Publicado em Agosto - 25 - 2011

As duas vidas de Audrey Rose


Janice, Bill e Ivy Templeton eram uma família feliz, até que um estranho aparece em suas vidas com uma história inacreditável: a menina Ivy seria a reencarnação de Audrey Rose, a filha que Elliot Hoover havia perdido em um acidente há onze anos.

Vi este filme há muitos anos e depois li o livro; aliás, várias vezes. Além de ser um suspense envolvente, o tema da reencarnação me interessou muito. No Brasil essa ideia é bem aceita e para muitas pessoas, uma verdade indiscutível. Mas na década de 1970, nos Estados Unidos, não era assim.

Frank De Felitta publicou seu livro em 1975, e dois anos depois escreveu o roteiro para o filme baseado em sua história. Como o filme foi lançado algum tempo depois de O Exorcista, O bebê de Rosemary e A Profecia, não fez tanto sucesso, talvez porque as pessoas esperassem outro filme de terror sobrenatural.

Mas esta história não tem a ver com demônios ou possessão. Elliot Hoover era um cidadão comum, um engenheiro e executivo bem-sucedido com uma boa vida familiar. Mas em 1964 sua vida mudou quando a mulher e a filha morreram em um acidente de carro. A menina ficou presa enquanto o carro queimava, e suportou alguns minutos de puro terror antes do fim.

Dez anos mais tarde, ao buscar a filha na escola, Janice Templeton percebe que um estranho as estava seguindo. Alguns dias mais tarde, o homem se apresenta e pede para conversar com o casal. Ele diz que acredita que Ivy seja a reencarnação de sua filha Audrey Rose, e que ele não deseja nada além de acompanhar o crescimento dela e ajudar, se preciso. Como era de se esperar, os pais não acreditam.

Mas a menina tem pesadelos cada vez piores, queima as mãos no vidro frio da janela e o único que consegue acalmá-la é Hoover.

“-Compreende agora, Mrs. Templeton? É o brado de uma alma atormentada! A senhora suporta escutá-lo? Eu não!

-Então saia de nossas vidas! - bradou Janice - Isso só acontece quando você está por perto. Ivy esteve muito bem e muito saudável durante todos estes anos.

-Não, a senhora se engana! A saúde de sua filha é ilusória. Enquanto o corpo dela abrigar uma alma que não está preparada para aceitar as responsabilidades do carma da vida terrena, não pode haver saúde, nem para o corpo de Ivy, nem para a alma de Audrey Rose. Ambas estão em perigo!

Janice sacudiu a cabeça, como se desejasse livrar-se daquelas palavras.

-Não sei o que está dizendo…

-Estou dizendo que Audrey Rose voltou cedo demais.

Cedo demais? Oh, meu bom Deus, de que estará ele falando?

-Depois da Segunda Guerra Mundial, muitas crianças voltaram cedo demais. Vítimas de bombardeios e dos campos de concentração, atordoadas, confusas pela morte extemporânea, essas almas se apressaram a voltar para um útero, em vez de procurar o novo plano astral que lhes cabia.

Ele é maluco. Bill disse que ele era maluco. Bill tinha razão.

-E assim como elas, o mesmo aconteceu com Audrey Rose: fugiu de um horror e voltou para outro horror, em lugar de permanecer em um plano no qual poderia meditar e aprender a reconstruir a vida passada antes de procurar uma nova vida.

Hoover tinha os olhos marejados e sua voz estava embargada de emoção.

- Audrey Rose voltou cedo demais, Mrs. Templeton. E, por causa disso, Ivy corre grande perigo.”

Aos poucos Janice começa a acreditar que aquela história maluca possa ser verdade, especialmente ao ler os diários que ele lhe enviou, escritos durante os anos em que esteve na Índia. Quando Hoover leva a menina para seu apartamento, após um dos pesadelos, ele é preso e acusado de sequestro.

O caso vai a julgamento e quando Janice depõe a favor de Hoover, dizendo que acredita nele, Bill autoriza uma experiência de regressão induzida pelo hipnotismo para provar que ele está mentindo. A partir daí a tensão e o suspense aumentam, até o clímax terrível.

O livro traz ao final fac-símiles de documentos, recortes de jornal e cartas manuscritas para completar a história e dar a impressão de autenticidade. O artifício funciona bem, mas a história é fictícia. De Felitta disse que teve a ideia a partir de uma experiência de seu filho, que aos seis anos começou a tocar uma peça ao piano, instrumento que ele nunca havia estudado. Ele concluiu que isso só seria possível à luz da reencarnação, e começou a pesquisar para o livro.

Um ponto que sempre me incomodou foi que Ivy nasceu minutos depois da morte de Audrey Rose; segundo a teoria de Hoover, o espírito dela uniu-se ao corpo do bebê prestes a nascer. E que espírito habitava aquele corpo? Segundo ele, nenhum.

Não sabemos ao certo em que momento da gravidez a alma se une ao feto (segundo o Espiritismo, a união começa no momento da fecundação, mas só se completa no nascimento), mas não acredito que um bebê prestes a nascer não tenha uma alma. Quem já sentiu os movimentos do bebê na barriga da mãe não pode acreditar nisso. Também é pouco provável que a alma que habitasse aquele corpo tivesse se afastado para dar lugar à alma de Audrey Rose. Em todo caso, são detalhes usados pelo autor para corroborar sua teoria e dar verossimilhança à história. Basta darmos um desconto e apreciarmos a trama.

O filme de 1977 foi bem fiel à história, pois o roteirista foi o próprio Frank De Felitta. A parte do diário de Hoover foi deixada de fora, e apenas algumas imagens da Índia são mostradas durante o julgamento. Os pesadelos anteriores de Ivy e o relatório da psiquiatra também estão ausentes; Janice apenas menciona que Ivy teve pesadelos várias vezes, sempre perto do seu aniversário. No livro, os pesadelos estão associados à presença de Hoover, que esteve em Nova Iorque quando a menina tinha dois anos e meio, na época dos pesadelos.

