Publicado em Março - 22 - 2011

Resultados da enquete: como foram suas leituras em 2010?



Olha que já foram quase 3 meses do ano, está mais do que na hora de encerrar esta pesquisa; recebemos 83 votos e a maioria leu bastante, o que é muito legal!

  • Li bastante, até mais do que pretendia (25 votos, 30%)
  • Não consegui ler o quanto gostaria, me faltou tempo (21 votos, 25%)
  • Não li quase nada em 2010 (15 votos, 18%)
  • Cumpri minhas metas de leitura, estou satisfeito (9 votos, 11%)
  • Li pouco, mas foram bons livros (8 votos, 10%)
  • Li menos do que pretendia, não tive vontade (5 votos, 6%)

Link da enquete no SodaHead

O curioso é que mesmo a opção mais votada tendo sido a dos que leram muito, se somarmos as respostas dos que leram muito e a dos que leram pouco, no total foi um empate técnico, os leitores mais ativos ganharam por 1 voto (42 a 41).

Minha resposta foi a segunda, li menos do que gostaria pois me faltou tempo. Consegui acompanhar o Desafio Literário 2010 até setembro, e fiquei devendo as três últimas resenhas. Terminei de ler o livro de outubro (A Última Grande Lição) este mês e já estou escrevendo a resenha, o que significa um abatimento de 30% na minha dívida literária em breve…

Fiquei chateada por não ter conseguido cumprir a meta, e decidi não entrar para o desafio deste ano. Mas não quer dizer que vá parar de ler (ora, imagine…). Vou ler conforme o tempo disponível, sem prazos fixos, e claro que as resenhas vão chegar aqui no blog de vez em quando. Só não quis assumir um compromisso que não sei se conseguiria cumprir.

Por exemplo, neste mês (quando a poeira baixou e tive algumas semanas mais folgadas, depois do excesso de trabalho desde dezembro) já li pelo menos três livros, e alguns são livros que deram origem a filmes (ou vice-versa, um deles foi o roteiro do filme que virou livro), então fiquem tranquilos, o ratinho está em atividade e o blog vai bem, obrigada. :-)

Para quem quiser conferir as resenhas dos participantes dos últimos desafios literários:

  • Desafio Literário 2010 (Romance Gracinha) - links das resenhas dos útlimos meses

dezembro - livros com a palavra coração no título
novembro - escritores portugueses
outubro - lição de vida

*       *      *

E vamos começar mais uma enquete? Mudando de assunto, qual a sua rede social preferida? Entre Twitter, Facebok, Orkut, e outras, de qual você mais gosta de participar?

Abraços!

Publicado em Abril - 23 - 2010

A Casa dos Espíritos

O romance de estreia de Isabel Allende narra a história da fictícia família Trueba, ao longo de quatro gerações e de boa parte do século vinte, culminando no golpe de estado que levou os militares ao poder. Unindo uma narrativa ágil, realismo fantástico e personagens ricos e complexos, a autora criou um romance fascinante.

Apesar de ser um romance de ficção, Isabel Allende reconhece que boa parte da história foi inspirada em sua própria família. O livro foi lançado em 1982 e tornou-se um sucesso imediato, sendo traduzido para mais de 20 idiomas. O país onde acontece a história nunca é identificado, mas é possível saber que a autora está falando de sua pátria, o Chile.

A “casa dos espíritos” é o casarão na esquina que Estéban Trueba constrói na capital para sua esposa Clara. De origem humilde, Estéban trabalhou durante dois anos nas minas para guardar dinheiro e casar-se com Rosa del Valle. Mas a moça morre envenenada por engano e, desiludido, o rapaz decide reerguer a propriedade da família, a fazenda Las Tres Marias.

Estéban é um homem rude e com péssimo caráter. Autoritário e propenso a acessos de cólera, costumava violentar camponesas da sua fazenda e gerou um número enorme de bastardos. Após o casamento isso parou, mas seu mau humor e cólera continuaram até o fim de sua vida. Um de seus netos bastardos, Estéban Garcia, aparece mais adiante na história com o ódio acumulado em gerações contra as injustiças e abusos do patrão.

