Publicado em Março - 28 - 2011

Titanic: Rose Dawson’s Story

(Titanic - a história de Rose Dawson - 2010)

O que aconteceu com Rose depois do naufrágio do Titanic e antes de sua visita ao navio Keldysh, onde narra sua história a Brock Lovett? É o que Walden Carrington nos conta neste livro interessante.

“A festa de aniversário oferecida por Molly Brown a Rose DeWitt Bukater em maio de 1911 aconteceu na Casa dos Leões na Pennsylvania Street em Denver, Colorado. Rose gostou de conhecer, entre os convidados, o rico e solteiro Caledon Hockley, que a pediu em casamento. Seu noivado durou até abril de 1912, quando os noivos e acompanhantes  retornavam da Europa na viagem inaugural do R.M.S. Titanic.

Um atraente passageiro da terceira classe chamado Jack Dawson convenceu Rose a abandonar seu mundo de alta sociedade antes da colisão do navio com um iceberg. Ela adotou o nome Rose Dawson a bordo do navio de resgate, Carpathia. Rose retornou a Denver com Molly Brown e o colar com o diamante azul que Cal havia deixado no bolso do casaco que lhe deu na noite do naufrágio do Titanic.

Em abril de 1996, Rose estava em casa com a neta Lizzy e viu na TV a notícia sobre o caçador de tesouros Brock Lovett, e sua busca nos destroços do Titanic. Rose percebeu que ele procurava o diamante azul que ela manteve escondido por oitenta e quatro anos. Rose e Lizzy voaram até o navio Keldysh, onde ela contou sua história sobre o naufrágio do Titanic.”

(resumo do livro no site Authonomy)

Kate Winslet como Rose

Rose DeWitt Bukater pertencia a uma classe social que vivia fechada em sua bolha de luxo e elegância, isolada dos problemas da vida comum e do restante da humanidade, o que era natural para eles. Mesmo assim, ela se submetia às regras desse mundo por costume e obediência, e aceitou o noivado com Cal Hockley para resolver os problemas financeiros da mãe, após a morte do pai. Mas Rose queria assumir o controle de sua vida, e sua repulsa à ideia do casamento forçado foi aumentando cada vez mais.

“Eu não desejava brigar com Mamãe por causa de seu desejo de planejar meu casamento com Cal na Filadélfia. Ela foi dependente de meu pai desde que se casaram. Antes disso, ela havia sido dependente de seu pai. Depois de perder a ambos, nunca ocorreu a ela a ideia de ser independente e descobrir uma forma de ganhar a vida. Sua mãe dependeu dos homens da família a vida toda e ensinou Mamãe a também ser assim. Mesmo querendo que eu fosse instruída, Mamãe nunca sugeriu que eu me tornasse independente. Cabia a mim romper essa tradição, mas eu não tinha quem me orientasse naquela direção.”

O livro é interessante para quem gostou do filme e quer rever a história no papel. A parte da história de Rose que é mostrada no filme, especialmente a viagem no Titanic, segue fielmente o roteiro, com os mesmos diálogos (e poderia ser diferente?) e descrições. A única diferença é que, como o livro é narrado em primeira pessoa, não foram incluídas cenas e diálogos dos quais ela não participa. Por exemplo, o diálogo entre Cal e Jack enquanto Rose desce no bote salva-vidas. Ela apenas observa que os dois conversaram e fizeram contato visual, e quando percebe que não poderia deixar Jack no navio e partir em segurança no bote, decide voltar ao Titanic.

Leonardo DiCaprio e Kate Winslet

“Eu não estava acostumada a estar em um novo local e não ter coisas para desembalar, mas certamente não senti falta desse ritual. Quando acabei de comer, coloquei a bandeja ao pé da cama e troquei minhas roupas pela muda limpa e seca que haviam deixado para mim.

Senti que estava começando uma nova vida como sobrevivente do Titanic. Minha mãe parecia uma pessoa diferente, e não queria mais controlar a minha vida. Sempre me lembraria do corajoso oficial que trouxe o bote de volta para salvar minha vida. Depois de conhecer tantas pessoas que não sobreviveram àquela noite, eu sempre me consideraria privilegiada por ter sido resgatada, e feliz por estar viva.”

