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Razão e Sensibilidade

posted in: Filme X Livro, desafio literário 2010 (Tags: , , , , , , , , , , ) - 19 Comments

Escolhi este livro para o mês de janeiro do Desafio Literário porque, apesar de não ser exatamente um romance de banca, encaixa-se na categoria de livros da Penguin, ou edições de bolso vendidas em banca. E também porque já estava na minha listinha de livros que eu queria ler. ;-)

Em Razão e Sensibilidade Jane Austen mostra os usos e costumes das famílias inglesas do século XVIII, desta vez  concentrando-se nas duas personagens principais: as irmãs Dashwood.

Elinor e Marianne são as filhas mais velhas do Sr. Dashwood.  Após sua morte, a propriedade Norland fica para John, filho de seu primeiro casamento, e as irmãs ficam à mercê da boa vontade do meio-irmão e de sua esposa, Fanny.

Para evitar constrangimentos, a Sra Dashwood e suas três filhas (há ainda a caçula, Margaret) mudam-se para Barton, em um chalé alugado que é mais adequado ao seu orçamento; decisão essa que é tomada por Elinor, a irmã com bom senso. Marianne é a irmã com excesso de sensibilidade, impulsiva e com opiniões firmes, apesar de tais opiniões serem causadas pelo que as outras pessoas pensam e esperam dela.

Elinor é mais reservada, e analisa muito os fatos e pessoas antes de formar qualquer juízo. Apesar de tantas diferenças, as irmãs se adoram e querem a felicidade uma da outra.

A primeira versão do romance foi escrita em 1795, quando Austen tinha 19 anos. O título era Elinor and Marianne, e este seu primeiro livro era um romance epistolar. As personagens principais foram inspiradas nela mesma e em sua irmã Cassandra, que era reservada e ajuizada. Desnecessário dizer que Jane era a irmã sensível.

Durante o desenrolar da história ambas descobrem o amor: Elinor interessa-se por Edward Ferrars, irmão de sua cunhada. Marianne apaixona-se por Willoughby, um jovem cavalheiro cuja fortuna depende de uma possível herança e das boas graças da Sra Smith. Mas os dois romances enfrentam dificuldades, e a reação das duas irmãs à desilusão amorosa não poderia ser mais diferente.

Elinor suporta estoicamente a desilusão, sem expressar seu sofrimento para poupar as pessoas queridas de ver sua aflição sem poder fazer nada a respeito. Marianne entrega-se ao desespero e à depressão, pois acredita que é impossível amar mais de uma vez.  Com paciência, o Coronel Brandon, vizinho mais velho e reservado, tenta ajudar Marianne  a superar sua desilusão e a dar uma nova chance ao amor.

Depois de algumas histórias secundárias, mal -entendidos e  complicações na trama, acontece o esperado final feliz.

O que é interessante nos livros de Jane Austen é sua minuciosa descrição dos costumes da época, um tempo em que as aparências e o dinheiro eram de suprema importância, as mocinhas aguardavam ansiosas o pedido de casamento, e muitos amores naufragavam porque era mais importante garantir uma boa renda de alguns milhares de libras, ou fazer a vontade de um parente rico que poderia ou não deixar-lhe uma polpuda herança.

Além disso, apesar das famílias descritas não serem ricas, ninguém trabalhava; um homem poderia dedicar-se à carreira militar, ao direito ou à vida eclesiástica, mas o que importava era quantos milhares de libras teria de renda por ano. Todos viviam desses juros, e tinham no mínimo um ou dois criados.  Uma moça que não conseguisse casar poderia trabalhar como governanta para garantir seu sustento, pois as mulheres não podiam herdar nada. E o casamento deveria acontecer muito cedo na vida de uma mulher.

“-Mas pelo menos, mamãe, você não pode negar o absurdo da acusação, mesmo que reconheça que não foi por maldade. O Coronel Brandon certamente é mais jovem que a Sra. Jennings, mas ele é velho o suficiente para ser MEU pai, e se ele alguma vez já esteve animado a ponto de se apaixonar, já deve ter superado todas as sensações desse tipo. É muito ridículo! Quando um homem estará a salvo de tal ameaça, se a idade e a doença não o protegerem?

- Doença! - disse Elinor- Está dizendo que o Coronel Brandon é doente? Posso imaginar que sua idade pareça muito maior para você do que para minha mãe, mas você não pode negar que ele faça pleno uso de seus  braços e pernas!

- Não o ouviu queixar-se de reumatismo? E não é essa a enfermidade mais comum no final da vida?

- Minha querida criança - disse sua mãe, rindo - a esta altura você deve estar em um terror contínuo quanto à MINHA decadência; e deve parecer um milagre que minha vida tenha se prolongado até a avançada idade de quarenta anos.

- Mamãe, você não está sendo justa comigo. Sei muito bem que o Coronel Brandon não é tão velho a ponto de deixar seis amigos preocupados com a possibilidade de perdê-lo por causas naturais. Ele pode viver ainda mais vinte anos. Mas trinta e cinco anos não têm nada a ver com o matrimônio.

