Publicado em Abril - 16 - 2013

O Exótico Hotel Marigold

Fiquei sabendo desse filme delicioso pela Sandra Duarte, do blog Indiagestão. A Sandra é uma brasileira que mora na Índia há mais de uma década, e além de contar como é na verdade a vida por lá, sempre dá indicações de filmes e documentários sobre o país. Bom, este filme não é um documentário, mas uma história de ficção muito gostosa e bem contada, com um elenco sensacional.

Sete pessoas de meia idade encontram-se a caminho do Hotel Marigold, em Jaipur, onde pretendem curtir sua aposentadoria. Todos viram na Internet o anúncio do hotel e, cada um por um motivo diferente, decidem deixar a Inglaterra e buscar algo novo em suas vidas.

Evelyn (Judi Dench) acabou de perder o marido; ela nunca tomou decisões ou fez alguma coisa por si mesma, e resolve que chegou a hora. O casal Douglas e Jean (Bill Nighy e Penelope Wilton) perdeu o fundo da aposentadoria em um investimento familiar e o pouco que restou dá para uma temporada no hotel. O advogado Graham (Tom Wilkinson) quer voltar à Índia para reencontrar um amor da juventude. Madge (Celia Imrie) e Norman (Ronald Pickup) estão em busca de romance e um novo casamento, e Muriel (Maggie Smith) precisa fazer uma cirurgia a preços mais baixos do que na Inglaterra, e está sem perspectivas na vida depois de ter sido despedida do emprego de governanta onde trabalhou a vida toda.

Como seria de esperar, a Índia é um choque cultural enorme, e cada um reage à sua maneira. Evelyn começa um blog, decide explorar a cidade e arruma um emprego. Através das observações dela no blog, podemos acompanhar as mudanças que acontecem a cada um deles.

“A princípio você fica atônito. Mas aos poucos, vai percebendo que é como uma onda. Resista, e você será derrubado. Mergulhe nela, e conseguirá nadar até o outro lado.”

“Não há passado que possamos trazer de volta por meio das saudades. Apenas o presente que constrói e cria a si mesmo enquanto o passado se afasta.” (Evelyn)

O hotel é administrado pelo jovem Sonny (Dev Patel, de Quem quer ser um milionário?), que é cheio de sonhos, fala pelos cotovelos mas não é nem um pouco prático. Sonny é apaixonado pela jovem Sunaina, mas a mãe dele não aceita nem o amor nem os sonhos do filho. Durante o filme todos os personagens passarão por algum tipo de mudança, compreensão, aceitação ou decisão. Além da história ser interessante, o elenco contribui muito para criar esta história deliciosa e divertida, com momentos comoventes.

“Você consegue se ouvir? Consegue? Você tem alguma ideia da pessoa terrível na qual se transformou? Tudo o que você demonstra é uma negatividade sem fim, a recusa em perceber qualquer tipo de luz e alegria, mesmo quando está bem na sua frente, e uma necessidade desesperada de esmagar qualquer tipo de felicidade em mim ou… ou… ou… em qualquer outra pessoa. Me admira que eu não tenha me inclinado para a primeira palavra ou gesto de gentileza que encontrasse, mas eu não o fiz, por… por causa de algum tipo de lealdade e respeito ressecados, nenhum dos quais eu nunca recebi de volta.” (Douglas)

Claro que o filme mostra o lado pitoresco e colorido da Índia, e ignora a miséria absurda, a violência e outros problemas que o país enfrenta (e que o blog da Sandra conta detalhadamente). As histórias dos personagens são interessantes, mas pouco aprofundadas, o que é uma pena. Mesmo assim, é um filme leve e gostoso, e eu recomendo.