A vida de Rose após o naufrágio é contada de forma resumida e coerente com as fotos mostradas no quarto dela no Keldysh, no filme; rapidamente a narrativa retorna ao tema do navio, com o telefonema dela a Brock e a viagem ao navio russo.

“Quando Lizzy se formou no colegial em maio de 1986, o Titanic havia sido encontrado no fundo do mar por Robert Ballard e sua equipe, no mês de setembro anterior. Mantive em segredo minha própria experiência no Navio dos Sonhos. Ela sempre seria parte de mim, mas nunca senti a necessidade de compartilhar minhas caras lembranças de Jack Dawson, que me fizeram usar seu sobrenome até que me casasse com Walden Calvert.”

Gloria Stuart como Rose

O livro de Walden Carrington ainda não foi publicado, mas está disponível na íntegra para leitura online no site Authonomy, da editora HarperCollins. Para resolver o problema das centenas de originais recebidos diariamente pela editora, foi criado o site onde autores podem enviar seus textos. Eles podem ser lidos por qualquer pessoa, e avaliados e comentados por usuários registrados (geralmente outros autores). Os originais com melhor avaliação pelos pares são escolhidos mensalmente e enviados a uma equipe de editores internacionais da HarperCollins para avaliação e possível publicação.

Pessoalmente acredito que o livro poderia se beneficiar do centenário do naufrágio e ser publicado a tempo de aproveitar a data; mas como não conheço a política editorial da casa, não sei se consideraram o livro adequado para publicação. Outro ponto polêmico é a utilização de personagens e diálogos de terceiros; não sabemos o que James Cameron pensa  a respeito, nem quais são as questões legais em relação a seu roteiro.  Se eu fosse o autor, tentaria uma edição independente na Amazon como e-book; com uma boa divulgação, quem sabe não teria o mesmo sucesso de Amanda Hocking?

O livro é extenso (quase 400 páginas, segundo a numeração incluída pelo autor no texto) e teve uma pesquisa caprichada, especialmente nas descrições de Denver do início do século. É mais que uma simples fan fic, mas não chega a ser um trabalho totalmente original. De qualquer forma, é uma leitura gostosa e interessante, que vai agradar aos fãs de Titanic.

ATUALIZAÇÃO EM 06/12/11:

A leitora Suelen comentou que não conseguiu ler o livro online, e realmente ele foi retirado do site Authonomy em novembro. Encontrei o comentário do autor, Walden Carrington, em seu perfil no Authonomy:

Thanks to everyone who emailed Twentieth Century Fox about the deletion of Titanic: Rose Dawson’s Story on 11-4-11. But that’s enough. They received a wealth of emails from authonomy members and are welcome to request the revised manuscript delivered to HarperCollins United Kingdom on 10-31-11. It could be published in New York and sell very well while Titanic is playing in theaters worldwide in three dimensions.

I will always remember my authonomy experience and treasure the many comments posted on my work. Finding my comments about other books on web sites designed to promote them has been very gratifying. My hope in writing a novelization of Titanic was to enhance the cinematic experience and expand on the story while passing on valuable life lessons to cherish for a lifetime. “

Portanto, parece que a Fox pediu a retirada do texto do site, provavelmente por violação de direitos autorais. O autor coloca-se à disposição de editoras (ou da própria Fox) que queiram publicar seu original e aproveitar a popularidade da história, que voltará aos cinemas em 3D em abril de 2012, para lembrar o centenário do naufrágio.

