Publicado em Outubro - 30 - 2010
As Vinhas da Ira
(capa da primeira edição)
Na época da Grande Depressão nos EUA, uma família de agricultores rendeiros abandona suas terras em Oklahoma e parte para a Califórnia em busca de emprego e uma vida melhor. Como milhares de pessoas que partiram em busca do mesmo sonho, eles encontraram miséria, desemprego e fome. Esta história que retrata as dificuldades de milhares de emigrantes, representados na família Joad, deu a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940.
O romance começa quando Tom Joad volta para casa depois de cumprir pena por matar um rapaz em uma briga. Ele encontra sua família pronta para partir para a Califórnia, pois a seca prolongada (o Dust Bowl, tempestades de areia causadas pelo esgotamento e desertificação do solo, e que duraram quase dez anos na década de 30) e a incapacidade de manter a fazenda, agora controlada pelos bancos como muitas outras da região, os forçaram a emigrar.
(Agricultor com os dois filhos durante uma tempestade de areia, no condado de Cimarron, Oklahoma, em 1936 - Foto: Wikipedia)
Eles carregam suas poucas coisas no velho caminhão e partem, atravessando o país pela Rota 66: O Pai, a Mãe, os filhos Tom, Noah, Al, a filha grávida Rosa de Sharon e seu marido Connie, as crianças Ruthie e Winfield, o tio John, o Avô, a Avó e o ex-pregador Jim Casy, além de um velho cão da família.
A viagem é longa e difícil, e o grupo de treze pessoas e um cão vai sofrendo baixas pelo caminho. Ao chegarem à ilusória Terra Prometida, em vez de um grande pomar com frutas e empregos fartos, eles encontram um cenário desolador: milhares de outras famíias lutando para conseguir os poucos empregos disponíveis, o desprezo e perseguição por parte da polícia e os moradores locais, e a exploração dos patrões, que pagavam cada vez menos por causa do excesso de oferta de mão de obra.
Mesmo com a decepção, a Mãe luta pra manter a família unida e a não deixar que os ânimos se alquebrassem. Com dificuldades cada vez maiores, Mãe e Tom são as personalidades fortes e os lutadores, cada qual ao seu modo. Como na vida, cada um reage de forma diferente à adversidade e na família Joad também é assim: há os que abandonam o barco por não se sentirem com força para enfrentar a luta ou para não sobrecarregar a família, os que enfrentam tudo com coragem e amor, os que amadurecem no processo, e os que enfrentam seus demônios particulares, mesmo sem querer.
A personagem mais marcante é a Mãe; mesmo sem ter um nome na narrativa, ela é uma mulher forte, cuja iniciativa começa a se manifestar quando ela percebe que o Pai estava se deixando levar pelo desânimo e decepção, e que precisaria agir para manter a família unida. Depois de perderem tudo, a família era só o que restava aos Joad. E Mãe, com sua filosofia simples e prática, vai conduzindo a família e fazendo o melhor que pode.
“_… Engraçado! A mulher tomando conta da família. A muher dizendo que vai fazer isto e mais aquilo, e que a gente deve ir pra lá ou pra cá. E eu nem ‘tou ligando a isso.
- Mulheres se acostumam mais depressa que os homens - disse Mãe com suavidade. - Uma mulher tem a vida toda nos braços, o homem tem ela na cabeça. Não te preocupa. Quem sabe?… quem sabe? Para o ano a gente terá uma fazendinha.
- Mas por enquanto não temos nada - disse Pai. - E agora vem o inverno, vem uma porção de tempo que não se pode trabalhar. Que é que a gente vai fazer? E não demora chega o dia da Rosasharn. ‘Tou tão desgostoso que nem posso mais pensar. Me afundo nos tempos antigos pra não pensar no futuro. Acho que a nossa vida já se foi, é coisa passada.
- Nada disso - sorriu Mãe. Não é não, Pai. E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. O homem vive saltando degraus… nasce uma criança e more um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida… Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e pequenas cachoeiras, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua… muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme.”
As Vinhas da Ira mostra de maneira contundente o caos e miséria que se instalaram por causa da Depressão e do controle da economia pelos bancos; o desemprego, os preços cada vez mais altos, a destruição de alimentos para manter os preços altos, um círculo vicioso que trouxe cada vez mais tragédia aos milhares de pessoas que tentavam sobreviver a cada dia: famílias inteiras trabalhando (quando o conseguiam) por alguns cents, que mal davam para comprar o jantar.
Como de costume, Steinbeck intercala a narrativa com capítulos em que discorre sobre o tema do livro, mostrando o cenário mais amplo e levantando questões que nos fazem pensar. No cap. 24 ele fala sobre a fartura da Califórnia, fruto do trabalho de técnicos e especialistas para produzir frutas cada vez melhores, e como o custo da produção, da mão de obra e das dívidas aos bancos faz com que os pequenos proprietários destruam boa parte da produção para manter os preços altos, até que por fim, percam suas propriedades para o banco. Enquanto isso, milhares morrem de fome.
“Os pequenos fazendeiros observam como as dívidas se aproximam deles, insensivelmente, como o crescer da maré. Borrifaram as árvores, sem vender a colheita, têm podado e enxertado, e não puderam recolher as frutas (…) Este pequeno pomar, no ano que vem, pertencerá a uma grande companhia, pois o proprietário será sufocado pelas dívidas.
As obras feitas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços em alta. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carroçadas de laranjas são atiradas ao chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar as frutas, mas agora não podia ser.. (…)
O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas no
chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de ca viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima.”
Nos últimos capítulos do livro paira no ar a posisbilidade de uma revolta dos homens famintos e explorados, que não chega a se concretizar. Mas permanece a sugestão, como única alternativa possível para a situação cada vez pior daqueles pobres diabos. Fugindo de suas terras, encontraram o desprezo dos californianos, que os chamavam de “okies imundos”, perseguiam as crianças que eram mandadas à escola, expulsavam-nos dos acampamentos “Hooverfield”, negavam-lhes empregos e um salário digno. A ira estava prestes a explodir.
O pregador Jim Casy, desesperançado no começo da história, depois de observar as pessoas e muito conversar, acaba por descobrir que a miséria era a causadora de todos os males e que a única solução seria a união do povo, que apenas juntos eles conseguiriam alguma coisa. Não por acaso, ele termina abatido pelos abafa-greves e suas últimas palavras são “Vocês não sabem o que estão fazendo”.
Tom Joad, fugitivo depois de matar o camarada que matou Casy, pensa e medita em seu esconderijo e percebe que “não presta isso de alguém estar sozinho no mundo”. Quando a Mãe lhe pergunta como vai saber se ele está bem, como terá notícias suas depois que ele se for, Tom responde:
” _Bem, pode ser que o Casy acertou quando diss’que a pessoa não tinha alma própria, mas só parte duma alma grande… e aí…
-Aí o quê, Tom?
- Aí, isso tudo não tem importância. Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um polícia ‘teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente ‘teja berrando de raiva…. e estarei onde crianças ‘tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu… aí eu também estarei presente. Sabe, já ‘tou falando direitinho como o Casy. É porque vivo pensando nele. Às vezes, até parece que ‘tou vendo ele.”
O livro causou grande impacto na época de sua publicação, em 1939. Ele foi banido, queimado, discutido, mas principalmente, lido. Steinbeck foi atacado e acusado de propaganda esquerdista e de ter exagerado a situação dos migrantes. Os maiores ataques vieram da Associação dos Fazendeiros da Califórnia. Ainda assim, apesar das acusações de exagero o escritor fez o oposto, suavizando as condições reais, que eram bem piores que as descritas no romance. Muitas das referências políticas e socialistas presentes no filme de John Ford estão ausentes do livro. Na verdade, tanto Steinbeck quanto Ford tiveram de prestar depoimento à Comissão de Assuntos Americanos da era McCarthy por suspeitas “pró-comunistas”.
As Vinhas da Ira, além de dar a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940, foi um dos principais motivos para o comitê do Prêmio Nobel conceder a ele o Nobel de Literatura de 1962. O livro é considerado sua obra-prima e um clássico da literatura norte-americana do século XX, e é lido e estudado nas escolas de segundo grau e universidades dos EUA.
Filme