Muitos anos mais tarde, ele retorna à capital por ocasião da morte da mãe, de quem cuidou a vida toda sua irmã Férula. Estéban decide então pedir Clara, a irmã mais nova de Rosa, em casamento.

Clara é uma alma sensível e possui dons de telepatia, premonição, telecinese e um contato estreito com as almas do “mais-Além”. Ela pede a Férula que vá morar com eles e esta se ocupa do lado prático da vida doméstica, além de idolatrar a cunhada, o que causa ciúmes em seu irmão. Num acesso de fúria e ciúmes, Estéban expulsa a irmã de sua casa, e esta o amaldiçoa.

Estéban e Clara têm três filhos: Blanca e os gêmeos Jaime e Nicolau. Blanca se encanta desde a infância por Pedro Tercero Garcia, filho do capataz de Las Tres Marias. O menino cresce e tem contato com ideias de justiça e direitos dos trabalhadores, o que não agrada ao patrão. O que Estéban também não aprova é o amor de Pedro e Blanca, que se encontram às escondidas.

Quando os amantes são denunciados pelo Conde de Satigny, Estéban descarrega sua ira na filha e na esposa. Clara decide não falar mais com o marido, que casa Blanca com o Conde contra a sua vontade. Pedro consegue fugir e torna-se um cantor popular, que celebra os sonhos de liberdade e justiça do povo oprimido. Blanca mais tarde abandona o marido e volta à casa de Clara, que está cada vez mais ligada às coisas do espírito e menos às coisas da terra. Alguns anos mais tarde, Clara morre tranquilamente, e a única afeição de Estéban agora é sua neta Alba.

O tempo passa e Alba está envolvida com a causa popular, assim como seu tio Jaime e Miguel, irmão da antiga namorada de Nicolau, Amanda.  Estéban Trueba é agora Senador do partido Conservador e luta com todas suas forças e influência para evitar que o candidato de esquerda chegue ao poder.

Quando isso finalmente acontece, apesar dos esforços de Trueba, o país sofre grandes mudanças, e os conservadores, com a ajuda de estrangeiros e dos militares, tramam um golpe de estado. O resultado é o caos e milhares de mortes, torturas e perseguições, das quais são vítimas vários personagens da história.

A última parte do livro é a mais intensa, e contrapõe o amor de Estéban Trueba e sua neta Alba e as diferenças ideológicas entre eles. No cenário violento após o golpe, antigos ódios são abrandados e, se não vemos um final feliz, pelo menos há a redenção para quem odiou durante toda a sua vida.

O livro é excelente e, apesar de longo, consegue prender a atenção nas mais de trezentas páginas. Com muitos detalhes e personagens secundários (muito bem construídos, por sinal), os episódios são narrados alternadamente por Estéban (na primeira pessoa) e por Alba (na terceira pessoa). O motivo das duas narrativas é explicado por ela no epílogo.

Uma curiosidade é que as quatro gerações de mulheres Del Valle têm nomes com o mesmo significado: Nívea del Valle é a mãe de Rosa e Clara. Clara del Valle Trueba é a mãe de Blanca, que por sua vez é a mãe de Alba. Como Clara explicou, “os nomes repetidos criavam confusões nos cadernos da vida”. Daí, os nomes diferentes que significam a mesma coisa. Em certo ponto, Clara comenta que Alba poderá recorrer a nomes estrangeiros para continuar o costume, quando tiver uma filha.

