Publicado em Outubro - 30 - 2010

As Vinhas da Ira

(capa da primeira edição)

(capa da primeira edição)

Na época da Grande Depressão nos EUA, uma família de agricultores rendeiros abandona suas terras em Oklahoma e parte para a Califórnia em busca de emprego e uma vida melhor. Como milhares de pessoas que partiram em busca do mesmo sonho, eles encontraram miséria, desemprego e fome. Esta história que retrata as dificuldades de milhares de emigrantes, representados na família Joad, deu a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940.

O romance começa quando Tom Joad volta para casa depois de cumprir pena por matar um rapaz em uma briga. Ele encontra sua família pronta para partir para a Califórnia, pois a seca prolongada (o Dust Bowl, tempestades de areia causadas pelo esgotamento e desertificação do solo, e que duraram quase dez anos na década de 30) e a incapacidade de manter a fazenda, agora controlada pelos bancos como muitas outras da região, os forçaram a emigrar.

(Agricultor com os dois filhos durante uma tempestade de areia, no condado de Cimarron, Oklahoma, em 1936 - Foto: Wikipedia)

Eles carregam suas poucas coisas no velho caminhão e partem, atravessando o país pela Rota 66: O Pai, a Mãe, os filhos Tom, Noah, Al, a filha grávida Rosa de Sharon  e seu marido Connie, as crianças Ruthie e Winfield, o tio John, o Avô, a Avó e o ex-pregador Jim Casy, além de um velho cão da família.

A viagem é longa e difícil, e o grupo de treze pessoas e um cão vai sofrendo baixas pelo caminho. Ao chegarem à ilusória Terra Prometida, em vez de um grande pomar com frutas e empregos fartos, eles encontram um cenário desolador: milhares de outras famíias lutando para conseguir os poucos empregos disponíveis, o desprezo e perseguição por parte da polícia e os moradores locais, e a exploração dos patrões, que pagavam cada vez menos por causa do excesso de oferta de mão de obra.

Mesmo com a decepção, a Mãe luta pra manter a família unida e a não deixar que os ânimos se alquebrassem. Com dificuldades cada vez maiores, Mãe e Tom são as personalidades fortes e os lutadores, cada qual ao seu modo. Como na vida, cada um reage de forma diferente à adversidade e na família Joad também é assim: há os que abandonam o barco por não se sentirem com força para enfrentar a luta ou para não sobrecarregar a família, os que enfrentam tudo com coragem e amor, os que amadurecem no processo, e os que enfrentam seus demônios particulares, mesmo sem querer.

A personagem mais marcante é a Mãe; mesmo sem ter um nome na narrativa, ela é uma mulher forte, cuja iniciativa começa a se manifestar quando ela percebe que o Pai estava se deixando levar pelo desânimo e decepção, e que precisaria agir para manter a família unida. Depois de perderem tudo, a família era só o que restava aos Joad. E Mãe, com sua filosofia simples e prática, vai  conduzindo a  família e fazendo o melhor que pode.

“_… Engraçado! A mulher tomando conta da família. A muher dizendo que vai fazer isto e mais aquilo, e que a gente deve ir pra lá ou pra cá. E eu nem ‘tou ligando a isso.

- Mulheres se acostumam mais depressa que os homens - disse Mãe com suavidade. - Uma mulher tem a vida toda nos braços, o homem tem ela na cabeça. Não te preocupa. Quem sabe?… quem sabe? Para o ano a gente terá uma fazendinha.

- Mas por enquanto não temos nada - disse Pai. - E agora vem o inverno, vem uma porção de tempo que não se pode trabalhar. Que é que a gente vai fazer? E não demora chega o dia da Rosasharn. ‘Tou tão desgostoso que nem posso mais pensar. Me afundo nos tempos antigos pra não pensar no futuro. Acho que a nossa vida já se foi, é coisa passada.

- Nada disso - sorriu Mãe. Não é não, Pai. E isto é mais uma das coisas que uma mulher sabe com certeza. O homem vive saltando degraus… nasce uma criança e more um homem, e cada vez que isso acontece é um salto nos degraus da vida… Ele arranja uma fazendinha e perde uma fazendinha, e isto são também saltos. Para a mulher, tudo corre sem parar, que nem um rio; cheio de redemoinhos e pequenas cachoeiras, mas correndo sem parar. É assim que a mulher encara a vida. A gente não se entrega, a gente continua… muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme.”

As Vinhas da Ira mostra de maneira contundente o caos e miséria que se instalaram por causa da Depressão e do controle da economia pelos bancos; o desemprego, os preços cada vez mais altos, a destruição de alimentos para manter os preços altos, um círculo vicioso que trouxe cada vez mais tragédia aos milhares de pessoas que tentavam sobreviver a cada dia: famílias inteiras trabalhando (quando o conseguiam) por alguns cents, que mal davam para comprar o jantar.

Como de costume, Steinbeck intercala a narrativa com capítulos em que discorre sobre o tema do livro, mostrando o cenário mais amplo e levantando questões que nos fazem pensar. No cap. 24 ele fala sobre a fartura da Califórnia, fruto do trabalho de técnicos e especialistas para produzir frutas cada vez melhores, e como o custo da produção, da mão de obra e das dívidas aos bancos faz com que os pequenos proprietários destruam boa parte da produção para manter os preços altos, até que por fim, percam suas propriedades para o banco. Enquanto isso, milhares morrem de fome.