Bom, não temos opção a não ser aguardar que alguma editora publique o livro; uma pena que a disputa por direito$ autorai$ evite a publicação de histórias baseadas em personagens de outros autores. O livro era bem interessante e poderia ter sido publicado, provavelmente venderia muito bem…

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Ficha:

Titanic: Rose Dawson’s Story

Walden Carrington

Enviado em 03/06/2010

Disponível para leitura online no site Authonomy

103384 palavras

(tradução de trechos do livro: Cristine Martin)

Publicado em Maio - 28 - 2010

Passageiros

Após um grave desastre de avião, a psicóloga Claire é chamada para dar assistência aos poucos pacientes sobreviventes. Alguns comparecem às sessões de terapia em grupo, mas Eric prefere não ir. Durante as sessões individuais, ambos vão se aproximando, ao mesmo tempo em que o desaparecimento dos outros pacientes e a presença de um homem  misterioso vão aumentando o suspense até o desfecho surpreendente.

O filme Passageiros (2008) aposta no suspense para construir um drama pessoal e coletivo. Cada um dos passageiros sobreviventes tenta se ajustar à nova realidade após o acidente, e muitos lembram de uma explosão na asa durante o voo. Mas o funcionário da empresa aérea afirma que a culpa do acidente foi do piloto, que abandonou seu posto e entregou o comando ao co-piloto, e declara que com certeza foi causado por erro humano.

Claire (Anne Hathaway), intrigada pelas contradições, tenta descobrir a verdade; será que os passageiros estão dizendo a verdade e a empresa tenta encobrir sua responsabilidade? Ao mesmo tempo, ela se aproxima do arredio Eric (Patrick Wilson), que insiste que não é seu paciente e parece interessado por ela; eufórico com sua nova vida, ele decide mudar de carreira e começar a pintar.

Aos poucos a história vai se desenvolvendo e, em certo ponto, há a revelação que muda tudo. Não vou estragar a história com spoilers, mas posso adiantar que o trailer (veja no final do artigo) é completamente mentiroso, pois vende um filme que não é o que assistimos. Talvez tentassem tanto proteger o segredo do filme, que venderam o peixe errado ao público.

Mas o fato é que o peixe é bom; o filme está mais para drama que para suspense, o desfecho é interessante e o elenco tem muitos nomes conhecidos, como Dianne Wiest, David Morse e Andre Braugher (de Cidade dos Anjos). Não é o melhor filme que vi este ano, mas merece uma conferida.

Para saber mais:

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Trailer - Passageiros (legendado)

Publicado em Março - 26 - 2010

O que torna as sociedades mais felizes e saudáveis?

(artigo publicado no Alma Carioca em 24/03/2010)

O que tem maior impacto no nível de felicidade de uma sociedade? Se você pensou que é a riqueza, está enganado.

O epidemiologista britânico Richard Wilkinson estuda há algumas décadas por que algumas sociedades são mais saudáveis que outras. Ele descobriu que o que torna uma sociedade saudável não é o que ela tem a mais que outras - mais renda, mais educação, mais riqueza - mas a igualdade na distribuição dos bens.

Ele também constatou que muitos problemas sociais, desde doenças mentais ao abuso de drogas, são piores em sociedades desiguais. Os efeitos dessa desigualdade também incluem a diminuição da confiança, o aumento de doenças e a ansiedade, que encoraja o consumo excessivo.

Por outro lado, sociedades com menores diferenças entre ricos e pobres, ou seja, menor desigualdade social,  são mais resilientes e seus membros têm vidas mais longas e felizes.

(foto do blog Desigualdade Social, de Bárbara Pacheco)

(foto do blog Desigualdade Social, de Bárbara Pacheco)

Ao analisar e comparar as sociedades, Wilkinson observou os índices de problemas como expectativa de vida, doenças mentais, gravidez na adolescência, violência, a porcentagem da população que está em prisões e uso de drogas. Esses índices eram  muito piores em países com alta desigualdade social. A renda per capita não tem muito efeito nas previsões da taxa de mortalidade de um país, mas a distribuição de renda sim. Em países desiguais, esses problemas aumentam de dez a doze vezes que em países com maior igualdade.

O curioso é que sempre pensamos nesses problemas como ligados à pobreza. Wilkinson mostra que eles estão ligados não à renda, mas à estratificação da renda. Essa é uma ideia que a maioria de nós já tinha, intuitivamente - pensávamos que a concentração de renda era um fator pernicioso - e agora sabemos que isso é verdade.

