Publicado em Outubro - 01 - 2010
Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Se fosse possível apagar as lembranças de um amor passado, você o faria?
Este filme de 2004, com o roteiro brilhante de Charlie Kaufman - autor de outros ótimos e criativos roteiros como Adaptação e Quero Ser John Malkovich - e direção de Michel Gondry, discorre sobre a inevitabilidade das escolhas utilizando uma história criativa e romântica.
Joel Barish (Jim Carrey, em um de seus raros papéis dramáticos) leva uma vida monótona e convencional, cuja criatividade é expressada unicamente em seu diário; Clementine Kruczynski (Kate Winslet, sempre excelente) é seu oposto: extrovertida e espontânea, trabalha em uma livraria, diz o que pensa e faz o que quer.
“Clementine: Você me conhece, eu sou impulsiva.
Joel: É isso que eu amo em você.”

O filme começa com o encontro dos dois em 14 de fevereiro (Dia de São Valentim) na estação ferroviária; Joel conta (em off) que naquele dia, não foi trabalhar e decidiu ir a Montauk. Ela puxa conversa, pede para que ele não faça piadas sobre seu nome (Oh My Darling Clementine, música favorita de Huckleberry Hound - Dom Pixote) e ao fim do dia eles já estão interessados um no outro. Após dois dias Clem está preparando-se para mudar para a casa de Joel.
Após os créditos, o filme volta para o dia anterior; Joel está deprimido com a chegada do Dia dos Namorados, pois acabou de separar-se de Clem; ao discutir com os amigos, fica sabendo que ela submeteu-se a um processo para eliminar de sua mente todas as lembranças de Joel. Furioso, ele a procura no trabalho, mas ela não o reconhece, e recebe carinhosamente um rapaz cujo rosto Joel não vê.
Joel então decide revidar, e procura a mesma empresa que Clementine, a Lacuna Inc., e pede para que apaguem as lembranças dela. Ele traz todos os objetos que tenham alguma ligação ou recordação de Clem, e naquela noite a equipe vai até o apartamento de Joel para fazer a ‘limpeza’.
Durante o processo, tudo dá errado; a mente de Joel recusa-se a aceitar o processo e seu sub consciente começa a se rebelar, procurando um modo de guardar alguma lembrança que lhe permita procurar Clem novamente. Uma sub trama envolvendo os funcionários da Lacuna Inc., Stan (Mark Ruffalo), Mary (Kirsten Dunst), Patrick (Elijah Wood) e o proprietário, Dr Mierzwiak, acontece durante o drama interno de Joel.

Durante o processo de exclusão, Joel luta com suas memórias. O filme então mostra, através das lembranças de Joel, a história do casal, desde que se haviam conhecido, dois anos antes, em uma festa na praia em Montauk. Todas estas seqüências são mostradas no estilo característico de Kaufman, como se estivéssemos em um sonho, onde as coisas mais absurdas de algum modo fazem sentido. Joel repassa suas memórias à medida em que elas são apagadas, e confidencia à Clem (em sua cabeça) que não quer esquecê-la; eles tentam esconder-se em alguma memória que não tenha ligação com eles, e que não esteja mapeada para exclusão.
Esta parte do filme é cheia de flashbacks misturados com lembranças e o subconsciente de Joel tentando compreender o que está acontecendo e descobrir um modo de evitar a exclusão. Tudo é maluco, e tudo faz sentido, exatamente como nos sonhos.

Uma cena interessante é quando eles estão em Montauk, na festa onde se conheceram, e Clem entra em uma bela casa vazia na praia por uma janela; no passado, ela queria passar a noite ali e Joel vai embora; no ’sonho’, ela lhe pede “Por que você não fica desta vez?”; logo em seguida, a memória é apagada, e vemos o mar invadindo a casa e esta caindo como um castelo de cartas. Enquanto a casa cai, Clem diz para Joel “Encontre-me em Montauk”.
“Joel: Eu poderia morrer agora, Clem. Estou… feliz. Nunca me senti assim antes. Estou exatamente onde queria estar.”
Não sabemos se Clem passou pela mesma negação do processo, e tentou manter alguma memória de Joel; pode ser que o subconsciente de ambos os tenha levado a Montauk, que era um lugar especial para eles. Mesmo tentando apagar um ao outro da memória, eles não conseguem ficar separados.
Após uma grande desilusão queremos apagar as coisas ruins, gostaríamos que elas não tivessem acontecido. Mas uma parte de nós quer manter os bons momentos, as risadas, as brincadeiras, tudo o que faz a vida valer a pena. Querer negar que tudo aconteceu é querer negar o que nos fez ser o que somos. É uma contradição, e (felizmente) é impossível fazer uma exclusão de memórias como no filme. Na vida real, é melhor aprender com a experiência. É assim que crescemos.
O roteiro criativo de Charlie Kaufman, cheio de idas e vindas e imagens de sonho, conta de forma inteligente uma história de amor, da inevitabilidade do amor que resiste à negação e ao esquecimento. Podem chamar também de destino. Esta é uma história maluca e comovente, na qual percebemos como a história de um amor é composta de lembranças tolas, pequenos detalhes que fazem sentido para os que amam, associações de ideias, objetos com valor sentimental, brigas tolas, manias irritantes, o melhor e o pior em nós, um sorriso cativante. Não dá para apagar tudo isso.
* * *
Para saber mais:
- Página do filme no IMDb
- Verbete do filme na Wikipedia
- Crítica do filme, de Roger Ebert
- Adaptação, no Rato de Biblioteca
Trailer - Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças



John viveu sempre motivado por alguma paixão; desde a criação de peixes tropicais até as orquídeas, cada interesse seu era cultivado até a exaustão, e depois abandonado sem motivo. Como Susan descreve em seu artigo, “a espiral de lógica e altruísmo e violação das regras em vista de um possível ganho financeiro é a especialidade de Laroche. Quando você percebe que ele é um pilantra, ele revela um motivo subjacente e nobre, mas também lucrativo, para sua pilantragem. Ele adora fazer as coisas do jeito difícil, se assim ele conseguir o que quer, e você fica pensando como ele conseguiu se safar. Ele é a pessoa amoral com mais moral que já conheci”.
Enquanto Charlie luta com seu roteiro, seu irmão gêmeo Donald (







