Publicado em Julho - 29 - 2010

Músicas traduzidas - Uninvited

Uninvited foi composta por Alanis Morissette especialmente para a trilha sonora de Cidade dos Anjos (1988). A música belíssima e intensa encerra o filme nos créditos e causa mais impacto que se fosse tocada durante o filme.

Apesar do grande sucesso, ela não foi lançada no álbum seguinte da cantora após o filme, e só foi incluída nos CDs MTV Acústico (1999) e na coletânea Alanis Morissette: The Collection (2005), desta vez na versão de estúdio.

A música recebeu dois Grammys e uma indicação ao Globo de Ouro, e foi regravada pelas bandas Westworld  e  Freemasons.

Além de Uninvited, a trilha sonora de Cidade dos Anjos tem outros sucessos como Iris (Goo Goo Dolls), Angel (Sarah McLachlan), Further On Up the Road (Eric Clapton) e outras. Para saber mais sobre o filme, leia o artigo do Rato de Biblioteca que o compara com a versão original, Asas do Desejo.

Clique no player para ouvir a música e acompanhe com a letra, e veja o vídeo no final do artigo.

Flash required

Uninvited

(Alanis Morissette)
Like anyone would be
I am flattered by your fascination with me
Like any hot-blooded woman
I have simply wanted an object to crave
But you, you’re not allowed
You’re uninvited
An unfortunate slight

Must be strangely exciting
To watch the stoic squirm
Must be somewhat heartening
To watch shepherd need shepherd
But you you’re not allowed
You’re uninvited
An unfortunate slight

Like any uncharted territory
I must seem greatly intriguing
You speak of my love like
You have experienced love like mine before
But this is not allowed
You’re uninvited
An unfortunate slight

I don’t think you unworthy
I need a moment to deliberate

Uninvited

(tradução: Cristine Martin)

Como qualquer pessoa ficaria,
Estou lisonjeada com sua fascinação por mim
Como qualquer mulher com sangue quente
Eu apenas queria um objeto de desejo
Mas você, você não tem permissão
Você não foi convidado
Um infeliz ninguém

Deve ser estranho e excitante
Observar a agitação indiferente
Deve ser algo inspirador
Observar um pastor precisando de outro
Mas você, você não tem permissão
Você não foi convidado
Um infeliz ninguém

Como um território não explorado
Eu devo parecer extremamente intrigante
Você fala de meu amor como se
Tivesse vivido um amor como o meu antes
Mas isso não é permitido
Você não foi convidado
Um infeliz ninguém

Não acho que você não valha a pena
[mas] preciso de um momento para deliberar

*      *       *

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Para saber mais:

Vídeo - Uninvited (ao vivo)

Publicado em Julho - 26 - 2010

Desafio #7links: o que seu blog tem de melhor

Fiquei sabendo deste desafio pela Patrícia Daltro (A Vida Sem Manual), e decidi participar. O autor da ideia é o Darren Rowse, (ProBlogger), e foi trazida para os blogueiros brasileiros pelo Marcos Lemos (Ferramentas Blog).

O desafio consiste em criar um post que cite sete links do seu blog (ou de outros), conforme as categorias abaixo. Além de ser divertido e uma boa auto-análise no seu blog, é uma boa maneira de divulgar posts legais e mais antigos. Ou seja: é bom para todo mundo.

Quem quiser participar é só criar sua listinha, acrescentar a hashtag #7links no título do post e no twitter de divulgação, e avisar aqui, para entrar na listinha dos blogs participantes.

E vamos lá!

1)      O primeiro post do meu blog
O Rato de Biblioteca já esteve em outro endereço, em um provedor gratuito que de repente fechou e me deixou a ver navios. Por sorte consegui recuperar quase todos os arquivos antigos no Internet Archive, e em dezembro de 2008 o blog renasceu em novo endereço, com hospedagem própria. O primeiro post na nova casa foi para explicar essa história e dar as boas vindas aos leitores: Olá de novo, mundo! Logo em seguida, o próximo post foi sobre o livro Garota, Interrompida.

