Publicado em Março - 26 - 2010

O que torna as sociedades mais felizes e saudáveis?

(artigo publicado no Alma Carioca em 24/03/2010)

O que tem maior impacto no nível de felicidade de uma sociedade? Se você pensou que é a riqueza, está enganado.

O epidemiologista britânico Richard Wilkinson estuda há algumas décadas por que algumas sociedades são mais saudáveis que outras. Ele descobriu que o que torna uma sociedade saudável não é o que ela tem a mais que outras - mais renda, mais educação, mais riqueza - mas a igualdade na distribuição dos bens.

Ele também constatou que muitos problemas sociais, desde doenças mentais ao abuso de drogas, são piores em sociedades desiguais. Os efeitos dessa desigualdade também incluem a diminuição da confiança, o aumento de doenças e a ansiedade, que encoraja o consumo excessivo.

Por outro lado, sociedades com menores diferenças entre ricos e pobres, ou seja, menor desigualdade social,  são mais resilientes e seus membros têm vidas mais longas e felizes.

(foto do blog Desigualdade Social, de Bárbara Pacheco)

(foto do blog Desigualdade Social, de Bárbara Pacheco)

Ao analisar e comparar as sociedades, Wilkinson observou os índices de problemas como expectativa de vida, doenças mentais, gravidez na adolescência, violência, a porcentagem da população que está em prisões e uso de drogas. Esses índices eram  muito piores em países com alta desigualdade social. A renda per capita não tem muito efeito nas previsões da taxa de mortalidade de um país, mas a distribuição de renda sim. Em países desiguais, esses problemas aumentam de dez a doze vezes que em países com maior igualdade.

O curioso é que sempre pensamos nesses problemas como ligados à pobreza. Wilkinson mostra que eles estão ligados não à renda, mas à estratificação da renda. Essa é uma ideia que a maioria de nós já tinha, intuitivamente - pensávamos que a concentração de renda era um fator pernicioso - e agora sabemos que isso é verdade.

Wilkinson lembra de um psiquiatra de prisão que passou 25 anos conversando com homens muito violentos, e disse que ainda não vira um ato de violência que não tivesse sido causado por desrespeito, humilhação ou perda da dignidade. Esses fatores desencadeiam a violência e são mais intensos em sociedades desiguais, onde o status e a competição são intensificados e somos mais sensíveis a julgamentos sociais.

Os efeitos psicossociais da desigualdade são os maiores fatores de estresse. Somos seres sociais, e o ambiente e os relacionamentos sociais nos afetam em grande escala. A competição e a ansiedade para manter o padrão social que (acreditamos que) esperam de nós causam grande estresse e levam a dívidas. Isso faz que as pessoas trabalhem mais,  consumam mais (o que consumimos mostra quem somos, ou assim pensam as pessoas), e isso torna-se um círculo vicioso que cada vez mais diminui a sensação de felicidade e prejudica os relacionamentos. Nunca é o suficiente.

Outra consequência da desigualdade sobre os relacionamentos é que ela cria uma hierarquia social baseada no poder - e o que o acompanha: status, riqueza, acesso privilegiado a recursos. E essa hierarquia é um potencial para conflitos. Felizmente, ao mesmo tempo em que somos animais sociais, sujeitos a essas consequências da desigualdade, também temos o potencial para o amor, aprendizado e cooperação. Podemos anular esse potencial para conflitos através da participação, compartilhamento e generosidade, não só no sentido material.

Entre os países ricos com maior igualdade estão o Japão e a Suécia. Esta última tem grandes diferenças salariais, que são redistribuídos através de impostos e benefícios. O país tem uma grande taxa de assistência social pelo estado, que cuida da assistência médica, educação, seguridade social e seguro desemprego. Por outro lado, o Japão tem menos diferenças salariais, faz muito menos redistribuição e não tem grandes gastos sociais. Ambos os países vão muito bem; estão entre os países com maior igualdade e os resultados sociais são muito positivos.

Mas uma sociedade não pode depender apenas dessas medidas para garantir a felicidade, pois elas estão ao sabor dos governos e da política. A estrutura de igualdade deve estar profundamente enraizada na sociedade. Empresas amigáveis, com participação dos funcionários, cooperativas, transparência na contabilidade, geram maior produtividade e funcionários mais felizes.

Essa sensação de igualdade também se reflete em outras áreas, como a sustentabilidade. Os índices de reciclagem, a diminuição do consumo, o consumo consciente, vêm da sensação de estar colaborando para o bem comum. E isso é mais frequente em sociedades saudáveis e com maior igualdade.

