Publicado em Abril - 13 - 2010

Músicas traduzidas - Don’t Rain on My Parade

A canção Don’t Rain on My Parade foi escrita para o musical da Broadway Funny Girl (1964) e também cantada na versão do musical para o cinema, ambas por Barbra Streisand. Ela tornou-se uma das canções-assinatura da artista, que a interpretou na maioria de seus shows.

O musical Funny Girl conta a vida da comediante e cantora Fanny Brice (1891-1951) e seu relacionamento com o empresário e jogador Nicky Arnstein. A história se passa em Nova Iorque, antes da Primeira Guerra Mundial, e Fanny era uma estrela de Ziegfeld Follies, o show de vaudeville criado por Florenz Ziegfeld e que dominou os palcos da Broadway de 1907 a 1931. O filme de Barbra Streisand teve uma sequência, Funny Lady, cujo tema é o relacionamento da artista com seu segundo (na verdade, terceiro) marido, o empresário Billy Rose.

Outras músicas famosas do musical Funny Girl são “People” e “His Love Makes me Beautiful”, com o barrigão no final. Por sua interpretação de Fanny Brice no cinema, Streisand ganhou o Oscar de Melhor Atriz de 1968, prêmio que dividiu com Katherine Hepburn (por O Leão no Inverno).

Além de Barbra, Don’t Rain on My Parade foi interpretada por diversos artistas, como Bobby Darin (uma versão foi usada no filme Beleza Americana), Robin Williams (em uma cena de Uma Babá quase perfeita, em que ele imita Barbra Streisand), Liza Minelli e Judy Garland (uau!) e por LaToya London, na terceira temporada de American Idol.

Recentemente a canção foi interpretada (muito bem, por sinal) pela atriz e cantora Lea Michele, no último episódio da primeira temporada de Glee.

Clique no player  para ouvir a música com Barbra Streisand e veja os vídeos de Funny Girl e Glee no final do artigo.

Flash required
Don’t Rain on My Parade

(Bob Merrill e Jule Styne)

Don’t tell me not to live, just sit and putter
Life’s candy and the sun’s a ball of butter
Don’t bring around a cloud to rain on my parade
Don’t tell me not to fly, I simply got to
If someone takes a spill, it’s me and not you
Who told you you’re allowed to rain on my parade
I’ll march my band out, I’ll beat my drum
And if I’m fanned out, your turn at bat, sir
At least I didn’t fake it, hat, sir
I guess I didn’t make it
But whether I’m the rose of sheer perfection
A freckle on the nose of life’s complexion
The Cinderella or the shine apple of its eye
I gotta fly once, I gotta try once,
Only can die once, right, sir?
Ooh, life is juicy, juicy and you see,
I gotta have my bite, sir.
Get ready for me love, ’cause I’m a “comer”
I simply gotta march, my heart’s a drummer
Don’t bring around the cloud to rain on my parade,

I’m gonna live and live NOW!
Get what I want, I know how!
One roll for the whole shebang!
One throw that bell will go clang,
Eye on the target and wham,
One shot, one gun shot and bam!
Hey, Mr. Arnstein, here I am …

I’ll march my band out, I will beat my drum,
And if I’m fanned out, your turn at bat, sir,
At least I didn’t fake it, hat, sir,
I guess I didn’t make it
Get ready for me love, ’cause I’m a “comer”
I simply gotta march, my heart’s a drummer
Nobody, no, nobody, is gonna rain on my parade!

Don’t Rain on My Parade

(tradução: Cristine Martin)

Não me diga para não viver e só ver o tempo passar
A vida é um doce e o sol é uma bola de manteiga
Não chame as nuvens, não estrague minha festa
Não me diga para não voar, eu tenho de fazê-lo
Se alguém tropeçar serei eu, não você
Quem disse que você poderia estragar a minha festa?
Vou liderar minha banda, vou me promover
E se eu tiver de sair, é a sua vez no bastão, senhor
Pelo menos eu não fingi, (aqui está seu) chapéu, senhor
Creio que não consegui
Mas mesmo que eu seja uma flor de perfeição
Uma sarda no nariz da complexidade da vida
A Cinderela ou a menina de seus olhos
Tenho que voar uma vez, tenho que tentar uma vez,
Só se vive uma vez, certo, senhor?
Oh, a vida é suculenta, você vê,
Vou cravar meus dentes nela, senhor.
Esperem por mim, pois estou chegando,
Preciso marchar, meu coração está disparado
Não traga as nuvens para estragar a minha festa,

Vou viver e vou viver AGORA!
Conseguir o que quero, e sei como!
Dar um basta na coisa toda!
Um golpe e os sinos vão tocar,
Olho na mira e bum,
Um tiro, só um tiro e bam!
Ei, Sr. Arnstein, aqui estou eu…

Vou liderar minha banda, vou me promover
E se eu me perder, é a sua vez no bastão, senhor
Pelo menos eu não fingi, (tome seu) chapéu, senhor
Creio que não consegui
Esperem por mim, pois estou chegando,
Preciso marchar, meu coração está disparado
Ninguém, não, ninguém vai estragar a minha festa!