Wilkinson lembra de um psiquiatra de prisão que passou 25 anos conversando com homens muito violentos, e disse que ainda não vira um ato de violência que não tivesse sido causado por desrespeito, humilhação ou perda da dignidade. Esses fatores desencadeiam a violência e são mais intensos em sociedades desiguais, onde o status e a competição são intensificados e somos mais sensíveis a julgamentos sociais.

Os efeitos psicossociais da desigualdade são os maiores fatores de estresse. Somos seres sociais, e o ambiente e os relacionamentos sociais nos afetam em grande escala. A competição e a ansiedade para manter o padrão social que (acreditamos que) esperam de nós causam grande estresse e levam a dívidas. Isso faz que as pessoas trabalhem mais,  consumam mais (o que consumimos mostra quem somos, ou assim pensam as pessoas), e isso torna-se um círculo vicioso que cada vez mais diminui a sensação de felicidade e prejudica os relacionamentos. Nunca é o suficiente.

Outra consequência da desigualdade sobre os relacionamentos é que ela cria uma hierarquia social baseada no poder - e o que o acompanha: status, riqueza, acesso privilegiado a recursos. E essa hierarquia é um potencial para conflitos. Felizmente, ao mesmo tempo em que somos animais sociais, sujeitos a essas consequências da desigualdade, também temos o potencial para o amor, aprendizado e cooperação. Podemos anular esse potencial para conflitos através da participação, compartilhamento e generosidade, não só no sentido material.

Entre os países ricos com maior igualdade estão o Japão e a Suécia. Esta última tem grandes diferenças salariais, que são redistribuídos através de impostos e benefícios. O país tem uma grande taxa de assistência social pelo estado, que cuida da assistência médica, educação, seguridade social e seguro desemprego. Por outro lado, o Japão tem menos diferenças salariais, faz muito menos redistribuição e não tem grandes gastos sociais. Ambos os países vão muito bem; estão entre os países com maior igualdade e os resultados sociais são muito positivos.

Mas uma sociedade não pode depender apenas dessas medidas para garantir a felicidade, pois elas estão ao sabor dos governos e da política. A estrutura de igualdade deve estar profundamente enraizada na sociedade. Empresas amigáveis, com participação dos funcionários, cooperativas, transparência na contabilidade, geram maior produtividade e funcionários mais felizes.

Essa sensação de igualdade também se reflete em outras áreas, como a sustentabilidade. Os índices de reciclagem, a diminuição do consumo, o consumo consciente, vêm da sensação de estar colaborando para o bem comum. E isso é mais frequente em sociedades saudáveis e com maior igualdade.

Um bom exemplo de sociedade saudável e feliz é o Butão, a democracia mais jovem do mundo. Na verdade, o pequeno país asiático tem o índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB), que guia a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. Quem começou isso foi o Rei Jigme Singye Wangchuck, que  há 35 anos tornou-se o quarto rei do Butão, com apenas 18 anos de idade.

O Rei Jigme, que foi educado no Reino Unido, é muito querido pelo povo, que não tem uma só palavra de crítica ou censura a ele. No dia de sua posse, ele disse que “A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto”. Sua ideia é que o modo de medir o progresso não deve ser baseado apenas no fluxo de dinheiro. Uma sociedade só se desenvolve verdadeiramente quando os avanços material e espiritual se complementam e reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas do rendimento econômico, mas também se ele leva ou não à felicidade. É o bem comum em primeiro lugar.

O fato de o país ser de maioria budista ajuda a explicar o sucesso dessa filosofia e prática de governo. Outro fator que contribuiu foi o relativo isolamento do Butão quanto ao resto do mundo. A televisão e a internet chegaram ao país apenas em 1999. Thimpu é a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional tem apenas uma pista.

