Publicado em Março - 26 - 2010
O que torna as sociedades mais felizes e saudáveis?
(artigo publicado no Alma Carioca em 24/03/2010)
O que tem maior impacto no nível de felicidade de uma sociedade? Se você pensou que é a riqueza, está enganado.
O epidemiologista britânico Richard Wilkinson estuda há algumas décadas por que algumas sociedades são mais saudáveis que outras. Ele descobriu que o que torna uma sociedade saudável não é o que ela tem a mais que outras - mais renda, mais educação, mais riqueza - mas a igualdade na distribuição dos bens.
Ele também constatou que muitos problemas sociais, desde doenças mentais ao abuso de drogas, são piores em sociedades desiguais. Os efeitos dessa desigualdade também incluem a diminuição da confiança, o aumento de doenças e a ansiedade, que encoraja o consumo excessivo.
Por outro lado, sociedades com menores diferenças entre ricos e pobres, ou seja, menor desigualdade social, são mais resilientes e seus membros têm vidas mais longas e felizes.
Ao analisar e comparar as sociedades, Wilkinson observou os índices de problemas como expectativa de vida, doenças mentais, gravidez na adolescência, violência, a porcentagem da população que está em prisões e uso de drogas. Esses índices eram muito piores em países com alta desigualdade social. A renda per capita não tem muito efeito nas previsões da taxa de mortalidade de um país, mas a distribuição de renda sim. Em países desiguais, esses problemas aumentam de dez a doze vezes que em países com maior igualdade.
O curioso é que sempre pensamos nesses problemas como ligados à pobreza. Wilkinson mostra que eles estão ligados não à renda, mas à estratificação da renda. Essa é uma ideia que a maioria de nós já tinha, intuitivamente - pensávamos que a concentração de renda era um fator pernicioso - e agora sabemos que isso é verdade.
Wilkinson lembra de um psiquiatra de prisão que passou 25 anos conversando com homens muito violentos, e disse que ainda não vira um ato de violência que não tivesse sido causado por desrespeito, humilhação ou perda da dignidade. Esses fatores desencadeiam a violência e são mais intensos em sociedades desiguais, onde o status e a competição são intensificados e somos mais sensíveis a julgamentos sociais.
Os efeitos psicossociais da desigualdade são os maiores fatores de estresse. Somos seres sociais, e o ambiente e os relacionamentos sociais nos afetam em grande escala. A competição e a ansiedade para manter o padrão social que (acreditamos que) esperam de nós causam grande estresse e levam a dívidas. Isso faz que as pessoas trabalhem mais, consumam mais (o que consumimos mostra quem somos, ou assim pensam as pessoas), e isso torna-se um círculo vicioso que cada vez mais diminui a sensação de felicidade e prejudica os relacionamentos. Nunca é o suficiente.
Outra consequência da desigualdade sobre os relacionamentos é que ela cria uma hierarquia social baseada no poder - e o que o acompanha: status, riqueza, acesso privilegiado a recursos. E essa hierarquia é um potencial para conflitos. Felizmente, ao mesmo tempo em que somos animais sociais, sujeitos a essas consequências da desigualdade, também temos o potencial para o amor, aprendizado e cooperação. Podemos anular esse potencial para conflitos através da participação, compartilhamento e generosidade, não só no sentido material.
Entre os países ricos com maior igualdade estão o Japão e a Suécia. Esta última tem grandes diferenças salariais, que são redistribuídos através de impostos e benefícios. O país tem uma grande taxa de assistência social pelo estado, que cuida da assistência médica, educação, seguridade social e seguro desemprego. Por outro lado, o Japão tem menos diferenças salariais, faz muito menos redistribuição e não tem grandes gastos sociais. Ambos os países vão muito bem; estão entre os países com maior igualdade e os resultados sociais são muito positivos.
Mas uma sociedade não pode depender apenas dessas medidas para garantir a felicidade, pois elas estão ao sabor dos governos e da política. A estrutura de igualdade deve estar profundamente enraizada na sociedade. Empresas amigáveis, com participação dos funcionários, cooperativas, transparência na contabilidade, geram maior produtividade e funcionários mais felizes.
Essa sensação de igualdade também se reflete em outras áreas, como a sustentabilidade. Os índices de reciclagem, a diminuição do consumo, o consumo consciente, vêm da sensação de estar colaborando para o bem comum. E isso é mais frequente em sociedades saudáveis e com maior igualdade.
