Publicado em Janeiro - 17 - 2009

Casa de Areia e Névoa

Quando dos Oscars de 2004, ouvi falar deste filme; três indicações (melhor ator, Ben Kingsley; melhor atriz coadjuvante, Shohreh Aghdashloo,  e melhor trilha sonora), me pareceu muito bom. Mas como eu realmente não tenho pressa em assistir aos lançamentos, só fui assisti-lo quando passou na TV paga.  O filme realmente é muito bem feito, boa fotografia (o diretor, Vadim Perelman, era diretor de comerciais quando leu o livro, adorou e decidiu realizar seu primeiro filme de longa metragem; escreveu o roteiro em conjunto com o autor do livro e o resultado é um visual deslumbrante e um roteiro bem fiel ao livro), os atores estão ótimos… mas aí vem a história.

Kathy (Jennifer Connely) é uma mulher que foi abandonada pelo marido, ambos ex-viciados, e que após a separação deixou de abrir a correspondência, entre outras coisas típicas de quem passou por uma dessas.  Mas na correspondência descartada estava uma cobrança de taxas municipais (cobradas indevidamente), o que faz com que ela perca a casa e esta vá a leilão.

Massoud Behrani (Ben Kingsley) é um ex-oficial iraniano que teve de abandonar seu país quando da queda do Xá; americano naturalizado, ele mora com a família em São Francisco, e trabalha como operário de limpeza de estradas durante o dia e de balconista em uma loja de conveniências, à noite. Mas a família e os conhecidos não sabem disto; ele mantém uma imagem de prosperidade, gastando aquilo que não pode para alugar um apartamento de luxo no bairro onde moram os iranianos ricos, e relacionar-se com pessoas prósperas, para que possa casar bem sua filha. Após o casamento dela, ele decide investir o pouco capital que lhe resta em uma casa comprada em leilão, revendê-la pelo preço de mercado e iniciar uma carreira de especulação imobiliária.

Acontece que a casa comprada em leilão é a de Kathy, que de repente se vê sem ter aonde ir, sem marido, sem amigos, e sem ter contado nada à família , nem mesmo sobre a separação. Um policial (Lester) aproxima-se dela e aos poucos surge um envolvimento entre eles, que cresce e faz que ele abandone sua família.

Nem Kathy abre mão de conseguir sua casa de volta (dela e do irmão, herança do falecido pai), nem Behrani abre mão de ficar com a casa e obter lucro (merecido, segundo ele) com sua venda. As coisas começam a se complicar quando Lester resolve intervir em defesa de Kathy, e a partir daí tudo acontece muito rápido, decisões, emoções e atitudes com conseqüências inesperadas e um final trágico.

Fiquei realmente sem fôlego ao fim do filme; como as pessoas, por teimosia, cobiça, preconceitos e medo, podem tomar atitudes que acabam levando a um caminho sem volta? Como as coisas poderiam ser diferentes se a cadeia de acontecimentos tivesse sido interrompida; como um mau julgamento ou uma impressão errada sobre os sentimentos de outra pessoa pode levar a uma atitude precipitada… É um daqueles filmes que nos deixa pensando por dias, sobre o que aconteceu e o que ‘poderia’ ter acontecido se… e graças a Deus que é apenas ficção.

Filme x Livro

Algum tempo depois li o livro, escrito por Andre Dubus III (em inglês; ainda não foi traduzido para o português). A primeira parte é narrada em primeira pessoa, alternadamente entre Kathy e Behrani; esse recurso mostra claramente o pensamento de cada um, os preconceitos e a negação que cada um faz de seus próprios defeitos ou problemas; ela, ao racionalizar seu vício (álcool, no filme, e cocaína e álcool, no livro), atribuindo boa parte da culpa ao ex-marido viciado; ele, ao atribuir sua decadência material às injustiças sofridas pela elite militar que ajudava o ex-Xá do Irã, e atribuindo a culpa de tudo ao serviço Secreto (SAVAK), que, com sua truculência, ajudou a causar a revolta que levou à queda do regime do Xá.

