Publicado em Abril - 23 - 2010
A Casa dos Espíritos
O romance de estreia de Isabel Allende narra a história da fictícia família Trueba, ao longo de quatro gerações e de boa parte do século vinte, culminando no golpe de estado que levou os militares ao poder. Unindo uma narrativa ágil, realismo fantástico e personagens ricos e complexos, a autora criou um romance fascinante.
Apesar de ser um romance de ficção, Isabel Allende reconhece que boa parte da história foi inspirada em sua própria família. O livro foi lançado em 1982 e tornou-se um sucesso imediato, sendo traduzido para mais de 20 idiomas. O país onde acontece a história nunca é identificado, mas é possível saber que a autora está falando de sua pátria, o Chile.
A “casa dos espíritos” é o casarão na esquina que Estéban Trueba constrói na capital para sua esposa Clara. De origem humilde, Estéban trabalhou durante dois anos nas minas para guardar dinheiro e casar-se com Rosa del Valle. Mas a moça morre envenenada por engano e, desiludido, o rapaz decide reerguer a propriedade da família, a fazenda Las Tres Marias.
Estéban é um homem rude e com péssimo caráter. Autoritário e propenso a acessos de cólera, costumava violentar camponesas da sua fazenda e gerou um número enorme de bastardos. Após o casamento isso parou, mas seu mau humor e cólera continuaram até o fim de sua vida. Um de seus netos bastardos, Estéban Garcia, aparece mais adiante na história com o ódio acumulado em gerações contra as injustiças e abusos do patrão.
Muitos anos mais tarde, ele retorna à capital por ocasião da morte da mãe, de quem cuidou a vida toda sua irmã Férula. Estéban decide então pedir Clara, a irmã mais nova de Rosa, em casamento.
Clara é uma alma sensível e possui dons de telepatia, premonição, telecinese e um contato estreito com as almas do “mais-Além”. Ela pede a Férula que vá morar com eles e esta se ocupa do lado prático da vida doméstica, além de idolatrar a cunhada, o que causa ciúmes em seu irmão. Num acesso de fúria e ciúmes, Estéban expulsa a irmã de sua casa, e esta o amaldiçoa.

Estéban e Clara têm três filhos: Blanca e os gêmeos Jaime e Nicolau. Blanca se encanta desde a infância por Pedro Tercero Garcia, filho do capataz de Las Tres Marias. O menino cresce e tem contato com ideias de justiça e direitos dos trabalhadores, o que não agrada ao patrão. O que Estéban também não aprova é o amor de Pedro e Blanca, que se encontram às escondidas.
Quando os amantes são denunciados pelo Conde de Satigny, Estéban descarrega sua ira na filha e na esposa. Clara decide não falar mais com o marido, que casa Blanca com o Conde contra a sua vontade. Pedro consegue fugir e torna-se um cantor popular, que celebra os sonhos de liberdade e justiça do povo oprimido. Blanca mais tarde abandona o marido e volta à casa de Clara, que está cada vez mais ligada às coisas do espírito e menos às coisas da terra. Alguns anos mais tarde, Clara morre tranquilamente, e a única afeição de Estéban agora é sua neta Alba.
O tempo passa e Alba está envolvida com a causa popular, assim como seu tio Jaime e Miguel, irmão da antiga namorada de Nicolau, Amanda. Estéban Trueba é agora Senador do partido Conservador e luta com todas suas forças e influência para evitar que o candidato de esquerda chegue ao poder.
Quando isso finalmente acontece, apesar dos esforços de Trueba, o país sofre grandes mudanças, e os conservadores, com a ajuda de estrangeiros e dos militares, tramam um golpe de estado. O resultado é o caos e milhares de mortes, torturas e perseguições, das quais são vítimas vários personagens da história.
A última parte do livro é a mais intensa, e contrapõe o amor de Estéban Trueba e sua neta Alba e as diferenças ideológicas entre eles. No cenário violento após o golpe, antigos ódios são abrandados e, se não vemos um final feliz, pelo menos há a redenção para quem odiou durante toda a sua vida.
O livro é excelente e, apesar de longo, consegue prender a atenção nas mais de trezentas páginas. Com muitos detalhes e personagens secundários (muito bem construídos, por sinal), os episódios são narrados alternadamente por Estéban (na primeira pessoa) e por Alba (na terceira pessoa). O motivo das duas narrativas é explicado por ela no epílogo.
