QB VII é um livro especial para mim. Li-o pela primeira (de muitas) vezes quando era pequena, e fiquei impressionada com as histórias contadas no julgamento. Foi a primeira vez que eu ouvi falar do Holocausto, bem antes de aprender a respeito nas aulas de História. Depois disso, li muitos outros romances sobre o assunto, como O Dossiê Odessa (Frederick Forsyth), Exodus (também de Leon Uris), Os Meninos do Brasil (Ira Levin) e Holocausto (Gerald Green), entre outros. Não se deixa um livro destes ao alcance de uma criança de 12 anos impunemente.
O romance de Leon Uris (1924 – 2003) conta o julgamento de libelo entre o médico polonês Adam Kelno e o escritor (e judeu) Abraham Cady. Cady é o autor do romance “O Holocausto”, e em certa passagem do livro acusa Kelno de ter realizado muitas experiências de castração de judeus no (fictício) campo de concentração de Jadwiga, durante a 2ª Guerra Mundial. Kelno, então, move uma ação judicial exigindo o pedido de desculpas público e uma indenização por parte de Cady. O julgamento acontece na Corte nº 7 dos Tribunais da Rainha (Queen´s Bench Court VII), em Londres.
Primeira Parte – O Queixoso
O livro é dividido em 4 partes: na primeira parte, conhecemos a história do queixoso, Dr. Adam Kelno.
Em novembro de 1945, o médico Adam Kelno chega a um campo de refugiados na Itália e após sua recuperação, começa a trabalhar como médico. Conhece a enfermeira Angela Brown (Leslie Caron), com quem se casa mais tarde. Em 1947, pouco antes do nascimento de seu filho, Kelno descobre que o governo polonês pediu sua extradição para a Polônia, para ser julgado como criminoso de guerra. Isso significaria sua condenação e morte certas. Enquanto o processo de extradição se arrasta por dois anos, Adam fica preso. Por falta de provas e após o testemunho de uma das vítimas de Jadwiga que não o identificou, ele é considerado inocente das acusações e libertado.
Depois disso, Adam, Angela e o filho Stephan mudam-se para Sarawak, em Bornéu. Lá ele tenta melhorar a vida e a saúde dos nativos, mas depara-se com os tabus, preconceitos e tradições da cultura local, e a burocracia dos funcionários públicos britânicos. A certa altura, exasperado, Adam reclama:
“— Lá no baixo Lemanak eles pescam com lanças, caçam com zarabatanas, e lavram o campo com pedaços de pau. Quando se consegue meter uma idéia na cabeça deles vem um Clifton-Meek e a enterra num monte de papel.
— Bem, Kelno, com o tempo vai entender a inutilidade de tanto esforço. As coisas aqui andam muito lentamente. E, depois, a maioria dos ibans são gente boa, só que pensam e vivem de um modo diferente do nosso.
— São uns selvagens, uns miseráveis selvagens.
— O senhor acha realmente que sejam selvagens?
— O que mais posso pensar?
— Isto é muito inesperado vindo do senhor, Doutor Kelno.
— O que quer dizer?
— Nós não procuramos nos meter na vida passada de quem chega aqui. Mas o senhor foi prisioneiro num campo de concentração. O que quero dizer é que, depois do que passou na Polônia, tudo obra de um povo civilizado, parece-me um tanto difícil estabelecer quem realmente sejam os selvagens neste mundo.”
Depois de 15 anos brigando com a burocracia inglesa e dedicando-se a melhorar as condições de vida dos nativos, o trabalho de Adam sobre desnutrição é publicado e reconhecido, e ele é sagrado Cavaleiro. A família, então, volta para a Inglaterra. Terrence Campbell, filho de um amigo de Adam, vai junto com eles para estudar medicina em Londres.
O Dr Kelno instala-se em um bairro simples de Londres e volta a clinicar. Um dia, Terry Campbell mostra a ele o livro de Abe Cady, recém-publicado e sucesso de vendas, e o trecho que menciona Kelno. Este fica furioso por ter sido caluniado e decide processar o escritor, o editor e o impressor do livro.
