Publicado em Outubro - 15 - 2009

Mudanças Climáticas e O Dia Depois de Amanhã

Este artigo tem dois objetivos: falar sobre o filme O Dia Depois de Amanhã e participar do Blog Action Day deste ano, cujo tema são as mudanças climáticas. Pensei que este filme interessante seria um bom ponto de partida para falarmos sobre os mitos e verdades que envolvem o aquecimento global e as mudanças climáticas.

O filme de 2004, apesar de seguir a linha de cinema-catástrofe, foi lançado em um momento em que a causa da catástrofe em questão é um assunto que diz respeito a todos nós. O Dia Depois de Amanhã foi dirigido por Roland Emmerich, co-produzido e escrito por ele, e é baseado no livro “The Coming Global Superstorm“, de Art Bell e Whitley Strieber. Emmerich já fez outros trabalhos nessa linha, como Independence Day, e está preparando o lançamento (em 13/11/2009) de seu novo filme-catástrofe, “2012” (que, assim como este, esperamos que fique apenas na ficção).

A premissa do livro (e explicada no filme) é que, com o aumento do aquecimento global e o derretimento das calotas polares, o excesso de água doce nos oceanos causará o desequilíbrio entre água doce e salgada, alterando a Corrente do Atlântico Norte.

A Corrente do Golfo e a Corrente do Atlântico Norte geram um fluxo de água quente em frente ao Pólo Norte, que por sua vez cria um fluxo de ar quente que ’segura’ a massa de ar polar. Isso evita o super resfriamento do Hemisfério Norte. Com esse desequilíbrio, a barreira deixa de existir e libera o fluxo de ar congelado em direção ao sul, causando uma queda drástica de temperatura. Ironicamente, o aquecimento global causaria uma nova Era Glacial.

E como estamos falando de cinema catástrofe, tudo acontece muito rápido, e temos o drama pessoal dos personagens, que dá um aspecto humano e aumenta o interesse do filme. Desde Aeroporto 75 a Titanic, esse gênero de filmes sempre traz um drama pessoal para acompanharmos. O que, convenhamos, funciona bem.

Jack Hall (Dennis Quaid), um paleoclimatologista, está na Antártida com seus colegas coletando amostras de gelo quando a plataforma onde estão começa a rachar e separa-se do resto do continente. A seguir, Jack mostra suas descobertas e teoria em uma conferência sobre aquecimento global em Nova Délhi, onde surpreendentemente, está nevando.

O vice-presidente americano não acredita em sua teoria, mas o Professor Terry Rapson (Ian Holm, o Bilbo Baggins de O Senhor dos Anéis), um meteorologista escocês, concorda com ele e conta que algumas bóias no Atlântico Norte mostraram queda repentina de mais de 13 graus de temperatura, o que indica que o resfriamento já pode estar começando.

Outros estranhos eventos climáticos estão acontecendo pelo mundo; tornados devastam Los Angeles; pedras de granizo do tamanho de melões caem em Tóquio; uma grande nevasca cobre a Europa e os helicópteros que iam buscar a família real britânica congelam em pleno voo.

O filho de Jack, Sam (Jake Gyllenhaal) está em Nova York com seus amigos Brian (Arjay Smith) e Laura (Emmy Rossum, de O Fantasma da Ópera) para participar de uma competição acadêmica. Após o evento, eles não conseguem sair de NY devido às péssimas condições climáticas. Sem eletricidade e com as ruas inundadas, eles tentam se abrigar na Biblioteca Pública, e por pouco não são cobertos por uma onda gigante que atinge Manhattan. Muitas pessoas conseguem se abrigar lá, inclusive um morador de rua e seu cachorro (Buda, um lindo cão preto e branco).

Sam consegue ligar de um telefone público no saguão inundado e fala com seus pais. Jack o aconselha a não saírem dali, tentarem se aquecer e aguardar o final da grande tormenta que deve durar de uma a duas semanas, e diz que ele irá buscá-lo em Nova Iorque.

Para a surpresa das pessoas ali abrigadas, um navio russo à deriva percorre as ruas de Manhattan e pára em frente à Biblioteca. O frio aumenta e a água congela. Eles começam a queimar livros para se aquecer, o que gera algumas discussões sobre quais livros podem ou não ser queimados.