Marsha Mason demonstra todas as nuances de sentimentos da mãe que passa da dúvida e incredulidade à aceitação tímida, depois à crença e a firme decisão de proteger sua filha a qualquer custo. A menina Susan Swift também está muito bem, e interpreta bem a transição dos pesadelos à vida atual, sem lembranças do que aconteceu. A sequência do hipnotismo também é muito boa. Pena que Anthony Hopkins tenha tido uma interpretação tão contida e distante; diferente da emoção intensa e contida que ele mostrou em Os Vestígios do Dia, por exemplo. Talvez o ator não acreditasse realmente nas verdades da personagem, quem sabe?

Mesmo assim o filme é bom, e um drama competente. O livro, como sempre, é mais detalhado, e uma narrativa envolvente. Recomendo ambos, mas entre os dois, prefiro o livro.

“Não há final. A alma nasce e morre. Tampouco, havendo existido uma vez nunca deixa de existir… Ela está além do tempo, do que aconteceu e do que há de vir”. (Bhavagad-Gita)

Ficha:

- As duas vidas de Audrey Rose
Frank De Felitta, 1974
1984, Abril Cultural

- As duas vidas de Audrey Rose  (Audrey Rose)
1977
Direção: Robert Wise
Roteiro: Frank De Felitta
Elenco: Marsha Mason, Anthony Hopkins, John Beck, Susan Swift
Ficha no IMDb

- Compre o livro na Estante Virtual

- Crítica do filme no 50 anos de filmes

- Análise do livro segundo a filosofia espírita (fonte: uema.com.br)

- Assista ao filme no YouTube (em 8 partes, em inglês, sem legendas)

- Seleção de filmes para o Halloween, no Rato

Parte 1:

Publicado em Março - 23 - 2011

Ensina-me a viver (Harold and Maude)



Harold (Bud Cort) é um jovem que adora simular suicídios para atormentar a mãe; Maude (Ruth Gordon) é uma mulher de 79 anos que, como Harold, frequenta enterros, mas é cheia de vida e ignora as regras e convenções da sociedade. Quando estas duas pessoas tão diferentes se conhecem, é o início de um relacionamento que mudará a vida de Harold, que vai literalmente aprender a viver.

Com os suicídios simulados, Harold tenta chamar a atenção da mãe, uma rica viúva cujas preocupações são os eventos sociais e “encaminhar” o filho na vida, seja para a carreira militar (como o tio) ou no casamento com uma das candidatas que lhe apresenta. A única vez que a mãe teve alguma reação foi quando pensou que ele havia morrido na explosão do laboratório de química da escola, e por isso Harold tenta despertar essa reação novamente, como uma criança que quer chamar atenção - qualquer tipo de atenção.

A condessa Mathilda (no livro, ou Marjorie, no filme) Chardin, ou simplesmente Maude, já teve sua cota de perdas e sofrimento. Em vez de lamentar o passado, Maude vive intensamente a cada dia e aprecia a natureza, as pessoas, as mudanças e transformações. Como dizia um sábio persa que ela cita, “isto também passará”; não adianta se apegar a situações, coisas ou momentos: tudo é transitório.

Com essa filosofia e alegria de viver, Maude mostra ao entediado Harold que a vida é um bem precioso, que cada pessoa é única e tem suas qualidades e defeitos, que as distinguem das demais. E mesmo assim, temos que crescer juntos. Construir pontes, e não muros.

“Então decidi”, ele afirmou solenemente, “que gostava de estar morto”.

Maude ficou quieta por um instante. Então falou calmamente.

“Sim, compreendo. Muitas pessoas gostam de estar mortas. Mas elas não estão mortas na verdade. Estão apenas fugindo da vida. Eles são jogadores, mas pensam que a vida é um treino e ficam se poupando para mais tarde. Então sentam no banco e o único campeonato que verão passa diante de seus olhos. O tempo está acabando, e eles podem entrar a qualquer momento”.

Maude pulou, gritando palavras de incentivo. “Vamos, rapazes! Vamos lá, arrisquem-se! Até se machuquem, quem sabe? Mas joguem o melhor que puderem”. Como se liderasse uma torcida no estádio lotado, ela gritou, “Vai time! Me dê um V. Me dê um I. Me dê um D. Me dê um A. V-I-D-A. VIDA!”

Ela sentou-se ao lado de Harold, muito elegante e séria. “Senão,” informou, “você não terá nada para comentar no vestiário”.

Maude me lembrou Rose, depois do Titanic. Ambas perderam tudo e tiveram de começar do zero (coincidentemente, na América). E as duas decidiram viver a vida plenamente, viver o máximo de experiências que pudessem, desfrutar o aqui e o agora. Outro ponto em comum é quando Maude joga ao mar o presente que recebeu de Harold, pois “agora eu sempre saberei onde ele está”. Parece familiar?

“Maude”, ele disse, “você está chorando”.

Maude segurou o passaporte. “Estava lembrando o quanto isto significava para mim”, disse lentamente. “Foi depois da guerra; eu não tinha nada - a não ser minha vida. Como eu era diferente naquela época; e ainda assim, como eu era a mesma pessoa.”

Harold estava perplexo. “Mas… você nunca chorou antes. Nunca pensei que você chorasse. Pensei que estivesse sempre alegre”.

“Oh, Harold”. Ela suspirou, puxando o cabelo. “Você é tão jovem. O que eles lhe ensinaram?” Ela enxugou as lágrimas que caíam pelo rosto. “Sim, eu choro. Choro por você. Choro por isto. Choro pela beleza, seja um pôr-do-sol ou uma gaivota. Choro quando um homem tortura seu irmão… quando ele se arrepende e implora pelo perdão… quando esse perdão é recusado… e quando é concedido. Alguém ri. Alguém chora. Duas características exclusivamente humanas. E a principal coisa na vida, meu querido Harold, é não ter medo de ser humano”.

Harold piscou para afastar as lágrimas nos olhos. Ele tinha um nó na garganta; então engoliu em seco. Afastando-se, tomou a mão dela nas suas. Então, tocando gentilmente sua face, enxugou as lágrimas dela.”

Esta comédia de humor negro de 1971 foi dirigida por Hal Ashby (Shampoo, Amargo regresso, Muito além do jardim) e escrita por Colin Higgins, que após o lançamento do filme transformou o roteiro em romance (disponível no Scribd, e uma leitura bem gostosa). Higgins dirigiu Golpe Sujo e Como eliminar seu chefe, e escreveu o roteiro destes dois filmes, além de Ensina-me a viver, A melhor casa suspeita do Texas e a minissérie Minhas Vidas, em parceria com Shirley MacLaine. A trilha sonora do filme tem músicas de Cat Stevens.