*     *     *

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Para saber mais:

Vídeo - Don’t Rain on My Parade - Barbra Streisand (do filme Funny Girl)

Vídeo - Don’t Rain on My Parade - Lea Michele (da série Glee)

Publicado em Maio - 24 - 2009

Yentl

“Yentl, the Yeshiva boy” é um conto do escritor Isaac Bashevis Singer (1902-1991), que conta a história de uma garota polonesa do século 19 cujo maior desejo era estudar os livros sagrados do Judaísmo, a Torá, o Talmude e outros, em uma época em que isso era proibido às mulheres. Ainda assim seu pai, um rabino, ensinava e discutia com ela a lei judaica e Teologia, atrás de cortinas fechadas. Quando seu pai morre, Yentl corta os cabelos, veste-se como homem e parte para encontrar uma yeshiva (escola de teologia) onde pudesse continuar estudando.

No comentário do rabino Yonassam Gershom a respeito do livro (no site Amazon), apesar do filme ser definitivamente feminista, o livro (e a peça de Isaac Singer e ) são uma história completamente diferente.

Anshel (o nome adotado por Yentl) e Avigdor eram parceiros de estudo (chaverim, em hebraico), um tipo de relacionamento que não existia fora da comunidade judaica ortodoxa. Eles discutiam o Talmude, debatendo ponto por ponto em voz alta, e naturalmente, tornaram-se os melhores amigos. Neste tipo de relacionamento eles sentavam-se juntos na escola, confiavam um no outro, ajudavam-se nas dificuldades, o que significava que eram amigos íntimos, como se fossem dois soldados, companheiros que lutassem batalhas juntos.

“Anshel ama Avigdor, sim. Mas ele é um parceiro de estudos, não um amante. O que Anshel procura em Avigdor não é a atração sexual, é aprender junto com ele. Ninguém mais na yeshiva é tão brilhante nos estudos como Avigdor. Ninguém mais é um desafio intelectual para Anshel - e por isso, ele estuda sozinho.

Quando Anshel revela a Avigdor que ele/ela é Yentl, uma mulher, Avigdor sugere que eles se casem e continuem estudando juntos – mas Yentl/Anshel diz não. Ele/ela diz a ele que não é ‘nem de um sexo nem de outro’ e que ela tem ‘a alma de um homem em um corpo de mulher’. Isso revela que Yentl TINHA MESMO uma crise de identidade sexual. Se ela quisesse apenas estudar o Talmude, e se estivesse apaixonada por Avigdor, ela poderia ter-se casado com ele e pronto. Mas ela escolhe continuar vivendo como Anshel pelo resto da vida, mesmo sem Avigdor. Em outras palavras, ela escolhe a solidão e a perda da amizade em vez de voltar a viver como mulher – uma escolha que muitos transexuais verdadeiros também fazem”.

Filme

O livro foi publicado em 1962, e em 1968 Barbra Streisand recebeu um exemplar de seu produtor e, após lê-lo, decidiu interpretar Yentl em seu próximo filme. Mas como ela havia acabado de filmar “Funny Girl”, os produtores acharam que duas histórias seguidas sobre garotas judias seria demais, e o projeto não foi adiante. Ainda assim, Barbra comprou os direitos de filmagem da história.

Em 1969 o autor do livro, Isaac Bashevis Singer, escreve um roteiro de 200 páginas para o filme, que é rejeitado por Barbra, por não ser suficientemente cinematográfico. A história é transformada em peça de teatro por Singer e Leah Napolin, que foi encenada na Broadway em 1975.

Em 1979 Streisand escreve o primeiro tratamento para o filme, na forma de um musical. A partir daí começam negociações com estúdios, pesquisas, pré-produção e a filmagem em locações na Checoslováquia até a estréia em 1983 de Yentl, co-produzido, dirigido e estrelado por Barbra Streisand, que teve sua primeira experiência como diretora neste filme.