“Tudo vai dar certo no fim. Se não deu certo, é porque ainda não é o fim.” (Sonny)

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Ficha:

O exótico Hotel Marigold (The Best Exotic Marigold Hotel) - 2011
Direção: John Madden
Roteiro: Ol Parker, baseado em livro de Deborah Moggach
Elenco: Maggie Smith, Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Dev Patel

Para saber mais:

- Página do filme no IMDb
- Crítica no Cinema em Cena
- Crítica no Adoro Cinema
- Compre o DVD ou o  Blu-ray na Livraria Cultura
- Blog Indiagestão, da Sandra Duarte

Trailer: O Exótico Hotel Marigold (legendado)

Publicado em Janeiro - 14 - 2013

A Garota

Já sabemos que é comum um filme sobre um determinado assunto ser lançado por um estúdio ou produtora, e logo em seguida, ou com intervalo muito curto, vermos outro filme bem parecido. Isso aconteceu com Vida de Inseto/FormiguinhaZ, Armageddon/Impacto Profundo, Capote/Confidencial e muitos outros.

Portanto, não deve ser coincidência que A Garota tenha surgido pouco antes do lançamento de Hitchcock, que estreia nos cinemas brasileiros em 08 de fevereiro.  O primeiro é uma produção da BBC e HBO, e estreou nos EUA em outubro, na BBC em 26 de dezembro, e no último sábado na HBO brasileira.

Mas apesar de os dois filmes contarem histórias sobre Alfred Hitchcock, não são iguais. Hitchcock fala sobre a produção de Psicose e se concentra mais no relacionamento do diretor e sua esposa Alma, enquanto A Garota fala sobre o relacionamento de Hitch com Tippi Hedren, uma modelo que ele lançou ao estrelato com seus filmes Os Pássaros e Marnie, e cuja carreira destruiu mais tarde.

O roteiro do filme foi baseado na biografia do diretor escrita por Donald Spoto, e acompanhado pela própria Tippi, portanto é a versão dela dos fatos. Como Hitchcock não pode mais contar a versão dele,  só restam as diversas biografias e os depoimentos de pessoas que o conheceram e trabalharam com ele. É conhecido o fato que ele escolhia as atrizes louras que protagonizavam seus filmes, e que ele exercia total controle artístico sobre seus filmes… e em boa parte, sobre seus atores. Mas “A Garota” mostra detalhadamente até que ponto a obsessão de Alfred por Tippi chegou a um assédio sexual e moral, e uma tortura psicológica.

O controle sobre ela começou já no teste de câmera, em que Hitchcock pediu que ela beijasse um ator, sem propósito algum. Além de ditar a cor do batom que ela deveria usar, exigir sua presença todas as noites para um drinque depois do trabalho (quando Tippi queria estar com a filha Melanie antes que ela dormisse), recusar que ela tivesse dias de folga, ele fazia piadinhas obscenas o tempo todo em público e, quando tentou beijá-la e foi repelido, tornou a vida dela no estúdio um inferno. O “ponto alto” foi a gravação da cena em que Marion entra no sótão e é atacada pelos pássaros. A gravação que deveria durar um dia e usar pássaros mecânicos, durou cinco dias e Tippi foi atacada repetidamente por aves de verdade.

Apesar da tortura psicológica, ele acenou com a promessa de um segundo filme, Marnie (além do contrato de sete anos que ela havia assinado). O assédio continuou durante as filmagens. Ele insistiu na cena do estupro, mesmo que o roteirista tenha sido contra, e Hedren interpretou a frigidez e distância da personagem talvez com seus próprios sentimentos de repulsa.

Mas Tippi Hedren não era uma mulher fraca, e conseguiu manter sua integridade emocional e profissionalismo durante todo esse tempo. Quando Hitchcock afirma que ela deveria estar “sexualmente disponível para ele a qualquer hora”, ela pede demissão. O filme termina com o sorriso de alívio dela após a gravação da última cena de Marnie, mas o calvário de Tippi ainda durou mais dois anos, em que ela recebeu 600 dólares por semana para fazer nada e não pôde aceitar propostas de outros filmes. Isso acabou prejudicando a carreira dela, que apesar de estar ativa até hoje, não se tornou a estrela que poderia ter sido. Ou não.

Antes das filmagens, Tippi quis conhecer Sienna Miller e pediu que ela a interpretasse como a mulher forte que era: “Não se esqueça de me fazer parecer forte neste filme, pois de outra forma não seria a verdade”. E Sienna o fez.