Mesmo que em geral a tradução dos títulos de filmes seja lamentável, desta vez acertaram: Ensina-me a viver é um bom título e dá a dimensão do que seja esta história. Comovente e divertida, nos faz pensar no que significa viver, e em como nossos problemas são insignificantes comparados ao grande cenário. Harold percebe isso quando nota a tatuagem no antebraço de Maude; quem tem aqueles números não despreza o privilégio de estar vivo.


Ensina-me a viver também foi levada aos palcos brasileiros por Glória Menezes e Arlindo Lopes, e deve ter sido uma experiência e tanto. Confira se a peça ainda está em cartaz em SP (previsto até 27/03/11 no Teatro das Artes) e não perca!

(tradução de trechos do livro - Cristine Martin)

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Trailer - Harold and Maude

Publicado em Dezembro - 02 - 2010

O Silêncio dos Inocentes

Uma estagiária do FBI deve conquistar a confiança de um psicopata para capturar um serial killer e salvar sua mais recente vítima antes que ela seja morta e esfolada. Esta história de suspense tornou famoso o psiquiatra e canibal Hannibal Lecter, um dos vilões mais assustadores da literatura e do cinema.

A história é baseada no livro O Silêncio dos Inocentes (1988), de Thomas Harris. Harris já havia apresentado o personagem no romance Dragão Vermelho (1981), e voltou a ele nas sequências Hannibal (1999) e Hannibal - A origem do mal (Hannibal Rising) (2006). Todos os livros foram transformados em filmes, sendo que este último teve duas versões no cinema, em 1986 e 2007.

Hannibal Lecter é um psiquiatra brilhante e também psicopata e canibal. No último livro é explicada a origem de sua fixação pelo canibalismo, devido a eventos traumáticos de sua infância e juventude, durante e após a II Guerra. Tanto em Dragão Vermelho quanto em O Silêncio dos Inocentes ele está preso e é consultado para ajudar na captura de outros serial killers.

Neste livro o FBI está à caça do assassino conhecido como Buffalo Bill, que mata e esfola suas vítimas. A estagiária Clarice Starling é incumbida por seu chefe, Jack Crawford, de entrevistar Lecter e tentar ganhar sua confiança para que ele ajude a descobrir a identidade de Buffalo Bill.

“O herói parte do mundo cotidiano e entra em uma região de maravilhas sobrenaturais: forças fabulosas são descobertas e ele deve conquistar uma vitória decisiva: o herói retorna dessa aventura misteriosa com o poder de conceder dádivas a seus companheiros.” (introdução de O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell)

Clarice é um aprendiz que parte em uma missão difícil: ela deve enfrentar o desconhecido (Dr Lecter, que também atua como o mentor do herói) para conquistar uma vitória decisiva, ou seja, derrotar Buffalo Bill (Jame Gumb) e salvar a donzela (Catherine Martin). Ao retornar, ela recebe honras (se torna agente do FBI) e pode ajudar seus companheiros, ou seja, proteger a sociedade contra o mal.

O monomito é simbolizado de forma brilhante nas diversas etapas da história: o momento em que Clarice entra no calabouço do hospital psiquiátrico para encontrar-se com Lecter simboliza a entrada no mundo desconhecido e sobrenatural. Ela recebe ajuda de um mentor e deve enfrentar seus fantasmas, o que acontece durante os diálogos com o psiquiatra canibal. No momento do desafio final, ela está sozinha e deve descer ao abismo (o porão de Gumb) para enfrentar o perigo e derrotá-lo.

Lecter e Clarice têm seus momentos mais brilhantes nos diálogos da prisão, em que ela tenta controlar seu medo e insegurança e ele tenta descobrir seus segredos e traumas de infância, como moeda de troca para as informações das quais ela precisa.

“Quando ele voltou a falar, seu tom era suave e agradável.

- Você gostaria de me analisar, policial Starling. Você é muito ambiciosa, não é? Sabe o que você me parece, com sua bela bolsa e seus sapatos baratos? Parece uma caipira. Uma caipira melhorada, limpa, com um pouco de bom gosto. Seus olhos são como pedras baratas do mês - tudo é brilho superficial quando você consegue uma pequena resposta. E por trás delas você é brilhante, não é? Desespera-se para não ser como sua mãe. Uma boa nutrição deu-lhe ossos mais longos, mas você não está fora das minas há mais de uma geração, policial Starling. Você é dos Starlings de West Virgínia ou de Oklahoma? Houve uma decisão de cara-ou-coroa entre a universidade e o Corpo Feminino do Exército, não houve? Vou lhe dizer algo específico sobre você mesma, estudante Starling. No seu quarto você tem um colar de ouro de contas soltas, e sente um choquezinho desagradável quando vê como agora se tornaram sem graça, não é verdade? Tantos cansativos agradecimentos vida afora, tantas mesuras e hesitações, banalizando cada uma daquelas contas. Cansativo. Cansativo. Te-e-edioso. Ser inteligente estraga uma porção de coisas, não é verdade? E ter bom gosto não é bom. Quando você pensar sobre esta conversa, vai se lembrar do estúpido animal ferido no rosto quando você se livrou dele. - E no mais suave dos tons, o Dr. Lecter acrescentou: - Se o colar de contas se tornou sem graça, o que mais perderá a graça no curso da sua vida? Você cisma com isso, não é, durante a noite?

Starling levantou a cabeça para encará-lo.

- O senhor enxerga longe, Dr. Lecter. Não nego nada do que acabou de dizer. Mas eis uma pergunta que está me respondendo agora mesmo, quer queira quer não: O senhor tem energia suficiente para voltar essa sua percepção de alta potência em direção a si mesmo? É difícil encarar isso, descobri nos poucos últimos minutos. O que é que o senhor acha? Questione-se e revele a verdade. Que assunto mais adequado ou mais complexo poderia encontrar? Ou será que tem medo de si mesmo?

- Você é uma pessoa dura, não é, policial Starling?

- Razoavelmente, sim.

- E odiaria pensar que é uma criatura comum. Isso não iria feri-la? Por Deus! Bem, você está longe de ser comum, policial Starling. Mas tem medo de sê-lo. De que tamanho são as contas do seu colar, sete milímetros?

- Sete.