Ambos se sentem injustiçados, e não abrem mão do que crêem ser seu por direito.  Behrani não entende a revolta da esposa, e seu caráter melancólico desde que a família teve de deixar o Irã; afinal, ele não fez o possível para proteger a família?

“ Pois ela estava muito errada a respeito do meu envolvimento com a polícia secreta, SAVAK. Eu pouco tinha a ver com os assuntos deles. E é claro, ela nunca antes reclamou de todos os nossos privilégios; ela nunca reclamou das criadas e soldados que ela usava na manutenção da casa; ela nunca reclamou das viagens para esquiar nas montanhas do norte, ou de nosso bangalô, sobre o Mar Cáspio em Chahloose; ela nunca reclamou dos vestidos finos que ela podia usar nas festas dos generais e juízes e advogados e atores e cantores famosos; ela nunca reclamou quando numa tarde de domingo eu ordenava a Bahman para levar minha família ao cinema mais fino em Teerã e é claro havia uma longa fila de pessoas esperando, mas eu estava vestido em meu uniforme então nós nunca esperávamos, nós nem mesmo pagávamos; éramos conduzidos ao balcão reservado às Pessoas Muito Importantes, longe da multidão. E sim, eu via com freqüência o medo por trás dos sorrisos daqueles gerentes de cinema enquanto eles acenavam e nos conduziam pessoalmente aos nossos assentos, e sim, ninguém que esperasse na calçada ousava fazer uma queixa que eu pudesse ouvir; mas não havia sangue em meus dedos. Eu comprava jatos. Eu não era da SAVAK.”

No livro também é mais claro o preconceito dos personagens: Behrani pensa que os americanos são um povo fraco, sem disciplina, que não merecem a prosperidade que têm; em sua narrativa, ele se refere a Kathy como gendeh, prostituta, talvez pelas suas roupas, ou pela bebida. Em um momento de confronto com Kathy, ele lhe diz: “Em meu país, você não seria digna de erguer seus olhos para mim. Você é nada. Nada.”

A atitude em relação às mulheres também se revela em seus comentários sobre a esposa, Nadereh (Shohreh Aghdashloo): “Minha esposa tem cinqüenta anos, mas ela falava como uma garotinha, uma recém-casada. Eu pensei que talvez ela estivesse desapontada comigo, mas então reparei em seu sorriso, no modo como ela mantinha seu queixo baixo, olhando para mim com aqueles olhos de gavehee, e enquanto ela tomava minha mão e me levava pelo corredor de volta a seu quarto, meu coração era uma pedra pesada caindo na água e minha respiração estava suspensa como a de um garoto que avalia sua boa fortuna.”

Outro episódio revelador é a morte da prima, Jasmine, morta com um tiro pelo pai quando este soube do caso amoroso da filha com um americano; Behrani diz que, apesar do comportamento impróprio da prima, nunca agiria como o tio, resolvendo as coisas com um revólver: “Eu odiei meu tio, acreditando que ele agiu arrebatadamente e com muita paixão. Nós somos uma família educada; não precisamos viver como a classe de camponeses, resolvendo nossas questões com sangue derramado”. Em outro momento ele admite que já “levantou a mão” para a esposa:

“Eu nunca aprovei a violência contra a mulher, apesar que sim, eu bati em minha esposa em uma ocasião, mas me arrependi profundamente do incidente. Uma vez em nossa casa em Teerã, eu bati na face de Nadi por erguer a voz para mim na presença de um jovem oficial. Seus olhos se encheram de tristeza e humilhação e ela saiu chorando da sala. Mais tarde naquela noite, quando ela ainda não falava comigo, eu levantei a manga de minha camisa, acendi um charuto turco e pressionei a brasa em minha carne. Eu queria chorar mas não o fiz. Acendi o charuto de novo e me queimei novamente. Fiz isto cinco vezes, e pedi perdão a Deus a cada queimadura da minha carne.”