Não é surpresa que Clara mencione a futura filha de Alba; neste romance, as mulheres dominam a trama. Nívea, com a plácida aceitação de sua condição de esposa e mãe, protege Clara dos problemas do mundo e incentiva seus dons de clarividência. Clara, apesar de absorta e alheia ao mundo prosaico, mostra uma grande força interior quando se vê diante das dificuldades da vida. Férula no íntimo não aceita os sacrifícios que teve de fazer e mostra toda sua natureza amorosa  retribuindo com cuidados e dedicação o amor que recebe de Clara. Blanca sabe o que quer, e sua determinação a mantém no caminho de seu coração, ainda que tenha de enfrentar oposição e dificuldades, e é uma mulher capaz de grandes sacrifícios pelos que ama. Alba cresceu protegida  e cedo tomou contato com as injustiças do mundo, através dos olhos do amor e dos amigos. Os sofrimentos por que passou poderiam ter-lhe despertado o ódio, mas ao rever a história de sua família pôde compreender que nenhum acontecimento é inútil, e que os destinos de todos estão entrelaçados.

“Em alguns momentos tenho a impressão de que já vivi isto e que já escrevi estas mesmas palavras, mas compreendo que não sou eu, mas  outra mulher, que escreveu nos seus cadernos para que eu viesse a servir-me deles. Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o transito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas.

Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória. E agora procuro o meu ódio e não consigo encontrá-lo.”

Filme

Em 1982 a história foi adaptada para o cinema com direção de Bille August e um elenco de estrelas. O filme tornou-se um sucesso de público, pois concentrou-se na história de amor de Estéban (Jeremy Irons) e Clara (Meryl Streep) e de Blanca (Winona Ryder) e Pedro (Antonio Banderas).

Toda a parte política da história, que no livro tem papel importante para compreender o caráter e as motivações das personagens, aqui é apenas um cenário. Mesmo o terremoto, que muda o curso de várias vidas e tem consequências trágicas, é mencionado apenas de passagem.

Ainda assim, o filme é adorável e, como sempre, Meryl Streep, Jeremy Irons e Glenn Close (Férula) confirmam o grande talento que têm.

Eu havia visto o filme quando foi lançado em vídeo, há mais de 20 anos, e não lembrava de muita coisa. Quando terminei de ler o livro decidi rever o filme, e tive a impressão de serem duas obras diferentes. Para que a longa história coubesse em pouco mais de duas horas de filme, reduziram-se muitos detalhes e episódios vividos por Blanca e Alba foram reunidos em uma personagem só (no caso, Blanca). Para isso, o espaço cronológico da história também foi encurtado em uns 20 anos.

Não é fácil adaptar um livro tão rico em histórias interessantes e detalhes para uma narrativa tão curta, mas o esforço valeu a pena. O filme é bem-feito e interessante, mas ainda assim, recomendo: não deixe de ler o livro, é muito melhor.

*    *   *

Este livro foi minha escolha para o Desafio Literário no mês de Abril, cujo tema eram os escritores latino-americanos. Adorei ter lido Isabel Allende, e não por coincidência ela tem sido um dos autores mais lidos do desafio este mês. Já descobri, através de ótimas resenhas, mais livros dela que quero ler:

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Para saber mais:

Trailer - A Casa dos Espíritos

Publicado em Março - 29 - 2010

O Silmarillion


O Silmarillion, livro póstumo de J.R.R.Tolkien, conta a história da criação do mundo por Eru, nos Dias Antigos da Primeira Era. São lendas que contam também a história das Silmarils, a criação da Terra Média e o surgimento dos elfos, anões e homens.

O livro foi organizado pelo filho de Tolkien, Christopher, quatro anos após a morte do pai. Ele reuniu histórias escritas ao longo de toda uma vida, e que devem ter servido de base para a criação de sua obra-prima posterior, O Senhor dos Anéis. Christopher organizou os textos para criar uma narrativa coerente e em ordem cronológica, e dividiu as histórias em cinco livros.

“Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás. Em cadernos velhíssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importante da mitologia, muitas vezes escritas ás pressas, a lápis. Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicação de seu conteúdo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anéis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus últimos anos.” (trecho do Prefácio de Christopher Tolkien)

Ainulindalë conta a história da criação do mundo por Eru ou Ilúvatar, o ser supremo. Após imaginar o mundo, Eru criou de seu pensamento os Ainur, seres Sagrados, que com sua música deram forma ao que Eru havia imaginado. Mas um Ainu, Melkor, rebelou-se e criou uma música dissonante. Aqui temos um claro paralelo com a criação do mundo e a rebelião de Lúcifer, anjo criado perfeito e que se rebelou, recusando-se a obedecer a Deus e sendo expulso do reino celestial por isso.