“Os pequenos fazendeiros observam como as dívidas se aproximam deles, insensivelmente, como o crescer da maré. Borrifaram as árvores, sem vender a colheita, têm podado e enxertado, e não puderam recolher as frutas (…) Este pequeno pomar, no ano que vem, pertencerá a uma grande companhia, pois o proprietário será sufocado pelas dívidas.

As obras feitas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços em alta. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carroçadas de laranjas são atiradas ao chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar as frutas, mas agora não podia ser.. (…)

O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas no

chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de ca viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima.”

Nos últimos capítulos do livro paira no ar a posisbilidade de uma revolta dos homens famintos e explorados, que não chega a se concretizar. Mas permanece a sugestão, como única alternativa possível para a situação cada vez pior daqueles pobres diabos. Fugindo de suas terras, encontraram o desprezo dos californianos, que os chamavam de “okies imundos”, perseguiam as crianças que eram mandadas à escola, expulsavam-nos dos acampamentos “Hooverfield”, negavam-lhes empregos e um salário digno. A ira estava prestes a explodir.

O pregador Jim Casy, desesperançado no começo da história, depois de observar as pessoas e muito conversar, acaba por descobrir que a miséria era a causadora de todos os males e que a única solução seria a união do povo, que apenas juntos eles conseguiriam alguma coisa. Não por acaso, ele termina abatido pelos abafa-greves e suas últimas palavras são “Vocês não sabem o que estão fazendo”.

Tom Joad, fugitivo depois de matar o camarada que matou Casy,  pensa e medita em seu esconderijo e percebe que “não presta isso de alguém estar sozinho no mundo”. Quando a Mãe lhe pergunta como vai saber se ele está bem, como terá notícias suas depois que ele se for, Tom responde:

” _Bem, pode ser que o Casy acertou quando diss’que a pessoa não tinha alma própria, mas só parte duma alma grande… e aí…

-Aí o quê, Tom?

- Aí, isso tudo não tem importância. Aí eu estarei em qualquer lugar, na escuridão, estarei no lugar que a senhora olhar  à minha procura. Em toda parte onde tenha briga pra que a gente com fome possa comer, eu estarei presente. Em toda a parte onde um polícia ‘teja maltratando um camarada, eu estarei presente. Imagine, se o Casy soubesse disto! Estarei onde a nossa gente ‘teja berrando de raiva…. e estarei onde crianças ‘tejam rindo porque sentem fome e sabem que vão logo ter comida. E quando a nossa gente for comer o que plantou e for morar nas casas que construiu… aí eu também estarei presente. Sabe, já ‘tou falando direitinho como o Casy. É porque vivo pensando nele. Às vezes, até parece que ‘tou vendo ele.”

O livro causou grande impacto na época de sua publicação, em 1939. Ele foi banido, queimado, discutido, mas principalmente, lido. Steinbeck foi atacado e acusado de propaganda esquerdista e de ter exagerado a situação dos migrantes. Os maiores ataques vieram da Associação dos Fazendeiros da Califórnia. Ainda assim, apesar das acusações de exagero o escritor fez o oposto, suavizando as condições reais, que eram bem piores que as descritas no romance. Muitas das referências políticas e socialistas presentes no filme de John Ford estão ausentes do livro. Na verdade, tanto Steinbeck quanto Ford tiveram de prestar depoimento à Comissão de Assuntos Americanos da era McCarthy por suspeitas “pró-comunistas”.

As Vinhas da Ira, além de dar a John Steinbeck o Prêmio Pullitzer de 1940, foi um dos principais motivos para o comitê do Prêmio Nobel conceder a ele o Nobel de Literatura de 1962. O livro é considerado sua obra-prima e um clássico da literatura norte-americana do século XX, e é lido e estudado nas escolas de segundo grau e universidades dos EUA.

Filme

O filme de 1940, dirigido por John Ford (que ganhou o Oscar de Direção), está em nº 7 na lista dos 100 Filmes mais Inspiradores de todos os tempos e em nº 23 na lista dos Melhores Filmes de todos os tempos, pelo American Film Institute.

O começo do filme é bem fiel ao livro, contudo a segunda metade é um pouco diferente, e a controversa cena final do livro em que Rosa de Sharon, que havia dado à luz um natimorto, amamenta um homem que estava morrendo de fome, não foi incluída no filme por causa dos rígidos códigos de censura da época.  Como de costume, o filme deixa de lado detalhes da narrativa, personagens secundários, altera a ordem de alguns fatos por causa da modificação no final, mas ainda assim é uma obra-prima.

John Steinbeck adorou o filme e disse que ver Henry Fonda como Tom Joad o fez “acreditar em minhas próprias palavras“.  Jane Darwell, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está excelente como Ma Joad e transmite a coragem e a determinação da mulher que luta para   manter a família unida. O filme também é estrelado por Henry Fonda, indicado ao Oscar de Melhor Ator e John Carradine, como o ex-pregador Jim Casy.

A fotografia em preto e branco aproveita bem as cenas noturnas, dando destaque ao rosto dos personagens. A pobreza é bem visível, ainda assim é menos chocante que as descrições do livro e, segundo o produtor David Selznick, não tão ruim quanto a situação real dos migrantes, que foi ver de perto antes da produção do filme. Ironicamente, a exibição do filme foi proibida na então União Soviética por Joseph Stalin, que não gostou que o filme mostrasse que “até os americanos mais pobres podiam ter um automóvel” - o que, segundo ele, era mentira.