O preconceito também fica evidente na pessoa de Lester, que considera o iraniano um cidadão de segunda categoria, que roubou a legítima propriedade de Kathy; e no modo como os trata e se sente a seu respeito:

“Lester estava com sede e queria beber do chá que a mulher do coronel lhe servira, mas fazê-lo naquele momento pareceria um movimento conciliatório, como se ele fosse um cão expondo sua garganta a um cão mais forte. Ele olhou novamente para a foto emoldurada na parede, de Behrani discursando para o Xá do Irã, um homem sobre quem Carol contara, há muitos anos, ter mandado fuzilar centenas, talvez milhares de pessoas em uma tarde por terem ousado um protesto desarmado contra ele e sua comitiva. ( … ) Ele começou a se sentir amedrontado, e quis chutar o coronel nos dentes, este amigo de ditadores, este homem que se recusou a vender de volta a Kathy sua casa “.

Na segunda parte do livro (talvez pelos fatos escaparem à ciência dos dois personagens principais), aparece um narrador em terceira pessoa, onisciente, nos momentos em que Lester conduz a ação e Kathy e Behrani não estão presentes. Essa mudança de foco narrativo  destoa um pouco do começo do livro, mas não estraga o rumo da história.  No filme, o final trágico é atenuado em parte por não mostrar as reais conseqüências para Kathy e Lester, focalizando apenas na tragédia em si. No livro, as conseqüências são mais claras, mostrando as perdas e danos de todos os personagens.

ATENÇÃO: SPOILER (não leia se você ainda não viu o filme ou não leu o livro)

Esta é uma história trágica porque todos os personagens perdem, de algum modo; alguns, a vida; outros, todo o resto. Vemos toda a família Behrani destruída, por causa do caráter controlador de Massoud; ele não admite perder a casa que tornou-se seu único investimento e chance de ascensão social; não admite ter de retornar à condição de trabalhador braçal, ou ter de iniciar uma carreira que não a anterior, na indústria aeronáutica (inviabilizada por seu passado no antigo regime iraniano). Por isso, em um momento de atitude impensada do filho, ele o encoraja a tomar a atitude que, agora sabemos, é a pior possível.

Depois da tragédia consumada, ele tenta ‘poupar’ Nadereh do trauma iminente, e tira-lhe a vida por ‘saber’ que ela não o suportaria, e por achar que é seu dever ‘protegê-la’. Por fim, antes de tirar a própria vida, deixa uma carta para a filha, dizendo a ela o que fazer com a casa. Interesante é sua atitude em relação a uma força superior; no momento do desespero, ele diz que vai fazer nazr, que vai entregar a casa a Kathy se a vida do filho for poupada. Quando isto não acontece, ele impede que a casa fique com Kathy, dizendo (em testamento) que a deixa para Soraya, a filha. É uma atitude curiosa, de tentar barganhar com Deus. Até neste momento ele tenta controlar o desenrolar das circunstâncias, como esteve acostumado toda sua vida. Lester, que aproveitou o incidente com Kathy para dar a virada em sua vida que sempre desejou fazer e nunca teve coragem, acaba perdendo a liberdade, Kathy, e a vida em família. Por suas atitudes em pressionar Behrani, mesmo infringindo a lei, ele acaba responsabilizado criminalmente pela tragédia.

Mais uma vez vemos o caráter controlador em ação. Ele acha que pode desviar um pouquinho a letra da lei, para cumprir o espírito da mesma (plantar evidências para ‘salvar’ uma mulher vítima de violência doméstica; não prender o menino filipino, por um sentimento paternal e por achar que este era vítima das circunstâncias; pressionar Behrani para ajudar Kathy por acreditar que ela estava sendo fraudada por ele na questão da casa, além do detalhe que a casa seria seu futuro lar com Kathy). Ao fazê-lo, acaba se enredando em uma situação cada vez mais sem saída.