-Talvez - disse Elinor - trinta e cinco e dezessete não devam ter nada a ver com o matrimônio entre si. Mas se uma mulher ainda estivesse solteira aos vinte e sete, não creio que o fato do Coronel Brandon ter trinta e cinco seria alguma objeção a casar-se com ELA.

-Uma mulher de vinte e sete - disse Marianne, após uma pausa - não pode esperar sentir ou inspirar afeição novamente, e se sua casa não for confortável, ou se sua fortuna for pequena, suponho que ela possa desempenhar a função de enfermeira do marido, para garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. O casamento com tal mulher não seria  inadequado. Seria um acordo de conveniência, e o mundo estaria satisfeito. A meus olhos não seria de forma alguma um matrimônio. Para mim seria apenas um contrato comercial, no qual cada parte seria beneficiada às custas da outra. “

Outro ponto interessante no livro é a formação do caráter dos personagens, influenciado pelas convenções sociais e pelos hábitos de comodismo e conforto material, dos quais não admitem abrir mão. Willoughby é um exemplo disso. No decorrer da história também vemos a mudança ocorrida em Marianne, que depois de vários sofrimentos emocionais e desilusões, amadurece e começa a ver a vida com outros olhos. Sua sensibilidade agora é temperada com a razão de Elinor, tornando-a uma pessoa melhor.

“Elinor nada disse. Seus pensamentos estavam fixos no mal irreparável que uma independência prematura demais e seus conseqüentes hábitos de preguiça, dissipação e luxo haviam feito ao caráter e à felicidade de um homem que, com todas as vantagens de inteligência e talento, apresentava a tendência a ser naturalmente franco e honesto, sensível e afetuoso. O mundo o tornara extravagante e superficial… A extravagância e a vaidade haviam feito dele uma pessoa de coração duro e egoísta. A vaidade, que o levara a procurar um triunfo culpado à custa de outrem, envolvera-o em uma afeição verdadeira que a extravagância, ou talvez os seus resultados, e a necessidade haviam exigido que sacrificasse. Cada falta cometida que o dirigia para o mal levara-o também para o castigo. Todos os seus pensamentos eram governados pelo relacionamento, agora mais do que nunca impossível, que rompera indo contra a honra, o sentimento e todas as boas qualidades que ainda conservava em si. E o casamento, com o qual ele fizera, sem o menor escrúpulo, Marianne tornar-se miseravelmente infeliz, transformara-se em uma fonte de infelicidade para ele mesmo, da qual jamais poderia se livrar.”

Foto: Mooviees.com

Apesar de parecer apenas um romance água-com-açúcar, este é um livro bem construído, com descrições minuciosas, boa crítica social dos costumes da época e, pelo menos nas duas personagens principais, os personagens são multidimensionais e complexos. Também pode ser encarado como uma crítica aos romances excessivamente românticos em moda na sua época, com sutil ironia.

Filme

Tendo visto o filme de 1995 antes de ler o livro, é difícil ler a história sem imaginar os personagens como no filme. Neste caso o leitor não sai perdendo, pois a adaptação dirigida por Ang Lee é excelente. O elenco de ótimos atores dá conta do recado com competência, e o roteiro de Emma Thompson premiado com o Oscar conseguiu incluir todos os detalhes da história e manter uma unidade coerente.

As interpretações de Emma Thompson (Elinor) e Kate Winslet (Marianne) dão vida às personagens principais, tendo sido indicadas aos Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Elas contam com o apoio de Alan Rickman (coronel Brandon)  e Hugh Grant (Edward), além de Hugh Laurie e Imelda Staunton (Sr. e Sra. Palmer), que mais uma vez vivem um casal - a outra vez foi em “Para o Resto de Nossas Vidas”.

O diretor Ang Lee mostra aqui mais um pouco de sua versatilidade. Ele dirigiu (muito bem) filmes tão diferentes entre si como “O segredo de Brokeback Mountain”, “Hulk”, “O Tigre e o Dragão” e “Razão e Sensibilidade”. Ang Lee não havia lido o romance de Austen quando recebeu o roteiro de Emma Thompson.

A primeira versão do roteiro tinha 350 páginas manuscritas. A versão final foi uma combinação desse primeiro rascunho e outros 13 rascunhos nos quais a atriz vinha trabalhando durante quatro anos e meio. Curiosamente, ela tinha em mente para os papéis principais as irmãs Natasha e Joely Richardson.

Gostei muito do livro e do filme; recomendo ambos. O próximo romance de Jane Austen na minha lista de leituras será Emma.

*     *     *

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Para saber mais:

Para o resto de nossas vidas (Peter´s friends)

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“Há alguns amigos que você terá por toda sua vida.
Vocês estão unidos pelo amor, confiança, respeito ou pela perda.
Ou, no nosso caso, por simples vexame.”

Uma reunião de seis amigos depois de dez anos, na mansão de um deles, para comemorar o Ano Novo. Parece que já vimos esse filme antes (e provavelmente é verdade, pois há vários filmes com a mesma premissa, como O Reencontro, Peggy Sue – seu passado a espera e outros). Mas ‘Peter´s friends‘ traz algo de novo à velha fórmula: além do delicioso humor inglês, ótimas interpretações e o cuidado de não cair no melodrama.

