Publicado em Abril - 03 - 2009

Mar Adentro

“…el derecho de nacer parte de una verdad: el deseo de placer. El derecho de morir parte de otra verdad: el deseo de no sufrir. La razón ética pone el bien o el mal en cada uno de los actos. Un hijo concebido contra la voluntad de la mujer es un crimen. Una muerte contra la voluntad de la persona también. Pero un hijo deseado y concebido por amor es, obviamente, un bien. Una muerte deseada para liberarse de un dolor irremediable, también. Ninguna libertad puede estar construida sobre una tiranía. Ninguna justicia, sobre injusticia o dolor. Ningún bien positivo, sobre un sufrimiento injusto…”

Ramón Sampedro

Este filme escrito, produzido e dirigido por Alejandro Amenábar, conta a história verídica de Ramón Sampedro. Ramón, nascido em 1943, trabalhava como mecânico de navios e após um acidente de mergulho no litoral da Galícia ficou tetraplégico, aos 25 anos. Pelos 29 anos seguintes ele lutou por seu direito à eutanásia ativa.

Mar Adentro ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, e diversos outros prêmios, como o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e indicação para Melhor Ator (Javier Bardem). Ganhou também 14 prêmios Goya (na Espanha), além dos prêmios Donatello (na Itália) e do Festival de Veneza.

No início do filme, Ramón (Javier Bardem) está há 26 anos preso à cama e decidido a morrer, pois acha que uma vida em sua condição física não é uma vida digna. Ele diz que viver é um direito, e não uma obrigação, como no seu caso. Sua família, que cuida dele com carinho, não concorda com sua decisão; alguns amigos o apóiam, respeitam sua decisão e tentam ajudá-lo em sua batalha judicial. Entre eles está Julia (Belén Rueda), uma advogada que sofre de uma doença degenerativa (Cadasil) e por identificar-se com a incapacidade física de Ramón, decide ajudá-lo.

Conforme Júlia vai conversando com Ramón e a família para preparar o caso, ficamos sabendo que Ramón era um jovem ativo, que deu a volta ao mundo trabalhando como mecânico de navios, tinha uma noiva, com quem rompeu após o acidente por acreditar-se despreparado para o amor. Em uma linda cena ao som de ‘Nessun Dorma’, Ramón desce da cama, corre para a janela e voa até a praia para encontrar-se com Júlia (“soube que você estava aqui, e vim voando”); esses devaneios eram o refúgio interior de Ramón, seu ‘mar adentro’, onde ele podia ser livre; ele diz que ‘o mar me deu a vida, e o mar a tirou’.

Outra amiga é Rosa (Lola Dueños), uma operária, mãe de dois filhos e divorciada; ela começa a visitá-lo depois de assistir a uma reportagem na TV; na primeira visita Ramón acusa-a de ser uma mulher frustrada e estar tentando compensar isso com as visitas; ela vai embora, mas aos poucos a amizade vai crescendo, assim como a dedicação e interesse de Rosa por Ramón.

Ao longo dos dois anos mostrados no filme, Ramón vê seu pedido de autorização de eutanásia negado pela justiça espanhola, e decide levar a cabo sua decisão mesmo assim, contando com a ajuda dos amigos. Após mais um ataque cardíaco, Julia percebe que sua condição física está se deteriorando e decide que irá ajudá-lo a morrer, suicidando-se em seguida. Ela diz que voltará assim que o livro de Ramón for publicado, mas junto com o livro envia uma carta, na qual presume-se que comunica que mudou de idéia, e escolheu viver. O filme não mostra o conteúdo da carta, mas vemos o desespero de Ramón depois disso.

Rosa, que tenta despertar o desejo de viver em Ramón, por fim decide ajudá-lo a morrer. Ramón diz que quem o amasse de verdade respeitaria seu desejo de morrer e o ajudaria a fazê-lo. Ele então despede-se da família e vai ao encontro de Rosa.