Curiosamente, o trailer do filme (veja no final do artigo) mostra mais o sucesso do livro e a compra dos direitos de filmagem que o próprio filme. Mesmo tendo sido indicado ao Oscar, perdeu para E o Vento Levou. Para corrigir a injustiça, no ano seguinte John Ford foi premiado pelo não tão brilhante “Como era Verde o meu Vale”. Coisas da Academia…

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Este artigo faz parte do Desafio Literário 2010 pelo mês de Setembro (OK, antes tarde do que nunca), cujo tema foi Romance Histórico. Para ver as outras resenhas de Setembro no Desafio, clique aqui. E não deixe de ler este livro e ver o filme, ambos são excelentes!

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Para saber mais:

Mais Henry Fonda no Rato de Biblioteca:

Trailer - As Vinhas da Ira (1940)

Publicado em Agosto - 30 - 2010

A mão do hindu / Através do véu

Apesar de mais conhecido pelas histórias do detetive Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle também escreveu ficção científica, poesias, romances e trabalhos de não ficção. Estes dois contos encaixam-se na categoria de histórias paranormais.

Sir Arthur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle

A Mão do Hindu

(The Brown Hand) Publicado em 1899 em The Strand Magazine e mais tarde no volume de contos “Round the Fire Stories”, a história é baseada em uma lenda urbana hindu sobre um homem que teve sua mão amputada e morreu pouco tempo depois, mas continuou vagando pela terra à procura de sua mão perdida.

O conto é narrado pelo Dr Haracre, médico que herdou sua fortuna do tio, Sir Dominick Holden, devido a um episódio curioso ocorrido havia muitos anos.

Sir Holden teve de amputar a mão de um hindu, que a pediu de volta para estar inteiro quando se apresentasse a Alá após sua morte; entretanto, a mão foi perdida em um incêndio e, após sua morte, o fantasma do hindu assombrava o médico e sua esposa todas as noites.

Através de um estratagema, o Dr Haracre consegue tranqüilizar o fantasma e este vai embora, pondo um fim às assombrações noturnas.

“Ao cruzar pela faixa de luz, pude distingui-lo com precisão. Era um homem atarracado, vestido duma espécie de burel escuro, que lhe caía, liso, dos ombros aos pés. Tinha a cor do chocolate e, na cabeça, uma massa de cabelos negros enrodilhada atrás, como certas mulheres usam. Caminhava lentamente, com os olhos fixos na direção dos frascos cheios dos horríveis resíduos humanos. O vulto ergueu as mãos. Não foi bem isso. Ergueu os braços, em gesto de desespero, e percebi que tinha só uma das mãos. O braço direito terminava em um coto.”

Através do Véu

(Through the veil) Neste conto, um jovem casal visita as ruínas de um forte romano na Escócia, onde vivem, e ambos são tomados por recordações dos trágicos acontecimentos durante a destruição do forte e fuga dos romanos, dos quais tomaram parte. A revelação do passado transformou a vida em comum, erguendo uma barreira impossível de ser apagada.

“Nunca falam daquele incidente isolado e estranho em sua vida de casados. Por um instante, a cortina do passado tinha sido afastada, e algum estranho lampejo de uma vida esquecida tinha sido mostrado a eles. Mas o véu caiu, para nunca mais se levantar.”

A Mão do Hindu foi uma das duas histórias selecionadas para o mês de agosto no Desafio Literário 2010, cujo tema foi “Romance Policial”. Escolhi Conan Doyle e foi uma surpresa encontrar contos sobrenaturais, pois o imaginava apenas autor de histórias sobre Sherlock Holmes e, talvez, obras ligadas à medicina.

Os contos são curtos e gostosos de ler, e apesar de não ser exatamente uma história policial, foi uma boa leitura. Já havia lido “Um Estudo em Vermelho” e “O Cão dos Baskervilles” do mesmo autor, e gostei muito. Recomendo todos eles.


Para saber mais:

Publicado em Agosto - 03 - 2010

A Lista de Schindler

“Aquele que salva uma só vida salva o mundo inteiro.” (provérbio Talmúdico)

Oskar Schindler foi um empresário alemão sudeto durante os anos da II Guerra Mundial; aproveitando as oportunidades comerciais dos tempos de guerra, ele entrou para o Partido Nazista, fez amizade com diversos oficiais e conseguiu comprar uma fábrica falida de esmaltados. Mais tarde ele usaria sua posição e influência para salvar a vida de mais de 1200 judeus. Sua história é contada no livro “A Lista de Schindler” (originalmente Schindler´s Ark) do escritor australiano Thomas Keneally, e mais tarde levada às telas por Steven Spielberg.

Oskar e sua esposa Emilie em 1946

A fábrica de esmaltados de Oskar ficava em Cracóvia, na Polônia, e a princípio seus funcionários moravam no recém-criado Gueto de Cracóvia. Após o desmantelamento do gueto em uma ação violenta dos nazistas, os judeus sobreviventes foram levados para o campo de prisioneiros de Plaszóvia, comandado pelo nazista Amon Goeth. Cruel e sociopata, Goeth costumava atirar em prisioneiros sem motivo. Execuções sumárias e espancamentos eram comuns.

Bon vivant, mulherengo e astuto, a princípio Oskar usou seu carisma e habilidades sociais para construir sua carreira de empresário de sucesso. Empregar trabalhadores judeus era um bom negócio nos primeiros anos da guerra, e ele o fez. Mesmo assim, ele repudiava a ideologia e os métodos usados pelos nazistas. Mais tarde, quando percebeu o rumo que as coisas estavam tomando e conheceu as condições em que os judeus tentavam sobreviver, ele empenhou-se cada vez mais para salvá-los. Ao presenciar a Aktion dos nazistas no gueto,  Schindler tomou sua decisão.