- Deixe-me fazer uma sugestão. Arranje algumas contas olho-de-tigre avulsas e enfie-as alternadamente com as contas de ouro. Você poderá querer colocar duas-para-três ou uma-para-duas, conforme lhe parecer melhor. As contas olho-de-tigre vão refletir a cor dos seus olhos e os reflexos de seu cabelo. Alguém já lhe mandou um presente de namorado?

- Claro.

-  Estamos em junho. O Dia dos Namorados está a apenas uma semana. Bem, você está esperando algum presente?

- Nunca se sabe.

- Não. Nunca se sabe… Eu tenho estado a pensar sobre o Dia dos Namorados. Ele me lembra algo engraçado. Agora que estou pensando nisso, ocorre-me que eu poderia torná-la muito feliz no Dia dos Namorados, Clarice Starling.

- Como, Dr. Lecter?

- Mandando-lhe um maravilhoso presente. Terei que pensar nisso. Agora, por favor, dê-me licença. Adeus, policial Starling.

- E o estudo?

- Um recenseador tentou avaliar-me certa ocasião. Comi o fígado dele com favas e um grande vinho. Volte à escola, pequena Starling!

Hannibal Lecter, educado até o último momento, não lhe voltou as costas. Foi recuando da barreira para trás até chegar ao seu leito e, deitando-se, ficou tão alheio a ela como um cruzado de pedra esticado em sua tumba.”

O livro segue com um suspense crescente e narrativa ágil e detalhada, conforme Starling e Crawford seguem as pistas que Lecter sutilmente deixa escapar, mas mesmo assim exigindo lógica e raciocínio para serem decifradas.

“Starling estudara psicologia e criminologia numa boa escola. Durante a vida pudera observar algumas das horríveis e precipitadas formas com que o mundo destrói as coisas. Mas realmente não tinha jamais imaginado que às vezes os seres humanos produzem, atrás de um rosto com aparência humana, uma mente cujo prazer era aquilo que jazia na mesa de porcelana em Potter, West Virgínia, na sala forrada de papel decorado com rosas. Seu primeiro encontro com uma mente daquele tipo chocou-a mais do que qualquer coisa que pudesse ver em mesas de autópsia. Tal conhecimento ficaria entranhado na sua pele para sempre, e ela sabia que tinha de criar uma crosta ou aquilo a penetraria.”

Jame Gumb, o serial killer que retirava a pele de suas vítimas, foi criado a partir de quatro assassinos reais: Ed Gein (que fazia roupas com a pele de suas vítimas; ele também foi a inspiração para a criação de Norman Bates, de Psicose), Ted Bundy (que oferecia dicas psicológicas para ajudar a capturar outros assassinos) e Gary Heidnik (que mantinha as vítimas em seu porão).

Filme

A versão cinematográfica deste livro, dirigida por Jonathan Demme (1991), foi o terceiro filme a conquistar os cinco prêmios principais: Melhor Filme, Direção, Melhor Roteiro (adaptado), Melhor Ator e Melhor Atriz. Até então, somente Aconteceu naquela noite (1934) e Um Estranho no ninho (1975) haviam conseguido essa façanha.

Demme acertou na escolha do elenco: Jodie Foster (Clarice) mostra “a força e a determinação necessárias para o papel” (conforme Demme) ao mesmo tempo em que transmite seu drama interno, especialmente nas cenas com Lecter. Com este papel ela ganhou seu segundo Oscar e mais seis outros prêmios.

Ted Levine (Jame Gumb), apesar de não tão aclamado quanto Hopkins, também criou um vilão complexo e sutil; ele não é um gay ou travesti, mas uma mente atormentada que deseja ser sua mãe para, de certa forma, trazê-la de volta. A cena da dança causou controvérsia entre a equipe de produção, mas Ted insistiu em fazê-la, para mostrar ao público como o personagem se sentia em relação a si mesmo.

A interpretação magistral de Anthony Hopkins criou um Lecter educado, com boas maneiras, voz baixa; um contraste com seus feitos e com seus companheiros de prisão. No livro sua cela tem grades, mas os produtores decidiram usar uma grossa parede de plexiglas com furos (aproveitados na interpretação de Hopkins), que aumentou a sensação de proximidade e a tensão das cenas. Seus 17 minutos em cena foram a interpretação mais curta a ganhar o Oscar de Melhor Ator. Merecido.

E aí, vai encarar?

O filme procura mostrar o ponto de vista (literalmente) de Clarice, para criar uma identificação entre o público e ela. Hannibal e outros personagens olham diretamente para a câmera quando falam com Clarice, e quando ela responde, olha para um ponto ligeiramente afastado do centro da câmera. Esse recurso intensifica o suspense nas cenas entre Jodie Foster e Anthony Hopkins, com uso de vários close-ups que tornam o personagem dele ainda mais assustador. Por breves instantes no final, já no porão, o ponto de vista da câmera muda para Jame Gumb, o que torna a cena ainda mais tensa.

Jonathan Demme também usa alguns recursos de Hitchcock, como mostrar a identidade do vilão para o público, sem que o personagem saiba disso. Isso funciona muito bem para criar o suspense; um exemplo é a sequência da invasão da casa à procura de Jame Gumb. Os cortes e a ação simultânea confundem o espectador e aumentam o efeito da revelação. Edição de gênio!

Apesar de ser uma história sombria e assustadora, há poucas cenas de violência gráfica; o que assusta são os fatos, não o que é mostrado. Ainda assim, em uma sequência temos o canibal em ação, pois além de ser necessário para o desenvolvimento da trama, não devemos esquecer que aquele gentleman é na verdade um monstro assassino.

Filme e livro são excelentes; uma história muito bem contada, com simbolismos e personagens complexos, interpretada e dirigida com maestria, e que certamente mereceu todos os prêmios recebidos. Recomendadíssimo!

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Para saber mais:

Trailer - O Silêncio dos Inocentes

Publicado em Outubro - 30 - 2010

As Vinhas da Ira

(capa da primeira edição)

(capa da primeira edição)

Na época da Grande Depressão nos EUA, uma família de agricultores rendeiros abandona suas terras em Oklahoma e parte para a Califórnia em busca de emprego e uma vida melhor. Como milhares de pessoas que partiram em busca do mesmo sonho, eles encontraram miséria, desemprego e fome. Esta história que retrata as dificuldades de milhares de emigrantes, representados na família Joad, deu a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940.