O filme é um musical, com canções de Michel Legrand (música) e Marilyn e Alan Bergman (letras). Ainda assim, as músicas, todas cantadas por Barbra, são um recurso para mostrar o fluxo de consciência do personagem, que às vezes canta em voz alta e às vezes apenas em sua mente. Na minha opinião, funcionou muito bem para esta história, que não comportaria canções que fossem interpretadas em diálogos como as de Sweeney Todd, Gigi, My Fair Lady ou outros musicais.

A história do filme acabou sendo muito diferente do livro original; aqui, Yentl apaixona-se por Avigdor (Mandy Patinkin). Quando o noivado de Avigdor e Hadass (Amy Irving) é cancelado (a família dela descobre que o irmão do noivo havia se suicidado), Anshel é a próxima escolha dos pais da noiva para casar-se com Hadass. Avigdor consegue convencê-la que é uma boa idéia, pois mais tarde o casamento poderá ser desfeito e Avigdor e Hadass poderão ficar juntos.

[ALGUNS SPOILERS AQUI]

A princípio Yentl/Anshel recusa a idéia, mas quando Avigdor decide partir, ela acaba concordando e casa-se com Hadass. A noiva, assustada, interpreta a recusa do ‘marido’ em consumar o casamento como prova de amor e paciência, e acaba apaixonando-se ainda mais. Yentl começa a ensinar os livros sagrados a Hadass, e mostra que ela pode e deve pensar por si mesma e querer mais do que a vida limitada das mulheres de então. Yentl decide acabar com a farsa para não magoar Hadass e a si mesma ainda mais, e conta tudo a Avigdor. Ele fica furioso, mas depois admite que sentia-se atraído por ela, e propõe que fujam e se casem, e ela poderá continuar estudando o Talmude em casa. Yentl não aceita, e diz que quer “mais”.

Por fim, ela escreve uma carta para ser entregue aos rabinos, para a anulação do casamento, e parte sozinha para a América, onde poderá ser ‘livre’. Avigdor e Hadass ficam juntos.

[FIM DOS SPOILERS]

O filme desagradou a Isaac Singer, que não encontrou “mérito artístico nem na adaptação nem na direção”. Sobre seu roteiro, que foi rejeitado por Streisand, ele disse:

“..quando li seu script e vi o filme entendi que ela não poderia ter aceito minha versão. Em meu roteiro Yentl não fica no palco do começo ao fim. A atriz principal deve abrir espaço para que outros tenham sua voz e mostrem seus talentos. Não importa quão bom você seja, não deve tomar tudo para si. Não quero dizer que meu roteiro era perfeito, ou mesmo bom. Mas ao menos eu entendi que neste caso a atriz principal não deve monopolizar o palco. Todos sabemos que os atores lutam pelos melhores papéis, mas um diretor que mereça seu nome não permitirá que um ator usurpe toda a peça. Quando o ator é também o produtor, o diretor e o escritor, ele deve ser extraordinariamente sábio para moderar seu apetite. Devo dizer que a Srta. Streisand foi muito indulgente consigo mesma. O resultado é que a Srta. Streisand esteve sempre presente, enquanto a pobre Yentl esteve ausente.”

(Fonte: artigo do New York Times)

Apesar das duras críticas do Sr. Singer, é bom levar em conta que livro e filme são dois meios distintos e nem sempre uma adaptação cinematográfica pode (ou deve) ser extremamente fiel à história escrita. Claro que, como fã de um livro, também fico irritada quando o filme muda completamente a história (como aconteceu em Os Catadores de Conchas e no final de A Cidadela), mas então, ao analisar o filme como obra isolada, vemos que ele tem seus méritos e é um bom filme. No caso dos dois filmes citados isso é verdade, e também com Yentl.

Como era de se esperar, Yentl é um filme feminista, cuja mensagem principal é a de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos, tanto no acesso à educação quanto no direito à expressão (e em tudo o mais). Yentl não tinha autorização para pensar, raciocinar, exprimir suas idéias, participar da vida fora do lar. Anshel tinha. Quando tem a oportunidade de continuar estudando e ficar com o homem amado, mas tendo de abrir mão dessa liberdade de expressão em público, ela escolhe ficar sozinha. Também não é surpresa nenhuma que ela decida ir para a América, onde provavelmente poderá ter essa liberdade. Claro, Barbra é americana, é feminista e teve o controle da história. (Como bônus, indo para a América naquela época – 1904, ela ficou longe do cenário da I Guerra Mundial, que aconteceria dentro de alguns anos; será que Barbra pensou nisso ao escrever o final do roteiro?)