O elenco está impecável; Sienna Miller, além de ter ficado muito parecida com Tippi, transmite a beleza fria e distante que a câmera de Hitchcock capturou, e a tenacidade da mulher ante o assédio contínuo do chefe.  Imelda Staunton interpreta Alma Neville com discrição, mas podemos sentir a mágoa dela pelo comportamento do marido, e o roteiro sugere que esses comportamentos eram frequentes, tanto que ela já havia abandonado a casa antes, mas ele nunca havia tido uma obsessão tão forte por alguma de suas “louras”.

E a cereja do bolo é a interpretação de Toby Jones no papel de Hitchcock. Fisicamente idêntico, com o sotaque e a entonação corretas, Toby está perfeito como Hitchcock. Mesmo que ao final do filme estejamos loucos de raiva daquele “velho safado”, não podemos negar que ele era um mestre de seu ofício, e Toby Jones nos mostra um personagem complexo e fascinante. Vamos ver se Anthony Hopkins fará melhor.

Dica: recomendo também a atuação de Toby Jones como Truman Capote (contracenando com Daniel Craig), no filme Confidencial. J

Apesar da ligeira tendenciosidade do roteiro, o filme é interessante e consegue prender a atenção, e não chega a arranhar a reputação indiscutível de Hitchcock como diretor, cineasta e mestre do suspense. Recomendo. Veja os horários de exibição durante o mês de janeiro/13 nos canais HBO.

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Ficha:

A Garota (The Girl), 2012
Direção: Julian Jarrold
Roteiro: Gwyneth Hughes, com base no livro de Donald Spoto
Elenco: Toby Jones, Sienna Miller, Imelda Staunton

Para saber mais:

- Página do filme no IMDb

- Tippi Hedren and Alfred Hitchcock - The New Yorker

- When Sienna Miler Met Tippi Hedren - Guardian

- Tippi Hedren interview: ‘Hitchcock put me in a mental prison’ - Telegraph

- Do Hitchcock and The Girl reveal the horrible truth about Hitch? - Guardian

Trailer: The Girl

Publicado em Dezembro - 20 - 2012

Seleção de filmes sobre o fim do mundo

Apesar das previsões, expectativas, brincadeiras e até dos que levam a sério tudo isso, não acredito que o mundo vá acabar amanhã. Mas Hollywood vem aproveitando esse tema há algum tempo, e aqui está uma seleção de filmes que falam sobre o fim do mundo. Tentei não incluir histórias pós-apocalípticas (a lista seria enorme, apesar de ter muita coisa boa), mas só aquelas em que o mundo, ou nós, saímos de cena. Tem alguns spoilers nos comentários, mas o maior deles é: o mundo acaba no final! (ou não) ;-)

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A Máquina do Tempo

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Ok, esta é uma história sobre viagens no tempo, mas no livro de H. G. Wells, depois de escapar dos Morlocks o viajante avança 30 milhões de anos no futuro e vê a expansão do sol, que acabaria com toda a vida na terra. Em segurança na sua máquina, ele volta para o passado e tenta consertar as coisas, pelo menos para os Eloi e para si mesmo.
Entretanto, nenhuma das duas versões para o cinema mostra esta parte do fim do mundo. Recomendo ambas, mas especialmente a versão de 1960, com Rod Taylor. J

- página dos filmes de 1960 e 2002 no IMDb

- compre o livro na Livraria Cultura

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De Volta ao Planeta dos Macacos (1970)

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No segundo filme da série, os astronautas Brent e Taylor conhecem os humanos que viviam no subsolo (na verdade, em uma estação de metrô) e veneravam o deus-bomba. Sim, uma bomba atômica de verdade. Depois de uma série de eventos infelizes, Taylor detona o “deus” deles e este é o fim de tudo na Terra. Menos para os macacos Zira, Cornelius e Milo, que conseguiram voltar para o passado e garantir pelo menos mais três filmes da série.

- página do filme no IMDb

- Compre o DVD na Livraria Cultura

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Eu sou a Lenda (2007)

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O que deveria ser a cura do câncer transforma toda a humanidade em zumbis, exceto Will Smith. Ele passa o filme todo se escondendo e se defendendo dos vizinhos, até que descobre que não é o único imune e que pode ser a última esperança da terra… opa, essa foi a outra versão do romance de Richard Matheson.