Segunda parte – Os Acusados
Nesta parte conhecemos a história de Abraham Cady. Filho de um padeiro, este adolescente rebelde decide escrever a história do irmão Ben após a morte deste na Guerra Civil espanhola, e envia seu manuscrito para o editor David Shawcross, que lhe dá conselhos e lhe diz para reescrever a história para que possa ser publicada. O livro é um sucesso. Abe então alista-se na Força Aérea Canadense e parte para a guerra. Ele é ferido em combate e no hospital conhece Samantha, com quem se casa mais tarde.
A carreira de escritor de Abe vai de vento em popa; seus livros crescem em sucesso mas declinam em qualidade; da mesma forma, após vinte anos e dois filhos (Ben e Vanessa), seu casamento está em crise. Abe é mulherengo e frustrado por não conseguir escrever o que deseja e o que acha que deveria. Abe e Samantha se divorciam, e ele parte para a Europa e Jerusalém para pesquisar sobre os judeus e escrever seu próximo livro.
O Holocausto é lançado e 1965 e muito bem recebido pela crítica e público. Enquanto descansa sobre os louros de seu trabalho recente, Abe recebe um telegrama de David Shawcross, que o alerta do processo de libelo movido contra ele por Adam Kelno.
Terceira Parte – Instruções aos Advogados
Após a notícia do processo, ambas as partes começam o processo de preparação para o julgamento. Então somos apresentados ao sistema judiciário inglês, os diversos prédios e cargos, e aos atores do próximo ato: advogados, assistentes e o juiz, e do longo processo de elaboração do processo e contato com as testemunhas, especialmente da defesa.
Quarta Parte – O Julgamento
Em 16 de abril de 1967 começa o julgamento do processo de libelo. Após a apresentação de abertura Sir Robert Highsmith, advogado de Kelno, lê para o júri o trecho de O Holocausto onde Kelno é citado:
“Ele mostrou um exemplar de O Holocausto e o abriu, com lentidão estudada, na página 167. Outro momento se passou enquanto ele olhava para cada homem e mulher do júri, separadamente. Então, começou a ler, pausadamente.
— “De todos os campos de concentração nenhum foi mais infame do que o de Jadwiga. Foi aqui que o Coronel-Médico Adolph Voss, da SS, organizou um campo de experiências com o propósito de criar métodos de esterilização em massa, usando cobaias humanas, e o Coronel-Médico Otto Flensberg, também da SS, e seus assistentes levaram a efeito estudos igualmente horripilantes com os prisioneiros. No notório Alojamento V, uma cirurgia experimental secreta era dirigida pelo Dr. Kelno, que perpetrou mais de quinze mil operações experimentais sem o uso de anestésico.” Senhores e senhoras do júri, deixem-me repetir esta passagem… “mais de quinze mil operações experimentais sem o uso de anestésico.” “
Adam Kelno faz o juramento e começa seu depoimento. Ele nega ter feito as cirurgias para remoção de ovários e testículos sadios, mas admite ter feito algumas dezenas dessas cirurgias para remover órgãos danificados pelas experiências de Voss, que expunha alguns judeus de Jadwiga a doses maciças de raios-X. Ele afirma que as cirurgias eram feitas com anestesia local, pois a anestesia geral não estava disponível, e que era dada uma injeção prévia de morfina antes da raquidiana. Kelno diz que fez as cirurgias para salvar a vida dos pacientes, pois Voss ameaçara que os ajudantes enfermeiros as realizariam, caso os médicos se recusassem.
Entretanto, quando começam os depoimentos das testemunhas da defesa, conhecemos histórias terríveis de crueldade e castração de pessoas sadias, mortes por hemorragia decorrentes de operações mal feitas, experiências com choques elétricos entre presos judeus para testar os limites da resistência humana antes da loucura, histórias de sacrifícios para salvar outras pessoas, descrições do inferno na terra que era Jadwiga.
“Ele estudou o pedido de Bannister. Legalmente parecia muito bem redigido, e qualquer juiz inglês poderia dar seu parecer sem muita hesitação.
Mas, por alguma razão, ele continuou a contemplá-lo, sem realmente prestar muita atenção à leitura. O que via era aquele desfile sem fim.
Aquele julgamento haveria de marcá-lo para o resto da vida. Ele os vira… seres humanos… mutilados. Já não era mais a culpa ou a inocência de Kelno que se tornava importante, mas sim o que um homem podia sofrer nas mãos de um outro homem. Por um momento ele conseguiu atravessar a fronteira e entender aquela estranha lealdade de um judeu para com outro judeu. Os judeus que viviam livremente, na Inglaterra, sabiam que estavam livres graças a um acaso do destino, que não os conduzira a Jadwiga. Cada judeu sabia que o genocídio poderia ter sucedido com ele e toda à sua família, e que apenas haviam sido poupados por esse acaso do destino. Gilray simpatizara muito com os dois belos jovens, o filho e a filha de Cady. Afinal, eles eram meio ingleses.
