Publicado em Setembro - 15 - 2010

O caso dos dez negrinhos / E não sobrou nenhum

O caso dos dez negrinhos é o romance mais vendido de Agatha Christie, e a história de mistério mais vendida de todos os tempos, com mais de 100 milhões de cópias vendidas. O livro foi publicado pela primeira vez no Reino Unido em novembro de 1939 como Ten Little Niggers, e em 1940 nos EUA como And Then There Were None. A reedição e nova tradução de 2008 no Brasil mudou o título original para “E não sobrou nenhum”, o que causou protestos dos fãs da Agatha Christie. Na nova edição, a Ilha do Negro virou a Ilha do Soldado.

Antes de ser publicada em livro, a história saiu em vinte e três partes no jornal Daily Express, de 6 de junho a 1 de setembro de 1939. Nos Estados Unidos a história também foi publicada em capítulos, desta vez em sete partes no Saturday Evening Post (de 20 de maio a 1 de julho de 1939).

A trama é curiosa e original: oito pessoas são convidadas pelo casal Owen para um fim de semana em sua casa na Ilha do Negro, no litoral de Devon. Eles são levados até lá de barco, que logo retorna para o continente, e são aguardados por um casal de criados.

O ambiente formal logo é quebrado quando, após o jantar, uma voz anuncia que todos os presentes são acusados de um crime, e enumera os nomes e acusações. A voz vinha de um disco que o criado havia recebido instruções de tocar às 21 horas.

Os convidados e o casal de criados percebem que foram aprisionados na ilha pelo misterioso casal Owen, e que não podem partir. Logo começam os assassinatos, e um a um eles são mortos, de forma a cumprir os versos infantis deixados em cada um dos quartos e emoldurados na sala:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.

Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.

Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.

Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.

Seis negrinhos de uma colméia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.

Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.

Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.

Três negrinhos passeando no Zôo.
E depois? O urso abraçou um, e então ficaram dois.

Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.

Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não ficou nenhum.

Dez estatuazinhas de porcelana representando pequenos negrinhos também desaparecem misteriosamente, uma a uma. Como as dez pessoas estão sozinhas na ilha, fica claro que um deles é o assassino; a desconfiança e o medo se instalam, e pouco a pouco Agatha Christie nos conduz por uma trama bem construída e envolvente, até a explicação no epílogo.

A história utiliza o recurso de isolamento dos personagens na ilha (”crime do quarto fechado”) para criar o clima de tensão, suspeita e suspense, recurso também usado no romance Assassinato no Expresso do Oriente, embora não da mesma forma. A poesia infantil também acrescenta o elemento lúdico e mostra o perfeccionismo e o planejamento do assassino, ao “criar” os assassinatos de acordo com os versos. O romance também tem sido comparado em termos de criatividade a O assassinato de Roger Ackroyd,  cujo crime aparentemente insolúvel só é desvendado no final do último capítulo.

Por fim, outro tema em comum ao “Caso” e o “Expresso do Oriente” é a vingança e a justiça comandadas por mãos humanas, pois o assassino não acredita que a justiça divina ou a lei dos homens possam cumprir o seu dever de punir os culpados.

O livro foi adaptado pela própria Agatha Christie em 1943 para o teatro, com uma ligeira alteração nos últimos assassinatos, para que a trama pudesse ser explicada para o espectador, visto que o recurso do epílogo do livro não poderia ser usado no palco. Quase todas as versões  para o cinema usaram essa adaptação, com exceção do filme russo de 1987, “Desyat’ negrityat“, que usa o mesmo final que o livro.

A história também foi adaptada várias vezes para a TV, e também para os quadrinhos e para o video game “Agatha Christie: And Then There Were None“, o primeiro de uma série de jogos para PC baseados em livros da escritora. O game foi lançado para o console Wii em 2008.

Além das adaptações “sérias”, também foram feitas paródias, como em um episódio do “Agente 86“, no musical da Broadway “Something´s Afoot” e na excelente comédia Assassinato por Morte (1976), que recebeu uma ótima resenha da Naomi (link no final do artigo).

Filme - O Vingador Invisível

Um dos filmes mais bem-sucedidos baseados na história é a versão americana de 1945 dirigida por René Clair (And Then There were None, e em português, “O Vingador invisível”).  Além de ser a primeira, esta é considerada a melhor adaptação do romance para o cinema.

Apesar de alguns nomes dos personagens terem sido mudados, a trama é bem fiel ao livro, e o final usa o mesmo recurso da peça de teatro, com a adaptação feita por Christie. Há elementos de humor e por vezes os personagens olham diretamente para a câmera, ao se apresentar ou fazer uma confissão. Outras mudanças mais sutis foram a natureza dos crimes dos quais os convidados são acusados. para se adequar ao rígido Código Hays, temas como estupro, infanticídio e gravidez na adolescência foram substituídos por equivalentes mais ’suaves’.

Uma das vítimas, Emily Brent, é interpretada por Judith Anderson, atriz australiana mais conhecida como a Sra Danvers do filme de Hitchcock, Rebecca (1940). Além dos dez personagens, apenas o barqueiro aparece brevemente no filme, que se passa apenas na ilha.

O filme está em domínio público, e pode ser baixado livremente pela Internet (links no final do artigo).

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Este artigo faz parte da comemoração dos 120 anos do nascimento de Agatha Christie, (15/09/1890) com a participação de vários blogs e sites. Veja também:

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Para saber mais:

  • And then There Were None (livro) na Wikipedia, em inglês e português
  • And then There Were None (filme) na Wikipedia
  • página do filme de 1945 no IMDb
  • Lista de filmes em domínio público
  • Link para download do filme no Internet Archive (avi, 700 MB)
  • Link para download da legenda em srt
  • Assassinato por Morte no Batata Transgênica
  • Entrevista com John Curran, o autor de “Os diários secretos de Agatha Christie”, no blog da Cultura
  • Posters de filmes dos anos 40/60 baseados em livros de Agatha Christie, no blog da L & PM

And Then There Were None - trailer

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