- página do filme no IMDb

- Eu sou a Lenda - artigo sobre o livro e filme no Rato

- Compre o DVD na Livraria Cultura

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Dr Fantástico (1964)

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Esta comédia de humor negro de Stanley Kubrick brinca com a ideia da guerra nuclear… até que a bomba atômica é disparada e “cavalgada” pelo histérico Major Kong. Uma ótima crítica à Guerra Fria e à loucura da guerra em geral.

- página do filme no IMDb

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Wall-E (2008)

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A Terra deixou de ser um local habitável, depois que a humanidade a encheu de lixo. O último a partir apagou a luz do aeroporto e deixou aqui o robôzinho Wall-E e sua amiga baratinha. O que se segue é uma história deliciosa de amor, amizade e esperança, depois que Wall-E descobre que a vida ainda é possível no nosso planetinha abusado. Recomendadíssimo!

- página do filme no IMDb

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O Dia depois de Amanhã (2004)

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Mais que um filme de ação apocalíptico, este é um bom drama com temas ambientais e humanos e efeitos especiais bem utilizados. Recomendo. Já falei sobre ele, para saber mais leia também o artigo sobre o filme.

- pagina do filme no IMDb

- Mudanças climáticas e O Dia depois de Amanhã - resenha do filme no Rato

- Compre o DVD na Livraria Cultura

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2012 (2009)

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Roland Emmerich se empolgou e fez a maior viajada na maionese dos últimos tempos: o típico drama de ação de Hollywood com a família que tenta se reunir novamente em meio a catástrofes naturais nunca foi tão exagerada. Muitos, muitos efeitos especiais, todos os clichês do gênero e o final feliz para os poucos escolhidos (ou sortudos, ou abastados, etc.).

- página do filme no IMDb

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Presságio (2009)

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No mesmo ano em que foi lançado 2012, aqui está um filme mais comedido e também mais eficiente e interessante. O que começa como um filme de suspense paranormal vai aos poucos se transformando em um drama apocalíptico dos bons, com direito a profecias mais precisas que a dos maias. Felizmente, é só um filme. Recomendado.

- página do filme no IMDb

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Melancolia (2011)

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Agora a coisa é séria: o planeta Melancolia está se aproximando e em rota de colisão com a Terra. Depois que todos tem certeza de que o fim está próximo, cada um reage de uma forma, e acompanhamos várias pessoas de uma mesma família à espera do fim. A cena final é impactante (literalmente).

- página do filme no IMDb

- Compre o DVD na Livraria Cultura

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Leia também:

- Do começo ao fim - artigo de Douglas Olive no Diário Cinéfilo

- Eu e o cinema adoramos acabar com o mundo - veja a seleção da Lola (Escreva Lola Escreva)

- Top 10: Melhores músicas para o fim do mundo - seleção do Anderson (Rosebud é o Trenó)

- O fim do mundo em 10 livros - lista da Cristina (Livros só mudam pessoas)

- Se o mundo acabar, sobrarão as baratas… e a Estátua da Liberdade. (9Gag)

Como o mundo não acaba em 21/12/2012, apesar da torcida, amanhã no sábado estamos de volta com a Semana do Rato! :-)

Publicado em Novembro - 07 - 2012

Círculo do Medo / Cabo do Medo

Depois de passar os últimos 8 anos preso, Max Cady recebe a condicional e parte para a cidadezinha onde mora o advogado que o defendeu. Ele acredita que Sam Bowden deliberadamente perdeu o caso e, durante seus anos na prisão, aprendeu a ler e estudou Direito sozinho. Agora ele quer vingança.

Max Cady é imprevisível; não se sabe ao certo quais são suas intenções, mas certamente ele pretende que sua vingança seja a mais lenta e dolorosa possível.

Sam Bowden tenta proteger sua família por todos os meios; a princípio ele usa os recursos de que dispõe dentro da lei, mas não sabe que Cady passou 8 anos estudando as leis e as brechas por onde poderia escapar e não faz nada que possa arriscar sua liberdade. Ele brinca com os Bowden como um gato brincando com sua presa antes de devorá-la.