Após a música dos Ainur, foram criadas a luz, a água, as florestas, animais e os Filhos de Ilúvatar, os Elfos e os Homens. Contudo, Melkor tentava destruir o que os Ainur haviam criado e buscava o Poder e o domínio de Arda, ou a Terra.

Valaquenta descreve os quatorze Valar, sendo sete Senhores e sete Rainhas, cada qual responsável por um aspecto da Criação. Em seguida somos apresentados aos Maiar, seres criados também antes do mundo, mas inferiores aos Valar. E por fim, há Melkor ou Morgoth, cujo servo Sauron (um Maiar) mais tarde completou a obra de seu mestre e tentou dominar a Terra Média, o que será visto nos livros posteriores de Tolkien.

Quenta Silmarillion conta a história das Silmarils, pedras de luz criadas pelo valar xx e cobiçadas por Morgoth, cuja posse levou a guerras e destruição.

Neste livro também é contada a criação dos elfos, seres imortais, e dos anões. Os elfos eram formados de vários grupos, que se dividiram após a Grande Viagem a partir de Culviénen. Alguns elfos, os Eldar, estabeleceram-se em Valinor, cidade dos Valar, e outros recusaram-se a fazer a viagem.

As Silmarils foram criadas pelo elfo Fëanor, a partir da fusão da luz das Árvores de Valinor, destruídas por Morgoth. Mesmo sendo portadoras da luz sagrada, elas foram a causa de guerras e discórdia.

Neste livro está a bela história de amor entre Beren e Luthien. Beren era filho dos homens e mortal, enquanto Luthien era filha do elfo Elwë (Thingol) e da Maia Melian, e imortal. Ambos são antepassados de Elrond e Elros.

Thingol não desejava que sua filha se unisse a um mortal, e exigiu que este lhe trouxesse uma das Silmarils, que estava em poder de Sauron. Após um combate, Beren foi preso no calabouço de Sauron. Luthien fugiu e foi atrás de seu amado. Com a ajuda de Huan, o terrível cão caçador de Celegorn, que o havia recebido do Valar Oromë, ela conseguiu chegar aos calabouços e libertar Beren. Huan era fiel a Luthien e teria o poder de falar três vezes em sua vida, o que faz para ajudá-la. Após lutas terríveis, Huan é ferido e morre. Beren e Luthien retornam com a Silmaril, e após entregá-la a Thingol, Beren também morre.

Inconsolável, Luthien vai até Mandos, o Valar senhor dos mortos, e canta para ele suplicando pela vida de Beren. Manwë, o Valar mais poderoso, devolve a vida a Beren e dá a ela duas opções: voltar para a terra dos Valar e continuar a ser imortal, mas sem Beren, que não poderia segui-la, ou retornar à Terra Média com Valar e abrir mão de sua imortalidade para viver com ele até o fim de seus dias mortais. Luthien escolhe a segunda opção e deixa para trás sua família imortal.

O Quenta Silmarillion é o livro mais longo e também conta muitas outras histórias de elfos e homens, da criação de reinos e grandes batalhas.

Akallabêth conta a história da queda de Númenor, o reino dos homens, na Segunda Era. Elros e Elrond descendiam dos elfos edain e eldar, e também dos Maiar. “Com efeito, os Valar não podem retirar a dádiva da morte, que chaga aos homens vinda de Ilúvatar; mas na questão dos meio-elfos, Ilúvatar conferiu-lhes o poder de decidir. E eles resolveram que deveria ser conferido aos filhos de Eärendil o direito de escolher o próprio destino.” Elrond escolheu ficar entre os Primogênitos, e Elros abriu mão de sua imortalidade e tornou-se o primeiro rei dos homens.