Quanto a Kathy, não vemos um caráter controlador, mas uma pessoa que não tem coragem em tomar o controle de seu destino. Ficamos sabendo que ela acabou mergulhada no vício através da companhia de seus dois ex-maridos (e alguns namorados, mas isto é meio vago). Freqüentou o Grupo de Recuperação Racional acompanhando o marido; quando este a abandona, ela mergulha numa apatia e nada faz para mudar sua situação. Tem medo que a família saiba de seu ‘fracasso’  e a culpe por tudo, vício, abandono e, por fim, a perda da casa herdada do pai. Seu medo da responsabilidade por seu destino é tal que ela prefere perder tudo  a admitir a culpa, para a família. É interessante a cena final, em que ela decide continuar presa, fingindo ser “muda”, a ter de lutar por sua liberdade (mas culpando Lester por tudo). A viver sem ele, assumindo a responsabilidade por si dali por diante, ela escolhe continuar sem liberdade, sem voz e ‘protegida’ (desta vez pela detenta dominante do grupo que se apieda dela, ao pensar que esta é muda). É a vitória do medo.

Ambos, filme e livro, são tocantes, mostrando o desenrolar de um drama trágico, numa espiral crescente de mal-entendidos, ações impensadas e escolhas insensatas. Vemos os personagens tomarem a decisão errada, e nada podemos fazer para mudar seu destino.

(Tradução de trechos do livro - Cristine Martin)

(artigo originalmente publicado em 09/02/2007)

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  • Livro - Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog - Andre Dubus III)
  • Página do filme no IMDB

Publicado em Janeiro - 06 - 2009

A História das Coisas… e como isso nos afeta

A partir do blog No Impact Man , cheguei a este site, The Story of Stuff, da ativista e ambientalista Annie Leonard. Ela mostra, em uma animação interessante e impressionante, a história das coisas: extração, produção, distribuição, consumo e descarte, e o impacto deste processo sobre o planeta e sobre nós mesmos. A animação demora um pouco para carregar, dura pouco mais de 20 minutos mas vale a pena!! (para ver o vídeo em inglês no site, clique aqui).

nullNo site também há o script (em pdf) com comentários, sugestões de leitura sobre o assunto e sugestões para reduzir o impacto que causamos sobre o ambiente.

Para assistir ao vídeo dublado em português, clique aqui; para assisti-lo em inglês com legendas em português, clique aqui. (Versão dublada em Português do documentário The Story of Stuff idealizada pela comunidade Permacultura - Orkut)

Enquanto isso, aqui está um resumo da lista de Annie, das 10 Pequenas e Grandes Coisas que Você Pode Fazer:

  1. “Procure oportunidades em sua vida para reduzir significativamente o uso de energia: dirija menos, voe menos, apague as luzes, compre alimentos locais e de época, use o varal em vez da secadora, compre coisas usadas ou empreste antes de comprar novas, recicle.”
  2. “Há centenas de oportunidades todos os dias para incentivar a cultura de Lixo Zero em casa, na escola, no trabalho, na igreja, na comunidade. Para isso é preciso desenvolver novos hábitos que logo se tornarão automáticos. Use os dois lados do papel, leve suas sacolas ao mercado, encha os cartuchos da impressora em vez de comprar novos, faça compostagem caseira, evite água engarrafada e outros produtos embalados, atualize seu computador em vez de comprar um novo, conserte em vez de substituir… a lista é infinita!”
  3. “Discutir estes assuntos aumenta a consciência, fortalece a comunidade e pode inspirar a ação.”
  4. Escreva cartas e envie artigos aos jornais locais.
  5. Desintoxique seu corpo, sua casa e a economia. Muitos dos produtos atuais - de pijamas infantis a batons - contém aditivos químicos tóxicos que simplesmente não são necessários. Pesquise online (por exemplo, em http://www.cosmeticsdatabase.com/) antes de comprar para ter certeza que não está levando para casa ou ingerindo produtos tóxicos sem saber.”
  6. “Desligue a TV e a internet e ligue a comunidade.”
  7. “Estacione o carro e ande!”
  8. “Nosso paradigma atual dita que quanto mais coisas melhor, que o crescimento econômico infinito é desejável e possível, e que a poluição é o preço do progresso. Para realmente mudar as coisas, precisamos incentivar um novo paradigma com base nos valores de sustentabilidade, justiça, saúde e comunidade.”
  9. “Pressione o governo a proibir substâncias tóxicas em produtos de consumo e a cumprir as leis de Responsabilidade Ampliada do Fabricante [nos EUA, Extended Producer Responsibility (EPR) laws], como está acontecendo na Europa. Esta lei responsabiliza os fabricantes por toda a vida útil de seus produtos, fazendo que empresas de produtos eletrônicos que utilizam substâncias tóxicas nos produtos tenham que recolhê-los. Este é um grande incentivo para que eles parem de usar estas substâncias tóxicas!”
  10. Compre verde, compre o necessário, compre produtos do local, compre usados e, mais importante, compre menos!

(artigo originalmente publicado em 07/12/2007)

Publicado em Janeiro - 05 - 2009

Forrest Gump

Depois de ganhar tantos Oscars (inclusive o Oscar de Melhor Filme em 1995), este filme tornou-se uma unanimidade; um dos melhores dramas já realizados, com toques sutis de comédia. A história do rapaz inocente, que participa de alguns dos momentos mais importantes da história americana entre as décadas de 50 e 80, é hoje um dos grandes favoritos de todos.

Qual o segredo deste filme? Entre a magnífica atuação de Tom Hanks, a direção segura de Robert Zemeckis, os efeitos especiais que confundem ficção com realidade, a trilha sonora inesquecível (incluindo a música-tema de Alan Silvestri), o brilho dos coadjuvantes Sally Field, Robin Wright Penn, Gary Sinise, e o roteiro de Eric Roth, adaptando o romance de Winston Groom, ficamos com todos.

Tom Hanks já provou o grande ator que é; com este filme, conseguiu a façanha de ganhar dois Oscars de Melhor Ator em anos consecutivos. Merecido, principalmente pela cena em que ele descobre que tem um filho e pergunta a Jenny se ele é normal. A expressão em seu rosto transmite toda a emoção sentida pelo personagem, da alegria à preocupação e ansiedade, e finalmente ao alívio e novamente à alegria.

Outras cenas inesquecíveis são quando Jenny volta à sua casa da infância e nela atira as sandálias, e depois pedras, e então Forrest comenta: “Às vezes, acho que nunca há pedras suficientes” (Sometimes, I guess there’s just not enough rocks). Ou quando Jenny pergunta:

“- Você teve medo no Vietnã?

- Sim. Bem…eu- eu não sei. Às vezes a chuva parava o suficiente para que as estrelas aparecessem.. e então era bonito. Era como antes do pôr-do-sol na baía. Havia sempre um milhão de estrelas na água… como aquele lago na montanha. Era tão claro, Jenny, parecia que havia dois céus, um em cima do outro. E então no deserto, quando o sol nascia, eu não podia dizer onde o céu acabava e a terra começava. É tão bonito.

- Eu queria ter estado lá com você.

- Você estava.”

Os efeitos especiais permitiram a Forrest ”contracenar” com personagens históricos como John Kennedy, Richard Nixon, John Lennon, Lyndon Johnson e outros. Juntamente com uma perfeita reconstituição dos cenários e figurantes, podemos ver Forrest na passeata em Washington, recebendo a Medalha de Honra na Casa Branca, numa entrevista na TV com John Lennon. O toque de comédia fica evidente no episódio de Watergate, ou quando Forrest fala de seu antepassado homônimo, que pertencia a um “tipo de clube” em que usavam capuzes brancos; ou ainda quando conta que Ten. Dan investiu o dinheiro de Forrest em uma ‘companhia de frutas’ (Apple).