Uma curiosidade é que as quatro gerações de mulheres Del Valle têm nomes com o mesmo significado: Nívea del Valle é a mãe de Rosa e Clara. Clara del Valle Trueba é a mãe de Blanca, que por sua vez é a mãe de Alba. Como Clara explicou, “os nomes repetidos criavam confusões nos cadernos da vida”. Daí, os nomes diferentes que significam a mesma coisa. Em certo ponto, Clara comenta que Alba poderá recorrer a nomes estrangeiros para continuar o costume, quando tiver uma filha.
Não é surpresa que Clara mencione a futura filha de Alba; neste romance, as mulheres dominam a trama. Nívea, com a plácida aceitação de sua condição de esposa e mãe, protege Clara dos problemas do mundo e incentiva seus dons de clarividência. Clara, apesar de absorta e alheia ao mundo prosaico, mostra uma grande força interior quando se vê diante das dificuldades da vida. Férula no íntimo não aceita os sacrifícios que teve de fazer e mostra toda sua natureza amorosa retribuindo com cuidados e dedicação o amor que recebe de Clara. Blanca sabe o que quer, e sua determinação a mantém no caminho de seu coração, ainda que tenha de enfrentar oposição e dificuldades, e é uma mulher capaz de grandes sacrifícios pelos que ama. Alba cresceu protegida e cedo tomou contato com as injustiças do mundo, através dos olhos do amor e dos amigos. Os sofrimentos por que passou poderiam ter-lhe despertado o ódio, mas ao rever a história de sua família pôde compreender que nenhum acontecimento é inútil, e que os destinos de todos estão entrelaçados.
“Em alguns momentos tenho a impressão de que já vivi isto e que já escrevi estas mesmas palavras, mas compreendo que não sou eu, mas outra mulher, que escreveu nos seus cadernos para que eu viesse a servir-me deles. Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil e o transito de uma vida é muito breve e sucede tudo tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos actos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas.
Por isso, a minha avó Clara escrevia nos seus cadernos para ver as coisas na sua dimensão real e para enganar a má memória. E agora procuro o meu ódio e não consigo encontrá-lo.”
Filme
Em 1982 a história foi adaptada para o cinema com direção de Bille August e um elenco de estrelas. O filme tornou-se um sucesso de público, pois concentrou-se na história de amor de Estéban (Jeremy Irons) e Clara (Meryl Streep) e de Blanca (Winona Ryder) e Pedro (Antonio Banderas).
Toda a parte política da história, que no livro tem papel importante para compreender o caráter e as motivações das personagens, aqui é apenas um cenário. Mesmo o terremoto, que muda o curso de várias vidas e tem consequências trágicas, é mencionado apenas de passagem.
Ainda assim, o filme é adorável e, como sempre, Meryl Streep, Jeremy Irons e Glenn Close (Férula) confirmam o grande talento que têm.
Eu havia visto o filme quando foi lançado em vídeo, há mais de 20 anos, e não lembrava de muita coisa. Quando terminei de ler o livro decidi rever o filme, e tive a impressão de serem duas obras diferentes. Para que a longa história coubesse em pouco mais de duas horas de filme, reduziram-se muitos detalhes e episódios vividos por Blanca e Alba foram reunidos em uma personagem só (no caso, Blanca). Para isso, o espaço cronológico da história também foi encurtado em uns 20 anos.
Não é fácil adaptar um livro tão rico em histórias interessantes e detalhes para uma narrativa tão curta, mas o esforço valeu a pena. O filme é bem-feito e interessante, mas ainda assim, recomendo: não deixe de ler o livro, é muito melhor.
* * *
Este livro foi minha escolha para o Desafio Literário no mês de Abril, cujo tema eram os escritores latino-americanos. Adorei ter lido Isabel Allende, e não por coincidência ela tem sido um dos autores mais lidos do desafio este mês. Já descobri, através de ótimas resenhas, mais livros dela que quero ler:
- Resenha da Lu Naomi - Filha da Fortuna
- Resenha da Aline Maziero - Paula
- Resenha da Aline Gomes - De Amor e de Sombra
* * *
Para saber mais:
- Página do filme no IMDb
- The House of the Spirits na Wikipedia
- Isabel Allende na Wikipedia (em português)
- Site oficial da autora (em inglês)
- Salvador Allende na Wikipedia (em português)
Trailer - A Casa dos Espíritos










Desculpe a invasão, mas eu tenho uma ótima notícia!