O romance começa quando Tom Joad volta para casa depois de cumprir pena por matar um rapaz em uma briga. Ele encontra sua família pronta para partir para a Califórnia, pois a seca prolongada (o Dust Bowl, tempestades de areia causadas pelo esgotamento e desertificação do solo, e que duraram quase dez anos na década de 30) e a incapacidade de manter a fazenda, agora controlada pelos bancos como muitas outras da região, os forçaram a emigrar.

(Agricultor com os dois filhos durante uma tempestade de areia, no condado de Cimarron, Oklahoma, em 1936 - Foto: Wikipedia)

Eles carregam suas poucas coisas no velho caminhão e partem, atravessando o país pela Rota 66: O Pai, a Mãe, os filhos Tom, Noah, Al, a filha grávida Rosa de Sharon  e seu marido Connie, as crianças Ruthie e Winfield, o tio John, o Avô, a Avó e o ex-pregador Jim Casy, além de um velho cão da família.

A viagem é longa e difícil, e o grupo de treze pessoas e um cão vai sofrendo baixas pelo caminho. Ao chegarem à ilusória Terra Prometida, em vez de um grande pomar com frutas e empregos fartos, eles encontram um cenário desolador: milhares de outras famíias lutando para conseguir os poucos empregos disponíveis, o desprezo e perseguição por parte da polícia e os moradores locais, e a exploração dos patrões, que pagavam cada vez menos por causa do excesso de oferta de mão de obra.

Mesmo com a decepção, a Mãe luta pra manter a família unida e a não deixar que os ânimos se alquebrassem. Com dificuldades cada vez maiores, Mãe e Tom são as personalidades fortes e os lutadores, cada qual ao seu modo. Como na vida, cada um reage de forma diferente à adversidade e na família Joad também é assim: há os que abandonam o barco por não se sentirem com força para enfrentar a luta ou para não sobrecarregar a família, os que enfrentam tudo com coragem e amor, os que amadurecem no processo, e os que enfrentam seus demônios particulares, mesmo sem querer.

A personagem mais marcante é a Mãe; mesmo sem ter um nome na narrativa, ela é uma mulher forte, cuja iniciativa começa a se manifestar quando ela percebe que o Pai estava se deixando levar pelo desânimo e decepção, e que precisaria agir para manter a família unida. Depois de perderem tudo, a família era só o que restava aos Joad. E Mãe, com sua filosofia simples e prática, vai  conduzindo a  família e fazendo o melhor que pode.

“_… Engraçado! A mulher tomando conta da família. A muher dizendo que vai fazer isto e mais aquilo, e que a gente deve ir pra lá ou pra cá. E eu nem ‘tou ligando a isso.

- Mulheres se acostumam mais depressa que os homens - disse Mãe com suavidade. - Uma mulher tem a vida toda nos braços, o homem tem ela na cabeça. Não te preocupa. Quem sabe?… quem sabe? Para o ano a gente terá uma fazendinha.

- Mas por enquanto não temos nada - disse Pai. - E agora vem o inverno, vem uma porção de tempo que não se pode trabalhar. Que é que a gente vai fazer? E não demora chega o dia da Rosasharn. ‘Tou tão desgostoso que nem posso mais pensar. Me afundo nos tempos antigos pra não pensar no futuro. Acho que a nossa vida já se foi, é coisa passada.

- Nada disso - sorriu Mãe. Não é não, Pai. E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. O homem vive saltando degraus… nasce uma criança e more um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida… Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e pequenas cachoeiras, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua… muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme.”

As Vinhas da Ira mostra de maneira contundente o caos e miséria que se instalaram por causa da Depressão e do controle da economia pelos bancos; o desemprego, os preços cada vez mais altos, a destruição de alimentos para manter os preços altos, um círculo vicioso que trouxe cada vez mais tragédia aos milhares de pessoas que tentavam sobreviver a cada dia: famílias inteiras trabalhando (quando o conseguiam) por alguns cents, que mal davam para comprar o jantar.

Como de costume, Steinbeck intercala a narrativa com capítulos em que discorre sobre o tema do livro, mostrando o cenário mais amplo e levantando questões que nos fazem pensar. No cap. 24 ele fala sobre a fartura da Califórnia, fruto do trabalho de técnicos e especialistas para produzir frutas cada vez melhores, e como o custo da produção, da mão de obra e das dívidas aos bancos faz com que os pequenos proprietários destruam boa parte da produção para manter os preços altos, até que por fim, percam suas propriedades para o banco. Enquanto isso, milhares morrem de fome.

“Os pequenos fazendeiros observam como as dívidas se aproximam deles, insensivelmente, como o crescer da maré. Borrifaram as árvores, sem vender a colheita, têm podado e enxertado, e não puderam recolher as frutas (…) Este pequeno pomar, no ano que vem, pertencerá a uma grande companhia, pois o proprietário será sufocado pelas dívidas.

As obras feitas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços em alta. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carroçadas de laranjas são atiradas ao chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar as frutas, mas agora não podia ser.. (…)

O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas no

chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de ca viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima.”

Nos últimos capítulos do livro paira no ar a posisbilidade de uma revolta dos homens famintos e explorados, que não chega a se concretizar. Mas permanece a sugestão, como única alternativa possível para a situação cada vez pior daqueles pobres diabos. Fugindo de suas terras, encontraram o desprezo dos californianos, que os chamavam de “okies imundos”, perseguiam as crianças que eram mandadas à escola, expulsavam-nos dos acampamentos “Hooverfield”, negavam-lhes empregos e um salário digno. A ira estava prestes a explodir.

O pregador Jim Casy, desesperançado no começo da história, depois de observar as pessoas e muito conversar, acaba por descobrir que a miséria era a causadora de todos os males e que a única solução seria a união do povo, que apenas juntos eles conseguiriam alguma coisa. Não por acaso, ele termina abatido pelos abafa-greves e suas últimas palavras são “Vocês não sabem o que estão fazendo”.

Tom Joad, fugitivo depois de matar o camarada que matou Casy,  pensa e medita em seu esconderijo e percebe que “não presta isso de alguém estar sozinho no mundo”. Quando a Mãe lhe pergunta como vai saber se ele está bem, como terá notícias suas depois que ele se for, Tom responde:

” _Bem, pode ser que o Casy acertou quando diss’que a pessoa não tinha alma própria, mas só parte duma alma grande… e aí…

-Aí o quê, Tom?