Mas a essência do filme é a inocência de Forrest, e seu amor por Jenny. Uma garota confusa, que passou por situações difíceis e reagiu a elas do modo errado, fugindo de si mesma, ao mesmo tempo em que tentava se encontrar. Seu porto seguro é Forrest, que a amou incondicionalmente toda sua vida, e em quem ela encontra o amor e a segurança que buscou em vão, antes de voltar para casa.

Sempre nos lembraremos de frases memoráveis como “A vida é uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar”, ou “Estúpido é quem faz estupidez”, ou ainda “Meu nome é Forrest Gump. As pessoas me chamam de Forrest Gump”, e “Corra, Forrest, corra!”.

E isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre isto.

Filme x Livro

Ou não. Depois de assistir ao filme muitas vezes, li o livro de Winston Groom, no qual o roteiro foi baseado. Há grandes diferenças entre a história do filme e a história do livro. O Forrest do filme é um rapaz essencialmente inocente, mas com consciência de suas limitações mentais; no livro, ele tem mais malícia, embora também seja consciente de sua situação. A inocência não está presente; ele sabe que é limitado intelectualmente, mas é um pouco “malandro” ao tirar proveito disto em algumas situações.

O Forrest do livro é um idiot savant; um idiota sábio, como o autista de Dustin Hoffman em Rain Man; em um episódio, ele se revela um ótimo aluno de Fisica na Universidade resolvendo equações complicadas sem compreender a teoria, embora não conseguisse distinguir ‘Física’ de ‘Educação Física’, e aprende a tocar harmônica sozinho. Mesmo com tais talentos, ele não é autista, e revela uma grande percepção das coisas ao seu redor. No início do livro (usando a famosa comparação que foi alterada - para melhor - no filme), ele comenta:

“Deixem-me falar uma coisa: ser um idiota não é uma caixa de chocolates. As pessoas riem, perdem a calma, te tratam como lixo. Dizem que as pessoas devem tratar bem quem está em dificuldades, mas vou dizer – nem sempre é assim. De qualquer maneira, eu não posso reclamar, porque acho que tive uma vida interessante, por assim dizer.”

Interessante é pouco; episódios inteiros que estão no livro não foram contados no filme; Sue, o macaco, Rachel Welch, Forrest como astronauta, o resgate de Mao, a luta-livre, os pigmeus canibais, o campeonato de xadrez, são algumas das histórias que só existem no livro. Muito da temporada universitária de Forrest e Jenny é resumido, e o final da história de Jenny e Forrest é completamente diferente do que no filme.

Apesar do livro ser muito interessante, falta-lhe a magia e o lirismo que Eric Roth e Robert Zemeckis criaram. Na maioria das vezes eu prefiro o livro ao filme, mas esta foi uma agradável exceção.

(artigo originalmente publicado em 07/04/2007)

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Trailer: Forrest Gump

Publicado em Janeiro - 03 - 2009

Garota, Interrompida

Girl, Interrupted (Garota, Interrompida)

capa garota.jpgImaginem uma garota de 18 anos. Rica, boa família, pais inteligentes, bem-sucedidos, muito ocupados. Ela não se interessa pelos estudos, com exceção de literatura e biologia (matéria em que leva bomba duas vezes). Ao se concentrar em alguma tarefa, como os deveres da escola, freqüentemente sua atenção é desviada e começa a esfregar os pulsos na borda da cadeira, mas pára antes de se ferir seriamente. Tem vários namorados, e se encantou com um professor de inglês. Fica muito tempo pensando e imaginando a própria morte e, em uma ocasião, enfileirou 50 aspirinas sobre a mesa, engoliu uma por uma e foi até o supermercado (para ser encontrada?). Desmaiou em frente ao açougue e foi levada ao hospital, onde esvaziaram seu estômago.