Ninho do Tigre - Butão (foto de José Eduardo de Sousa Cruz Rocha)

Ninho do Tigre - Butão (foto de José Eduardo de Sousa Cruz Rocha)

Para o Butão, os quatro pilares que devem inspirar cada política do governo são:

  1. Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo
  2. A preservação e promoção da cultura
  3. A conservação do meio ambiente
  4. O bom governo

Para garantir que as decisões do governo estão indo na direção certa, os cidadãos butaneses  respondem um questionário a cada dois anos, com perguntas sobre como o cidadão percebe sua vida em nove áreas principais. A análise das respostas indica se o povo está se sentindo feliz, e quais áreas merecem mais atenção por parte do governo. O questionário é a base para o cálculo do índice de Felicidade Interna Bruta.

O Butão é um país pequeno, com apenas 700 mil habitantes, e sua economia depende da energia hidráulica e do turismo sustentável. O país recebe ajuda externa, há pouca corrupção, e ainda assim em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo.

Apesar da receita butanesa não ser exportável, ela serve para inspirar outros países a repensar as decisões de seus governos. Se o FIB não pode ser usado pelos países ocidentais para medir o grau de felicidade e saúde de seus cidadãos, tampouco o PIB serve para isso.

Vivemos em sociedades altamente competitivas, e estamos sempre correndo atrás de algo - correndo para pagar as contas, para alimentar nossos filhos, para manter o emprego, para conseguir um emprego, para fazer mais um curso, para manter a cabeça fora d´água. E o resultado reflete-se na nossa saúde e em nossa falta de felicidade.

Talvez se tomarmos consciência disso e mudarmos individualmente, se cobrarmos de nossos governantes uma maior transparência e atitudes que beneficiem a todos em vez de a uma minoria privilegiada, se participarmos mais - seja através do voto, de nossas opiniões, de trabalhos voluntários - talvez consigamos dar o primeiro passo em direção a uma sociedade menos violenta, e mais saudável e feliz.

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Para saber mais:

Publicado em Março - 17 - 2010

Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada

(artigo publicado no Alma Carioca em 13/03/2010)

Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.

Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.

Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.

A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.

Na raiz desse problema está a legislação “Farm bill”, que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios “agrícolas” vão mesmo para a produção de carne.

Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.

O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.

Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.

Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.

Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma “Freedom to Farm”, aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.

No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.

O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.

Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.

Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.

No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que “os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio”.

O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.

O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?

Para saber mais:

Publicado em Fevereiro - 18 - 2010

Juno

Juno é um filme bonitinho e adorável; não é uma obra-prima, mas uma história interessante e gostosa de assistir. O filme começa quando Juno MacGuff (Ellen Page), de 16 anos, descobre que está grávida após a primeira e única transa com seu melhor amigo.

Ela pensa em interromper a gravidez, mas após uma visita à clínica  de abortos, decide ter a criança e entregá-la para adoção. Com a ajuda da amiga, encontra rapidamente nos classificados do jornal um casal que parece perfeito e depois de tudo encaminhado com eles, conta ao pai e à madrasta.

A família de Juno é tão pouco convencional como ela, e também amorosa e compreensiva,  e ela recebe todo o apoio à sua decisão. Apesar de gostar de Paulie Bleekers (Michael Cera), o pai do bebê, ela nem pensa em ficar com a criança, e muito menos em casar com ele. Aparentemente a solução é boa para todos: como diz Juno, “daqui a 30 semanas poderemos fingir que isso nunca aconteceu”. Uma boa maneira de fugir das consequências e da responsabilidade.

O casal escolhido parece perfeito: são simpáticos, saudáveis, moram em uma linda casa e parecem muito felizes. O maior desejo da esposa, Vanessa (Jennifer Garner), é ser mãe. O marido, Mark (Jason Bateman), é um compositor de jingles e roqueiro frustrado, e se dá muito bem com Juno pois ambos gostam de rock. Na verdade, ele parece (ou gostaria de) ser da geração dela.

A partir daí vamos acompanhando a gravidez de Juno, como ela é observada e deixada de lado pelos outros adolescentes, e como com o passar dos meses ela vai percebendo que o mundo dos relacionamentos adultos é mais complexo do que imaginava; Juno sabe o que quer, e fica perplexa por ver que isso não acontece com algumas pessoas crescidas que também deveriam saber.