Alejandro Amenábar

Em uma das cenas mais comoventes do filme, Ramón diz adeus à família, e pede um abraço ao sobrinho (Javi); ele o abraça, e diz que ‘entendeu a poesia’ (um poema escrito por Ramón ao filho que nunca teria, e dedicada a Javier). A cunhada Manuela chora, e o irmão (que nunca aceitou a decisão do irmão mais novo) fica calado, longe de todos. Quando a ambulância parte, Javier sai correndo atrás dela.

Para que ninguém pudesse ser responsabilizado pela eutanásia, várias pessoas o ajudaram, conseguindo o cianureto de potássio, transportando-o, medindo a dose, deixando o copo ao seu alcance e, por fim, gravando em vídeo seus últimos momentos. Vemos no filme as últimas palavras de Ramón (em espanhol e em inglês), que antes de ingerir a dose mortal, em 12 de janeiro de 1998, explica que seus amigos apenas lhe emprestaram seus braços e pernas, mas a decisão e consciência foram dele.

Após o suicídio de Ramón, Ramóna Manero (a amiga retratada no personagem Rosa) foi acusada de tê-lo ajudado, mas o caso foi arquivado por falta de provas. Mais tarde, quando a acusação foi retirada, ela contou publicamente que foi uma das pessoas que ajudaram Ramón.

O filme não é uma apologia da eutanásia; o próprio Ramón não queria impor suas crenças a ninguém, apenas queria exercer seu direito de propriedade sobre seu corpo, e dele dispor se assim o desejasse. Ele sentia que havia se tornado um fardo para sua família, que sempre lhe deu todo o amor e carinho.

A eutanásia é um assunto, como o aborto, em que nossa opinião e convicções podem mudar no momento em que estivermos diretamente envolvidos. Até que ponto vai nossa tolerância pessoal à dor e ao sofrimento? Esperamos que nunca o precisemos provar; quando temos de tomar uma decisão quanto à vida de um animal de estimação sem esperanças de cura, sentimos o peso de tal decisão, a dor antecipada da perda e um vazio no peito. Somente podemos imaginar uma situação em que o doente terminal seja uma pessoa querida ou nós mesmos. Somente podemos imaginar o tamanho do vazio e a intensidade da dor.

No filme, o pai de Ramón diz que “só há algo pior que a morte de um filho; é ter um filho que quer morrer“. No artigo de Arnoldo Kraus, ele diz que “as palavras do pai de Ramón Sampedro “hay algo todavía peor que la muerte de un hijo: tener un hijo que quiere morirse”, congelam o ar e retorcem a alma. Para Ramón, tetraplégico por quase 30 anos, o tempo parou: “A vida é um direito, não uma obrigação”. Como lidar com a paternidade que não consegue entender que um filho deseje morrer, dadas as circunstâncias, e a sensação de um ser humano que sente que viver sem um corpo não faz sentido? Enquanto o primeiro se agarra à vida e afirma que é preciso vivê-la até o último suspiro, o último sente que não parou de morrer desde o dia em que perdeu seu corpo. Vida como obrigação ou vida como direito?”

Este filme nos faz pensar sobre a vida, o direito à vida e à morte, e principalmente o respeito às crenças e convicções, sem convertermo-nos em juízes dos motivos e razões do outro. Ramón não queria convencer ninguém; apenas exercer seu direito.