- Aí, isso tudo não tem importância. Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar  à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um polícia ‘teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente ‘teja berrando de raiva…. e estarei onde crianças ‘tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu… aí eu também estarei presente. Sabe, já ‘tou falando direitinho como o Casy. É porque vivo pensando nele. Às vezes, até parece que ‘tou vendo ele.”

O livro causou grande impacto na época de sua publicação, em 1939. Ele foi banido, queimado, discutido, mas principalmente, lido. Steinbeck foi atacado e acusado de propaganda esquerdista e de ter exagerado a situação dos migrantes. Os maiores ataques vieram da Associação dos Fazendeiros da Califórnia. Ainda assim, apesar das acusações de exagero o escritor fez o oposto, suavizando as condições reais, que eram bem piores que as descritas no romance. Muitas das referências políticas e socialistas presentes no filme de John Ford estão ausentes do livro. Na verdade, tanto Steinbeck quanto Ford tiveram de prestar depoimento à Comissão de Assuntos Americanos da era McCarthy por suspeitas “pró-comunistas”.

As Vinhas da Ira, além de dar a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940, foi um dos principais motivos para o comitê do Prêmio Nobel conceder a ele o Nobel de Literatura de 1962. O livro é considerado sua obra-prima e um clássico da literatura norte-americana do século XX, e é lido e estudado nas escolas de segundo grau e universidades dos EUA.

Filme

O filme de 1940, dirigido por John Ford (que ganhou o Oscar de Direção), está em nº 7 na lista dos 100 Filmes mais Inspiradores de todos os tempos e em nº 23 na lista dos Melhores Filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute.

O começo do filme é bem fiel ao livro, contudo a segunda metade é um pouco diferente, e a controversa cena final do livro em que Rosa de Sharon, que havia dado à luz um natimorto, amamenta um homem que estava morrendo de fome, não foi incluída no filme por causa dos rígidos códigos de censura da época.  Como de costume, o filme deixa de lado detalhes da narrativa, personagens secundários, altera a ordem de alguns fatos por causa da modificação no final, mas ainda assim é uma obra-prima.

John Steinbeck adorou o filme e disse que ver Henry Fonda como Tom Joad o fez “acreditar em minhas próprias palavras“.  Jane Darwell, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está excelente como Ma Joad e transmite a coragem e a determinação da mulher que luta para   manter a família unida. O filme também é estrelado por Henry Fonda, indicado ao Oscar de Melhor Ator e John Carradine, como o ex-pregador Jim Casy.

A fotografia em preto e branco aproveita bem as cenas noturnas, dando destaque ao rosto dos personagens. A pobreza é bem visível, ainda assim é menos chocante que as descrições do livro e, segundo o produtor David Selznick, não tão ruim quanto a situação real dos migrantes, que foi ver de perto antes da produção do filme. Ironicamente, a exibição do filme foi proibida na então União Soviética por Joseph Stalin, que não gostou que o filme mostrasse que “até os americanos mais pobres podiam ter um automóvel” - o que, segundo ele, era mentira.

Curiosamente, o trailer do filme (veja no final do artigo) mostra mais o sucesso do livro e a compra dos direitos de filmagem que o próprio filme. Mesmo tendo sido indicado ao Oscar, perdeu para E o Vento Levou. Para corrigir a injustiça, no ano seguinte John Ford foi premiado pelo não tão brilhante “Como era Verde o meu Vale”. Coisas da Academia…

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Este artigo faz parte do Desafio Literário 2010 pelo mês de Setembro (OK, antes tarde do que nunca), cujo tema foi Romance Histórico. Para ver as outras resenhas de Setembro no Desafio, clique aqui. E não deixe de ler este livro e ver o filme, ambos são excelentes!

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Para saber mais:

Mais Henry Fonda no Rato de Biblioteca:

Trailer - As Vinhas da Ira (1940)

Publicado em Setembro - 15 - 2010

O caso dos dez negrinhos / E não sobrou nenhum

O caso dos dez negrinhos é o romance mais vendido de Agatha Christie, e a história de mistério mais vendida de todos os tempos, com mais de 100 milhões de cópias vendidas. O livro foi publicado pela primeira vez no Reino Unido em novembro de 1939 como Ten Little Niggers, e em 1940 nos EUA como And Then There Were None. A reedição e nova tradução de 2008 no Brasil mudou o título original para “E não sobrou nenhum”, o que causou protestos dos fãs da Agatha Christie. Na nova edição, a Ilha do Negro virou a Ilha do Soldado.

Antes de ser publicada em livro, a história saiu em vinte e três partes no jornal Daily Express, de 6 de junho a 1 de setembro de 1939. Nos Estados Unidos a história também foi publicada em capítulos, desta vez em sete partes no Saturday Evening Post (de 20 de maio a 1 de julho de 1939).

A trama é curiosa e original: oito pessoas são convidadas pelo casal Owen para um fim de semana em sua casa na Ilha do Negro, no litoral de Devon. Eles são levados até lá de barco, que logo retorna para o continente, e são aguardados por um casal de criados.

O ambiente formal logo é quebrado quando, após o jantar, uma voz anuncia que todos os presentes são acusados de um crime, e enumera os nomes e acusações. A voz vinha de um disco que o criado havia recebido instruções de tocar às 21 horas.

Os convidados e o casal de criados percebem que foram aprisionados na ilha pelo misterioso casal Owen, e que não podem partir. Logo começam os assassinatos, e um a um eles são mortos, de forma a cumprir os versos infantis deixados em cada um dos quartos e emoldurados na sala:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.

Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.

Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.

Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.

Seis negrinhos de uma colméia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.

Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.

Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.

Três negrinhos passeando no Zôo.
E depois? O urso abraçou um, e então ficaram dois.

Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.

Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não ficou nenhum.

Dez estatuazinhas de porcelana representando pequenos negrinhos também desaparecem misteriosamente, uma a uma. Como as dez pessoas estão sozinhas na ilha, fica claro que um deles é o assassino; a desconfiança e o medo se instalam, e pouco a pouco Agatha Christie nos conduz por uma trama bem construída e envolvente, até a explicação no epílogo.