No entanto, enquanto o tempo se mantinha estático, Gilray pensava também como um inglês, e não poderia nunca entender, completamente, um judeu. Poderia ser amigo deles, trabalhar com eles, mas não os entenderia. Ele era como os homens brancos que nunca podem entender completamente os negros. Como os negros que nunca podem entender os brancos. Como todos os homens normais que podem ser amigos e tolerar os homossexuais, mas não podem nunca entendê-los.
Há em todos nós essa espécie de resistência em entender o que é diferente de nós.”
Por fim, após um longo julgamento de vários meses, o júri delibera em uma hora e meia o veredito e a sentença. Eles decidem a favor de Kelno e estipulam a indenização em meio penny, a menor moeda do reino.
Como diz Abe Cady, “Ninguém vai ganhar este caso. Somos todos perdedores”. As verdades trazidas à tona durante o julgamento mexeram com antigas feridas, relembraram uma época negra que, naqueles anos, ninguém queria lembrar. Mas essas verdades não podem ser esquecidas.
O Holocausto, ou Shoah, foi uma abominação tão grande que os próprios nazistas duvidavam que alguém pudesse acreditar na verdade, se a soubessem. Quando os aliados chegaram aos campos de concentração o cenário dantesco que encontraram era inacreditável: pilhas de mortos, fornos crematórios para assassinatos em massa, cadáveres ambulantes arrastando-se pelo lugar, em condições desumanas de doença e desnutrição.
Hoje, depois de mais de sessenta anos após o final da guerra que acreditava-se ter sido a “guerra para acabar com todas as guerras”, não tivemos um só ano em que não houvesse algum país em guerra no planeta. Já presenciamos outros genocídios, ataques a civis, massacres, ditaduras sangrentas, crueldade sem limites.
Durante uma guerra os valores são invertidos; soldados são recompensados por matar o “inimigo”, enquanto os mesmos atos seriam condenáveis em uma situação normal. Pessoas pacíficas revelam seu egoísmo e crueldade quando em situações extremas; outras podem revelar abnegação e heroísmo dos quais nem suspeitavam.
Da mesma forma, indivíduos com tendências sádicas e sérias perversões morais, se estiverem em um contexto de guerra e em posição de comando, podem ser os responsáveis por verdadeiros genocídios como os que ocorreram nos campos de concentração. A morte tornou-se banalizada; as vidas humanas não valem nada. Sob a desculpa de experimentos científicos, verdadeiras atrocidades são cometidas. É o inferno na terra.
“— Por quê? Por que Kelno moveu esta ação? Claro, eu sei que ele tem que ser o peixe maior do aquário. Ele se sente inferior, então tem que procurar lugares onde seja superior aos outros. Em Sarawak, em Jadwiga, na clínica de operários em Londres.
— Kelno? É uma figura trágica — disse Bannister. — Ele tem uma paranóia qualquer, isto é óbvio. Sendo assim, ele não pode ter nenhum tipo de introspecção. Acho que ele não diferencia o certo do errado.
— E o que fez com que ele ficasse assim?
— Talvez alguma crueldade sofrida enquanto era criança. A Polônia tornou-o anti-semita. Era uma válvula para sua doença. Sabe, Cady, os cirurgiões são uma estranha fauna. Às vezes parece-me que se alimentam de sangue. Enquanto Adam Kelno se encontrou em um país civilizado, a cirurgia satisfazia as suas necessidades. Mas quando se pega um homem assim para colocá-lo em um lugar onde toda a ordem social foi abolida, ele se transforma em um monstro. E então, quando voltou para a sociedade civilizada, e retomou sua posição de cirurgião correto, esqueceu o que ficou para trás, sem ter consciência de culpa.