Quando Sam percebe que qualquer tentativa legal seria inútil, avisa a polícia que pretende criar uma armadilha para pegar Max, antes que tenham de limpar  o sangue das mãos. E a partir daí o clima de tensão só aumenta, enquanto caçador e caça vão ficando cada vez mais próximos até o confronto final. Mesmo assim, Sam Bowden não abre mão de seus valores e princípios. Bem apropriado para um filme de 1962.

Robert Mitchum interpreta Max Cady “uma oitava abaixo” da interpretação de De Niro, e seu personagem, que a princípio parecia um cara normal, vai ficando cada vez mais assustador conforme percebemos a psicopatia latente e sua vingança metódica. Sua loucura sutil causa um verdadeiro pavor no espectador conforme o filme avança.

O Cady de Robert De Niro é mais exagerado, desde as tatuagens até o comportamento, tudo nele é desagradável e repulsivo. Ele é um fanático que tem uma missão, e sabe exatamente o que quer fazer, e não é nada bom. O sotaque pesado sulista também ajuda a manter a sensação de insolência e repulsa, e o resultado é um dos personagens mais violentos e desagradáveis do cinema.

O que há de sutileza no primeiro filme existe em violência explícita no filme de Scorcese. São outros tempos, outra cultura, mas nos dois casos temos uma história tensa e um suspense muito bem contado. O Sam da década de 90 não tem tantos escrúpulos quanto seu equivalente da versão original, e não hesita em responder à violência com violência (nem sua família, por sinal).

No filme de Thompson, Cady chega para perturbar uma família feliz e unida, sem problemas de relacionamento. Por outro lado, os Bowden de 1991 já passaram por problemas de infidelidade e alcoolismo, e estão tentando começar de novo. Isso reflete na filha, que é uma adolescente rebelde e presa fácil para o encanto sedutor de Cady.

Uma curiosidade: a cena em que Cady e Danielle conversam no teatro da escola foi totalmente improvisada pelos dois atores, e a primeira tomada foi a utilizada no filme. A cena originalmente seria uma perseguição, mas Scorcese mudou a direção para uma cena de sedução.

A música de Bernard Herrmann (que compôs a maioria das trilhas dos filmes de Hitchcock) aumenta o clima de suspense, e dá a ênfase necessária aos momentos de tensão. Herrmann não foi contratado por acaso: o diretor Thompson era fã de Alfred Hitchcock e quis fazer o filme em preto e branco, com iluminação, close-ups e a sutileza dos filmes do diretor inglês.

Quando fez a refilmagem, Scorcese também quis homenagear Hitchcock, e além de usar a mesma trilha sonora composta por Herrmann, convidou Saul Bass para criar a abertura do filme e usou planos e ângulos que nos fazem lembrar os filmes do mestre do suspense.

Além da homenagem a Hitchcock, Scorcese convidou os dois atores principais do filme original: Robert Mitchum interpreta o tenente Elgart, e Gregory Peck faz o advogado Lee Heller, que defende Cady. Uma curiosa ironia… ;-)

O roteiro da refilmagem também alterou alguns detalhes, como o tempo que Cady passou na prisão (agora são 14 anos),  a tentativa de sedução de Danielle por Cady e a reação da garota, bem diferente do medo puro e infantil da Nancy de 1962; e por fim, o desfecho da trama.

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O site Complex compilou uma lista com 50 filmes que são melhores que os livros que os inspiraram. Na posição nº 30 está a versão de 1962 de Cabo do Medo. E eu nem sabia que a história era baseada em um livro… neste caso, é Cabo do Medo (The Executioners), de John D. MacDonald (1957). Cady também está no número 28 da lista da AFI dos 50 maiores vilões de filmes de todos os tempos.

Apesar de hoje ser um clássico, o filme de 1962 foi um fracasso comercial e levou ao fechamento da produtora de Gregory Peck, a Melville Productions. Já o filme de 1991  custou 35 milhões e faturou 182 milhões de dólares no mundo todo.

A pergunta inevitável quando se fala de uma refilmagem é: qual dos filmes é melhor? Mas neste caso, apesar das semelhanças no roteiro, são dois filmes bem diferentes, e ambos ótimos. Recomendo!