Dos Anéis de Poder e da Terceira Era’ conta como os elfos fizeram os Anéis de Poder. Sauron então em segredo criou o Um Anel, para governar todos os outros. Entretanto os três anéis criados por último pelos elfos eram os mais poderosos, pois tinham os poderes do Fogo, da Água e do Ar, e foram confiados aos Sábios, que os ocultaram e nunca mais os usaram abertamente enquanto Sauron manteve o Anel governante.

Preocupado, Sauron distribuiu os anéis restantes aos outros povos da Terra Média, “tentando atrair para sua influência todos os que desejassem um poder secreto maior do que o atribuído à sua espécie. Sete anéis ele deu aos anões; mas aos homens deu nove, pois os homens se revelaram, nesse aspecto como em outros, os mais propensos a se submeter à sua vontade.”

O descendente de Elros, Isildur, arrancou o Anel Governante da mão de Sauron com o toco da espada de Elendil, Narsil. “Então Sauron foi derrotado por algum tempo e abandonou seu corpo. Seu espírito fugiu para longe e se ocultou em lugar ermo. E por muitos anos ele não voltou a assumir forma visível.” Esse foi o início da Terceira Era do mundo, depois dos Dias Antigos e dos Anos Escuros.

O restante da história é contado nos outros livros de Tolkien, O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

O livro é complementado por diversas árvores genealógicas dos elfos e homens, um extenso glossário e alguns mapas. Na verdade essas árvores genealógicas e mapas são muito úteis durante a leitura, pois ajudam a compreender melhor a relação entre os diversos personagens. Eu ia lendo e consultando-os o tempo todo.

Gostei muito da leitura, apesar de não ser um livro fácil devido ao grande número de personagens e histórias, e do grande espaço de tempo abrangido. Se não nos lembramos que elfos, Maiar e Valar são imortais, fica difícil acompanhar o fio da meada.

Como eu já havia lido O Senhor dos Anéis, muitos nomes eram familiares, e isso ajudou na leitura. Ainda assim, pretendo continuar a série e ler O Hobbit, e reler a trilogia do Senhor dos Anéis.  São obras-primas, muitíssimo bem escritas e fruto da imaginação e dedicação extraordinárias de Tolkien. Recomendo!

Este artigo faz parte do Desafio Literário 2010, organizado pela Vivi, do Romance Gracinha. O tema deste mês foram os Clássicos da Literatura Universal, e há muitos livros excelentes entre os escolhidos; para ler outras resenhas de ótimos livros escritas pelos outros participantes do Desafio, veja os links do mês de março.

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Para saber mais:

Publicado em Janeiro - 25 - 2010

Razão e Sensibilidade

Escolhi este livro para o mês de janeiro do Desafio Literário porque, apesar de não ser exatamente um romance de banca, encaixa-se na categoria de livros da Penguin, ou edições de bolso vendidas em banca. E também porque já estava na minha listinha de livros que eu queria ler. ;-)

Em Razão e Sensibilidade Jane Austen mostra os usos e costumes das famílias inglesas do século XVIII, desta vez  concentrando-se nas duas personagens principais: as irmãs Dashwood.

Elinor e Marianne são as filhas mais velhas do Sr. Dashwood.  Após sua morte, a propriedade Norland fica para John, filho de seu primeiro casamento, e as irmãs ficam à mercê da boa vontade do meio-irmão e de sua esposa, Fanny.

Para evitar constrangimentos, a Sra Dashwood e suas três filhas (há ainda a caçula, Margaret) mudam-se para Barton, em um chalé alugado que é mais adequado ao seu orçamento; decisão essa que é tomada por Elinor, a irmã com bom senso. Marianne é a irmã com excesso de sensibilidade, impulsiva e com opiniões firmes, apesar de tais opiniões serem causadas pelo que as outras pessoas pensam e esperam dela.

Elinor é mais reservada, e analisa muito os fatos e pessoas antes de formar qualquer juízo. Apesar de tantas diferenças, as irmãs se adoram e querem a felicidade uma da outra.