O final é tocante e singelo; não há como não comparar as complicações que as pessoas causam em suas vidas e a simplicidade e honestidade do amor adolescente, e torcer para que Juno consiga manter essa inocência de espírito quando chegar à vida adulta. Mas com um pouco mais de responsabilidade.

Apesar de interessante e com boas interpretações, especialmente de Ellen Page, não acho que o roteiro de Diablo Cody seja merecedor de um Oscar; apenas um roteiro razoável. E o filme trata com demasiada leveza de um assunto muito sério.

A gravidez adolescente é um problema grave nos EUA, e as recentes campanhas de abstinência juvenil, os bailes de virgindade e toda a atmosfera moralista que pairava no ar durante a era Bush, sem mencionar o fiasco que foi o caso Bristol Palin, não conseguiram diminuir os altos índices de gravidez na adolescência naquele país.

Esse é um problema social que afeta tanto os países desenvolvidos quanto os do terceiro mundo, apesar das causas e circunstâncias serem diferentes nos dois grupos.

Enquanto no terceiro mundo a gravidez adolescente geralmente vem acompanhada de pobreza e leva ao casamento precoce (especialmente se o pai da criança for mais velho que a garota), o que não causa preconceito nem problemas de aceitação no grupo social para a jovem, nos países desenvolvidos as gravidezes acontecem fora do casamento, causando estigma social e abandono dos estudos,  e consequente pobreza e dificuldades para criar a criança, que também terá piores prognósticos sociais e educacionais.

Entre os países desenvolvidos, Estados Unidos e Reino Unido têm os índices mais altos de gravidez na adolescência, enquanto Japão e Coréia do Sul têm os menores. Os índices de aborto nos EUA também são muito altos - um terço das gravidezes precoces terminam em abortos.

Não é fácil tentar a redução desses números, especialmente quando por um lado campanhas, escolas e famílias tradicionais pregam a abstinência ao mesmo tempo em que a mídia e toda a cultura em que o adolescente está inserido valoriza a aparência, a sexualidade cada vez mais precoce e até mesmo a promiscuidade, associando-as ao sucesso e aceitação social. É uma briga dura.

Um filme como Juno, apesar de mostrar a inocência do amor juvenil, tem como natural que esse amor encontre expressão física, e mais natural ainda que a garota tenha um filho e o entregue para adoção, sem criar laços emocionais com ele, continuando sua vida como se aquilo fosse um episódio normal de sua vida.

Na minha opinião, esse é um modo irresponsável de se tratar um assunto tão sério. A paternidade é algo que muda a vida de uma pessoa, ainda que de diferentes formas. Se essa gravidez terminar em casamento, aborto ou adoção, qualquer uma dessas opções causa mudanças profundas na vida de uma pessoa adulta, e ainda mais em uma adolescente.

Apesar de tratar o caso de Juno com leveza, o filme mostra como a decisão de ter (ou adotar) um filho pode alterar a vida de pessoas adultas, e como é difícil tomar essa decisão. Creio que o filme poderia ter passado uma mensagem diferente, não que uma gravidez precoce é algo ‘light’, inócuo e que todos podem viver felizes para sempre, sem consequências. Mas não poderíamos esperar isso de uma roteirista como Diablo Cody.

Recomendo que assistam o filme, mas não deixem de refletir a respeito.

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(Texto publicado no Alma Carioca em 17/02/2010)

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Para saber mais:

Vídeo: Juno - trailer

Publicado em Dezembro - 24 - 2009

Natalício - crônica de Hila Flávia

(texto de autoria da escritora Hila Flávia, publicado no Alma Carioca em 13/12/2009)

Gostei tanto deste texto da Hila Flávia que o escolhi como mensagem de Natal para o blog; desejo a todos os amigos um Natal muito feliz, com muitos bons momentos e que o ano de 2010 nos traga aquilo que precisamos, algumas coisas que queremos e muita energia para continuar nosso caminho e fazer novas realizações.