— Depois de tudo o que ouvi naquele tribunal — disse Abe —, depois de compreender o que as pessoas podem ser obrigadas a fazer, e depois de ver que o holocausto continua sempre e sempre, sinto que estamos destruindo nosso mundo e que não poderemos mais nos salvar. Nós poluímos nosso planeta e todas as criaturas que vivem nele. Juro por Deus, nós estamos nos destruindo uns aos outros. Acho que nós já passamos dos limites de tempo e de espaço e que agora não é mais uma questão de “se” mas de “quando” tudo vai acabar. E, do modo como estamos nos comportando, acho que Deus deve andar muito impaciente.
— Oh, Deus tem bastante paciência — disse Thomas Bannister. — Nós, mortais, somos tão pomposos que vivemos imaginando que em toda a eternidade, e em todo o universo imenso, nós somos os únicos que sofremos a experiência humana. Eu sempre acreditei que tudo isso já aconteceu antes, aqui mesmo nesta terra.
— Aqui?… Como?
— Bem, na mente de Deus, o que representará um bilhão de anos a mais ou a menos? Talvez já tenha havido outras civilizações há milhões e milhões de anos, das quais não se saiba nada. E, depois que esta civilização na qual estamos vivendo se destruir, tudo vai recomeçar, daqui a uns cem milhões de anos, depois que o mundo tiver se recomposto. Então, pode ser que uma dessas civilizações, digamos, daqui a uns cinqüenta bilhões de anos, dure para toda a eternidade, porque os homens aprenderam a tratar bem uns aos outros.”
A Minissérie
QB VII foi transformado em uma minissérie de TV em 1974. Estrelada por Anthony Hopkins (Adam Kelno) e Ben Gazzara (Abe Cady), esta foi a primeira produção de TV no formato de minissérie, que inaugurou uma década de excelentes produções como Raízes, Holocausto, Jesus de Nazaré, Pássaros Feridos e diversas histórias de Sidney Sheldon.
Apesar de ser visualmente datada, com o estilo de produção e fotografia típicos da época, a história envolvente e as excelentes interpretações fazem a minissérie valer a pena. Anthony Hopkins rouba a cena como Kelno; ele consegue transmitir a confiança e simpatia do médico prisioneiro de guerra que se dedica ao bem estar dos pacientes, e começamos a torcer por ele durante o julgamento. Contudo, após a reviravolta final, vemos os melhores momentos de Hopkins, durante seu segundo testemunho. Seu embaraço e nervosismo nos fazem duvidar do que acreditamos até agora, e queremos que tudo aquilo não seja verdade.
Ben Gazzara interpreta Abe no padrão da TV americana; o herói galã mulherengo que se redime escrevendo um bom livro e abraçando sua origem judaica. As cenas de amor entre Gazzara e Juliet Mills (Samantha) e mais tarde com Lee Remick (Margaret), com violinos ao fundo, seriam um bom momento para ir tomar um cafezinho, a não ser que não queiramos perder o andamento da trama.
Houve algumas modificações na adaptação da história para a TV; os rios de Sarawak transformaram-se no deserto do Kuwait; as personagens Laura Margarita Alba e Lady Sarah Wydman foram unidas em Lady Margaret Weidman, interpretada por Lee Remick. Terrence Campbell não existe no filme, e em seu lugar está Stephan, o filho de Kelno. Mas são apenas detalhes que não prejudicam o ritmo da história.
Apesar da história ser ficção e de não ter existido um campo de concentração chamado Jadwiga (ao que eu saiba), horrores semelhantes aos descritos no livro e minissérie aconteceram realmente, apesar de algumas pessoas ainda hoje não acreditarem que o Holocausto tenha acontecido.
Leon Uris escreveu o livro baseado em um episódio verdadeiro: após o lançamento de seu livro Exodus, o médico polonês Dr. Wladislaw Dering, que havia trabalhado em Auschwitz, o processou por calúnia no livro. O caso foi levado a julgamento e o médico ganhou a causa e a indenização de meio penny (e os custos de 20 mil libras pelo processo).
Em resumo, o livro e a série são excelentes; mesmo tendo lido e visto muitas obras sobre o Holocausto, ao reler o livro depois de algumas décadas, o choque de ler as descrições das atrocidades e de imaginá-las reais ainda é o mesmo.
Em uma guerra todos são perdedores; embora imaginemos que podemos resistir à pressão e à crueldade como as que ocorreram nos campos de concentração, é impossível saber ao certo quem poderia resistir e quem sucumbiria ao lado negro que todos nós trazemos no íntimo. Rezemos para que nunca tenhamos que descobrir isso na prática.
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