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Ficha:

- Círculo do Medo (1962)

Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Robert Mitchum, Gregory Peck, Polly Bergen, Lori Martin, Martin Balsam, Telly Savalas

- Cabo do Medo (1991)

Direção: Martin Scorcese
Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam

- Compre o DVD com os dois filmes na Livraria Cultura (exclusivo)

Publicado em Agosto - 15 - 2012

As melhores músicas do final de filmes

O site Topito publicou no último domingo uma lista com as melhores músicas de final de filmes: são músicas que tocam na cena final ou nos créditos do filme. Tem tanta coisa boa ali que resolvi trazer a lista para cá. Veja aqui o artigo original (em francês).

Lista de reprodução - 30 vídeos, alguns deles estão aí embaixo acompanhando a lista (fonte: Topito):

1 - Always Look on The Bright Side of Life - Eric Idle
do filme A Vida de Brian (Terry Jones, 1979). Puro humor inglês até o fim!

2 - Wake Up - Rage Against the Machine
do filme Matrix (Irmãos Wachowski, 1999). Perfeito para o clima do filme e para encerrar mantendo a emoção.

3 - Where is My Mind - The Pixies
o final alucinante de Clube da Luta (David Fincher, 1999). Uau!

4 - Born Slippy - Underworld
do filme Trainspotting (Danny Boyle, 1996)

5 - Mad World (Gary Jules)
final melancólico e emocionante de Donnie Darko (Richard Kelly, 2001)

6 - I Believe (When I Fall in Love it will be Forever) - Stevie Wonder
bem adequado para o final de Alta Fidelidade (Stephen Frears, 2000)

7 - Paint it Black - Rolling Stones
final de Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987) e também de O Advogado do Diabo (Taylor Hackford, 1997)

8- Just Like Honey - The Jesus and Mary Chain
final de Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2004)

9 - (Don’t You) Forget About Me - Simple Minds
composta meio ‘no improviso’ para o final de Clube dos Cinco (John Hughes, 1985)

10 - The Wrestler - Bruce Springsteen
bela música com letra triste para o final do filme O Lutador (Darren Aronofsky, 2009)

11- Analyse - Thom Yorke
música intrigante para depois do choque da revelação final de O Grande Truque (Christopher Nolan, 2006)

12 - Gran Torino - Jamie Cullum/Clint Eastwood
Belíssima música composta por Eastwood, que também dirigiu e estrelou o filme Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

13 - Miss Misery - Elliott Smith
Do filme Gênio Indomável (Gus Van Sant, 1997)

14 - Everybody’s Gotta Learn Sometimes - Beck
Do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Michael Gondry, 2004)

15 - Stop Crying Your Heart Out - Oasis
Perfeita para o final melancólico do filme O Efeito Borboleta (Eric Bress, 2004)

16 - Bittersweet Symphony - The Verve
Do filme Segundas Intenções (Roger Kumble, 1999)

17 - You’re My Best Friend - Queen
Queen é sempre ótimo! Do filme Todo Mundo Quase Morto (Edgar Wright, 2004)

18 - Ooh La La - Faces
do filme Três é Demais (Wes Anderson, 1998)

19 - Extreme Ways - Moby
Ótima música do filme  A Identidade Bourne (Doug Liman, 2002)

20- Adagio for Strings (Samuel Barber)
Belíssima música clássica para acompanhar o monólogo de Charlie Sheen e os créditos de Platoon (Oliver Stone, 1986)

21 - Flashdance (What a Feeling) - Irene Cara
deliciosa música do filme Flashdance (Adrian Lyne, 1983)

22 - Iron Man - Black Sabbath
Impossível não vibrar junto! Do filme O Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008)

23 - Ghostbusters - Ray Parker’s Jr
Who are you gonna call? do filme Os Caça-Fantasmas (Ivan Reitman, 1984)

24 - Elephant Woman - Blonde Redhead
do filme Menina Má.Com (David Slade, 2006)

25 - Money is - Quincy Jones
Do filme Ladrão que Rouba Ladrão (Richard Brooks, 1971)

26 - The Sounds of Silence - Simon & Garfunkel
Um clássico! Final do filme A Primeira Noite de um Homem (Mike Nichols, 1967)

27 - Happy Heart - Andy Williams
Do filme Cova Rasa (Danny Boyle, 1994)