“A infâmia de homens nascidos de mulheres e que tinham de escrever cartas para suas famílias (o que diziam nessas cartas?) não era o pior aspecto do que Schindler presenciara. Sabia que eles não tinham vergonha alguma do que estavam fazendo, pois o guarda na retaguarda da coluna não vira necessidade de impedir a garotinha de vermelho de assistir a toda a cena. Mas o pior era que, se não havia a menor vergonha, isso significava sanção oficial. Ninguém mais podia encontrar segurança na idéia de cultura alemã, nem nos pronunciamentos de líderes, que condenavam homens anônimos por terem ultrapassado seus limites, ou por olharem pelas janelas de seus escritórios para a realidade na rua. Oskar tinha visto na Rua Krakusa uma prova da política de seu governo, que não podia ser justificada como uma aberração temporária. Acreditava que os SS estavam cumprindo as ordens de seu líder pois, do contrário, o colega na retaguarda da coluna não teria deixado uma criança assistir à cena.

Mais tarde, nesse dia, depois de ter ingerido uma dose de conhaque, Oskar compreendeu o teorema em seus termos mais claros. Eles permitiam testemunhas, testemunhas tais como a garotinha de verme lho, porque julgavam que as testemunhas iam todas também perecer. (…)

Bem mais tarde, em termos nada característicos do jovial Herr Schindler, o conviva predileto das festas de Cracóvia, o perdulário de Zablocie, isto é, em termos que revelavam - por trás da fachada de playboy - um juiz implacável, Oskar tomou naquele dia uma decisão da qual não mais se afastaria. “A partir daquele dia”, diria ele mais tarde, “ninguém, com capacidade de raciocinar, poderia deixar de ver o que iria acontecer. E agora eu estava resolvido a fazer tudo em meu poder para derrotar o sistema.”"

A vida dos trabalhadores da fábrica de esmaltados ‘Emalia’ era segura, ao menos por enquanto. Uma sopa substanciosa todos os dias e a esperança de sobrevida eram melhores que nada; quando Schindler conseguiu construir seu “sub-campo” junto à fábrica e levou seus funcionários para lá, as coisas ficaram um pouco melhores, sem a presença de Amon Goeth.

“O clima era de frágil estabilidade. Não havia cães. Nem espancamentos.

A sopa e o pão eram melhores e com mais fartura do que em Plaszóvia - cerca de 2.000 calorias por dia, de acordo com um médico que  trabalhava como operário na Emalia. Os turnos eram prolongados, freqüentemente de doze horas, pois Oskar continuava sendo um homem de negócios com contratos de fornecimento de material bélico e o desejo convencional de lucro. Contudo, é preciso dizer que o trabalho não era árduo e que muitos dos seus prisioneiros pareciam ter acreditado na ocasião que aquela atividade era uma contribuição em termos comensuráveis para a sua sobrevivência. “

Em 1944, com a decisão de fechar o campo de Plaszóvia e por consequência, o sub-campo da Emalia, devido ao avanço das tropas russas, o destino dos prisioneiros seria o campo de extermínio de Auschwitz. Oskar usa de toda a sua influência, contatos e suborno para conseguir transferir sua fábrica para Brnenec, na Tchecoslováquia. Para isso, ele precisaria levar seus trabalhadores ‘altamente especializados’ e apenas as pessoas cujos nomes estivessem na lista poderiam seguir para a nova fábrica. Estar na lista significava a vida, e o contrário era a morte certa nos campos.

Esbanjador, Oskar gastava rios de dinheiro em presentes para subornar autoridades, na compra de alimentos para seus funcionários e no que fosse necessário para manter seu esquema de salvamento dos judeus em funcionamento. No final da guerra, ele partiu sem um tostão e por fim, viveu de favores dos amigos e protegidos, os Schindlerjuden que ele havia salvo da morte.

Schindler não fez nada de notável antes nem depois da guerra; mas seus atos durante esses anos terríveis fizeram a diferença para mais de um milhar de vidas. Seus Schindlerjuden o ajudaram e homenagearam durante o restante de sua vida e, ao falecer em 1974, ele foi enterrado em Jerusalém, conforme seu desejo.

Thomas Keneally foi convencido a escrever essa história por Poldek Pffefenberg, um dos sobreviventes da lista, em cuja loja de malas Keneally parou para fazer compras. Após uma longa conversa ele convenceu o escritor, que passou os dois anos seguintes pesquisando e entrevistando sobreviventes,  a contar a história de Schindler.

Apesar de ser uma narrativa de romance, o livro é um ‘romance de não-ficção’; a história é contada com base em diversos depoimentos dos sobreviventes, e nada do que não pôde ser comprovado entrou para o livro. Todos os nomes e acontecimentos são verdadeiros, e Oskar é retratado como era, com todos os defeitos e peculiaridades. A narrativa flui muito bem, e mesmo com tantos detalhes não é um livro cansativo, especialmente do meio para o fim, quando acompanhamos com ansiedade o destino daquelas pessoas e nos revoltamos com as atrocidades cometidas em tempos de guerra.

Felizmente para os 1200 judeus de Schindler, para eles a história teve um bom final. Como eles diziam, “uma hora de vida é ainda vida”. Mas isso não evita a indignação por tudo o que aconteceu, e que esperamos nunca venha a acontecer novamente. Este é um relato honesto e humano de um dos poucos episódios bonitos em meio a tanta crueldade e desprezo pela vida.

O Filme

O livro foi lançado em 1982, e apesar de ter os direitos de filmagem e assumir a produção, Spielberg realizou este filme apenas em 1993, pois não se achava preparado para contar uma história tão importante sendo tão jovem na época. Ele queria entregar a direção a outra pessoa, mas acabou sendo convencido a dirigir o filme, pelo qual não aceitou pagamento algum.