As músicas são boas, bem ao estilo de Barbra Streisand, e a mais bonita e tocante, sem dúvida é “Papa Can You Hear Me?”, quando ela ‘conversa’ com seu falecido pai. Impossível não ficar com os olhos úmidos ao ouvir essa música, uma das mais emocionantes que Barbra já gravou (veja o vídeo e a tradução da letra no final do artigo). A música recebeu o Oscar de Melhor Canção Original, tendo sido indicada junto com “The Way He Makes Me Feel”.

Outras indicações ao Oscar foram de Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Irving e Melhor Direção de Arte. A Academia ignorou a estréia de Streisand na direção, mas o filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Direção e de Melhor Filme (comédia/musical), além de quatro outras indicações, e o Grammy de Melhor Trilha Sonora Instrumental para Filme ou Especial de TV. Curiosamente, Amy Irving foi indicada tanto para o Oscar quanto para o Framboesa de Ouro (de Pior Atriz Coadjuvante), sendo a única atriz a receber as duas indicações pelo mesmo filme. Barbra também foi indicada para o Framboesa, como Pior Atriz.

Como fã de carteirinha de Barbra Streisand sou suspeita para falar, mas acho que ela se saiu muito bem na direção, além de brilhar como atriz e cantora. Gostei da montagem da cena de “Tomorrow Night”, que mistura o presente (Anshel no alfaiate) com o futuro (o casamento, no dia seguinte), num turbilhão de imagens e música que mostra a confusão pela qual passava Yentl/Anshel. O filme também teve uma produção primorosa, recriando o leste Europeu do início do século XX e com riqueza de detalhes; Barbra conta na entrevista a Larry King (disponível no YouTube) que usou objetos originais de época, emprestados pelos moradores, para compor os cenários. Perfeccionista ao extremo, ela conseguiu criar uma obra que chama a atenção pela história, interpretação, música e visual. Um filme emocionante.

Papa, Can You Hear Me?

(Michel Legrand – Marilyn Bergman – Alan Bergman)

(ORAÇÃO)

Oh, Deus, nosso Pai dos céus,

Oh, Deus – e meu pai

que também está no céu.

Que a luz desta vela

Ilumine a noite como

seu espírito ilumina minha alma.

Papai, você pode me ouvir?

Papai, você pode me ver?

Papai, você pode me encontrar na noite?

Papai, você está perto de mim?

Papai, você pode me ouvir?

Papai, pode me ajudar a não ficar com medo?

Olhando para o céu posso ver

Um milhão de olhos, quais são os seus?

Onde você está, agora que o passado

Nos disse adeus

E fechou suas portas?

A noite é muito mais escura,

O vento é muito mais frio,

O mundo que vejo é muito maior

Agora que estou sozinha.

Papai, por favor me perdoe,

Tente me compreender,

Papai, você sabe que eu não tive escolha?

Pode me ouvir rezando,

Tudo o que estou dizendo,

Mesmo que a noite esteja cheia de vozes?

Lembro de tudo o que você me ensinou,

De todos os livros que já li…

Podem todas as palavras em todos os livros

Ajudar-me a enfrentar o que está por vir?

As árvores são muito mais altas,

E eu me sinto muito menor;

A lua está duas vezes mais solitária

E as estrelas brilham duas vezes mais…

Papai, como eu o amo…

Papai, como preciso de você.

Papai, como sinto a falta

De seu beijo de boa noite…

*    *    *

Vídeo: “Papa Can You Hear Me?”

Para saber mais:

  • Artigo sobre o filme Yentl na Wikipédia (em inglês)
  • Artigo sobre Isaac Bashevis Singer na Wikipédia (em inglês e em português)
  • Yentl - entrada no IMDb
  • Yentl - 15 years – site criado para comemorar o 15º aniversário do filme, em 1998 – muitas fotos e clipes de áudio do filme
  • Página do livro “Yentl the Yeshiva Boy” na Amazon (leia o comentário do rabino Gershon)
  • Resenha no site Rascunho:
    Isaac Bashevis Singer – O escritor dos fantasmas – Luiz Paulo Faccioli
  • Artigo de Alex Castro no LLL sobre Isaac Bashevis Singer
  • o filme Yentl no YouTube (em inglês, sem legendas – em 14 partes) - Link da parte 1
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