28 - La Bàs - Noir Désir
do filme Bernie (Albert Dupontel - 1996)

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Bom, essa foi a lista do Topito. Vou incluir, por minha conta:

- Sympathy for the Devil - Rolling Stones
final perfeito para o filme Possuídos (Gregory Hoblit, 1998)

- Into the West - Annie Lennox
Música e letra belíssimas, nos créditos de O Retorno do Rei (Peter Jackson, 2003)

- Uninvited - Alanis Morisette
também nos créditos de Cidade dos Anjos (Brad Silberling, 1998)

- Happy Together (The Turtles)
Final delicinha para o filme Adaptação (Spike Jonze, 2002)

Que tal?

Publicado em Junho - 27 - 2012

Os Miseráveis

Recentemente foi divulgado o trailer oficial de Os Miseráveis, filme dirigido por Tom Hooper e que será lançado em dezembro de 2012 nos EUA, e em março de 2013 no Brasil. Anne Hathaway (Fantine) canta I Dreamed a Dream no trailer, com muita competência. No elenco também estão Hugh Jackman (Valjean), Russel Crowe (Javert), Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Sacha Baron-Cohen e Helena Bonham-Carter.

Uma rápida pesquisa no IMDb mostra que já foram feitas 51 adaptações para cinema e TV da obra de Victor Hugo, sem contar as inúmeras adaptações para o teatro.

O filme de 2012 é a primeira adaptação da versão musical da Broadway para o cinema, e terá as músicas  compostas por Claude-Michel Schönberg. Entre elas, I Dreamed a Dream, On My Own, At the End of the Day (de um total de 49 músicas!). O musical estreou em Paris em 1980, em Londres em 1985, e na Broadway em 1987, tendo ficado em cartaz até 2003. O musical voltou aos palcos nas comemorações de aniversário de 10 e 25 anos, e também já foi apresentado no Brasil.

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Entre as adaptações legais para o cinema temos a de 1998, com direção de Bille August e com Liam Neeson (Valjean), Geoffrey Rush (Javert), Uma Thurman (Fantine) e Claire Danes (Cosette). Um filme bem feito e com boas interpretações.

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Mas na minha opinião, a melhor adaptação foi a de 2000, feita pela TV francesa. A produção é falada em francês, dirigida por Josée Dayan e conta com um elenco de peso: Gérard Depardieu (Valjean), John Malkovich (Javert), Charlotte Gainsbourg (Fantine), o excelente Christian Clavier (Thénardier) e a veterana Jeanne Moreau como Mére Innocent.

Com 6 horas de duração, a minisérie é a mais fiel ao texto de Hugo e cobre todos os arcos da história. Ela foi exibida na TV a cabo e na Band, e lançada em DVD pela Versátil, com a duração completa da série.

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- Compre o DVD na Livraria Cultura (2 DVDs, 360 minutos, com legendas em português)

- Veja no YouTube (em 16 partes, com legendas em inglês - link para a parte 1)

E a história?

Para quem ainda não conhece, Os Miseráveis conta a história de Jean Valjean, que foi preso por roubar um pão. Depois que sai da prisão em condicional, ele torna-se um próspero comerciante, e prefeito. Ele ajuda Fantine, uma funcionária de sua fábrica, mas é tarde para ela. A moça morre tuberculosa e Valjean promete cuidar da filha dela, Cosette, como se fosse sua.

O inspetor Javert está convencido que “pau que nasce torto, morre torto”, e que Valjean provavelmente ainda é um ladrão e deve ser preso. Pelo resto do livro o inspetor persegue Jean Valjean. Cosette se apaixona por um jovem estudante, Marius, que está envolvido com os protestos revolucionários de 1832. Com romance, suspense, perseguição, história, revolução e redenção, esta é uma história envolvente e interessante, que levanta questões sobre a honestidade, princípios, moral e justiça.

Na verdade, li apenas uma versão resumida, daquelas coleções escolares com os clássicos, mas um dia ainda vou ler a história integral. Está na minha listinha. ;-)

Para saber mais:

- Les Misérables (musical) na Wikipedia (inglês)

- Les Misérables (livro) na Wikipedia (em inglês e português)

- Ótima resenha da parte 1 do romance (de Fanny Ladeira)

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