O filme, em preto-e-branco, teve uma produção caprichada e atuações impressionantes tanto de estrelas como Liam Neeson (Schindler), Ben Kingsley (Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (Amon Goeth), quanto de atores pouco conhecidos que interpretam com talento e dignidade os sobreviventes da lista.

Com este filme Spielberg finalmente foi reconhecido pela Academia e recebeu seu primeiro Oscar de direção. O filme também recebeu o prêmio de Melhor Filme, em um total de 7 Oscars.

Com a bela música de John Williams, o filme termina com os verdadeiros sobreviventes da lista levando pedras ao túmulo de Schindler. Emocionante. Uma verdadeira obra-prima do cinema, que nos desperta emoções diversas e nos faz pensar sobre a vida e a morte, e como a diferença entre elas pode ser pequena.

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Esta resenha faz parte do Desafio Literário 2010, cujo tema do mês de julho foi “Adaptação para o cinema”. Este mês só atrasei um pouquinho, e a leitura valeu a pena. Recomendo o livro e o filme, que apesar de contarem uma história intensa e triste, também nos lembram que não há bem ou mal isolados, e  como uma pessoa pode fazer a diferença.

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Trailer - Schindler´s List

Publicado em Julho - 19 - 2010

Seminário dos Ratos

capa da primeira edição

Seminário dos Ratos é um livro de contos de Lygia Fagundes Telles, publicado pela primeira vez em 1977. Nos 14 contos, ela fala de temas como a morte e os dramas íntimos dos personagens, como o remorso, a repressão, amores não correspondidos e o medo da morte.

Os contos são bem diferentes entre si, apesar dos temas em comum. Os protagonistas podem ser um homem que analisa sua vida e percebe os erros cometidos e as consequências de suas decisões (A Sauna), uma mulher de meia idade que, ao redigir mentalmente uma carta, expõe menos sua indignação e mais suas frustrações e desejos reprimidos (Senhor Diretor), uma mulher que, em um devaneio ou projeção mental, encontra seus familiares em uma reunião de catarse e perdão pelos erros do passado (Noturno Amarelo) ou uma moça suburbana que persegue sua obsessão pelo homem “ideal”, mesmo após décadas após ter casado e constituído família com outro (Pomba Enamorada).

“Pior do que a ausência do amor, a memória do amor.”

(Lua crescente em Amsterdã)

Alguns contos têm elementos sobrenaturais, seja no desfecho das histórias, seja no estilo de narração. Por vezes não sabemos se aquilo é um sonho ou realidade, se é um sintoma de perturbação mental ou algo de outro mundo. Essa ambiguidade torna os contos interessantes e a prosa ágil de Lygia nos envolve no drama das personagens criadas por ela.

Os contos que mais gostei foram A mão no ombro e a divertida Pomba Enamorada; alguns contos foram mais difíceis de compreender, mas no geral é uma boa opção de leitura. Eu já conhecia vários contos de Lygia, mas este foi o primeiro livro de contos dela que li por inteiro. Também havia lido trechos de vários romances no volume dedicado a ela da coleção “Literatura Comentada”, vendida em bancas na década de 80 e que comprei para ajudar na preparação para o vestibular, mas que me mostrou diversos autores novos e muitos futuros livros preferidos.

Na minha opinião, no volume de LC sobre Lygia destacaram-se os contos “A confissão de Leontina” (publicado em “O cacto vermelho”, de 1949) e “Apenas um saxofone” (do livro Antes do baile verde, de 1969), trechos do romance “As Meninas” (de 1973) e a interpretação da autora do conto de Machado de Assis, “Missa do Galo”.

Lygia Fagundes Telles (19/04/1923) é advogada e escritora, eleita para a Academia Paulista e a Academia Brasileira de Letras; seus livros  foram traduzidos para diversos idiomas e receberam diversos prêmios. Lygia, junto com seu companheiro Paulo Emilio Salles, adaptou para o cinema a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, no filme Capitu. Após a morte de Paulo Emilio ela assumiu a direção da Cinemateca Brasileira, fundada por ele. Ativa até hoje, Lygia participa de eventos literários e em maio deste ano, participou do programa Letra Livre, da TV Cultura de SP.

Nas palavras de Lygia:

“A função do escritor? Escrever por aqueles que muitas vezes esperam ouvir de nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e, se possível, mesmo por caminhos ambíguos, ajudá-lo no seu sofrimento. Na sua fé. Isso requer amor - o amor e a piedade que o escritor deve ter no coração.”

Esta foi a resenha de junho para o Desafio Literário 2010, cujo tema era “livro de escritora brasileira”. Devido ao excesso de trabalho naquele mês, não tive tempo de terminar o livro e publicar a resenha, então, mesmo com atraso, aqui está ela. Agora vou começar um dos livros escolhidos para julho, e espero não atrasar mais!

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Publicado em Maio - 17 - 2010

O Diabo veste Prada

Andrea Sachs acabou de sair da faculdade e conseguiu o emprego “pelo qual um milhão de garotas dariam a vida”: assistente da poderosa Miranda Priestly, editora da revista de moda Runway. Andy percebeu rapidamente que seu trabalho não seria fácil; mas ela levou um pouco mais de tempo para perceber o que era importante em sua vida…

Apesar de sonhar em trabalhar como jornalista no The New Yorker, Andrea aceita o emprego porque lhe fora dito que, após um ano como assistente de Miranda, se tudo corresse bem ela estaria apta a uma promoção, podendo até escolher em qual departamento trabalhar. Portanto, seria apenas um ano até conseguir o verdadeiro emprego dos seus sonhos.