Um bom exemplo de sociedade saudável e feliz é o Butão, a democracia mais jovem do mundo. Na verdade, o pequeno país asiático tem o índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB), que guia a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. Quem começou isso foi o Rei Jigme Singye Wangchuck, que há 35 anos tornou-se o quarto rei do Butão, com apenas 18 anos de idade.
O Rei Jigme, que foi educado no Reino Unido, é muito querido pelo povo, que não tem uma só palavra de crítica ou censura a ele. No dia de sua posse, ele disse que “A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto”. Sua ideia é que o modo de medir o progresso não deve ser baseado apenas no fluxo de dinheiro. Uma sociedade só se desenvolve verdadeiramente quando os avanços material e espiritual se complementam e reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas do rendimento econômico, mas também se ele leva ou não à felicidade. É o bem comum em primeiro lugar.
O fato de o país ser de maioria budista ajuda a explicar o sucesso dessa filosofia e prática de governo. Outro fator que contribuiu foi o relativo isolamento do Butão quanto ao resto do mundo. A televisão e a internet chegaram ao país apenas em 1999. Thimpu é a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional tem apenas uma pista.
Para o Butão, os quatro pilares que devem inspirar cada política do governo são:
- Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo
- A preservação e promoção da cultura
- A conservação do meio ambiente
- O bom governo
Para garantir que as decisões do governo estão indo na direção certa, os cidadãos butaneses respondem um questionário a cada dois anos, com perguntas sobre como o cidadão percebe sua vida em nove áreas principais. A análise das respostas indica se o povo está se sentindo feliz, e quais áreas merecem mais atenção por parte do governo. O questionário é a base para o cálculo do índice de Felicidade Interna Bruta.
O Butão é um país pequeno, com apenas 700 mil habitantes, e sua economia depende da energia hidráulica e do turismo sustentável. O país recebe ajuda externa, há pouca corrupção, e ainda assim em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo.
Apesar da receita butanesa não ser exportável, ela serve para inspirar outros países a repensar as decisões de seus governos. Se o FIB não pode ser usado pelos países ocidentais para medir o grau de felicidade e saúde de seus cidadãos, tampouco o PIB serve para isso.
Vivemos em sociedades altamente competitivas, e estamos sempre correndo atrás de algo - correndo para pagar as contas, para alimentar nossos filhos, para manter o emprego, para conseguir um emprego, para fazer mais um curso, para manter a cabeça fora d´água. E o resultado reflete-se na nossa saúde e em nossa falta de felicidade.
Talvez se tomarmos consciência disso e mudarmos individualmente, se cobrarmos de nossos governantes uma maior transparência e atitudes que beneficiem a todos em vez de a uma minoria privilegiada, se participarmos mais - seja através do voto, de nossas opiniões, de trabalhos voluntários - talvez consigamos dar o primeiro passo em direção a uma sociedade menos violenta, e mais saudável e feliz.
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Para saber mais:
- “What makes the healthiest and happiest societies? Hint: it´s not wealth” - artigo de Brooke Jarvis no site AlterNet
- “Butão: o reino que quis medir a felicidade” - artigo de Pablo Guimón, publicado originalmente no jornal El País em 29/11/2009, cuja tradução (de Moisés Sbardelotto) está no site Sun Net.








Este tipo de comportamento tem se tornado epidêmico: com mais de 8 mil casas americanas tendo as hipotecas liquidadas todos os dias, de 15.000 a 26.000 animais diariamente correm o risco de perder seu lar. É claro que nem todos os animais são abandonados sozinhos. Muitos estados consideram um crime o abandono de animais, mas muitos donos não têm escolha.
O que é revoltante é que algumas pessoas usam a hipoteca como desculpa para abandonar seus animais em abrigos, dizendo que não podem mais sustentá-los. Alguns funcionários de abrigos comentam que os problemas com a hipoteca tem sido “um modo politicamente correto de abandonar animais sem julgamento”. Normalmente o abandono de animais em abrigos acontece em ciclos, com picos usuais perto do Natal e no período antes das férias de verão. Mas cinco meses após o Natal, o fluxo de abandonos não diminuiu.
Voltando ao artigo, aproximadamente metade dos abrigos e grupos de resgate citam as dificuldades financeiras como o principal motivo para o abandono dos animais. Dezesseis por cento citaram a liquidação de hipotecas como a principal razão. Grupos de resgate pedem aos donos de animais para tentarem encontrar novos lares para eles, caso não consigam mantê-los. “Nunca deixe seu animal trancado em uma casa fechada. Nunca é a melhor opção”. E eu acrescentaria, não é humano agir assim.