No artigo de Carlos Brazil, “Eutanásia em Discussão“, o professor de Bioética da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo) Dalton Luiz de Paula Ramos analisa: “Obviamente uma pessoa que está vivendo em sofrimento, em um certo sentido se justifica que ela peça a morte. Dá para a gente entender. Por que ela está pedindo a morte? Porque está sofrendo. Agora, o sofrimento tem várias dimensões. Eu caracterizaria pelo menos duas delas: uma é o sofrimento físico - estar sentindo dor ou coisas que o valham - e a questão da dor física é médica e vai encontrar na Medicina respostas para muitas dessas condições, senão para todas; mas sabemos que a questão do sofrimento não se reduz só à dor física, porque o grande sofrimento pode existir por uma total perda de sentido do significado da vida. Existe aí um componente psicológico e também um componente espiritual. E, da mesma forma que a dor física pode ser tratada pelos recursos analgésicos da Medicina, essa outra dimensão da dor pode ser tratada. Não estou dizendo que é fácil, mas que ela pode ser tratada”.

Ramón Sampedro

Ramón Sampedro não era um doente terminal; mas para ele, a vida havia perdido todo o sentido e significado. Ele tinha uma família que o amava, amigos, mas depois do acidente seu único objetivo era a morte. Apesar de sua firme decisão, a justiça negou a ele o direito de dispor de sua vida. Uma pessoa que falha na tentativa de suicídio não é punida pela lei; mas a partir do momento em que qualquer pessoa corre risco de vida, esse direito lhe é negado, e a decisão passa do âmbito particular para o legal.

No mesmo artigo, a professora de Antropologia da UnB (Universidade de Brasília) Débora Diniz avalia que o direito individual de deliberação sobre a morte deve pertencer especificamente a cada pessoa: “A nossa concepção pública de Justiça está contaminada por concepções privadas de bem. Essa é uma fragilidade da nossa concepção de razão pública. Nós precisamos seriamente enfrentar o reconhecimento de que uma razão pública expressa na Constituição e nas nossas leis não pode deliberar sobre concepções de bem. E resquícios como estes de reconhecer que a eutanásia é um atentado contra uma santidade da vida ou contra um princípio de dignidade da vida e não reconhecer como única instância possível uma deliberação individual é um pressuposto de heteronomia do nosso processo decisório que está assentado em premissas particulares de concepção de bem que não são compartilhadas por todos nós”.

Uma lei que legitime a prática da eutanásia não obrigaria ninguém a praticá-la, assim como a descriminalização do aborto não obrigaria ninguém a abortar. Tais decisões devem pertencer especificamente a cada pessoa. Contudo, é necessário identificar quando a decisão é pessoal, e quando ela é movida por outros interesses (custos de UTI e de tratamentos médicos prolongados, interesses financeiros, etc.). O artigo compara os casos de Ramón, do Papa João Paulo II, do governador Mário Covas e de Terry Schiavo. Para o jurista Ives Gandra Martins, o caso de Terry foi um crime, pois a família (especificamente o marido; os pais dela eram contra) decidiu retirar a sonda que a alimentava e ela permaneceu treze dias sem comida ou bebida, até morrer (de fome). A professora Débora afirma que a morte de Ramón foi mais digna que a de Terry ou do Papa, mas para a sensibilidade moral pública, estas últimas são muito mais aceitas.

Longe de propor respostas para um tema tão complexo, este belíssimo filme nos faz pensar sobre o assunto, analisar nossas próprias opiniões, principalmente, sobre os limites da vida e o significado da dignidade. Sem julgar.

Mar Adentro

Ramón Sampedro
Mar adentro, mar adentro,

y em la ingravidez del fondo

donde se cumplen los sueños,

se juntan dos voluntades

para cumplir um deseo.

Um beso enciende la vida

com um relámpago y um trueno,

y em uma metamorfosis

mi cuerpo no es ya mi cuerpo;

es como penetrar al centro

del universo:

El abrazo más pueril,

y el más puro de los besos,

hasta vernos reducidos

en um único deseo:

Tu mirada y mi mirada

como un eco repitiendo,

sin palabras:

más adentro, más adentro,

hasta el más allá del todo

por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre

y siempre quiero estar muerto

para seguir com mi boca

enredada em tus cabellos.

*   *   *

Para saber mais:

(artigo originalmente publicado em 22/01/2008)

*   *   *

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