Mais tarde, eles veem muitas pessoas caminhando na neve, tentando sair da cidade. Muitos querem ir também, mas Sam pede que não saiam dali e explica o que acontecerá, e que eles acabarão congelados. Mesmo assim, alguns vão.

O governo americano ordena a evacuação dos estados do Sul, e muitas pessoas tentam entrar no México que, assustado com o grande número de “imigrantes” indesejados, fecha a fronteira. O presidente americano então faz um acordo para a abertura da fronteira, perdoando todas as dívidas dos países latino-americanos. Essa cena irônica é muito lembrada (e apreciada).

Após um episódio dramático em que Sam e seus amigos procuram penicilina no navio russo para tratar a infecção de Laura, que cortou a perna ao tentar chegar à biblioteca, eles são atacados por lobos que fugiram do zoológico e por um triz conseguem voltar em segurança para a biblioteca antes da chegada da grande tempestade, com temperaturas de -101ºC e congelamento instantâneo.

Por fim, Jack e seu colega Jason conseguem chegar a Nova Iorque e encontram Sam e seu grupo na biblioteca (inclusive Buda, o único cão sobrevivente de Nova Iorque). Quando os helicópteros chegam para resgatá-los, vemos que há muitas outras pessoas em segurança no topo dos prédios, e na cena final os astronautas que estão na Estação Espacial observam a Terra, cuja metade superior está quase totalmente coberta por neve e gelo. Uma nova Era Glacial começou.

Muitos cientistas e ambientalistas criticaram duramente o filme; o paleoclimatologista William Hyde, da Duke University, disse que “o filme era para a ciência climática o que ‘Frankenstein’ era para as cirurgias de transplantes cardíacos”. Outro ponto muito criticado é que essas mudanças climáticas acontecem no filme durante alguns dias ou semanas, enquanto em um cenário mais plausível, todas as mudanças mostradas no filme demorariam algumas décadas ou séculos para acontecer. Bom, não esqueçamos que isto é um filme, e essa aceleração é uma liberdade artística necessária para criar o drama.

Um detalhe interessante é que Roland Emmerich pagou 200 mil dólares do próprio bolso para tornar a produção do filme “carbono-neutro”; isto é, todo o dióxido de carbono emitido durante a produção foi compensado pelo plantio de árvores e investimentos em energia renovável. Esta foi a primeira atitude deste tipo em Hollywood.

Agora, falando sério:

No site CISCI, há uma análise científica de alguns aspectos do filme. Em resumo, há 90% de probabilidade de conexão entre o aquecimento global e o consumo de combustíveis fósseis pelos humanos, e a consequente emissão de carbono. Apesar do resfriamento causado pelo aquecimento global ser possível em teoria, a temperatura média do planeta irá ficar mais quente, e não mais fria. Pelo menos, nos próximos séculos.

Até o ano 2100 prevê-se um aumento entre 1,1 e 6,4 graus Celsius nas temperaturas mundiais. Se todo o gelo dos pólos derretesse, o nível dos oceanos poderia aumentar até 90 metros. Um aumento de 15 metros no nível do mar, como mostrado no filme, é possível, mas não tão rápido. Isso demoraria algumas décadas para acontecer.

Como vimos, o aquecimento global já está acontecendo, e está diretamente ligado à emissão de carbono. Apesar de muitas pessoas culparem a explosão demográfica pelas mudanças climáticas, o verdadeiro culpado é o consumo, não a população.

George Monbiot, em um artigo interessante publicado no site AlterNet, mostra que a pequena parcela de consumidores muito ricos causa mais dano ao meio ambiente que uma grande população de pessoas pobres com quase nenhum consumo e emissão de carbono. Os locais com maior crescimento populacional também são os com menor aumento de produção de dióxido de carbono, e vice-versa. Entre 1980 e 2005, a África sub-saariana produziu 18,5% do crescimento populacional e apenas 2,4% do aumento de CO2. Por sua vez, a América do Norte respondeu por 4% do aumento populacional, mas por 14% das emissões de carbono. Um sexto da população mundial é tão pobre que não produz emissões significativas de carbono.