O filme de 1940, dirigido por John Ford (que ganhou o Oscar de Direção), está em nº 7 na lista dos 100 Filmes mais Inspiradores de todos os tempos e em nº 23 na lista dos Melhores Filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute.
O começo do filme é bem fiel ao livro, contudo a segunda metade é um pouco diferente, e a controversa cena final do livro em que Rosa de Sharon, que havia dado à luz um natimorto, amamenta um homem que estava morrendo de fome, não foi incluída no filme por causa dos rígidos códigos de censura da época. Como de costume, o filme deixa de lado detalhes da narrativa, personagens secundários, altera a ordem de alguns fatos por causa da modificação no final, mas ainda assim é uma obra-prima.
John Steinbeck adorou o filme e disse que ver Henry Fonda como Tom Joad o fez “acreditar em minhas próprias palavras“. Jane Darwell, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está excelente como Ma Joad e transmite a coragem e a determinação da mulher que luta para manter a família unida. O filme também é estrelado por Henry Fonda, indicado ao Oscar de Melhor Ator e John Carradine, como o ex-pregador Jim Casy.
A fotografia em preto e branco aproveita bem as cenas noturnas, dando destaque ao rosto dos personagens. A pobreza é bem visível, ainda assim é menos chocante que as descrições do livro e, segundo o produtor David Selznick, não tão ruim quanto a situação real dos migrantes, que foi ver de perto antes da produção do filme. Ironicamente, a exibição do filme foi proibida na então União Soviética por Joseph Stalin, que não gostou que o filme mostrasse que “até os americanos mais pobres podiam ter um automóvel” - o que, segundo ele, era mentira.
Curiosamente, o trailer do filme (veja no final do artigo) mostra mais o sucesso do livro e a compra dos direitos de filmagem que o próprio filme. Mesmo tendo sido indicado ao Oscar, perdeu para E o Vento Levou. Para corrigir a injustiça, no ano seguinte John Ford foi premiado pelo não tão brilhante “Como era Verde o meu Vale”. Coisas da Academia…
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Este artigo faz parte do Desafio Literário 2010 pelo mês de Setembro (OK, antes tarde do que nunca), cujo tema foi Romance Histórico. Para ver as outras resenhas de Setembro no Desafio, clique aqui. E não deixe de ler este livro e ver o filme, ambos são excelentes!
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Para saber mais:
- The Grapes of Wrath na Wikipedia
- Dust Bowl (a grande seca dos anos 30 nos EUA) na Wikipedia (em português)
- Página do filme no IMDb
- “As vinhas da ira: entre realismo e simbologia, uma página da história americana”- ensaio da Profª. Alba Olmi (excelente!)
- Crítica do filme no Cineplayers, de Alexandre Koball
Mais Henry Fonda no Rato de Biblioteca:
Trailer - As Vinhas da Ira (1940)



