Ecossistemas: o que aprendemos com os dinossauros

posted in: Natureza, Papo sério, TV, alma carioca

(artigo publicado no Alma Carioca em 10/09/2009)

Recentemente assisti no YouTube ao último episódio da série Família Dinossauro, que não cheguei a ver na TV. Contrastando com o clima alegre da série, este episódio é triste e traz uma mensagem séria: melhor não mexer com a natureza, pois as consequências podem ser catastróficas…

“Ecossistema é o conjunto dos relacionamentos que a fauna, flora, microorganismos e o ambiente, composto pelos elementos solo, água e atmosfera mantém entre si. Todos os elementos que compõem o ecossistema se relacionam com equilíbrio e harmonia e estão ligados entre si. A alteração de um único elemento causa modificações em todo o sistema podendo ocorrer a perda do equilíbrio existente. Se por exemplo, uma grande área com mata nativa de determinada região for substituída pelo cultivo de um único tipo de vegetal, pode-se comprometer a cadeia alimentar dos animais que se alimentam de plantas, bem como daqueles que se alimentam destes animais”. (Fonte: site Wikiducação)

[Atenção: montes de spoilers; se preferir, assista ao episódio antes - vídeos no final do artigo]

Neste episódio,  os dinossauros aguardam a chegada dos besouros que vêm todos os anos no mês de maio. O bando de besouros não chega, e as papoulas que são seu alimento estão espalhando-se por toda parte. Na casa de Dino aparece um único besouro solitário, que espera encontrar os outros de sua espécie para acasalar-se. Charlene vai até o pântano com ele procurar o bando mas não há pântano; a corporação Isso É Assim construiu uma fábrica de creme de frutas no lugar do pântano, que era o local de acasalamento dos insetos; para manter a alta tecnologia da fábrica, eles mataram todos os besouros e isso causou a extinção da espécie.

Sem os besouros, as papoulas crescem e espalham-se desordenadamente, e a empresa tem a brilhante ideia de contratar Dino como relações públicas. Ele sugere que um poderoso desfolhante químico seja pulverizado para matar as plantas. A brilhante ideia funciona tão  bem, que mata todas as espécies vegetais de Pangea, o único continente do planeta.

Robbie: Pai, você vai pulverizar o continente inteiro com veneno? Não há uma alternativa mais segura?

Dino: Como o quê?

Charlene: Bem, podar as plantas o máximo que pudermos, viver com um pouco de desconforto e esperar que a natureza por fim recupere o equilíbrio.

Dino: Isso é inconveniente e demorado; minha ideia é excitante e de alta tecnologia.

Robbie: É, mas você testou essa coisa para ver se é seguro?”

E as ideias brilhantes continuam; o Sr Richfield imagina que se houver nuvens haverá chuva, que trará de volta as plantas. Então ele ordena que sejam jogadas bombas dentro dos vulcões (!) para causar erupções e portanto, nuvens. Mas as enormes nuvens escuras causam o resfriamento global (uma espécie de inverno nuclear) e uma nova era do gelo, que os cientistas estimam que leve algumas ‘dezenas de milhares de anos’ para se dissipar. Com isso, o destino dos dinossauros está selado.

A cena final mostra a família Silva Sauro tentando em vão se aquecer em casa, enquanto Dino pede desculpas à família e Baby pergunta o que vai acontecer com eles. Na TV, o apresentador faz a previsão meteorológica final:

“E agora, uma previsão de longo prazo: neve contínua, escuridão e frio extremo. Aqui é Howard Handupme. Boa noite (pausa) e adeus.”

[fim dos spoilers]

O equilíbrio de um ecossistema é uma coisa muito delicada; como vimos acima, a extinção de uma espécie pode causar o crescimento desordenado de outras espécies, animais ou vegetais. Da mesma forma, a adição de uma nova espécie não nativa em um ecossistema também pode causar desequilíbrio. Foi o que aconteceu quando coelhos foram levados para a Austrália no início do século 20. Sem predadores naturais eles multiplicaram-se, prejudicando outras espécies nativas pela concorrência alimentar.

Outras formas de desequilíbrio podem ser causadas por fatores naturais, como incêndios, enchentes, maremotos,  ou por fatores induzidos pelo homem, como poluição atmosférica, da água, excesso de pesca, aquecimento global, explosão demográfica, desmatamento, queimadas, etc.

Em alguns casos o desequilíbrio pode ser revertido a médio ou longo prazo, mas em alguns casos essas perturbações são irreversíveis e acabarão afetando ao próprio homem, que depende do meio ambiente para sua sobrevivência, embora às vezes não se dê conta disso.

Outro fator alarmante é a explosão demográfica humana. A população humana aumenta em progressão geométrica, enquanto os recursos necessários à nossa sobrevivência não. Com o aumento da tecnologia, produzimos cada vez mais lixo e consumimos cada vez mais energia; o desperdício de alimentos é chocante, enquanto milhões sofrem com a fome crônica. Poluímos o planeta sem nos preocuparmos com as consequências que isso trará. Como Dino, não nos preocupamos com as plantinhas, afinal de contas “a maioria dos lanches gostosos não têm nenhum ingrediente natural”.

A solução? O desenvolvimento sustentável. Isso quer dizer “o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro”. (Fonte: site da WWF Brasil)

Isso inclui a redução do consumo de recursos e do uso de matérias primas e produtos, o aumento da reutilização e reciclagem. Os que consomem mais (países desenvolvidos e altamente industrializados) devem reduzir mais o consumo que os países em desenvolvimento. A ideia não é evitar o desenvolvimento econômico, mas utilizar os recursos disponíveis com bom senso e moderação.

Podemos mudar nossos hábitos individuais e pressionar os governos para que adotem políticas macroeconômicas que prevejam a sobrevivência das próximas gerações, em vez de apenas sua sobrevivência até as próximas eleições.

Afinal, só temos um planeta e seus recursos são finitos. Como aprendemos com os dinossauros, se não cuidarmos dele direito, pode ser que não tenhamos dezenas de milhares de anos para esperar a solução.

*   *   *

O episódio “Changing Nature” (Mudando a Natureza)  foi o último episódio da quarta temporada e foi ao ar na TV americana em 20/7/94. Depois dele, sete outros episódios que foram filmados mas não exibidos na estréia, foram ao ar nas temporadas de reprises nos EUA.

Essa série divertida foi produzida pela Disney em parceria com a Jim Henson Productions e exibida no Brasil de 1992 a 1995 na Globo, em 2003 no SBT e de 2007 a 2009 na Bandeirantes.

Apesar do final triste, fez muito sentido terminar a série assim; apesar de não sabermos a verdadeira causa da extinção dos dinossauros, o episódio nos alerta para qual pode ser a causa da nossa extinção. Melhor não mexer com a natureza.

*     *     *

Para saber mais:

Vídeo: Mudando a natureza – episódio final da série família Dinossauro

Parte 1

Parte 2

Parte 3

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Comments (3)

  • Nossa, muito bom! Espero que muitos leiam e reflitam sobre isso.
    Tudo tem consequências na natureza, essa é o grande X desse século.

    [Responder]

    Cristine Reply:

    Obrigada, Patricia! Depois de parar de chorar ao ver o episódio, pensei que esse realmente é um problema que podemos ter de enfrentar se não fizermos nada e continuarmos a abusar da Natureza. Espero que as pessoas pensem um pouco sobre isso.

    Grande abraço!

    [Responder]

  • [...] ao último episódio da Família Dinossauro? Eu não tinha visto, até a Cristine publicar lá no Rato de Biblioteca [...]

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