Como exemplo do extremo oposto, Monbiot cita os grandes iates de luxo, como o Wally Power 118, que consome 3.400 litros de combustível por hora na velocidade de 60 nós. Isso significa 31 litros por quilômetro, ou quase um litro por segundo. Somado aos acabamentos de luxo, jet skis, helicóptero particular, caviar beluga e sushi de salmão, o proprietário de um desses iates causa mais dano à biosfera em dez minutos que muitos africanos causariam em toda sua vida.

Apesar das taxas médias de natalidade estarem diminuindo em toda parte, a população mundial continua a aumentar. A maior parte do crescimento populacional está entre as pessoas que não consomem quase nada. As pessoas têm menos filhos quando ficam mais ricas, mas não diminuem seu consumo; pelo contrário, elas consomem mais. Ironicamente, a camada mais rica da população mundial não reconhece que pode estar causando tal dano ao meio ambiente, e prefere culpar os bilhões de pessoas que vivem na Índia e na China pelo aquecimento global. Claro que, se esses bilhões tivessem o estilo de vida (e consumo) ocidental, o planeta não suportaria.

Também concordamos que a melhoria da educação, seguida pelo planejamento familiar e consequente diminuição da taxa de fertilidade desses países, só poderia ajudar a adiar cada vez mais as mudanças climáticas previstas no filme. Mas também fica claro que, se os países mais ricos não mudarem seus hábitos de consumo, nisso incluindo as grandes empresas e corporações, as atitudes individuais sozinhas não conseguirão deter a onda de aquecimento global.

No início de dezembro de 2009, as Nações Unidas esperam unir 190 governos em Copenhague para finalizar um acordo sobre as emissões de gases do efeito estufa, para substituir o protocolo de Kyoto, que expirará em 2012.

Apesar dos Estados Unidos terem ficado fora do protocolo de Kyoto, desta vez esperamos que o presidente Obama participe e lidere seu país em direção às mudanças necessárias. A participação dos Estados Unidos é muito importante, pois o país é o maior emissor de dióxido de carbono (CO2) para a produção de eletricidade, seguido pela China. Contudo, é pouco provável que o Senado norte-americano aprove até dezembro uma lei que restrinja as emissões de gases do efeito estufa.

E o que podemos fazer? Além de, através do poder da opinião pública, pressionar os governos a aprovar as leis necessárias, reduzir o desmatamento e reduzir as emissões de carbono de indústrias e dos grandes consumidores, também podemos fazer a nossa parte.

Algumas atitudes individuais podem ajudar, como reduzir o uso do automóvel, reciclar tudo o que for possível, reduzir o consumo de plásticos, diminuir o consumo de eletricidade, comer menos (ou nenhuma) carne, usar a energia solar para aquecimento de água e diminuir as viagens, especialmente de avião. Um voo transatlântico torna uma pessoa responsável pela mesma quantidade de emissão de carbono que causaria dirigindo um carro durante um ano. Ao reduzir o consumo de uma forma geral, estamos diminuindo também o consumo da energia necessária para a fabricação dos bens de consumo, o que em última análise significa a redução da emissão de dióxido de carbono.

Uma iniciativa curiosa vem sendo tomada pela empresa aérea japonesa All Nippon Airways (ANA), que tem pedido para os passageiros usarem o banheiro antes de embarcar, para reduzir o consumo de combustível. A empresa estima que se todos os passageiros fizerem isso, a rredução da emissão de dióxido de carbono pode chegar a 4,2 toneladas por mês. Outras medidas tomadas pela empresa são a reciclagem de copos e garrafas de plástico e o uso de hashis feitos com madeira de projetos de poda de florestas, em um esforço de sustentabilidade. As revistas e louças usadas nos aviões também serão mais leves.

O cenário catastrófico mostrado no filme felizmente está ainda bem distante, mas não é impossível. Cabe a todos nós fazermos nossa parte e tentarmos adiar o máximo possível o aquecimento global e as mudanças climáticas que ele trará. Se não fizermos nada, as consequências afetarão a vida de todos nós.

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Para saber mais:

Outros posts legais participando do Blog Action Day 2009:

Trailer - O Dia Depois de Amanhã:

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