Diante de uma garota assim, pensamos em terapia (para ela e para os pais, terapia familiar, talvez?), ou em alguma atividade que realmente desperte seu interesse, quem sabe algum trabalho voluntário, ou podemos até achar que a tal garota faz parte de alguma turminha “emo”. Não cremos que seja caso para um hospital psiquiátrico. Mas em 1967, foi.

Neste livro de memórias, Susanna Kaysen fala dos quase dois anos que passou internada em um hospital psiquiátrico, de 1967 a 1968. Depois de uma consulta a um psiquiatra que nunca havia visto antes, este (após comentar que ela tinha uma espinha) sugeriu que ela se internasse em um hospital, para “um descanso”.

Ela foi posta em um taxi até o Hospital McLean, conhecido por ter “hospedado” famosos e criativos como Sylvia Plath, James Taylor, Ray Charles e Robert Lowell, e não tão famosos cujas famílias pudessem pagar pela estadia. Como Susanna observa, “Nosso hospital era famoso e havia abrigado muitos grandes poetas e cantores. O hospital se especializou em poetas e cantores, ou será que os poetas e cantores se especializaram na loucura?”.

Johannes Vermeer - Girl Interrupted at her Music.jpgO livro não segue uma estrutura narrativa linear; são capítulos isolados, contando incidentes vividos ou testemunhados por Susannna, que nos mostram o cotidiano das internas, o relacionamento com o pessoal (enfermeiras e médicos) e, no final do livro, um balanço que a autora faz de seu diagnóstico e do que é a doença mental, de como os psicólogos e psiquiatras têm uma abordagem diferente do paciente (segundo ela, os primeiros tratam a mente, e os últimos, o cérebro, interessando-se somente pelas reações químicas que acontecem lá).

Por fim, ela conta que conseguiu levar uma vida normal (seja lá o que isto signifique); lendo este livro nos perguntamos o que é normal, e se todos nós não temos problemas e comportamentos que poderiam ser classificados como problemas mentais, e quão fina é a linha que separa a pessoa sã daquela diagnosticada como doente mental. Susanna diz que, na adolescência, só se interessava por literatura e namorados; perguntaram-lhe se ela pretendia viver só disso. No final do livro ela comenta que foi exatamente o que fez, pois tornou-se escritora e continua tendo muitos namorados. Não se encaixar em um modelo predefinido pela sociedade pode ser considerado doença mental?

Ela foi mais tarde diagnosticada como tendo Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder). Em sua defesa, ela argumenta que os sintomas da doença são comuns na adolescência (critérios diagnósticos 2, 3, 6 e 7 - ver lista abaixo), e que a doença “é mais freqüentemente diagnosticada em mulheres”, o que interpreta como um preconceito sexista. Promiscuidade, segundo ela, é um conceito diferente, em termos (e números) absolutos e relativos, para homens e para mulheres; compulsão alimentar e de compras seriam sintomas mais tipicamente femininos, enquanto que direção imprudente seria um comportamento masculino (não necessariamente considerado mau).

Como a doença nem era conhecida na época, ela sofreu com a falta de um diagnóstico preciso, sem saber na verdade de que sofria. Dois anos após a internação, ela conseguiu ter alta do hospital, e conseguiu levar uma vida normal. Casou, separou, tentou alguns empregos e decidiu ser escritora. Nada diferente da vida de muitas pessoas…

Critérios Diagnósticos

Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:

Critérios diagnósticos para F60.31 - 301.83 Transtorno da Personalidade Borderline:

  1. esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5[617]
  2. um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização
  3. perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self
  4. impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).
  5. recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante
  6. instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias)
  7. sentimentos crônicos de vazio
  8. raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes)
  9. ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos

(fonte: Wikipédia)

(artigo originalmente publicado em 13/02/2007)

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