A primeira versão do romance foi escrita em 1795, quando Austen tinha 19 anos. O título era Elinor and Marianne, e este seu primeiro livro era um romance epistolar. As personagens principais foram inspiradas nela mesma e em sua irmã Cassandra, que era reservada e ajuizada. Desnecessário dizer que Jane era a irmã sensível.

Durante o desenrolar da história ambas descobrem o amor: Elinor interessa-se por Edward Ferrars, irmão de sua cunhada. Marianne apaixona-se por Willoughby, um jovem cavalheiro cuja fortuna depende de uma possível herança e das boas graças da Sra Smith. Mas os dois romances enfrentam dificuldades, e a reação das duas irmãs à desilusão amorosa não poderia ser mais diferente.

Elinor suporta estoicamente a desilusão, sem expressar seu sofrimento para poupar as pessoas queridas de ver sua aflição sem poder fazer nada a respeito. Marianne entrega-se ao desespero e à depressão, pois acredita que é impossível amar mais de uma vez.  Com paciência, o Coronel Brandon, vizinho mais velho e reservado, tenta ajudar Marianne  a superar sua desilusão e a dar uma nova chance ao amor.

Depois de algumas histórias secundárias, mal -entendidos e  complicações na trama, acontece o esperado final feliz.

O que é interessante nos livros de Jane Austen é sua minuciosa descrição dos costumes da época, um tempo em que as aparências e o dinheiro eram de suprema importância, as mocinhas aguardavam ansiosas o pedido de casamento, e muitos amores naufragavam porque era mais importante garantir uma boa renda de alguns milhares de libras, ou fazer a vontade de um parente rico que poderia ou não deixar-lhe uma polpuda herança.

Além disso, apesar das famílias descritas não serem ricas, ninguém trabalhava; um homem poderia dedicar-se à carreira militar, ao direito ou à vida eclesiástica, mas o que importava era quantos milhares de libras teria de renda por ano. Todos viviam desses juros, e tinham no mínimo um ou dois criados.  Uma moça que não conseguisse casar poderia trabalhar como governanta para garantir seu sustento, pois as mulheres não podiam herdar nada. E o casamento deveria acontecer muito cedo na vida de uma mulher.

“-Mas pelo menos, mamãe, você não pode negar o absurdo da acusação, mesmo que reconheça que não foi por maldade. O Coronel Brandon certamente é mais jovem que a Sra. Jennings, mas ele é velho o suficiente para ser MEU pai, e se ele alguma vez já esteve animado a ponto de se apaixonar, já deve ter superado todas as sensações desse tipo. É muito ridículo! Quando um homem estará a salvo de tal ameaça, se a idade e a doença não o protegerem?

- Doença! - disse Elinor- Está dizendo que o Coronel Brandon é doente? Posso imaginar que sua idade pareça muito maior para você do que para minha mãe, mas você não pode negar que ele faça pleno uso de seus  braços e pernas!

- Não o ouviu queixar-se de reumatismo? E não é essa a enfermidade mais comum no final da vida?

- Minha querida criança - disse sua mãe, rindo - a esta altura você deve estar em um terror contínuo quanto à MINHA decadência; e deve parecer um milagre que minha vida tenha se prolongado até a avançada idade de quarenta anos.

- Mamãe, você não está sendo justa comigo. Sei muito bem que o Coronel Brandon não é tão velho a ponto de deixar seis amigos preocupados com a possibilidade de perdê-lo por causas naturais. Ele pode viver ainda mais vinte anos. Mas trinta e cinco anos não têm nada a ver com o matrimônio.

-Talvez - disse Elinor - trinta e cinco e dezessete não devam ter nada a ver com o matrimônio entre si. Mas se uma mulher ainda estivesse solteira aos vinte e sete, não creio que o fato do Coronel Brandon ter trinta e cinco seria alguma objeção a casar-se com ELA.