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Bjs e boa sorte!
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adorei a resenha, mais uma vez você me deixou com as lombrigas atiçadas.
interessante, em filha da fortuna também tem uma família del valle e o patriarca é igualzinho o esteban, mas chamado agustín.
a capacidade de allende trabalhar política e feminismo sem soar panfletária é o grande trunfo dela, imho.
foi pra lista de “quero ler”, definitivamente.
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Cristine Reply:
Abril 24th, 2010 at 14:15
Gradicida, tia!
Vai ver que a filha da fortuna também foi inspirado na família dela, pelo visto o estéban/agustín deve ter sido o avô. Também achei isso, ela mistura política e feminismo de um jeito gostoso de ler, outro tijolão que tem um estilo parecido é o Pássaros Feridos, já leu esse?
Beijos!
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Oi, Cristine
Ótima resenha, gosto muito desse livro mas achei a adaptação para o cinema bem fraca, apesar do elenco de estrelas. Como vc mesma disse, é uma história muito longa para tão pouco tempo de filme…renderia uma ótima série, não acha? Bjs
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Cristine Reply:
Abril 24th, 2010 at 17:41
Olá Lia,
Tem razão, seria uma ótima série. Aliás, acho que para adaptar bem um livro para a tela precisa de um bocado de tempo, nem sempre duas horas de filme dão conta do recado…
Beijos!
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Ainda vou até o fim com Allende.
Me cativa toda a história de vida e suas sinopses.
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Cristine Reply:
Abril 26th, 2010 at 18:26
Olá Daniela,
Seja bem-vinda ao blog! Também gostei muito de ler Allende, como já disse no artigo agora quero ler os outros livros dela, pois parecem bem interessantes e gostei do estilo da autora.
Grande abraço!
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Eu vi o filme e gostei muito!! Agora tenho que ler o livro. Belissima resenha. beijos
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Cristine Reply:
Abril 27th, 2010 at 16:55
OLá Larissa,
Obrigada! Leia o livro sim, você vai gostar.
Beijos!
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Oi Cristine,
Este livro é um dos meus favoritos, amei de paixão.Já o filme não me encantou muito.
O meu do desafio foi Eva Luna também da autora, um dia leio todos os livros dela
Adorei a resenha, bem completa e me deu vontade de reler aiai
bjoo
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Cristine Reply:
Abril 28th, 2010 at 13:28
Olá Fernanda,
Que legal, este mês tem muita gente lendo Isabel Allende. Também preferi o livro ao filme, e gostei muito do estilo dela, agora quero ler os outros, já vão pra listinha… só preciso arrumar tempo para tantos livros que quero ler!
Obrigada pelo carinho, e um beijo!
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O que seria uma carta virou um dos livros e filme mais lindos.
Beijos
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Cristine Reply:
Abril 28th, 2010 at 21:24
Olá Nina,
Seja bem-vinda ao blog! Realmente, de uma carta ao avô ela conseguiu criar esse romance maravilhoso.
Beijos!
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ADoro as resenhas que leio aqui, sempre completas e esclarecedoras!!! Adorei!! Esse ja vai pra minha lista!!!
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Cristine Reply:
Abril 29th, 2010 at 22:22
Obrigada Kézia!
Que bom que gosta das resenhas, um comentário assim faz o meu dia!
Minha listinha também está aumentando, graças ao Desafio…
beijos!
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Cristine, suas resenhas são sempre impecáveis. Dá gosto de ler. Então…sempre tive vontade ler esse livro. Mas o tenho preterido em favor de outras leituras. Decidi colocá-la na minha lista de desejos. Obrigada pela participação.
bjs
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Cristine Reply:
Maio 2nd, 2010 at 13:56
Olá Vivi!
Obrigada pelo comentário, assim dá até mais gosto para ler e escrever… Sabe que esse livro também estava esperando na minha fila há algum tempo? Mas valeu a pena, gostei muito. E com o Desafio, minha listinha só está aumentando… o que é bom.
Beijos!
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