Oskar Schindler foi um empresário alemão sudeto durante os anos da II Guerra Mundial; aproveitando as oportunidades comerciais dos tempos de guerra, ele entrou para o Partido Nazista, fez amizade com diversos oficiais e conseguiu comprar uma fábrica falida de esmaltados. Mais tarde ele usaria sua posição e influência para salvar a vida de mais de 1200 judeus. Sua história é contada no livro “A Lista de Schindler” (originalmente Schindler´s Ark) do escritor australiano Thomas Keneally, e mais tarde levada às telas por Steven Spielberg.



O livro foi lançado em 1982, e apesar de ter os direitos de filmagem e assumir a produção, Spielberg realizou este filme apenas em 1993, pois não se achava preparado para contar uma história tão importante sendo tão jovem na época. Ele queria entregar a direção a outra pessoa, mas acabou sendo convencido a dirigir o filme, pelo qual não aceitou pagamento algum.



Lygia Fagundes Telles (19/04/1923) é advogada e escritora, eleita para a Academia Paulista e a Academia Brasileira de Letras; seus livros foram traduzidos para diversos idiomas e receberam diversos prêmios. Lygia, junto com seu companheiro Paulo Emilio Salles, adaptou para o cinema a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, no filme Capitu. Após a morte de Paulo Emilio ela assumiu a direção da Cinemateca Brasileira, fundada por ele. Ativa até hoje, Lygia participa de eventos literários e em maio deste ano, participou do programa Letra Livre, da TV Cultura de SP.
Esta foi a resenha de junho para o 
Andrea Sachs acabou de sair da faculdade e conseguiu o emprego “pelo qual um milhão de garotas dariam a vida”: assistente da poderosa Miranda Priestly, editora da revista de moda Runway. Andy percebeu rapidamente que seu trabalho não seria fácil; mas ela levou um pouco mais de tempo para perceber o que era importante em sua vida…

O romance foi adaptado para o cinema em 2006, com
A transformação visual de Andrea também é bem marcante no filme; de patinho feio em roupas caipiras, meias grossas e sapatos baixos e fechados, ela se transforma em um modelo de elegância na última moda, com roupas modernas, saias curtas, saltos altos, e sempre em preto e branco (provavelmente também de grife, mas eu não saberia dizer a diferença).



O romance de estreia de Isabel Allende narra a história da fictícia família Trueba, ao longo de quatro gerações e de boa parte do século vinte, culminando no golpe de estado que levou os militares ao poder. Unindo uma narrativa ágil, realismo fantástico e personagens ricos e complexos, a autora criou um romance fascinante.
Em 1982 a história foi adaptada para o cinema com direção de Bille August e um elenco de estrelas. O filme tornou-se um sucesso de público, pois concentrou-se na história de amor de Estéban (