A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana - Leonardo da Vinci

Natalício

Hila Flávia

Brilhou na árvore um vagalume. Não estava preso nos galhos. Apenasmente se encostou um pouco para iluminar. Depois veio outro; e depois outro; e mais um. Num instante mágico pequenas luzes piscavam, de alto a baixo.
E o menino sorriu.
Um sorriso de puro encantamento.
Afinal, era seu aniversário. Não sabia bem porque era ainda um menino, já que, para usar de franqueza, ele fazia mais de dois milênios. A única diferença que tinha dos bebês era que sabia sorrir. Um sorriso consciente, por algo. Os pequeninos até sorriem, mas o motivo é uma barriguinha cheia ou um ataque de extremo bem-estar.
O menino, não. Sorria e sabia porque sorria. Sabia sorrir.
E eu via aquele menino sorrindo. Não queria ter a presunção tamanha de dizer que ele sorriu para mim. Poderia ter sorrido de mim. Os meninos sempre riem de mim, ou para mim, sei lá.
Mas, pensando bem, vou ser presunçosa e afirmar que o menino sorriu para mim.
Então fiquei pensando: como é difícil viver um dia de aniversário em que o aniversariante adota como tema a singeleza.
É a mesma coisa de um adulto que tem loucura por um dia de sol e detesta se deitar tarde, e os amigos lhe oferecem uma noite inteira da maior barulheira.
Dá vontade de gritar!
Só quem não quer ver e não quer ouvir e não quer perceber é que não vê, não ouve e não percebe que ele quer paz.
E o que lhe oferecem?
Algazarra, loucuras, comilança, bebedeira, obrigações cumpridas de procurar parentes que não se procura o ano inteiro, votos formais, presentes acima das posses e abaixo das expectativas, confusão, correria, mau-humor, brigas, descontentamentos, desilusões, violências de toda ordem, enfim, uma festa de aniversário tendo por base um enorme fingimento, uma incomensurável hipocrisia.
Menino, perdão!
A experiência de vida vai dando à gente noção exata das coisas e a medida certa das ações. E sabemos, com o tempo, que o vazio que sente o ser humano, após uma busca frenética, vem do simples fato de que não foi preenchido o que ele tem de mais sublime, de mais doce, de mais delicado: O AFETO.
Percebemos que cada pessoa do mundo é um mundo inteiro.
E em cada coração cabe todo o universo e toda a solidão. E também todo o amor. E toda a esperança. É sozinho que o ser humano resolve ser ou não feliz. É decisão dele, pessoal, intransferível. Ninguém pode decidir por outro a felicidade e ninguém tem, realmente, o poder de tirá-la de ninguém, se a pessoa não quer perdê-la.
No seu aniversário, menino, compreendo, todo ano, porque você não fica velho: porque a esperança é eterna. É tão nova que renasce a cada dia, não somente a cada ano. Esse simbolismo de ano novo é só um lembrete.é só uma comemoração. O que realmente se comemora é o nascer de cada dia, é a estrela luminosa, é a lua, é o sol, são as águas, os pássaros, as cores e os sons. O que realmente se comemora é o AMOR, é a VIDA.
Quer presente melhor?
Ofereço-lhe, menino, de presente, a minha vida, a minha alegria, meu trabalho, minha lida. Meu imenso amor por você.
E não faço isto por bondade não. Ofereço-lhe o que recebi de graça.
E foi me sentindo assim, tão pequena e tão grande, tão cheia de ternura no coração, que me tornei um vagalume e me encostei também na árvore que sombreava o lugar do menino. Brilhei, pisquei, voei, dei cambalhotas, fui para lá e para cá, fiz estripulias.
E ele sorriu para mim.
Desta vez, vi mesmo.

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Neste natal, que o MENINO DEUS sorria para você também.
E encha seu coração de PAZ.
São os votos da Hila Flávia.

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E os meus também!

Feliz Natal!

Cristine

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