Andrea logo percebe que seu trabalho incluía levar o cãozinho das filhas de Miranda ao veterinário, mandar suas roupas sujas para a lavanderia, providenciar para que as saias de Miranda fossem despachadas em seu jato particular para a propriedade de Oscar de la Renta no Caribe,  fazer o impossível para descobrir uma cômoda que Miranda havia visto em um antiquário (qual? em que rua? nem pensar em perguntar a ela), embrulhar os presentes de Natal que seriam enviados em nome de Miranda, providenciar um almoço de 95 dólares que seria jogado no lixo porque Miranda já havia almoçado e esquecera de avisar. E, principalmente, estar à disposição dela 24 horas por dia, 7 dias da semana.

“Para a maioria das pessoas, a campainha do telefone era um sinal bem-vindo. Alguém estaria querendo falar com você, dizer um alô, saber como está, ou fazer planos. Para mim, desencadeava medo, ansiedade intensa, e pânico de fazer parar o coração. (…)

do ponto de vista de Miranda, simplesmente não havia razão, qualquer que fosse, para o celular ser desligado. Nunca deixaria de ser atendido. As poucas razões para tal situação que eu coloquei para Emily, quando recebi o celular - um suprimento padrão Runway - com a instrução de atender sempre, foram rapidamente eliminadas.

-  E se estiver dormindo? - perguntei, de maneira idiota.

-  Acorde e atenda - ela respondeu, lixando uma unha lascada.

-  E em um jantar sofisticado?

-  Seja como qualquer nova-iorquino e atenda à mesa do jantar.

-  Fazendo um exame ginecológico?

-  Não estarão examinando seus ouvidos, estarão? Está bem, entendi.

Eu detestava esse maldito celular, mas não podia ignorá-lo. Ele me mantinha atada a Miranda como um cordão umbilical, recusando-se a me deixar crescer, ou me soltar ou me afastar da minha fonte de sufocação. Ela ligava constantemente: e como um experimento pavloviano doentio que escapou do previsto, o meu corpo tinha começado a responder visceralmente à sua campainha. Triimm-triimmm. Aumenta o ritmo cardíaco. Trimmmm. Dedos se apertam e ombros se retesam automaticamente. Tríiiimmmmmm. Oh, por que ela não me deixa em paz, por favor, oh, por favor, esqueça que estou viva - o suor irrompe em minha fronte. “

Apesar de não ser preocupada com moda, depois de três meses tentando criar uma aparência aceitável (do ponto de vista deles) para o trabalho com suas próprias roupas, Andy desiste e começa a aceitar roupas e acessórios que o diretor de moda “emprestava” para as garotas. Quando começa a se vestir com roupas de grife, Andrea não recebe mais (tantos) olhares de reprovação de Miranda. Ela até começa a gostar de seu novo visual.

Uma coisa que acabou sendo irritante no livro é que a cada parágrafo havia pelo menos uma dúzia de nomes de grifes famosas, e os preços das coisas e principalmente o desperdício me davam nos nervos. Além do almoço de 95 dólares (!) mencionado acima, que foi para o lixo com taças de cristal e guardanapos de linho acompanhando, havia os cafés da manhã que eram comprados e jogados fora para serem comprados novamente, até que Miranda chegasse e o encontrasse em sua mesa, na temperatura certa.

Também havia as echarpes brancas Hermès, de duzentos dólares cada, as quais Miranda sempre usava uma, seja qual fosse a roupa que estivesse usando, e que esquecia por toda parte. Quando Hermès parou de fabricar aquele modelo, a revista comprou todo o estoque disponível (cerca de quinhentas), para que Miranda nunca ficasse sem sua echarpe branca. Depois de alguns anos de desperdício, ainda havia umas duzentas echarpes, e ninguém gostaria de estar por perto quando Miranda soubesse que elas haviam acabado.

As exigências de 14 a 16 horas por dia de trabalho desumano acabam afetando a saúde de Andrea e seu relacionamento com o namorado Alex e a amiga Lily; Andrea emagrece, não tem tempo para Alex, deixa de dar atenção a Lily, cujo comportamento vai se tornando auto-destrutivo, até que uma crise faz que ela perceba quais são suas verdadeiras prioridades. Andrea abandona Miranda em Paris (não sem antes dizer-lhe um sonoro palavrão) e volta para casa, para ficar com a amiga Lily no hospital. Depois de um tempo ela vende as roupas caríssimas que ganhou da revista ( o que dá um belo pé-de-meia de 38 mil dólares) e começa a trabalhar como jornalista freelancer, vendendo algumas histórias para a revista Seventeen.

Em seu primeiro romance, O Diabo veste Prada (2003), Lauren Weisberger conta de forma ficcionalizada sua experiência como assistente de Anna Wintour, editora da Vogue. O livro recebeu críticas mordazes após o lançamento; Kate Betts, editora de Harper’s Bazaar que também trabalhou com Wintour, aponta a ingratidão de Weisberger, que não reconhece a oportunidade inestimável de trabalhar com uma grande editora de moda.