Apesar do pavoroso título nacional, talvez uma referência a “O primeiro ano do resto de nossas vidas” (St. Elmo´s Fire), também sobre um grupo de amigos, este filme é um delicioso retrato das mudanças pelas quais passamos no espaço de dez anos que separam o início da vida adulta e aquele ponto em que paramos e olhamos para trás, percebendo como mudamos e de certa forma, como ainda somos os mesmos.

Peter (Stephen Fry) continua solteiro, vivendo na velha mansão de sua família, e após a morte do pai, decide convidar seus cinco melhores amigos, a quem não vê desde a faculdade, para comemorar o Ano Novo. Mary (Imelda Staunton) e Roger (Hugh Laurie, o ‘Dr. House’) são casados, e compositores de jingles para comerciais; eles relutam em comparecer à reunião para não ter de deixar seu bebê em casa. Mary tornou-se obcecada pela saúde do filho após a morte do outro gêmeo, e o relacionamento do casal vem sofrendo com isso.

Andrew (Kenneth Branagh, também diretor do filme) casou-se com Carol (Rita Rudner, autora do roteiro junto com Martin Bergmann), uma atriz de novelas extremamente perua, e vive na Califórnia. Sarah (Alphonsia Emmanuel) ainda é a mesma garota vibrante de há dez anos, trocando constantemente de namorados, e traz para a reunião sua mais recente conquista, Brian (Tony Slattery), com quem está há apenas duas semanas.

Por fim, Maggie (Emma Thompson) trabalha como editora e vive com seu gato. Em um diálogo engraçado, Maggie conta a Andrew sobre seu último namorado:

Andrew: Então, que tal o mundo das editoras?
Maggie: Ótimo. Bem movimentado.
- Algum namorado?
- Eu estava saindo com alguém. Um escritor.
- E o que aconteceu?
- Ele se suicidou.
- Oh, sinto muito. Eu não…
- Tudo bem. Sério. Eu não gostava mesmo muito dele. Gostei dele ainda MENOS depois que cometeu suicídio.
- Como ele fez?
- Jogou-se de um prédio.
- Iik.
- Nem conseguiu fazê-lo direito. Era um prédio de três andares. Ele poderia ter sobrevivido, mas um carro o atropelou.
[Andrew ri]
-Não tem graça.
- Ah, é um pouco engraçado, Maggie. E que tipo de livros ele escrevia?
- De auto-ajuda.
- Claro.

Maggie é solitária, e tenta aproximar-se de Peter, que a adora, mas apenas como amiga. Ao longo de três dias, os amigos que chegaram à mansão com suas máscaras sociais vão se revelando e por fim, resta a amizade genuína que sobreviveu a dez anos, à distância, a problemas, tristezas e decepções.

Os maiores trunfos do filme são o elenco, excelente, e a trilha sonora. Quem gosta de Harry Potter vai adorar ver boa parte do corpo docente de Hogwarts reunida aqui: Prof. Lockhart (Brannagh), Prof. Sibila (Thompson) e Prof. Umbridge (Staunton), além de Stephen Fry, que narra os áudio livros em inglês. Outra ótima atriz no elenco é Phyllida Law, mãe de Emma Thompson, que interpreta a governanta Vera.

A trilha sonora é um caso à parte, começando pela abertura, que reúne cenas marcantes dos anos 80-90 ao som de “Everybody wants to rule the world”, de Tears for Fears. Também ouvimos “You´re my best friend” (Queen), “Don´t get me wrong” (Pretenders), “What´s love got to do with it” (Tina Turner), “Girls just want to have fun” (Cindi Lauper), além de “The way you look tonight”, numa bela interpretação dos atores (veja vídeo abaixo).

Algumas curiosidades:
- filme ‘familiar’: na época, Kenneth Brannagh era casado com Emma Thompson, filha de Phyllida Law
- Rita Rudner e Martin Bergmann, roteiristas do filme, são casados
- Hugh Laurie e Imelda Staunton também interpretaram um casal em ‘Razão e Sensibilidade’, que também tem Emma Thompson no elenco
- Hugh Laurie e Stephen Fry trabalharam juntos em vários shows de TV, como “A bit of Fry and Laurie” (que era exibido pelo Eurochannel há uns dez anos)
- Branagh, Thompson, Phyllida Law e Imelda Staunton atuaram juntos em “Muito barulho por nada”, também dirigido por Branagh
- Vários atores do elenco estudaram juntos em Cambridge (Laurie, Fry, Thompson, Slattery)

Este filme delicioso merece ser visto e revisto, e com certeza não é uma imitação de “O Reencontro” (também um ótimo filme), mas uma boa história que tem seus próprios méritos. Recomendo!

* * *

Entrada do filme no IMDb

Vídeo: “The way you look tonight”

Vídeo – Créditos iniciais ao som de Tears for Fears

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