Um bom exemplo de sociedade saudável e feliz é o Butão, a democracia mais jovem do mundo. Na verdade, o pequeno país asiático tem o índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB), que guia a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. Quem começou isso foi o Rei Jigme Singye Wangchuck, que  há 35 anos tornou-se o quarto rei do Butão, com apenas 18 anos de idade.

O Rei Jigme, que foi educado no Reino Unido, é muito querido pelo povo, que não tem uma só palavra de crítica ou censura a ele. No dia de sua posse, ele disse que “A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto”. Sua ideia é que o modo de medir o progresso não deve ser baseado apenas no fluxo de dinheiro. Uma sociedade só se desenvolve verdadeiramente quando os avanços material e espiritual se complementam e reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas do rendimento econômico, mas também se ele leva ou não à felicidade. É o bem comum em primeiro lugar.

O fato de o país ser de maioria budista ajuda a explicar o sucesso dessa filosofia e prática de governo. Outro fator que contribuiu foi o relativo isolamento do Butão quanto ao resto do mundo. A televisão e a internet chegaram ao país apenas em 1999. Thimpu é a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional tem apenas uma pista.

Ninho do Tigre - Butão (foto de José Eduardo de Sousa Cruz Rocha)

Ninho do Tigre - Butão (foto de José Eduardo de Sousa Cruz Rocha)

Para o Butão, os quatro pilares que devem inspirar cada política do governo são:

  1. Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo
  2. A preservação e promoção da cultura
  3. A conservação do meio ambiente
  4. O bom governo

Para garantir que as decisões do governo estão indo na direção certa, os cidadãos butaneses  respondem um questionário a cada dois anos, com perguntas sobre como o cidadão percebe sua vida em nove áreas principais. A análise das respostas indica se o povo está se sentindo feliz, e quais áreas merecem mais atenção por parte do governo. O questionário é a base para o cálculo do índice de Felicidade Interna Bruta.

O Butão é um país pequeno, com apenas 700 mil habitantes, e sua economia depende da energia hidráulica e do turismo sustentável. O país recebe ajuda externa, há pouca corrupção, e ainda assim em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo.

Apesar da receita butanesa não ser exportável, ela serve para inspirar outros países a repensar as decisões de seus governos. Se o FIB não pode ser usado pelos países ocidentais para medir o grau de felicidade e saúde de seus cidadãos, tampouco o PIB serve para isso.

Vivemos em sociedades altamente competitivas, e estamos sempre correndo atrás de algo - correndo para pagar as contas, para alimentar nossos filhos, para manter o emprego, para conseguir um emprego, para fazer mais um curso, para manter a cabeça fora d´água. E o resultado reflete-se na nossa saúde e em nossa falta de felicidade.

Talvez se tomarmos consciência disso e mudarmos individualmente, se cobrarmos de nossos governantes uma maior transparência e atitudes que beneficiem a todos em vez de a uma minoria privilegiada, se participarmos mais - seja através do voto, de nossas opiniões, de trabalhos voluntários - talvez consigamos dar o primeiro passo em direção a uma sociedade menos violenta, e mais saudável e feliz.

*     *     *

Para saber mais:

Publicado em Março - 17 - 2010

Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada

(artigo publicado no Alma Carioca em 13/03/2010)

Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.

Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.

Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.

A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.

Na raiz desse problema está a legislação “Farm bill”, que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios “agrícolas” vão mesmo para a produção de carne.

Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.

O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.

Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.

Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.

Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma “Freedom to Farm”, aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.

No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.

O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.

Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.

Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.

No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que “os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio”.

O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.

O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?

Para saber mais:

Publicado em Março - 14 - 2010

Semana do Rato

  • Biblioteca de NY vira refúgio durante a crise econômica; o artigo de Lúcia Guimarães (Estadão) conta que o número de visitas à biblioteca pública de Nova Iorque aumentou no último ano: foram 40 milhões de visitas em 2009, entre desempregados buscando auxílio para fazer o currículo, crianças cujos pais perderam acesso a babás e creches e pessoas que fazem empréstimos de livros físicos e digitais, ou os leem no confortável Rose Reading Room (veja o vídeo mostrando a sala).