“Ela esteve dentro de uma das grandes franquias editoriais em um negócio que exerce enorme influência sobre as mulheres, mas parece não ter compreendido quase nada sobre o isolamento e pressão do cargo de sua chefe, ou qual o preço de uma pessoa como Miranda Priestly se tornar um personagem como Miranda Priestly. Certamente há muitas forças sociais em ação no mundo da moda, como em todas as sub culturas, e as Mirandas do mundo, mesmo que pareçam vítimas de sua própria psiciologia, também são um reflexo de nós mesmos - nossas ideias sobre estilo, nossa fome de glamour, nossa necessidade ancestral de um antagonista consumado em um terninho vermelho elegante.” Fonte: resenha no New York Times

Filme

O romance foi adaptado para o cinema em 2006, com Meryl Streep encarnando a terrível Miranda Priestly e Anne Hathaway como Andrea Sachs. O elenco também tem Emily Blunt como Emily, a assistente sênior de Miranda, e Stanley Tucci como o diretor de moda Nigel. Tucci mais tarde trabalhou com Streep como o marido de Julia Child em Julie e Julia.

O roteiro mudou alguns detalhes do filme, como a cena em que Andrea desiste do emprego, o nome e profissão do namorado Nate (Alex no livro), o desfecho do quase relacionamento entre Andrea e o escritor Christian Thompson (Collinsworth no livro) e a personagem da amiga Lily, bem diferente no livro e no filme. O que também mudou foi o motivo por que Andrea teve de ir a Paris, acompanhando Miranda. Mas todas essas mudanças não prejudicaram a história, e deram mais agilidade ao roteiro.

Mas a maior diferença, embora sutil, é que a Miranda do filme chega a ser quase humana; ela se cansa, sofre com o divórcio, até desabafa com Andrea. No livro, ela é uma rainha de gelo, uma deusa cruel e inatingível, e a autora não deseja despertar a mínima simpatia pelo personagem. Quando ela é interpretada por Meryl Streep, tudo é possível, até transformar Miranda em um ser humano. Na verdade, é exatamente a interpretação de Streep que transforma esta adaptação em um ótimo filme.

A transformação visual de Andrea também é bem marcante no filme; de patinho feio em roupas caipiras, meias grossas e sapatos baixos e fechados, ela se transforma em um modelo de elegância na última moda, com roupas modernas, saias curtas, saltos altos, e sempre em preto e branco (provavelmente também de grife, mas eu não saberia dizer a diferença).

No filme, Andrea chega a compreender e admirar Miranda: “Miranda é vista como o diabo porque é mulher. Se fosse homem, suas ações seriam vistas como ótimas”. Ponto para o machismo.

Nigel: Me avise quando sua vida pessoal virar fumaça; então você estará pronta para uma promoção.”

Esta foi a resenha de maio para o Desafio Literário 2010. O tema deste mês foi chick-lit, que não é o meu gênero preferido de leitura. Até que dei sorte, pois o livro foi interessante e eu já estava com boa disposição para lê-lo, por ter gostado do filme.  Como na maioria das vezes, há diferenças entre o livro e o filme, e neste caso foi um empate técnico. O livro é mais detalhado (especialmente no calvário de Andrea e nas tarefas absurdas que ela tem de cumprir), mas a interpretação de Meryl Streep vale o ingresso. Ou a locação.

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Para saber mais:

Trailer: O Diabo veste Prada

Publicado em Abril - 23 - 2010

A Casa dos Espíritos

O romance de estreia de Isabel Allende narra a história da fictícia família Trueba, ao longo de quatro gerações e de boa parte do século vinte, culminando no golpe de estado que levou os militares ao poder. Unindo uma narrativa ágil, realismo fantástico e personagens ricos e complexos, a autora criou um romance fascinante.

Apesar de ser um romance de ficção, Isabel Allende reconhece que boa parte da história foi inspirada em sua própria família. O livro foi lançado em 1982 e tornou-se um sucesso imediato, sendo traduzido para mais de 20 idiomas. O país onde acontece a história nunca é identificado, mas é possível saber que a autora está falando de sua pátria, o Chile.

A “casa dos espíritos” é o casarão na esquina que Estéban Trueba constrói na capital para sua esposa Clara. De origem humilde, Estéban trabalhou durante dois anos nas minas para guardar dinheiro e casar-se com Rosa del Valle. Mas a moça morre envenenada por engano e, desiludido, o rapaz decide reerguer a propriedade da família, a fazenda Las Tres Marias.

Estéban é um homem rude e com péssimo caráter. Autoritário e propenso a acessos de cólera, costumava violentar camponesas da sua fazenda e gerou um número enorme de bastardos. Após o casamento isso parou, mas seu mau humor e cólera continuaram até o fim de sua vida. Um de seus netos bastardos, Estéban Garcia, aparece mais adiante na história com o ódio acumulado em gerações contra as injustiças e abusos do patrão.

Muitos anos mais tarde, ele retorna à capital por ocasião da morte da mãe, de quem cuidou a vida toda sua irmã Férula. Estéban decide então pedir Clara, a irmã mais nova de Rosa, em casamento.

Clara é uma alma sensível e possui dons de telepatia, premonição, telecinese e um contato estreito com as almas do “mais-Além”. Ela pede a Férula que vá morar com eles e esta se ocupa do lado prático da vida doméstica, além de idolatrar a cunhada, o que causa ciúmes em seu irmão. Num acesso de fúria e ciúmes, Estéban expulsa a irmã de sua casa, e esta o amaldiçoa.

Estéban e Clara têm três filhos: Blanca e os gêmeos Jaime e Nicolau. Blanca se encanta desde a infância por Pedro Tercero Garcia, filho do capataz de Las Tres Marias. O menino cresce e tem contato com ideias de justiça e direitos dos trabalhadores, o que não agrada ao patrão. O que Estéban também não aprova é o amor de Pedro e Blanca, que se encontram às escondidas.