-Uma mulher de vinte e sete - disse Marianne, após uma pausa - não pode esperar sentir ou inspirar afeição novamente, e se sua casa não for confortável, ou se sua fortuna for pequena, suponho que ela possa desempenhar a função de enfermeira do marido, para garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. O casamento com tal mulher não seria  inadequado. Seria um acordo de conveniência, e o mundo estaria satisfeito. A meus olhos não seria de forma alguma um matrimônio. Para mim seria apenas um contrato comercial, no qual cada parte seria beneficiada às custas da outra. “

Outro ponto interessante no livro é a formação do caráter dos personagens, influenciado pelas convenções sociais e pelos hábitos de comodismo e conforto material, dos quais não admitem abrir mão. Willoughby é um exemplo disso. No decorrer da história também vemos a mudança ocorrida em Marianne, que depois de vários sofrimentos emocionais e desilusões, amadurece e começa a ver a vida com outros olhos. Sua sensibilidade agora é temperada com a razão de Elinor, tornando-a uma pessoa melhor.

“Elinor nada disse. Seus pensamentos estavam fixos no mal irreparável que uma independência prematura demais e seus conseqüentes hábitos de preguiça, dissipação e luxo haviam feito ao caráter e à felicidade de um homem que, com todas as vantagens de inteligência e talento, apresentava a tendência a ser naturalmente franco e honesto, sensível e afetuoso. O mundo o tornara extravagante e superficial… A extravagância e a vaidade haviam feito dele uma pessoa de coração duro e egoísta. A vaidade, que o levara a procurar um triunfo culpado à custa de outrem, envolvera-o em uma afeição verdadeira que a extravagância, ou talvez os seus resultados, e a necessidade haviam exigido que sacrificasse. Cada falta cometida que o dirigia para o mal levara-o também para o castigo. Todos os seus pensamentos eram governados pelo relacionamento, agora mais do que nunca impossível, que rompera indo contra a honra, o sentimento e todas as boas qualidades que ainda conservava em si. E o casamento, com o qual ele fizera, sem o menor escrúpulo, Marianne tornar-se miseravelmente infeliz, transformara-se em uma fonte de infelicidade para ele mesmo, da qual jamais poderia se livrar.”

Foto: Mooviees.com

Apesar de parecer apenas um romance água-com-açúcar, este é um livro bem construído, com descrições minuciosas, boa crítica social dos costumes da época e, pelo menos nas duas personagens principais, os personagens são multidimensionais e complexos. Também pode ser encarado como uma crítica aos romances excessivamente românticos em moda na sua época, com sutil ironia.

Filme

Tendo visto o filme de 1995 antes de ler o livro, é difícil ler a história sem imaginar os personagens como no filme. Neste caso o leitor não sai perdendo, pois a adaptação dirigida por Ang Lee é excelente. O elenco de ótimos atores dá conta do recado com competência, e o roteiro de Emma Thompson premiado com o Oscar conseguiu incluir todos os detalhes da história e manter uma unidade coerente.

As interpretações de Emma Thompson (Elinor) e Kate Winslet (Marianne) dão vida às personagens principais, tendo sido indicadas aos Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Elas contam com o apoio de Alan Rickman (coronel Brandon)  e Hugh Grant (Edward), além de Hugh Laurie e Imelda Staunton (Sr. e Sra. Palmer), que mais uma vez vivem um casal - a outra vez foi em “Para o Resto de Nossas Vidas”.

O diretor Ang Lee mostra aqui mais um pouco de sua versatilidade. Ele dirigiu (muito bem) filmes tão diferentes entre si como “O segredo de Brokeback Mountain”, “Hulk”, “O Tigre e o Dragão” e “Razão e Sensibilidade”. Ang Lee não havia lido o romance de Austen quando recebeu o roteiro de Emma Thompson.

A primeira versão do roteiro tinha 350 páginas manuscritas. A versão final foi uma combinação desse primeiro rascunho e outros 13 rascunhos nos quais a atriz vinha trabalhando durante quatro anos e meio. Curiosamente, ela tinha em mente para os papéis principais as irmãs Natasha e Joely Richardson.

Gostei muito do livro e do filme; recomendo ambos. O próximo romance de Jane Austen na minha lista de leituras será Emma.

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