O artigo traz uma entrevista com Paul LeClerc, diretor da Biblioteca, que discute a parceria com o Google para digitalização de obras em domínio público, o dilema da preservação da cultura daqui para a frente e o papel das bibliorecas em economias emergentes. Vale a pena ler! (via @Shoujofan, RT de @memoriaviva)

  • Depois do Oscar, vem o Troféu PdUBT: a @lunaomi analisa os erros e acertos do tapete vermelho com o bom humor de sempre. Adorei o ‘troféu Origami’ e o ‘troféu Yacht Club’… :-)
  • Sniffing out bedbugs: cães são usados na localização e combate aos percevejos (bedbugs) em Nova Iorque; depois da proibição do uso de inseticidas como o DDT, os percevejos tornaram-se uma praga que infesta os imóveis novaiorquinos. Cães de abrigo treinados apresentam 96% de acerto na localização dos insetos.

Ao localizar um foco de infestação o cão dá o alerta, por exemplo batendo com a patinha no colchão. Os donos dos cães precisam assumir um compromisso não muito agradável: manter os percevejos em casa e deixar-se morder por eles de vez em quando, pois os bichos sobrevivem apenas por algum tempo alimantando-se de sangue humano. Um pequeno sacrifício que resulta em uma grande ajuda.

Além de percevejos, os cães treinados na J&K Canine Academy também localizam cupins, bombas e alguns tipos de câncer. (via @MotherNatureNet)

  • Para rir (de nós mesmos): Tabela de equivalência de tempo na Internet (via @vitorhugobr) Como diz o Vitor, “Fala se não é verdade? No twitter é o que mais se vê, rs.” Também acho! (quem nunca disse “um segundinho!”?)
  • Agora, falando sério: a @samegui escreveu um artigo muito interessante sobre a gravidez e o parto de cadeirantes; ao contrário do que se pode imaginar, a mulher cadeirante pode sim ter vida sexual ativa e ser mãe, mas é preciso tomar alguns cuidados especiais. Vale a pena ler.
  • Por que um Big Mac custa mais caro do que uma salada nos EUA? o artigo do AlterNet mostra que os enormes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtos de origem animal (carne, laticínios) e a falta dos mesmos subsídios para frutas e vegetais garantem o hambúrguer baratinho e dificultam o consumo de vegetais, que deveriam ser a base de uma dieta saudável. Não é a toa que os níveis de obesidade nos EUA são alarmantes. Mas esse não é o único problema causado pelos subsídios. Mais detalhes sobre esse assunto no meu artigo publicado no Alma Carioca, “Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada”.

  • Amigos lançam selo de livros e faturam R$ 220 mil com apenas uma obra: conheça a história dos amigos Alexandre Ottoni e Deive Pazos, que se uniram ao amigo e autor Eduardo Spohr para criar o selo editorial Nerdbooks em 2009. Com apenas um livro publicado, “A batalha do apocalipse”, o trio já faturou alto e tem recebido propostas de outros autores inciantes. Eles pretendem editar outros livros que tenham potencial de vendas dentro do nicho deles.

Leia a história completa no artigo de Marcus Vinicius Pileggi no site Pequenas Empresas, Grandes Negócios.

  • Lembram daquele programa “Acredite se quiser”, apresentado pelo finado Jack Palance? o @fwtoogood (do blog Ideiafix) conta a história do criador do “believe it or not” original, Robert Ripley. As histórias são incríveis, não deixe de ver.


Um ótimo domingo a todos!!

Publicado em Maio - 02 - 2009

A Crise Econômica nos EUA atinge os animais de estimação

Hoje foi publicado meu primeiro artigo no Alma Carioca. Fiquei muito feliz, principalmente pela acolhida afetuosa que tive, com comentários interessantes, uma ótima troca de idéias e palavras de incentivo. Cada vez mais gosto daquele espaço, tanto pela qualidade e variedade dos artigos publicados quanto pelo ambiente gostoso, com muitas pessoas talentosas e generosas.

Pretendo enviar mais artigos para publicação lá, e conforme combinado com o Paulo Afonso, timoneiro do Alma Carioca, depois que os textos forem publicados lá posso trazê-los para o Rato de Biblioteca. Mesmo assim, recomendo aos leitores do Rato que visitem o Alma Carioca - Contos e Crônicas para conhecer outros textos maravilhosos. São contos, crônicas, poesias, artigos sobre diversos assuntos, e a série Caminho das Índias, que tem recebido inúmeras visitas. Vocês vão gostar!

E vamos ao meu primeiro artigo com ‘alma carioca’:

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A Crise Econômica nos EUA atinge os animais de estimação


Cristine Martin

Não, não é a gripe suína; esta semana li um artigo de Liliana Segura no site AlterNet que contava como os animais domésticos são as novas vítimas da crise econômica que fez muitos norte-americanos perderem suas casas por liquidação da hipoteca.

Todos sabemos que muitas pessoas estão perdendo os empregos, não conseguem pagar as prestações da hipoteca e acabam sendo despejados quando não conseguem pagar suas dívidas. Mas o que se está percebendo agora, e tem sido noticiado em várias mídias locais dos Estados Unidos, é que os animais de estimação estão sendo abandonados por seus donos. Deixados em abrigos, entregues a outras pessoas ou o que é pior, abandonados trancados nas casas vazias depois que os donos se vão.

Em Arkansas, três cães foram encontrados mortos, trancados em gaiolas de transporte, sem comida ou água; um pastor alemão foi deixado acorrentado a uma árvore no quintal de uma csaa abandonada no Arizona (e foi sacrificado mais tarde); um pit bull faminto foi descoberto na Califórnia, no que restou de uma casa arruinada pelos antigos donos “antes que o banco a tomasse” (um funcionário de uma Associação Protetora dos Animais em Cleveland chama isso de “parte do processo de vingança”; os proprietários deixam os animais para urinar e defecar na casa, para dificultar a limpeza pelo pessoal que liquida a hipoteca).

Este tipo de comportamento tem se tornado epidêmico: com mais de 8 mil casas americanas tendo as hipotecas liquidadas todos os dias, de 15.000 a 26.000 animais diariamente correm o risco de perder seu lar. É claro que nem todos os animais são abandonados sozinhos. Muitos estados consideram um crime o abandono de animais, mas muitos donos não têm escolha.

Algumas pessoas sofrem por ter de abrir mão de animais que são parte da família, e tentam encontrar novos lares para eles. Em Connecticut, uma mulher teve de ir morar com familiares após perder sua casa, e precisou abrir mão de suas duas gatas. Ela havia adotado as duas gatinhas irmãs em um abrigo, deu-lhes mamadeira, cuidou delas por 11 anos e agora ela e o marido estavam arrasados por ter de deixá-las (junto com todo o equipamento: caixas de areia, brinquedos, álbuns de fotos). Estes animais eram mesmo parte da família.

Infelizmente, devido ao grande número de animais deixados em abrigos, muitos deles acabam sendo sacrificados imediatamente, pois nem os abrigos conseguem cuidar de tantos. A escolha acaba sendo entre uma morte rápida pela eutanásia ou uma morte lenta e dolorosa para os pobres animais abandonados.

O que é revoltante é que algumas pessoas usam a hipoteca como desculpa para abandonar seus animais em abrigos, dizendo que não podem mais sustentá-los. Alguns funcionários de abrigos comentam que os problemas com a hipoteca tem sido “um modo politicamente correto de abandonar animais sem julgamento”. Normalmente o abandono de animais em abrigos acontece em ciclos, com picos usuais perto do Natal e no período antes das férias de verão. Mas cinco meses após o Natal, o fluxo de abandonos não diminuiu.

Manter e cuidar de um animal não é barato; de acordo com a Associação Americana de Produtos para Animais, o custo anual de manter um cão nos EUA é em média $ 1.400 dólares, e para um gato é de $ 1.100 dólares. Alguns donos decidem sacrificar seus animais quando descobrem que eles têm alguma doença incurável, que irá causar altas despesas. Neste ponto falo por experiência própria: nossa cadelinha passou por muitos problemas de saúde em seu último ano de vida, e gastamos um bocado com todo o tratamento possível a ela, mesmo sabendo que, depois de um certo ponto, não haveria cura. Não tivemos coragem de sacrifícá-la, e demos todo o carinho e cuidado a ela, até o fim. Mas sei que nem todas as pessoas têm condição de arcar com essas despesas e/ou têm tempo de cuidar de um animal doente. Por isso até entendo alguns casos, mas ainda não consigo aceitar quando o motivo é evitar ou reduzir despesas com o cão, mas não conseguem abrir mão da TV a cabo.

Voltando ao artigo, aproximadamente metade dos abrigos e grupos de resgate citam as dificuldades financeiras como o principal motivo para o abandono dos animais. Dezesseis por cento citaram a liquidação de hipotecas como a principal razão. Grupos de resgate pedem aos donos de animais para tentarem encontrar novos lares para eles, caso não consigam mantê-los. “Nunca deixe seu animal trancado em uma casa fechada. Nunca é a melhor opção”. E eu acrescentaria, não é humano agir assim.

Ao ler os comentários dos leitores do site ao artigo, algumas histórias chamam a atenção. Uma leitora, “Purple Girl”, que é criadora de cavalos, conta que não só os cães e gatos têm sido vítimas da crise econômica. Devido ao aumento nos custos de manter um cavalo, ela soube que muitos deles têm sido levados para os pântanos (da Flórida) e abandonados lá, virando comida de jacarés. Ela sugere:

“esta grande tragédia pode ser o momento de buscar soluções verdadeiras para nossa superpopulação de animais de estimação. Salvar animais é admirável, mas não resolve o problema. Existem muitas pessoas que criam animais de forma irresponsável; não apenas as ‘fábricas de filhotinhos’ para venda, mas novatos que querem que Fluffy tenha uma ninhada ou que as crianças assistam ao nascimento do potrinho da velha égua Bess. Eles acabam com muitos filhotes nas mãos, e não sabem o que fazer com eles.

É o momento de estabelecer leis e regras mais rígidas para a reprodução de animais. Deve ser preciso ter uma licença para ser criador, e cada possível animal reprodutor deve ser avaliado e licenciado. Veterinários devem garantir que os animais estão aptos a serem bons reprodutores, e os proprietários devem ter o conhecimento e capacidade de cuidar das ninhadas. As licenças devem ser caras – isso eliminaria o criador ‘emocional’, e as pessoas que quisessem um animal iriam antes procurar em abrigos para adoção. (…)

Acabar com os animais abandonados, abusados ou negligenciados é como acabar com o aborto – devemos acabar com as gravidezes indesejadas, para começar”.

Outro comentário que levanta a responsabilidade de quem quer ter um animal é o de Gisele, que conta:

“Não consigo imaginar a possibilidade de abandonar nenhum dos meus 4 gatos, não importa como a situação esteja ruim. Três deles chegaram a mim como sua ‘última chance’. O passo seguinte seria a eutanásia, e um deles era um animal abandonado que quase ‘comeu a casa toda’ nas primeiras 3 semanas. Até hoje seu modo de comer é o de um animal faminto, mesmo após 10 meses do resgate. O dinheiro das minhas férias pagou a castração deles, vacinas e equipamentos. Estou no meu limite, e ainda assim há outro que vem até a minha porta para conseguir comida e água. Demorei um pouco para perceber que ele era ‘trazido’ à minha porta pelo último gato que me adotou. E dizem que os animais não pensam!

A crise econômica está começando a mostrar seus efeitos aqui também… Talvez eu tenha que comprar uma velha van para morar, uma onde caibam nós cinco. Mas não consigo imaginar não tê-los comigo… eu não conseguiria. “

Felizmente ainda existem pessoas que sabem que adotar um animal deve ser uma atitude responsável. Não se adota um animal para abandoná-lo quando as coisas vão mal, ou quando o preço da ração sobe, ou quando as crianças enjoaram do cãozinho… eles são seres vivos, que sentem, retribuem o carinho que recebem (com lealdade que não se encontra em muitos seres humanos…) e sofrem muito quando são abandonados.

Lembro da comoção quando, na última enchente em Santa Catarina, voluntários recolhiam animais abandonados pelas pessoas que fugiram de suas casas inundadas. Muitos não tiveram tempo de levar os animais consigo, ou talvez nem tenham lembrado deles. Pobres animais foram encontrados mortos, presos a correntes nos quintais; nem tiveram a chance de tentar se salvar. As crises acontecem, enchentes, incêndios, hipotecas liquidadas, e muitas pessoas sofrem seus efeitos devastadores. O fato de animais indefesos também serem vítimas nos entristece, mas o fato de animais indefesos serem abandonados sem chance de se defender e se salvar é revoltante.

E eles é que são os animais irracionais…

Fonte: artigo “The Soaring Rate of Abandoned Animals is the Latest Sign of a Deep Economic Crisis” – Liliana Segura, publicado em 28/04/2009 no site AlterNet

*   *   *

Para saber mais:

- Artigo: “Adoção de animais não é para qualquer um” – Paulo Afonso, lá no Alma Carioca

- Reportagem: “Mulher cria abrigo para 1,5 mil animais abandonados”

- Artigo: “Abrigos, uma dura realidade” – Cláudia Porto

- Artigo: “Sucesso em abrigos para cães abandonados” – Alexandre Rossi

Atualização: acabei de encontrar estes artigos:

“Why are there abandoned foreclosure pets?” do site Bank Foreclosure Sale, com mais links para artigos relacionados logo após o artigo principal

“Foreclosure Pets” - Paul Knight, no Houston News

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