A história utiliza o recurso de isolamento dos personagens na ilha (”crime do quarto fechado”) para criar o clima de tensão, suspeita e suspense, recurso também usado no romance Assassinato no Expresso do Oriente, embora não da mesma forma. A poesia infantil também acrescenta o elemento lúdico e mostra o perfeccionismo e o planejamento do assassino, ao “criar” os assassinatos de acordo com os versos. O romance também tem sido comparado em termos de criatividade a O assassinato de Roger Ackroyd,  cujo crime aparentemente insolúvel só é desvendado no final do último capítulo.

Por fim, outro tema em comum ao “Caso” e o “Expresso do Oriente” é a vingança e a justiça comandadas por mãos humanas, pois o assassino não acredita que a justiça divina ou a lei dos homens possam cumprir o seu dever de punir os culpados.

O livro foi adaptado pela própria Agatha Christie em 1943 para o teatro, com uma ligeira alteração nos últimos assassinatos, para que a trama pudesse ser explicada para o espectador, visto que o recurso do epílogo do livro não poderia ser usado no palco. Quase todas as versões  para o cinema usaram essa adaptação, com exceção do filme russo de 1987, “Desyat’ negrityat“, que usa o mesmo final que o livro.

A história também foi adaptada várias vezes para a TV, e também para os quadrinhos e para o video game “Agatha Christie: And Then There Were None“, o primeiro de uma série de jogos para PC baseados em livros da escritora. O game foi lançado para o console Wii em 2008.

Além das adaptações “sérias”, também foram feitas paródias, como em um episódio do “Agente 86“, no musical da Broadway “Something´s Afoot” e na excelente comédia Assassinato por Morte (1976), que recebeu uma ótima resenha da Naomi (link no final do artigo).

Filme - O Vingador Invisível

Um dos filmes mais bem-sucedidos baseados na história é a versão americana de 1945 dirigida por René Clair (And Then There were None, e em português, “O Vingador invisível”).  Além de ser a primeira, esta é considerada a melhor adaptação do romance para o cinema.

Apesar de alguns nomes dos personagens terem sido mudados, a trama é bem fiel ao livro, e o final usa o mesmo recurso da peça de teatro, com a adaptação feita por Christie. Há elementos de humor e por vezes os personagens olham diretamente para a câmera, ao se apresentar ou fazer uma confissão. Outras mudanças mais sutis foram a natureza dos crimes dos quais os convidados são acusados. para se adequar ao rígido Código Hays, temas como estupro, infanticídio e gravidez na adolescência foram substituídos por equivalentes mais ’suaves’.

Uma das vítimas, Emily Brent, é interpretada por Judith Anderson, atriz australiana mais conhecida como a Sra Danvers do filme de Hitchcock, Rebecca (1940). Além dos dez personagens, apenas o barqueiro aparece brevemente no filme, que se passa apenas na ilha.

O filme está em domínio público, e pode ser baixado livremente pela Internet (links no final do artigo).

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Este artigo faz parte da comemoração dos 120 anos do nascimento de Agatha Christie, (15/09/1890) com a participação de vários blogs e sites. Veja também:

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Para saber mais:

  • And then There Were None (livro) na Wikipedia, em inglês e português
  • And then There Were None (filme) na Wikipedia
  • página do filme de 1945 no IMDb
  • Lista de filmes em domínio público
  • Link para download do filme no Internet Archive (avi, 700 MB)
  • Link para download da legenda em srt
  • Assassinato por Morte no Batata Transgênica
  • Entrevista com John Curran, o autor de “Os diários secretos de Agatha Christie”, no blog da Cultura
  • Posters de filmes dos anos 40/60 baseados em livros de Agatha Christie, no blog da L & PM

And Then There Were None - trailer

Publicado em Agosto - 03 - 2010

A Lista de Schindler

“Aquele que salva uma só vida salva o mundo inteiro.” (provérbio Talmúdico)

Oskar Schindler foi um empresário alemão sudeto durante os anos da II Guerra Mundial; aproveitando as oportunidades comerciais dos tempos de guerra, ele entrou para o Partido Nazista, fez amizade com diversos oficiais e conseguiu comprar uma fábrica falida de esmaltados. Mais tarde ele usaria sua posição e influência para salvar a vida de mais de 1200 judeus. Sua história é contada no livro “A Lista de Schindler” (originalmente Schindler´s Ark) do escritor australiano Thomas Keneally, e mais tarde levada às telas por Steven Spielberg.

Oskar e sua esposa Emilie em 1946

A fábrica de esmaltados de Oskar ficava em Cracóvia, na Polônia, e a princípio seus funcionários moravam no recém-criado Gueto de Cracóvia. Após o desmantelamento do gueto em uma ação violenta dos nazistas, os judeus sobreviventes foram levados para o campo de prisioneiros de Plaszóvia, comandado pelo nazista Amon Goeth. Cruel e sociopata, Goeth costumava atirar em prisioneiros sem motivo. Execuções sumárias e espancamentos eram comuns.

Bon vivant, mulherengo e astuto, a princípio Oskar usou seu carisma e habilidades sociais para construir sua carreira de empresário de sucesso. Empregar trabalhadores judeus era um bom negócio nos primeiros anos da guerra, e ele o fez. Mesmo assim, ele repudiava a ideologia e os métodos usados pelos nazistas. Mais tarde, quando percebeu o rumo que as coisas estavam tomando e conheceu as condições em que os judeus tentavam sobreviver, ele empenhou-se cada vez mais para salvá-los. Ao presenciar a Aktion dos nazistas no gueto,  Schindler tomou sua decisão.

“A infâmia de homens nascidos de mulheres e que tinham de escrever cartas para suas famílias (o que diziam nessas cartas?) não era o pior aspecto do que Schindler presenciara. Sabia que eles não tinham vergonha alguma do que estavam fazendo, pois o guarda na retaguarda da coluna não vira necessidade de impedir a garotinha de vermelho de assistir a toda a cena. Mas o pior era que, se não havia a menor vergonha, isso significava sanção oficial. Ninguém mais podia encontrar segurança na idéia de cultura alemã, nem nos pronunciamentos de líderes, que condenavam homens anônimos por terem ultrapassado seus limites, ou por olharem pelas janelas de seus escritórios para a realidade na rua. Oskar tinha visto na Rua Krakusa uma prova da política de seu governo, que não podia ser justificada como uma aberração temporária. Acreditava que os SS estavam cumprindo as ordens de seu líder pois, do contrário, o colega na retaguarda da coluna não teria deixado uma criança assistir à cena.

Mais tarde, nesse dia, depois de ter ingerido uma dose de conhaque, Oskar compreendeu o teorema em seus termos mais claros. Eles permitiam testemunhas, testemunhas tais como a garotinha de verme lho, porque julgavam que as testemunhas iam todas também perecer. (…)

Bem mais tarde, em termos nada característicos do jovial Herr Schindler, o conviva predileto das festas de Cracóvia, o perdulário de Zablocie, isto é, em termos que revelavam - por trás da fachada de playboy - um juiz implacável, Oskar tomou naquele dia uma decisão da qual não mais se afastaria. “A partir daquele dia”, diria ele mais tarde, “ninguém, com capacidade de raciocinar, poderia deixar de ver o que iria acontecer. E agora eu estava resolvido a fazer tudo em meu poder para derrotar o sistema.”"

A vida dos trabalhadores da fábrica de esmaltados ‘Emalia’ era segura, ao menos por enquanto. Uma sopa substanciosa todos os dias e a esperança de sobrevida eram melhores que nada; quando Schindler conseguiu construir seu “sub-campo” junto à fábrica e levou seus funcionários para lá, as coisas ficaram um pouco melhores, sem a presença de Amon Goeth.

“O clima era de frágil estabilidade. Não havia cães. Nem espancamentos.

A sopa e o pão eram melhores e com mais fartura do que em Plaszóvia - cerca de 2.000 calorias por dia, de acordo com um médico que  trabalhava como operário na Emalia. Os turnos eram prolongados, freqüentemente de doze horas, pois Oskar continuava sendo um homem de negócios com contratos de fornecimento de material bélico e o desejo convencional de lucro. Contudo, é preciso dizer que o trabalho não era árduo e que muitos dos seus prisioneiros pareciam ter acreditado na ocasião que aquela atividade era uma contribuição em termos comensuráveis para a sua sobrevivência. “

Em 1944, com a decisão de fechar o campo de Plaszóvia e por consequência, o sub-campo da Emalia, devido ao avanço das tropas russas, o destino dos prisioneiros seria o campo de extermínio de Auschwitz. Oskar usa de toda a sua influência, contatos e suborno para conseguir transferir sua fábrica para Brnenec, na Tchecoslováquia. Para isso, ele precisaria levar seus trabalhadores ‘altamente especializados’ e apenas as pessoas cujos nomes estivessem na lista poderiam seguir para a nova fábrica. Estar na lista significava a vida, e o contrário era a morte certa nos campos.

Esbanjador, Oskar gastava rios de dinheiro em presentes para subornar autoridades, na compra de alimentos para seus funcionários e no que fosse necessário para manter seu esquema de salvamento dos judeus em funcionamento. No final da guerra, ele partiu sem um tostão e por fim, viveu de favores dos amigos e protegidos, os Schindlerjuden que ele havia salvo da morte.

Schindler não fez nada de notável antes nem depois da guerra; mas seus atos durante esses anos terríveis fizeram a diferença para mais de um milhar de vidas. Seus Schindlerjuden o ajudaram e homenagearam durante o restante de sua vida e, ao falecer em 1974, ele foi enterrado em Jerusalém, conforme seu desejo.

Thomas Keneally foi convencido a escrever essa história por Poldek Pffefenberg, um dos sobreviventes da lista, em cuja loja de malas Keneally parou para fazer compras. Após uma longa conversa ele convenceu o escritor, que passou os dois anos seguintes pesquisando e entrevistando sobreviventes,  a contar a história de Schindler.

Apesar de ser uma narrativa de romance, o livro é um ‘romance de não-ficção’; a história é contada com base em diversos depoimentos dos sobreviventes, e nada do que não pôde ser comprovado entrou para o livro. Todos os nomes e acontecimentos são verdadeiros, e Oskar é retratado como era, com todos os defeitos e peculiaridades. A narrativa flui muito bem, e mesmo com tantos detalhes não é um livro cansativo, especialmente do meio para o fim, quando acompanhamos com ansiedade o destino daquelas pessoas e nos revoltamos com as atrocidades cometidas em tempos de guerra.

Felizmente para os 1200 judeus de Schindler, para eles a história teve um bom final. Como eles diziam, “uma hora de vida é ainda vida”. Mas isso não evita a indignação por tudo o que aconteceu, e que esperamos nunca venha a acontecer novamente. Este é um relato honesto e humano de um dos poucos episódios bonitos em meio a tanta crueldade e desprezo pela vida.

O Filme

O livro foi lançado em 1982, e apesar de ter os direitos de filmagem e assumir a produção, Spielberg realizou este filme apenas em 1993, pois não se achava preparado para contar uma história tão importante sendo tão jovem na época. Ele queria entregar a direção a outra pessoa, mas acabou sendo convencido a dirigir o filme, pelo qual não aceitou pagamento algum.

O filme, em preto-e-branco, teve uma produção caprichada e atuações impressionantes tanto de estrelas como Liam Neeson (Schindler), Ben Kingsley (Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (Amon Goeth), quanto de atores pouco conhecidos que interpretam com talento e dignidade os sobreviventes da lista.

Com este filme Spielberg finalmente foi reconhecido pela Academia e recebeu seu primeiro Oscar de direção. O filme também recebeu o prêmio de Melhor Filme, em um total de 7 Oscars.

Com a bela música de John Williams, o filme termina com os verdadeiros sobreviventes da lista levando pedras ao túmulo de Schindler. Emocionante. Uma verdadeira obra-prima do cinema, que nos desperta emoções diversas e nos faz pensar sobre a vida e a morte, e como a diferença entre elas pode ser pequena.

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Esta resenha faz parte do Desafio Literário 2010, cujo tema do mês de julho foi “Adaptação para o cinema”. Este mês só atrasei um pouquinho, e a leitura valeu a pena. Recomendo o livro e o filme, que apesar de contarem uma história intensa e triste, também nos lembram que não há bem ou mal isolados, e  como uma pessoa pode fazer a diferença.

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Para saber mais:

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Trailer - Schindler´s List

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