Quando os amantes são denunciados pelo Conde de Satigny, Estéban descarrega sua ira na filha e na esposa. Clara decide não falar mais com o marido, que casa Blanca com o Conde contra a sua vontade. Pedro consegue fugir e torna-se um cantor popular, que celebra os sonhos de liberdade e justiça do povo oprimido. Blanca mais tarde abandona o marido e volta à casa de Clara, que está cada vez mais ligada às coisas do espírito e menos às coisas da terra. Alguns anos mais tarde, Clara morre tranquilamente, e a única afeição de Estéban agora é sua neta Alba.

O tempo passa e Alba está envolvida com a causa popular, assim como seu tio Jaime e Miguel, irmão da antiga namorada de Nicolau, Amanda.  Estéban Trueba é agora Senador do partido Conservador e luta com todas suas forças e influência para evitar que o candidato de esquerda chegue ao poder.

Quando isso finalmente acontece, apesar dos esforços de Trueba, o país sofre grandes mudanças, e os conservadores, com a ajuda de estrangeiros e dos militares, tramam um golpe de estado. O resultado é o caos e milhares de mortes, torturas e perseguições, das quais são vítimas vários personagens da história.

A última parte do livro é a mais intensa, e contrapõe o amor de Estéban Trueba e sua neta Alba e as diferenças ideológicas entre eles. No cenário violento após o golpe, antigos ódios são abrandados e, se não vemos um final feliz, pelo menos há a redenção para quem odiou durante toda a sua vida.

O livro é excelente e, apesar de longo, consegue prender a atenção nas mais de trezentas páginas. Com muitos detalhes e personagens secundários (muito bem construídos, por sinal), os episódios são narrados alternadamente por Estéban (na primeira pessoa) e por Alba (na terceira pessoa). O motivo das duas narrativas é explicado por ela no epílogo.

Uma curiosidade é que as quatro gerações de mulheres Del Valle têm nomes com o mesmo significado: Nívea del Valle é a mãe de Rosa e Clara. Clara del Valle Trueba é a mãe de Blanca, que por sua vez é a mãe de Alba. Como Clara explicou, “os nomes repetidos criavam confusões nos cadernos da vida”. Daí, os nomes diferentes que significam a mesma coisa. Em certo ponto, Clara comenta que Alba poderá recorrer a nomes estrangeiros para continuar o costume, quando tiver uma filha.

Não é surpresa que Clara mencione a futura filha de Alba; neste romance, as mulheres dominam a trama. Nívea, com a plácida aceitação de sua condição de esposa e mãe, protege Clara dos problemas do mundo e incentiva seus dons de clarividência. Clara, apesar de absorta e alheia ao mundo prosaico, mostra uma grande força interior quando se vê diante das dificuldades da vida. Férula no íntimo não aceita os sacrifícios que teve de fazer e mostra toda sua natureza amorosa  retribuindo com cuidados e dedicação o amor que recebe de Clara. Blanca sabe o que quer, e sua determinação a mantém no caminho de seu coração, ainda que tenha de enfrentar oposição e dificuldades, e é uma mulher capaz de grandes sacrifícios pelos que ama. Alba cresceu protegida  e cedo tomou contato com as injustiças do mundo, através dos olhos do amor e dos amigos. Os sofrimentos por que passou poderiam ter-lhe despertado o ódio, mas ao rever a história de sua família pôde compreender que nenhum acontecimento é inútil, e que os destinos de todos estão entrelaçados.

“Em alguns momentos tenho a impressão de que já vivi isto e que já escrevi estas mesmas palavras, mas compreendo que não sou eu, mas  outra mulher, que escreveu nos seus cadernos para que eu viesse a servir-me deles. Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o transito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas.

Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória. E agora procuro o meu ódio e não consigo encontrá-lo.”

Filme

Em 1982 a história foi adaptada para o cinema com direção de Bille August e um elenco de estrelas. O filme tornou-se um sucesso de público, pois concentrou-se na história de amor de Estéban (Jeremy Irons) e Clara (Meryl Streep) e de Blanca (Winona Ryder) e Pedro (Antonio Banderas).

Toda a parte política da história, que no livro tem papel importante para compreender o caráter e as motivações das personagens, aqui é apenas um cenário. Mesmo o terremoto, que muda o curso de várias vidas e tem consequências trágicas, é mencionado apenas de passagem.

Ainda assim, o filme é adorável e, como sempre, Meryl Streep, Jeremy Irons e Glenn Close (Férula) confirmam o grande talento que têm.

Eu havia visto o filme quando foi lançado em vídeo, há mais de 20 anos, e não lembrava de muita coisa. Quando terminei de ler o livro decidi rever o filme, e tive a impressão de serem duas obras diferentes. Para que a longa história coubesse em pouco mais de duas horas de filme, reduziram-se muitos detalhes e episódios vividos por Blanca e Alba foram reunidos em uma personagem só (no caso, Blanca). Para isso, o espaço cronológico da história também foi encurtado em uns 20 anos.

Não é fácil adaptar um livro tão rico em histórias interessantes e detalhes para uma narrativa tão curta, mas o esforço valeu a pena. O filme é bem-feito e interessante, mas ainda assim, recomendo: não deixe de ler o livro, é muito melhor.

*    *   *

Este livro foi minha escolha para o Desafio Literário no mês de Abril, cujo tema eram os escritores latino-americanos. Adorei ter lido Isabel Allende, e não por coincidência ela tem sido um dos autores mais lidos do desafio este mês. Já descobri, através de ótimas resenhas, mais livros dela que quero ler:

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Para saber mais:

Trailer - A Casa dos Espíritos

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