte seria beneficiada à s custas da outra. “

Outro ponto interessante no livro é a formação do caráter dos personagens, influenciado pelas convenções sociais e pelos hábitos de comodismo e conforto material, dos quais não admitem abrir mão. Willoughby é um exemplo disso. No decorrer da história também vemos a mudança ocorrida em Marianne, que depois de vários sofrimentos emocionais e desilusões, amadurece e começa a ver a vida com outros olhos. Sua sensibilidade agora é temperada com a razão de Elinor, tornando-a uma pessoa melhor.
“Elinor nada disse. Seus pensamentos estavam fixos no mal irreparável que uma independência prematura demais e seus conseqüentes hábitos de preguiça, dissipação e luxo haviam feito ao caráter e à felicidade de um homem que, com todas as vantagens de inteligência e talento, apresentava a tendência a ser naturalmente franco e honesto, sensÃvel e afetuoso. O mundo o tornara extravagante e superficial… A extravagância e a vaidade haviam feito dele uma pessoa de coração duro e egoÃsta. A vaidade, que o levara a procurar um triunfo culpado à custa de outrem, envolvera-o em uma afeição verdadeira que a extravagância, ou talvez os seus resultados, e a necessidade haviam exigido que sacrificasse. Cada falta cometida que o dirigia para o mal levara-o também para o castigo. Todos os seus pensamentos eram governados pelo relacionamento, agora mais do que nunca impossÃvel, que rompera indo contra a honra, o sentimento e todas as boas qualidades que ainda conservava em si. E o casamento, com o qual ele fizera, sem o menor escrúpulo, Marianne tornar-se miseravelmente infeliz, transformara-se em uma fonte de infelicidade para ele mesmo, da qual jamais poderia se livrar.”
Apesar de parecer apenas um romance água-com-açúcar, este é um livro bem construÃdo, com descrições minuciosas, boa crÃtica social dos costumes da época e, pelo menos nas duas personagens principais, os personagens são multidimensionais e complexos. Também pode ser encarado como uma crÃtica aos romances excessivamente românticos em moda na sua época, com sutil ironia.
Filme
Tendo visto o filme de 1995 antes de ler o livro, é difÃcil ler a história sem imaginar os personagens como no filme. Neste caso o leitor não sai perdendo, pois a adaptação dirigida por Ang Lee é excelente. O elenco de ótimos atores dá conta do recado com competência, e o roteiro de Emma Thompson premiado com o Oscar conseguiu incluir todos os detalhes da história e manter uma unidade coerente.
As interpretações de Emma Thompson (Elinor) e Kate Winslet (Marianne) dão vida à s personagens principais, tendo sido indicadas aos Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Elas contam com o apoio de Alan Rickman (coronel Brandon) e Hugh Grant (Edward), além de Hugh Laurie e Imelda Staunton (Sr. e Sra. Palmer), que mais uma vez vivem um casal - a outra vez foi em “Para o Resto de Nossas Vidas”.
O diretor Ang Lee mostra aqui mais um pouco de sua versatilidade. Ele dirigiu (muito bem) filmes tão diferentes entre si como “O segredo de Brokeback Mountain”, “Hulk”, “O Tigre e o Dragão” e “Razão e Sensibilidade”. Ang Lee não havia lido o romance de Austen quando recebeu o roteiro de Emma Thompson.
A primeira versão do roteiro tinha 350 páginas manuscritas. A versão final foi uma combinação desse primeiro rascunho e outros 13 rascunhos nos quais a atriz vinha trabalhando durante quatro anos e meio. Curiosamente, ela tinha em mente para os papéis principais as irmãs Natasha e Joely Richardson.
Gostei muito do livro e do filme; recomendo ambos. O próximo romance de Jane Austen na minha lista de leituras será Emma.
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Para saber mais:
- Sense and Sensibility na Wikipedia
- Razão e Sensibilidade na Wikipedia
- página do filme no IMDb
- Jane Austen na Wikipedia
- Blog Jane Austen em Português, com tudo sobre a autora
- Razão e Sensibilidade no Batata Transgênica
- Resenhas de janeiro no Desafio Literário - Romances de Banca


Uma reunião de seis amigos depois de dez anos, na mansão de um deles, para comemorar o Ano Novo. Parece que já vimos esse filme antes (e provavelmente é verdade, pois há vários filmes com a mesma premissa, como O Reencontro, Peggy Sue – seu passado a espera e outros). Mas ‘
A trilha sonora é um caso à parte, começando pela abertura, que reúne cenas marcantes dos anos 80-90 ao som de “Everybody wants to rule the world”, de Tears for Fears. Também ouvimos “You´re my best friend” (Queen), “Don´t get me wrong” (Pretenders), “What´s love got to do with it” (Tina Turner), “Girls just want to have fun” (Cindi Lauper), além de “The way you look tonight”, numa bela interpretação dos atores (veja vÃdeo abaixo).
Algumas curiosidades:






