Publicado em Março - 03 - 2009

O Futuro da Humanidade - palestra de Isaac Asimov

Antes de passar à palestra, deixem-me explicar: adoro os livros de Isaac Asimov, e descobri há alguns anos um site excelente sobre ele, o Isaac Asimov Online, criado por Edward Seiler e que tem ótimas informações, dados bibliográficos, classificação de seus livros por assunto e listas dos livros das séries da Fundação e dos Robôs em ‘ordem cronológica’ das histórias. Vale a pena visitá-lo!

No site há um link para esta palestra, em inglês. Como o material foi considerado em domínio público pelo autor da gravação (mais explicações na introdução da palestra, logo abaixo), decidi traduzi-la para que mais pessoas possam conhecer as idéias inovadoras de Asimov, não só quanto a temas de ficção científica, mas em questões do dia-a-dia da humanidade e aonde isso pode nos levar.

O ‘bom doutor’, além de extremamente criativo, era uma pessoa de muito bom-senso. E isso fica evidente ao lermos a transcrição desta palestra, feita há 34 anos, e que no entanto continua atual e pertinente.

O texto é muito longo (mais de 9 mil palavras), mas vale a pena. Por isso dividi o artigo com um link; para continuar a leitura, basta clicar em READ MORE.

Boa leitura!

Para saber mais:

site asimov on Line (em inglês)

Entrada de Isaac Asimov na Wikipédia (em português)

site Império de Isaac Asimov (em português)

O Futuro da Humanidade - palestra de Isaac Asimov

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(texto traduzido de original em inglês, The Future of Humanity, retirado do site Asimov On Line; tradução de Cristine Martin)


Assunto: O Futuro da Humanidade

Local: Newark College of Engineering
Data: 8 de Novembro de 1974

“O documento a seguir é a transcrição de uma palestra dada pelo Dr. Isaac Asimov. Ela vem de uma fita de áudio que mantenho em minha coleção desde a 6ª série. Ela não está disponível em lugar algum; por favor, não me mandem e-mails pedindo cópias. Eu a apresento ao grupo como tributo a um homem que mudou meu modo de pensar quando mais precisei.

Fiz algumas correções quanto a palavras mal colocadas, eliminei quaisquer gaguejamentos, etc. Essas edições não afetaram de modo algum o conteúdo pretendido da apresentação. Após ouvi-la por tantos anos, eu a compreendo completamente.

Enquanto vocês leem isto, tenham em mente que o bom doutor improvisou muitas de suas palestras. Geralmente, quando era solicitado a falar em um dado evento, ele perguntava qual era o assunto desejado e raramente, se tanto, preparava algo para a ocasião. A maior parte do que vocês leem aqui é inglês conversacional, e pode não parecer muito elegante no papel.

O que vocês leem aqui, apesar de eterno, é um produto de seu tempo. 1973 viu o fim de muito otimismo trazido dos anos 60, e o embargo do petróleo era a primeira inconveniência real experimentada pelos “baby-boomers” da América em escala nacional. Muitas famílias de classe média precisavam então do salário de duas pessoas, e o custo de vida estava subindo.

Vinte e dois anos se passaram desde que o bom doutor apresentou isto, e o conteúdo ainda carrega uma verdade universal. Mesmo que isto seja a única coisa que você leia, produzida pelo falecido Dr. Asimov, poderá ter uma boa ideia quanto ao nível de sua sabedoria. Eu sinceramente duvido que este mundo possa ver novamente outro indivíduo com habilidades remotamente próximas das dele.

Por favor, note que este material NÃO está protegido por direitos autorais, e eu o estou colocando em domínio público.

B. Torre
8 de junho de 1995″


INTRODUÇÃO (pessoa não identificada)

É agora com grande prazer que lhes apresento um homem que é provavelmente o escritor de ficção científica mais prolífico do mundo hoje. E, ele é também um homem muito erudito…e não vou falar mais, porque ele é muito mais esperto que eu. Apenas vou… bem, isto não é falar demais, mas… vou trazê-lo até aqui agora. Ahhn… por favor, recebam o Dr. Isaac Asimov.

(aplausos)


Palavras do Dr. Asimov:

Obrigado, obrigado. Eu tenho… vocês podem ouvir o que estou dizendo, ou terei de me inclinar até isto aqui?

(sem resposta)

Vocês podem me ouvir quando eu falo assim? Alguém?

(algumas pessoas respondem que podem entendê-lo.)

OK.

Minha viagem de Newark até aqui foi muito emocionante.

(risadas do grupo)

Porque, vocês sabem, minha correspondência vai para meu escritório. Que não é onde moro. E quando me disseram que iriam me buscar, eu cuidadosamente escrevi uma carta bem clara explicando exatamente onde moro. O que inevitavelmente fez que eles mandassem o pessoal para meu escritório.

(risadas suaves do grupo)

Enquanto eu estava lá na rua, esperando pelo carro, ouvido o tique-taque dos minutos passando, percebendo que eu deveria estar aqui às oito horas… fiquei desesperado. Finalmente chamei minha esposa ao interfone e disse: “Ligue para o escritório e pergunte se há alguns idiotas lá procurando por mim”(risos)

Ela fez isso e me chamou de volta, dizendo que era lá que eles estavam, e que ela havia dito a eles para virem aqui. Eu disse: “Por que você fez isso? São quatro quarteirões. Eles nunca vão conseguir!”

(risos)

Eles quase não conseguiram.

(risos)

Tive de esperar mais dez minutos.

(risadas fracas)

Então, mas finalmente chegamos aqui cinco minutos adiantados. E batemos em uma porta fechada.

(risadas fracas)

E um guarda de segurança abriu e disse: “Você não pode entrar”.

(risadas fortes)

E os dois rapazes que estavam comigo, que pareciam estudantes de faculdade… tipos bem insípidos…

(risadas fracas)

…disseram: “Tudo bem com a gente”, ele disse, “Mas este é o palestrante”. E o guarda olhou para mim e disse: “Este é o palestrante?” E eles disseram que sim. “Eu ouvi dizer que o palestrante está lá em cima”

(risadas bem fortes)

E então entramos por outra porta onde não havia nenhum guarda.

(risos)

E aqui estou eu. Agora, aquele outro palestrante não vai dizer uma palavra a vocês, mas aposto que ele vai receber o cachê.

(risos)

Ahhh… Mas de qualquer modo, agora vocês percebem por que odeio viajar. Minha discussão sobre o futuro do homem se aplica muito, muito bem ao que acabou de acontecer comigo, como vocês logo vão ver. Deixem-me explicar.

Uma vez, quando eu não tinha nem dezenove anos, escrevi uma história chamada “Trends” (tendências). Foi a primeira história que vendi a John Campbell para a velha “Astounding Science Fiction”. Ela apareceu no número de julho de 1939.

E nela eu falei da primeira viagem ao redor da Lua e de volta à Terra . Eu a situei na década de 1970. A primeira tentativa, que foi um fracasso, foi em 1973. E a segunda tentativa, que foi um sucesso, foi em 1978. O voo verdadeiro aconteceu em 1968, então fui conservador em dez anos. Além disso, meu voo foi tudo o que houve, enquanto que na vida real o voo ao redor da Lua foi precedido de todos os tipos de voos orbitais e sub-orbitais, e acoplamentos, e correções de meio-curso, e satélites de comunicação, e satélites de navegação… tudo o que há sob o sol.

Então vocês podem ver como eu estava errado. De fato, eu estava ainda mais errado que isso, porque quando eu escrevi minha história, em 1939…38, ela foi publicada em 39… quando escrevi essa história, eu tinha ideias definidas sobre como um voo espacial aconteceria.

Em primeiro lugar, eu fiz meu inventor construir uma espaçonave em seu quintal.

(risadas fracas)

Em segundo lugar, eu tinha a atitude de que qualquer homem suficientemente bom para construir uma espaçonave era bom o suficiente para pilotá-la.

(risadas fracas)

O que eu quis dizer era que o inventor era o astronauta, uma grande economia de tempo e trabalho.

(risadas fracas do grupo)

Além disso, não me preocupei em estabelecer bases de computadores em nenhum lugar… especialmente, não no Texas. Porque hoje em dia, para ser perfeitamente honesto com vocês, e isso é o que eu gostaria de ser, perfeitamente honesto. Para ser perfeitamente honesto com vocês, eu realmente não vejo qual é o grande problema sobre chegar à Lua com computadores e as correções de meio curso. Sei que vocês são um bando de engenheiros, e vocês sabem melhor que eu, mas eu pergunto… uma vez que vocês tenham deixado a atmosfera, vocês vêem ou não vêem a Lua?

E se vocês vêem a Lua, é só ir até ela, não?

(risadas mais fortes)

Na verdade, a única coisa que me deixou confuso… a única coisa que me deixou confuso nessa história é de onde lançar a espaçonave. Eu vivi no Brooklyn toda a minha vida, e olhando ao redor percebi que não havia um lugar de onde lançar uma espaçonave com segurança…

(risadas)

… sem causar a ira dos cidadãos.

E então pensei que seria melhor lançá-la de algum lugar fora do Brooklyn. E isso me deixou imediatamente encrencado porque eu não sabia, com certeza, se existia algum lugar fora do Brooklyn.

(risos)

Quer dizer, ouvi alguns rumores a respeito, mas eu sou um sujeito muito difícil de enganar. Eu gosto de provas concretas. Mas percebi que tinha de fazer alguma coisa, então eu lancei a nave… a espaçonave… dos limites mais distantes do mundo conhecido. Para ser mais preciso, na Cidade de Jersey.

(risadas muito fortes)

Não estou brincando. Eu realmente o fiz. E ainda assim, eu vendi esta história.

(risadas)

Não apenas vendi esta história, mas ela foi reimpressa cinco vezes. A última vez, em 1973. Naquela época, eu suspeitava que a maioria das pessoas podiam perceber que os detalhes na minha história estavam errados.

(risadas fracas)

Bem, por que isto, vocês se perguntam? Eu lhes digo. A história não foi impressa por causa de qualquer um dos detalhes de engenharia… desculpem a expressão. Ela foi publicada porque eu tinha algo que o editor nunca havia visto antes. Eu havia postulado a resistência a um voo espacial. Havia uma grande organização de pessoas na terra que ficavam doentes com qualquer coisa sobre as pessoas tentarem sair para o espaço. Eles achavam que as pessoas deveriam ficar na terra e cuidar de seus próprios negócios. E isto nunca havia sido postulado antes. Nunca!

Até aquele momento, o único modo que a viagem especial havia sido tratada era ou o herói ir para Deneb ou algum lugar desse tipo, e lutar com os homens-ostras de lá,

(risadas fracas)

… e casar com a linda princesa que põe ovos,

(risadas fracas)

…sem qualquer referência seja da terra ou das pessoas que vivem lá. Por outro lado, o único modo de lidar com o voo espacial era ter o herói pousado na Lua, ou em outro lugar parecido, e então fazê-lo voltar e ser recebido com um desfile com chuva de papel picado, com todos muito felizes com seu ato heróico.

Nunca ocorreu a ninguém que realmente poderia haver alguma resistência ao conjunto da ideia; as pessoas deviam pensar que era uma ideia estúpida e um desperdício de dinheiro.

Depois que escrevi a história, novamente, ninguém teve a ideia. Não acho que alguma outra história tenha aparecido, onde houvesse algum tipo de oposição ao voo espacial. Digo, a princípio. Até a época em que a oposição apareceu.

E então vocês devem pensar como é possível que um rapazinho de dezoito anos, muito simples e ingênuo, que literalmente e honestamente duvidava se havia algum lugar fora do Brooklyn. Como era possível que ele pudesse ver algo tão claro, que cabeças mais velhas e mais duras não conseguiram ver?

E é difícil ter de explicar isto a vocês, porque eu preferiria que vocês pensassem que eu era muito esperto, e tinha algum tipo de chave para a sabedoria do universo. Quero dizer, é uma grande coisa com a qual poderia impressioná-los. Mas em vez disso, eu tenho de dizer a verdade, e vocês vão ver como toda a coisa era nojentamente simples.

Eu estava indo para a Universidade Columbia naquela época, e não preciso lhes dizer, as anuidades eram assustadoras. Bom, eu me lembro que eram trezentos e sessenta e cinco dólares por semestre.

(risadas fracas da multidão).

E eu não podia pagar. Então procurei qualquer coisa que pudesse fazer para completar a anuidade. E uma das coisas que fiz foi me unir à NYA, National Youth Administration, que era um tipo de ajuda para estudantes merecedores. Eles lhe dão pequenos empregos de sinecura, e lhe pagam a generosa soma de quinze dólares por mês. E isso lhe permite completar suas taxas.

E o emprego que eu consegui era servir como secretário para um sociólogo que estava preparando um livro chamado “A Resistência Social a Mudanças Tecnológicas”. E isto é o que eu deveria fazer: deveria ir até a biblioteca com uma lista de referências dadas por ele, e pedir os livros. Procurar as páginas onde eu acharia as referências, copiá-las a mão… porque aqueles eram os dias antes da Xerox. Felizmente também, pois de outro modo eu teria passado fome. Eu os copiava a mão, levava-os para casa, e os datilografava. Agora, era impossível que eu os copiasse e os datilografasse sem lê-los.

(risadas fracas)

Como resultado, eu li talvez noventa por cento do livro. Porque vocês devem entender como os livros eruditos são escritos, no caso de vocês um dia quererem escrever um livro erudito. A primeira coisa que se faz é conseguir mil referências, escolhidas aleatoriamente…

(risos)

Você então as põe em um livro, na ordem em que as encontrou…

(risadas fracas)

E adiciona duas ou três linhas de sua autoria entre cada uma delas para funcionar como argamassa…

(risadas fracas)

E você está feito.

Bem, quando li todas aquelas referências eu descobri, para minha surpresa, que através de toda a História houve resistência… e resistência amarga, exagerada, até a última gota… a toda mudança tecnológica significativa que aconteceu na terra. Geralmente a resistência vinha daqueles grupos que temiam perder influência, status, dinheiro… como resultado da mudança. Apesar de eles nunca terem admitido que esta era a razão para sua resistência. Era sempre o bem da humanidade que estava em seus corações.

Por exemplo, quando as diligências chegaram à Inglaterra, os proprietários do canal objetaram. Não que eles fossem perder dinheiro, o que provavelmente iria acontecer, mas eles temiam pela humanidade. Pois como as diligências chegavam a quinze milhas por hora, pelo Princípio de Bernoulli, o ar correndo pelas narinas das pessoas a bordo sugaria todo o ar de seus pulmões.

(risadas do grupo)

Vocês sabem, quando conto esta história a um público que não é de engenheiros, eu não posso mencionar o Princípio de Bernoulli, que é o que dá o gosto da história.

Bem, naturalmente o pessoal das diligências riu bastante, e tudo o que eles tiveram de fazer foi correr com uma diligência a quinze milhas por hora com pessoas dentro e lhes mostrar que não havia perigo. Mas eles decoraram o argumento… para quando as ferrovias chegassem.

(risadas fracas)

Bem, então, lendo tudo isto, e foi o que fiz por um período de meses… eu li, e li… e disse para mim mesmo: “Ei, eu posso fazer um silogismo com isto” porque estudei artes liberais e humanidades, e eles me ensinaram sobre silogismos.

Não sei se vocês rapazes sabem o que são silogismos. É… a unidade de um silogismo é um Aristóteles.

(risos)

Bem, vejamos, é… para colocar em termos de engenharia: Um Aristóteles por segundo é um silogismo rápido.

(risadas fracas)

Funciona assim: premissa principal: todas as mudanças tecnológicas encontram resistência. premissa secundária: a viagem no espaço representa uma mudança tecnológica. Conclusão: (pausa)

(risos)

Aqui está o truque!

(risos)

Haverá resistência à viagem espacial.

E eu disse “Nossa!” E escrevi a história e a vendi. Minha primeira história, na Astounding, e eles a publicaram. E aqui estou eu, um gênio por ter previsto isso.

Mas agora, a questão é, se é assim tão simples, dá para entender como um garoto bobo de dezoito anos pôde pensar nisso. A questão que surge agora é, como é que ninguém mais viu?

E isto nos leva à conclusão à qual vocês também podem ter chegado a partir de minhas aventuras na minha vinda a Newark. Que é a seguinte: as pessoas são estúpidas.

(o grupo ri, e aplaude)

Nós não estaríamos nesta confusão se não fosse assim. Porque, acreditem em mim, estamos numa confusão. Agora, não é muito difícil ver que estamos em uma confusão, ou mesmo perceber há alguns anos que estávamos em uma confusão.

Vou lhes contar uma história que li em 1933. Há um cavalheiro aqui que tem uma cópia de “Before the Golden Age”, na qual eu conto esta história. Acredito que este cavalheiro não vai escutar.

Em 1933, li uma história chamada “O homem que acordou”, de Lawrence Manning. Nela, o herói queria ver como seria o mundo do futuro, e ele não estava no tipo de ficção científica onde ele teria uma máquina do tempo, então ele tinha que fazer alguma outra coisa. O que ele fez foi inventar uma poção, que ele bebeu e o fez dormir por cinco mil anos, e então ele acordou um pouco rouco, mas de qualquer modo, OK.

Agora, quando eu era jovem, tinha apenas treze anos na época, eu li isso e pareceu perfeitamente bem. Mas agora, vocês vêem, nesses dias eu aplicava princípios de engenharia a algo assim. Eu disse a mim mesmo: “Nossa, uma poção que o põe para dormir por cinco mil anos e você acorda sem dano algum. Como é que se testa isso?”

(risadas do grupo)

Agora já descobri como, tudo bem, há um modo. Você dá uma pequena quantidade a um cão…

(risadas fracas)

… e espera cinco mil anos.

(risos)

De qualquer modo, ele se encontrava em um cofre no qual ficaria sem ser perturbado por cinco mil anos.

Nossa, a Grande Pirâmide de Gizé não foi suficiente para manter Quéops sem ser perturbado por quinhentos anos, que dirá cinco mil anos, mas tudo bem. Ninguém está procurando esse cara.

(risadinhas do grupo)

E ele ficou lá por cinco mil anos, e então acordou ileso. Oh, ponham ou tirem alguns meses; quero dizer, não dá para ser exato com uma coisa dessas. E de algum modo ele pensou que iria sair e ver um mundo muito futurístico com todo tipo de aparelhos super modernos voando pelo ar, e pílulas mágicas de alimentos, e tudo isso. Em vez disso, o que ele encontrou? Ele encontrou um mundo muito limitado. Um mundo no qual todos viviam vidas… vidas não muito ricas. Vocês sabem… eles se vestiam com moletons , andavam por aí, e se preocupavam muito com a próxima refeição. E então ele lhes disse “O que é isto? Vocês estão vivendo vidas muito limitadas. Onde está todo o futurismo que eu esperava?” Então eles disseram “Oh, bem, você não entende”. Ele disse: “Estamos com pouca energia. Muito pouca porque há milhares de anos houve uma ou duas gerações de humanos que queimaram todo o petróleo e o carvão da Terra, e não nos sobrou nada.” E nosso herói diz “Estranho vocês dizerem isso”, ele diz, “Acontece que eu sou da geração que fez isso com vocês!”

(risadinhas)

(risadas fracas)

E ele voltou para o cofre bem a tempo, trancou a porta, e tomou outra poção para ver se algo novo aconteceria cinco mil anos mais tarde.

Esta era a primeira de cinco histórias, mas foi aquela que eu sempre lembrei porque, você sabe… eles sempre dizem… costumavam dizer quando eu era um garoto, que ficção científica era literatura escapista. Eles gozavam de nós. Digo, aqui está um punhado de garotos estragados, geralmente com espinhas no rosto. E com óculos grandes; especialmente aqueles óculos grandes. E também eram garotos muito metidos, além da conta. Sempre por aí tirando notas altas nas aulas.

(cochichos e risos)

Quero dizer, de qualquer forma, não eram garotos decentes.

E aqui estava todo um mundo de garotos decentes preocupados com as coisas importantes da vida, como os pontos do baseball. Ou jogos de cartas, ou qualquer coisa que fizessem. E cabulando aulas. Coisas reais. E lá estão esses caras lendo ficção científica para fugir da realidade. Para fugir deste mundo. Literalmente para fora dele. E coisas estúpidas como a Lua, e mísseis, problemas populacionais, e todo tipo de coisas assim. E, por exemplo, a possibilidade que o carvão e o petróleo pudessem desaparecer.

Droga, quando li aquilo eu tinha treze anos, na época não pensei em silogismos, mas agora percebo, olhando para trás, que isso era parecido com um silogismo.

Premissa principal: O volume da Terra é finito. Premissa secundária: O volume total do carvão e do petróleo da Terra é menor que o volume total da Terra. Conclusão: O volume do carvão e do petróleo é finito.

Vocês podem pensar que isso era óbvio! Agora, vamos começar e tornar esta conclusão a premissa principal do próximo silogismo:

Premissa principal: O volume do carvão e do petróleo é finito. Premissa secundária: Estamos queimando um pouco todo dia. Conclusão: No final acabaremos usando tudo.

Bem, eu li isso em 1933. E agora vocês vêem como a ficção científica nos ajuda a escapar. Ela ajuda a escapar para o tipo de problema que vai mantê-lo preocupado por quarenta anos.

(risadas fracas)

Antes do resto de vocês, rapazes!

Bem, aqui estamos. Acabamos de atravessar um período de trinta anos de máxima prosperidade da humanidade, no geral. Nos saímos muito bem desde a Segunda Guerra Mundial. Nós temos… o mundo como um todo tem comido melhor, tem vivido melhor, tem tido um padrão de vida melhor do que nunca teve antes. Agora, vocês podem me dizer que durante todos estes trinta anos houve milhões… centenas de milhões de pessoas sempre com fome, sempre famintas, com muito pouco, e eu direi sim; tem sido podre. Meu ponto é que antes de agora, tem sido sempre MAIS podre. E não temos realmente apreciado quão temporário isto é.

Por exemplo, temos tido grandes suprimentos de comida, e parte da razão para isso foi que tivemos um clima muito bom nos últimos trinta anos. De fato, há algumas pessoas que dizem que estes últimos trinta anos foram os melhores trinta anos em clima que tivemos nos últimos mil anos. Agora, vocês podem se lembrar de frios intensos, e inundações, e enchentes, e esse tipo de coisa. Tem havido menos disso tudo do que de costume. Além disso, enquanto tivemos esse clima bom, também estivemos aplicando mais energia que nunca na mecanização de fazendas, nas máquinas de irrigação. Além disso, usamos inseticidas e pesticidas de vários tipos, para tentar acabar com aqueles tipos de bichos e pragas que acham que vão conseguir um pouco de nossa comida. E além disso tudo também desenvolvemos novos tipos de sementes, a chamada “revolução verde”, que produz muita proteína muito rápido. E com todas essas coisas juntas, nosso suprimento de comida tem aumentado.

Mas agora, olhem o que acontece.

A única coisa que torna possível para nós usarmos mais e mais energia é nosso mundo industrial e tecnológico. E outra coisa que nossa indústria produz é poeira. E o ar é mais sujo agora que nunca foi na história da humanidade. Exceto talvez temporariamente, depois de uma grande erupção vulcânica.

Isto significa que o albedo da Terra, a porcentagem de luz solar que é refletida de volta para o espaço antes de atingir o solo, tem aumentado ligeiramente porque o ar poeirento reflete mais luz que o ar limpo. E… bem, não muito mais, mas o suficiente. Isto tem feito a temperatura da Terra cair desde 1940. Ela tem diminuído constantemente. Novamente, não muito. Vocês provavelmente não têm percebido que os verões são mais frios, ou que os invernos são extraordinariamente gelados, eles não são. A queda na temperatura pode ter sido de um grau. Mas é o suficiente para diminuir a estação de crescimento das plantações nos climas do norte. Ela torna o clima um pouco pior. Ela manda as tempestades um pouco mais para o sul, faz que o Deserto do Saara se estenda para o sul, então as monções na Índia diminuem um pouquinho mais. Só o suficiente para que as colheitas não sejam tão boas como costumavam ser, e a reserva de alimentos da Terra caia para seu nível mais baixo na história recente.

E enquanto isto está acontecendo… e vai continuar acontecendo porque o ar não vai deixar de ficar poluído a menos que paremos nossa atividade industrial. E se pararmos nossa atividade industrial, será porque estaremos sofrendo algum desastre completo.

Então, o tempo não vai melhorar. O ar vai ficar poluído, e vai continuar ficando um pouco mais frio. Ao mesmo tempo, vai ficando mais difícil conseguir energia. Energia é muito mais cara do que costumava ser; os preços do petróleo sobem. E isso significa que os fertilizantes são mais caros que costumavam ser. E acontece que a revolução verde depende das variedades de grãos que precisam de … sim, eles fazem o que têm de fazer… mas precisam de muita irrigação; muita água, e muito fertilizante. E o fertilizante não está lá. E é difícil fazer a máquina de irrigação funcionar agora, com o petróleo caro. E, é claro, os pesticidas são produzidos em fábricas químicas com alto consumo de energia; seu preço também sobe. Tudo se combina para diminuir o suprimento de alimento. E para que, nos anos que virão, tenhamos problemas para manter nossos níveis atuais de alimento, que dirá para aumentá-los.

É claro que vocês podem dizer: “Bem, que se dane! A humanidade deu um jeito há trinta anos, antes que as previsões de bom clima viessem, quando havia inundações no meio-Oeste, e regiões sujeitas a secas, e quando havia muito menos máquinas agrícolas em uso, e máquinas de irrigação, e não havia revolução verde, e não estávamos usando pesticidas… exceto Paris Green e outras coisinhas como aquelas. E quando não nos preocupávamos, não nos preocupávamos sobre todos os outros meios de aumentar o suprimento de alimento também, então vamos voltar ao que era então, e viveremos a vida simples.”

Sempre há pessoas que pensam que tudo o que temos de fazer, depois de tudo, é abandonar toda esta tecnologia tola da qual nos tornamos escravos, e voltar a viver como nossos ancestrais e viver próximos da terra com as boas coisas da natureza. Seria bom se pudéssemos fazê-lo. Se pudéssemos voltar a como era antes da II Guerra Mundial, tecnologicamente, se pudéssemos sustentar todas as pessoas que viviam na Terra antes da II Guerra Mundial. O problema é que nestes últimos trinta anos um bilhão e meio de pessoas foram adicionados à população da Terra. E temos alimentado essas pessoas principalmente por causa de todas essas coisas que temos feito nestes trinta anos, o bom clima, os fertilizantes, os pesticidas, e a irrigação, e a revolução verde, e todo o resto. Se abandonarmos isso, teremos também que abandonar um bilhão e meio de pessoas; e haverá muito poucos voluntários para a tarefa.

Que diabos, é assim com tudo. Estamos em uma situação da qual não podemos voltar. Não podemos abandonar a tecnologia. Não podemos dizer “Bem, que se dane! Vamos voltar para a boa e velha lareira com as boas e velhas toras de madeira naturais. Não precisamos desta droga de aquecimento central!”. Há duas coisas sobre a lareira com as boas e velhas toras de madeira. Em primeiro lugar, é um sistema podre para se aquecer a casa, e é por isso que as pessoas primeiro mudaram para a fornalha a carvão e então para a caldeira a óleo. Elas não fizeram isso porque elas detestavam a natureza. Elas não o fizeram também por que viraram as costas a coisas que eram legais, e só queriam coisas sujas e modernas, não.

(sacudidas do grupo)

A lareira não funcionava! É por isso!

E em segundo lugar, se todos nós decidíssemos usar lareiras como nossos ancestrais pioneiros faziam, deveríamos nos lembrar que havia talvez três milhões de pioneiros ancestrais, e há duzentos milhões de nós. E não há madeira suficiente. O preço subiria instantâneamente. Haveria um mercado negro. E as florestas seriam destruídas.

E o mesmo aconteceria se você substituísse a luz elétrica por velas. Há algo de muito romântico em estudar a luz de velas até o momento em que você tenta fazê-lo.

(risadas fracas)

E se vocês acham que estudar à luz de velas é ruim, esperem até que tentem fazer um televisor funcionar com a luz de velas.

(risos)

Bem, então, o que vamos fazer no futuro? A população ainda está aumentando. A população está agora maior que nunca esteve na história do mundo; estamos bem perto dos quatro bilhões. E o aumento, a taxa de aumento é maior que nunca na história do mundo, dois por cento ao ano. Nunca esteve tão alta. Bem agora, a população mundial está aumentando em duzentas mil bocas famintas a cada dia. Lá pelo ano 2000, tentando evitar a catástrofe, a população da Terra deverá ser de sete bilhões. Ninguém acha que o suprimento de alimento da Terra vai quase dobrar perto do ano 2000. Pode ser que nosso suprimento de comida não aumente muito. Haverá quantidades terríveis de famintos. Que poderemos fazer a respeito?

Bem, em toda a história da Terra, houve períodos em que uma determinada espécie, por uma ou outra razão, aumentou seu número temporariamente. Houve uma quantidade surpreendentemente boa de alimento, o clima esteve muito bom, de algum modo não houve predadores… algo aconteceu, e os números subiram. Eles sempre desceram novamente e sempre do mesmo modo; por um aumento na taxa de mortalidade. Um grande número de indivíduos da espécie passou fome quando a comida escasseou. Eles caíram vítimas de alguma doença, quando ficaram mais fracos como resultado da diminuição de rações. Eles se tornaram bons alvos para predadores. O número sempre diminuiu. E a mesma coisa vai acontecer com a humanidade, não temos de nos preocupar. A taxa de mortalidade vai subir, e vamos morrer pela violência, pela doença, pela fome.

A única coisa é, devemos ter nosso número controlado do mesmo modo que todas as outras espécies fizeram? Temos algo que as outras espécies não têm; nós temos cérebros. Podemos prever. Podemos planejar. Podemos ver soluções que são humanas. E há uma solução que é humana, e que é a diminuição da taxa de natalidade.

Nenhuma espécie na história da Terra diminuiu voluntariamente sua taxa de natalidade para tentar controlar sua população, porque elas não sabiam o que era taxa de natalidade, como controlá-la, e que havia um problema populacional. Nós somos a única espécie na história da Terra que pode fazê-lo.

Não há necessidade de decidir se devemos ou não parar o aumento da população. Não precisamos decidir se a população será ou não diminuída. Será, será!

A única coisa que a humanidade tem de decidir é se isso será feito do velho modo desumano que a natureza sempre usou, ou se devemos inventar um modo novo e humano. Esta é a única escolha que nos cabe; diminuir a população catastroficamente por um aumento na taxa de mortalidade, ou diminuí-la humanamente por um controle da taxa de natalidade. E todos fazemos a escolha. E eu tenho a suspeita que não faremos a escolha certa, o que é a tragédia atual da humanidade.

Mas e se fizermos? Suponham que entramos no século 21, e que sobrevivemos? Então a questão é: para que tipo de mundo nós sobrevivemos? Como será o mundo do século vinte e um? Se sobrevivermos, se houver uma civilização, se houver tecnologia.

Bem, em primeiro lugar, deverá ser um mundo com uma baixa taxa de natalidade. Terá de ser; esta é a condição da sobrevivência. Terá de ser um mundo com uma baixa taxa de natalidade, porque a população será muito grande no começo do século 21, e pode levar um século para diminuir a população a algum valor razoável.

Então, durante todo o século, a taxa de natalidade terá de ser menor que a taxa de mortalidade; e a taxa de mortalidade, esperamos, será muito baixa. Então os bebês serão relativamente raros, e as mães não terão muitos filhos. Imagino que será um tipo de mundo em que cada mulher não esperará ter mais de dois filhos. Se ela tiver apenas um filho, bom. E se não tiver nenhum, tudo bem.

Quero dizer, quando as pessoas pensam nisso, elas pensam instantaneamente em suicídio da espécie. “Oh meu Deus! Vamos todos desaparecer!” Teremos bilhões de pessoas na Terra, mais do que nunca tivemos antes deste século! E em toda a história anterior, tivemos uma população menor. Ninguém nunca se preocupou que desapareceríamos da Terra!! E além disso, se parecesse que iríamos desaparecer da Terra, tudo o que teria de acontecer é o seguinte: ter bebês. E vocês se surpreenderiam com a rapidez com que poderíamos consegui-lo.

(risos)

Vocês sabem que em todos os desastres da história, qual foi o único que, ao que saibamos, realmente diminuiu a população mundial? A Peste Negra nos anos de 1300. Que pode ter matado quase um terço de toda a humanidade. A população mundial diminuiu, e levou um século para se recuperar.

Aqueles eram os dias em que as taxas de mortalidade eram muito altas; é claro que levaram um século para recuperar. Hoje em dia demoraríamos talvez vinte anos.

E desde então, os desastres vieram: I Guerra Mundial, II Guerra Mundial, a epidemia de Gripe de 1918… não houve nem um tremor no aumento da população humana.

Então temos a grande capacidade de nos multiplicar como coelhos. Não precisamos nos preocupar se permitirmos que a população caia. Deus, quão facilmente poderíamos reverter a situação se precisássemos.

Mas, há outras coisas a lembrar. Se tivermos uma baixa taxa de natalidade, o que vamos fazer com as mulheres?

Em toda a história, o propósito e a função da humanidade feminina tem sido ter montes de crianças. Agora, nenhuma mulher sã, se pensasse friamente a respeito, quereria um monte de crianças; elas são um problema, e são perigosas à saúde…

(risadas moderadas do grupo)

Sério! Quando a teoria dos germes finalmente apareceu e as pessoas descobriram como fazer para que as mulheres pudessem ter bebês com uma razoável segurança, o mundo descobriu com surpresa que as mulheres tinham uma expectativa de vida maior que o homem. Isto nunca tinha sido compreendido antes, porque em toda a história as mulheres tinham, em média, vivido anos e anos menos que os homens. Com todos os perigos que os homens enfrentavam, o trabalho duro nos campos, os acidentes de caça, as mortes na guerra, tudo o mais, as mulheres morriam mais rápido por uma única razão: dar à luz. Cada mulher tinha um bebê depois do outro até que um deles a matasse. Geralmente, não demorava muito.

Bem, então, por que as mulheres o faziam? Porque lhes era dito cuidadosamente que ser esposa e mãe era a coisa mais gloriosa do mundo, a única coisa para a qual elas se ajustavam, a atividade mais nobre que elas poderiam ter, e… e isso era dito a elas até que acreditassem. E se elas não acreditassem, haveria um monte de encrenca preparada para elas.

Bem, eu não vou entrar na história toda. Suspeito que vocês, mulheres, já saibam tudo sobre isto, e vocês homens prefeririam não escutar.

(risadas fracas)

Mas notem a diferença: uma vez que vocês queiram que as mulheres não tenham mais filhos, vocês terão de dar a elas algo para fazer! É absolutamente impossível dizer a uma mulher que ela não pode ter filhos, e ao mesmo tempo que ela não pode fazer mais nada exceto talvez, ocasionalmente, lavar a louça.

(risadas fracas das poucas mulheres do grupo)

Porque se você disser isso a uma mulher, ela vai dar um jeito de ter um bebê.

(risadas e sacudidas do grupo)

Acho que eu também sei como!

(risadas fracas)

Bem, então no mundo do século 21, para manter a taxa de natalidade baixa, teremos que dar às mulheres coisas interessantes para fazer, para que elas fiquem felizes em ficar longe do berçário. E as coisas interessantes que consigo pensar para uma mulher fazer são as mesmas coisas interessantes para um homem fazer. Quero dizer que deveremos ter mulheres ajudando o trabalho no governo, ciência, e indústria… qualquer que haja no século 21. E isto significa que teremos de fingir… quando digo “nós”, digo homens… teremos que fingir que as mulheres são pessoas.

(risadas do grupo)

E vocês sabem, fingir é uma coisa boa porque se você fingir por muito tempo, você esquece que está fingindo e começa a acreditar.

(risos).

Em resumo, o século 21, se sobrevivermos, será um tipo de mundo de liberação da mulher. E para falar a verdade, será um mundo de liberação humana porque, vocês sabem, o sexismo causa danos dos dois lados. Se as mulheres tiverem algum papel que elas devem constantemente desempenhar, gostem ou não, os homens terão algum papel que eles devem constantemente desempenhar, gostem ou não. E se você fizer de um modo que as mulheres possam fazer o que melhor se ajusta a elas, poderá fazer que os homens façam o que melhor se ajusta a eles também. E teremos um mundo de pessoas. E apenas incidentalmente eles serão de sexos opostos, ao invés de serem diferentes em todos os aspectos de suas vidas.

E então, há outra coisa que vocês vão encontrar num mundo assim: vocês terão indiferença à idade, além de indiferença ao papel sexual.

Vocês têm que entender que em toda a história, a humanidade tem vivido em um mundo da juventude. Vocês sabem, falamos sobre a natureza centrada na juventude de nossa cultura. Não pode ser diferente. Em toda a história, a expectativa de vida tem sido de algo entre vinte e cinco e trinta e cinco, dependendo do tempo e lugar. Muito poucas pessoas viveram até a meia idade e além. Muito poucas. Tivemos um mundo de jovens, mesmo hoje naqueles lugares onde a taxa de natalidade é mais alta… consideravelmente mais alta… que a taxa de mortalidade. Existem lugares onde metade da população tem menos que quinze anos.

Bem, naturalmente, onde a maioria das pessoas é jovem, você se concentra nos jovens! Quando há poucas pessoas velhas, você não se preocupa muito com elas. Seu número reduzido é conveniente. Os idosos são os repositórios da tradição. Nos dias antes dos registros escritos… que dizer de gravadores e computadores… as únicas pessoas que se lembravam de como as coisas eram há muito tempo… há quarenta anos atrás… eram os velhos homens com barbas cinzentas! Então você os respeitava!! Eles representavam sabedoria!! E você os deixava governar o estado e a igreja. A palavra “ sacerdote” vem da palavra grega para velho, e a palavra “senador” vem da palavra latina para velho… como pode-se perceber pela analogia com senna , um tipo de laxante, que nos vem à mente.

(risos fortes)

E, é claro, as mulheres velhas eram temidas. Havia menos mulheres velhas do que homens velhos, porque o único modo de uma mulher se tornar uma mulher velha era não ter filhos, ou ter uma sorte extraordinária. Geralmente a primeira alternativa. Uma mulher velha de algum modo sofria mais que um homem velho porque a elas faltava aquele magnífico sinal da idade: a barba.

(risadas fracas do grupo)

Pensem nisso! Um homem velho tinha uma longa barba cinzenta que cobria toda sua face; é como olhar para um tipo de floresta.

(risos fortes)

A mulher velha, contudo, tinha uma face descoberta onde se podiam ver as rugas! Que as pessoas comuns raramente viam porque era raro ver qualquer pessoa velha que tivesse rugas. Além disso, as pessoas geralmente perdiam seus dentes lá pelos quarenta anos porque não havia algo como dentistas. Então, as mulheres velhas tinham gengivas que ficavam juntas, e aproximavam o queixo do nariz, o que parecia engraçado. Na verdade, se você olhar para a caricatura da ”Bruxa”, como vemos hoje no Halloween, é apenas uma mulher velha sem dentes, e com uma face enrugada. E acho que o medo que as pessoas tinham das bruxas realmente representava o medo da aparência estranha das mulheres velhas… que hoje em dia não existe porque as mulheres velhas parecem novas.

Mas o que fazer em uma sociedade na qual o número das pessoas velhas aumenta? Você tem um grande número de pessoas velhas bem na hora em que não precisa mais delas. Não precisamos mais delas como repositórios de tradição. Temos tudo por escrito, documentado. E estamos tendo cada vez mais, e mais, pessoas velhas, o tempo todo. A expectativa de vida hoje é de setenta anos nos Estados Unidos; as pessoas nunca morrem, pelo amor de Deus! Quero dizer, esta é uma das razões pela qual há um abismo de gerações; todas as pessoas velhas se apegam aos empregos até que tenham que se aposentar. E então eles são forçados a se aposentar. E não há nada que se possa pensar em fazer por eles além de lhes dar um relógio, um tapinha nas costas e um ticket para o banco do parque.

Agora, no mundo do século 21, isso vai ficar cada vez pior. Vai haver menos jovens, e talvez a expectativa de vida será maior que hoje, então as pessoas velhas vão durar mais e mais. O que faremos com eles?

Sabemos o que pensamos das pessoas velhas. Eles são um estorvo. São cabeças mortas. Eles não têm pensamentos brilhantes como as pessoas jovens. Eles não são criativos. Não são engenhosos. Não são ousados. Eles ficam atolados na lama. Conservadores. Atrasados. Quero dizer, eles não estão com nada.

(risadinhas)

Bem, se vamos ter mais pessoas velhas, e vamos evitar morrer de superpopulação, vamos morrer de velhice! E não vamos morrer com um ‘bang’; vamos morrer com um suspiro.

Bem, vocês sabem, pode não ser assim. Deixem-me mostrar que nossa cultura centrada na juventude é centrada na juventude particularmente por um motivo: educação. Por anos, e séculos, e milênios, sempre se achou que a educação é prerrogativa dos muito jovens. Que há uma coisa assim como ‘terminar sua educação’.

Para falar a verdade, garotos não são estúpidos. Garotos vão para a escola, e vêem que os mais velhos não vão. Ir para a escola é uma droga. E toda criança percebe que quando crescer, uma das recompensas de crescer, de conseguir, será… não ter de ir para a escola.

A escola é o preço de ser jovem e indefeso! Não ir para a escola é a recompensa de ser adulto, forte e poderoso. Você associa a escola com fraqueza e criancice. Você associa não ter de ir à escola com força e maturidade. Todo garoto sabe que será recompensado ao alcançar a idade de dezesseis, ou qualquer idade em que ele possa sair, ele será recompensado nunca mais tendo de ir à escola, nunca mais tendo de abrir outro livro, nunca mais tendo de aprender outro fato, nunca mais tendo de ter outro pensamento. Ensinamos as crianças que ser adulto é ser capaz de ser estúpido pelo resto da vida.

(risadas do grupo)

Tudo bem, pegue uma pessoa que desistiu da escola com dezesseis. Que aprendeu que nunca mais teria de pensar novamente. E ele vive outros trinta anos com o que conseguir se lembrar do que aprendeu na escola trinta anos antes, e nada mais. E então você diz: “bem, aqui está um cara sem pensamentos novos. Aqui está um cara sem nenhuma ideia criativa. Aqui está um cara com uma cabeça morta”. E é assim que as pessoas velhas são.

É assim que as pessoas velhas acabam ficando desse jeito. E então você usa isso como desculpa para transformar as pessoas velhas nisso, que é como você pensa que elas são. É o que se chama de argumentar em círculo. Não poderemos mais fazer isso. No século 21, teremos de pensar na educação não como uma tarefa a ser completada, mas como um processo contínuo.

A única coisa que realmente separa a espécie humana das outras espécies de plantas e animais, é que podemos aprender com maior facilidade que as outras espécies. Qualquer coisa que uma espécie possa fazer bem, ela gosta de fazer! Não há dúvida que um pássaro gosta de voar. Que um peixe gosta de nadar. Quero dizer, nossos grandes filósofos dizem isso em suas canções, sabiam? Peixes devem nadar, pássaros devem voar!

(risadas fracas)

Bem, o homem tem de aprender que o processo, que é algo para o qual somos adaptados, é prazeroso… a menos que o prazer seja banido de nós na infância… muito cuidadosa e persistentemente!!! Dêem à humanidade meia chance!! E aprender é um processo agradável que ele fará por toda sua vida! Na verdade as pessoas o fazem. Mesmo aqueles que são mais avessos ao aprendizado em livros aprenderão as coisas que gostam; o melhor jeito de jogar bola, os últimos pontos do baseball, sabe-se lá o quê! O que querem aprender, eles aprendem com grande facilidade.

E o ponto é que no século 21, se sobrevivermos, podemos imaginar que nossa sociedade tecnológica avançará ainda mais. Haverá ainda mais computação e automação. O trabalho aborrecido do mundo será feito por máquinas. Os homens e mulheres serão capazes de fazer eles mesmos o tipo de trabalho que quiserem fazer. Sem dúvida, alguns deles desejarão ser cientistas pesquisadores, ou regentes de orquestra, ou desejarão ser grandes artistas, ou escritores, quem sabe! Haverá pessoas suficientes que vão querer ser isso, e haverá pessoas que vão querer aprender a jogar bola perfeitamente, ou como colecionar folhas, ou como construir navios de guerra com palitos de dente. Qual é a diferença? O que quer que o faça feliz, e aumente a felicidade do mundo, é justificado. E haverá espaço para tudo. E com uma expectativa de vida avançada, por exemplo quando você tiver quarenta, decidirá que quer começar de novo e estudar grego, e tornar-se um perito em literatura grega, quem poderá impedi-lo? Eu prevejo um século 21 no qual o processo educacional será organizado para que cada ser humano tenha direito a uma ajuda institucional para a educação em qualquer campo que deseje, em qualquer direção que deseje, em qualquer idade que deseje. Educação e aprendizado serão o nome do jogo.

E quando isso acontecer, tenho certeza que será surpreendente como as pessoas podem ser úteis por todas suas vidas, até que uma verdadeira senilidade física os atinja.

E eu acho que será uma boa vida. Será um mundo sem racismo também. Terá de ser, ou não sobreviverá pela simples razão que o único jeito de aplicar uma taxa reduzida de natalidade, é aplicá-la em todo o mundo de um modo justo e não seletivo. É o único modo de funcionar. Do jeito que está, um dos problemas que temos, e talvez o mais intransigente, é que há seções da Terra, seções da população mundial, que têm fortes suspeitas que quando pessoas como eu falam com ênfase sobre controle da população e em diminuir a taxa de natalidade, o que realmente temos em mente é selecionar algumas pessoas que secretamente pensamos que não são as melhores no mundo, e reduzir suas taxas de natalidade. Reduzir seu número. Livrarmo-nos deles, talvez, então o resto de nós poderá ter uma vida melhor neste mundo. Talvez haja mesmo algumas pessoas que realmente pensem desta maneira. Mas enquanto esse sentimento existir, vai ser muito difícil conseguir que as pessoas diminuam suas taxas de natalidade. E eu acho que se de algum modo conseguirmos convencer o mundo em geral que ninguém odeia ninguém, e que há espaço na Terra para todos os tipos de pessoas, então vai funcionar. E em um mundo como esse, você vê, todos vão ter de fingir que não são racistas. E se eles fingirem por um longo tempo, eles podem chegar a acreditar nisso. E o mundo será muito melhor por essa razão.

Você sabe, podemos falar de vez em quando sobre gerenciar nossa própria evolução. Sobre clonagem de pessoas. Sobre decidir como, com engenharia genética, poderemos melhorar a nós mesmos. Mas como melhoramos a nós mesmos? Não sabemos. Nós melhoramos bastante os animais domésticos. Temos vacas que dão centenas de galões de leite. Temos carneiros que são só lã… todinhos.

(risos)

Temos perus que são só peito.

(risos)

E cavalos que podem correr como o vento.

Mas vocês vêem, todas essas coisas são coisas que nos agradam. Não temos de perguntar a eles o que os agrada! Mas quando se trata de seres humanos, quando vamos mudar a nós mesmos, temos que perguntar o que nos agrada! E realmente não sabemos.

Agora eu acho que muitas pessoas vão… Supondo que você pudesse mudar todos para que todos tivessem certas características. O que quereríamos que eles tivessem? Então… quereríamos que todos fossem gênios. Bem, eu tenho um certo conhecimento pessoal sobre gênios e, deixem me dizer, você só pode aguentar um deles de cada vez.

(risadas)

Digo, eu não quero ninguém perto de mim que seja um gênio; eu mal posso aguentar a mim mesmo.

(grupo ri bastante, e então aplaude)

Ou vamos querer que todo mundo seja um grande pensador, que todos sejam sensitivos, e gentis, e humanos… nãão! Qualquer raça, qualquer grupo de seres humanos em que sejam todos parecidos não apenas são chatos, mas realmente inúteis.

Me perguntaram há alguns dias… realmente, não estou inventando… se eu não achava que uma elite intelectual deveria conduzir o mundo. E eu perguntei, quando diz uma elite intelectual, você quer dizer pessoas como eu? Porque não sei o que ele quis dizer por elite intelectual. Talvez ele quisesse dizer pessoas como ele, e nesse caso, não!

(risadas)

E ele disse: “Sim, pessoas como você”. E eu disse não, isso não seria bom porque só sou esperto em algumas coisas, e muito estúpido em outras. E se todo mundo fosse como eu, e estivéssemos conduzindo o mundo, seríamos todos espertos nas mesmas coisas, e seríamos todos estúpidos do mesmo modo, e é a estupidez que iria nos matar. Eu disse, o que precisamos é de pessoas de todos os tipos governando o mundo! Algumas delas serão espertas de algum modo, e outras serão espertas de outro modo, e com a esperteza de todos em direções diferentes, então elas se cancelam; então a estupidez de todos pode ser cancelada pela esperteza de outro alguém na mesma direção.

(risos fracos)

Do mesmo modo, é isso que queremos. O maior… o maior dom da humanidade é seu gigantesco banco genético. Todos os genes diferentes que temos. Todas as diferentes características; o esperto e o estúpido, o forte e o fraco. Essa variedade torna possível enfrentarmos diferentes emergências, e o que é fraco sob certas condições pode ser forte sob outras, o que é estúpido agora pode ser esperto de outra vez, e por aí vai. Não podemos jogar algo fora por medo que seja exatamente o que precisaremos algum dia.

Gosto de colocar as coisas deste modo; naturalmente todos pensamos que é muito melhor ser um brilhante físico nuclear do que um encanador. Mas quem você gostaria que morasse na casa ao lado, um brilhante físico nuclear ou um encanador? E a menos que você seja casada com um, pense: quantas vezes você acorda no meio da noite precisando desesperadamente de um físico nuclear?

(grupo ri e aplaude vivamente)

Bem, então estou chegando agora ao fim do século 21. Temos um mundo sem sexismo, preconceito de idade, racismo. Não teremos um mundo sem guerra, mas isto não é nada incomum. Nós temos um mundo sem guerra agora.

(cochichos do grupo)

Vocês não acham que temos? Pensem um pouco. Que tipos de guerras podemos pagar para lutar? Dois tipos. Podemos sustentar uma guerra pequena onde se manda bombas em envelopes, ou se explode algumas bananas de dinamite em um automóvel num lugar movimentado. Não há como parar isso, e hoje em dia os explosivos são baratos. Mas o que se ganha com uma guerra desse tipo? Pode-se manter isso por mil anos, e matar indivíduos, mas não se toma nenhuma decisão deste modo. Não é realmente uma guerra, você só está se divertindo!

(risadas fracas do grupo)

O outro tipo de guerra que podemos pagar é uma guerra nuclear. É barato. Só leva meia hora.

(risos)

E temos todas as armas de que precisamos. O investimento de capital já foi feito. A única coisa é que depois que a meia hora acabar, não há nada a fazer, e muito poucos generais serão promovidos nessa meia hora.

(risadas)

O que liquida instantaneamente a coisa para os militares.

(cochichos do grupo)

Bem, então, podemos lutar a velha e divertida guerra, onde você e o inimigo escolhem lados, e você pega um lado, e joga bombas nele, e eles jogam bombas em você por quatro ou cinco anos, e então você decide quem vence e quem perde, quem paga a indenização, e quem faz a ajuda…

Não vamos mais poder fazer isso, porque ninguém vai ter gasolina para isso.

(o grupo ri e então aplaude)

Exceto os árabes.

(risadas)

E eles não podem lutar uma guerra a não ser que alguém lhes dê algo onde por a gasolina.

(risadas)

Então já estamos em um mundo sem guerra. A única coisa que precisamos no século 21 é um mundo que perceba que é um mundo sem guerra.

E mais uma coisa: se tivermos um mundo sem racismo, preconceito de idade, sexismo, guerra… vai ser um mundo bem chato. Aqui estamos, vivendo por toda a história com uma certa quantidade de excitação e risco no mundo, e é um pouco vergonhoso nos sentarmos nesse mundo cuidadoso e frio do século 21 e depois, no qual não só todo o mundo está feliz, mas todo mundo é muito cuidadoso… Porque, você sabe, vivemos por slogans. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, toda nossa política externa era baseada no slogan “Chega de Muniques”. Até que chegamos à guerra do Vietnam gritando isso, e agora é “chega de Vietnams”. E, bem, no século 21, vou lhes dizer o slogan agora. Aqueles de vocês que viverem no século 21, venham pôr flores em meu túmulo, porque o slogan será “Chega de séculos 20”.

(o grupo ri e aplaude)

Então, todo mundo vai ser muito cuidadoso com os avanços científicos. Eles vão perguntar: “Antes de fazermos isso, será que vai destruir a camada de ozônio? Antes de fazer aquilo, será que vai nos tornar dependentes disto ou daquilo? Quais são os efeitos colaterais? Quanto câncer vai causar?” Vocês sabem, esse tipo de coisa. Então você vai se mover muito… e imaginem que tipo de mundo é esse? Você vai rastejar até a morte!

Bem, no século 21 teremos de encontrar um novo horizonte que está bem ali: lá fora. Vamos voltar até a Lua,só que desta vez não só ir lá e voltar. Vamos estabelecer uma colônia lá, e teremos um grupo de pessoas na Lua que poderão fazer longos voos porque estarão acostumadas a ficar enclausuradas e trancadas em um ambiente de engenharia sujeito à baixa gravidade. E eles vão trabalhar em outros mundos do sistema solar.

E então, você sabe, podemos correr tantos riscos quanto quisermos. Toda a coisa… nós sempre vivemos com risco, e isso tem sido a melhor coisa da vida. O problema é que agora atingimos um ponto onde o risco é arriscar tudo! E não podemos nos dar ao luxo de arriscar tudo. Até agora, na história do mundo, sempre que tivemos uma idade das trevas, tem sido temporária e local. E outras partes do mundo estavam bem. E no fim, eles o ajudam a sair da idade das trevas. Estamos agora enfrentando uma possível idade das trevas que será mundial e permanente! Isto não é engraçado. É uma coisa diferente. Mas uma vez que tenhamos nos estabelecido em muitos mundos, poderemos fazer o que quisermos enquanto quisermos, em um mundo de cada vez.

(o grupo ri)

E lá fora, além das estrelas.

E a coisa interessante é que se conseguirmos ultrapassar os próximos trinta anos, não há motivo para que não entremos em um tipo de platô que verá a raça humana durar, talvez, indefinidamente… até que ela evolua para coisas melhores… e se lance indefinidamente para o espaço. Temos a escolha aqui entre nada… e virtualmente o infinito. E a boa coisa disso é que vocês caras da platéia hoje, quando digo caras é um termo geral que abrange as garotas… quando vocês caras da platéia hoje ainda estiverem entrando na meia idade, vocês saberão qual escolha foi feita.

Veja, tenho sido tão astuto que dei um jeito de nascer em 1920.

(o grupo ri)

O que significa que com certeza eu estarei bem morto.

(risadas)

Antes que a encrenca começe!

(risos)

Mas vocês caras verão por si mesmos. Espero que vocês vejam um mundo no qual a humanidade decidiu continuar sã. Mas devo dizer com honestidade que acho que as chances são poucas.

Obrigado.

(fim da palestra – o grupo aplaude por 24 segundos).

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