2)      O post que mais gostei de escrever
Gostei de ter escrito diversos posts do Rato, mas lembro de um em especial: A Mulher do viajante no tempo. O livro me interessou pelo título (falou em viagem no tempo, estou nessa!) e pelo primeiro parágrafo; comprei o livro, li e me apaixonei. O artigo fala só sobre o livro (o filme -Te amarei para sempre - ainda não havia sido lançado); ainda pretendo escrever um complemento sobre o filme, que ficou aquém da obra original. Mas isso é assunto para outro post…

3)      Um artigo que gerou um bom debate
Um artigo recente que  teve vários comentários de pessoas preocupadas com a dieta de seus bichinhos foi Comidas que seu cão não pode comer. Muitas visitas ao post também vieram de pesquisas no Google sobre alimentos dados aos cães, especialmente chocolate, clara de ovo e uvas passas. Felizmente para a Nina, aprendi várias coisas novas ao escrever este artigo.

4)      Um artigo de outro blog que eu gostaria de ter escrito, e do qual gostei muito
Como eu sempre digo, adoro escrever sobre livros e filmes, e às vezes acabo me empolgando e criando posts bem longos, tentando incluir muitas informações legais. Uma blogueira que consegue fazer isso muito bem, sem que os posts fiquem cansativos (muito pelo contrário!) é a Naomi, do Batata Transgênica. Adoro as resenhas dela sobre livros e filmes, e uma que ficou na lembrança foi a da comédia “Assassinato por Morte”. Ficou tão boa que eu até desisti de escrever sobre o filme, pois não teria mais nada a acrescentar.  Recomendo a resenha e o filme! :-)

5)      O meu artigo mais útil:
Sempre fui favorável à doação de órgãos, e acho que a série de artigos sobre transplantes pode ser considerada a mais útil do blog. O objetivo foi explicar vários fatos sobre a doação e os transplantes de órgãos, e conscientizar as pessoas sobre a importância dessa decisão. Os artigos também foram publicados no Alma Carioca, com boa repercussão.
Parte 1 -Doação e transplantes de órgãos
Parte 2 - Transplantes: a lista de espera e o sistema de classificação
Parte 3 -O cenário dos transplantes no Brasil
Parte 4 - Doador de órgãos: ser ou não ser?

6)      O post com o melhor título que já escrevi
Os títulos dos posts sobre livros e filmes aqui no Rato só contém o nome da obra, então a escolha aqui teria de ser em outra categoria. Um título que achei legal e gerou curiosidade foi Ecossistemas: o que aprendemos com os dinossauros. Para falar sobre os ecossistemas, lembrei do último episódio da série Família Dinossauro, que além de ser ótimo (apesar de triste) ilustra bem o que poderia acontecer caso sejamos tão irresponsáveis como eles.

7)      Qual o post que eu gostaria que as pessoas tivessem lido mais (tivessem dado maior importância)
Um post que teve poucas visitas (talvez por ser um dos primeiros do blog) e que gostaria que fosse mais lido foi sobre o livro e o filme Casa de Areia e Névoa. Adorei os dois e por isso escrevi um post bem completo, com uma boa análise e comparação entre livro e filme. Recomendo o artigo (claro!) e também o livro e o filme, que são excelentes.

E o seu blog, o que tem de melhor?

Outros blogs participantes:

Publicado em Julho - 25 - 2010

Semana do Rato

  • Já ouviu falar do Teste Bechdel? Ele avalia se um filme reconhece as mulheres como seres humanos independentes e autônomos (ou seja, que pensam e têm opiniões próprias), através de três perguntinhas simples. Na verdade ele não tem a ver com a qualidade do filme, pois muitos filmes excelentes não contam com mulheres em seu elenco, mas é uma boa dica para ver se em determinado filme somos retratadas como seres pensantes ou como simples complementos masculinos. Saiba mais aqui.
  • Curiosidade: você sabe como os cães bebem água? Veja neste vídeo em câmera super lenta a técnica canina (fonte: site Underflash):

  • O Rogério é um rapaz morador de rua de São Paulo que vivia em uma carroça com dez cachorros que ele resgatou da rua e dos quais cuidava. Apesar da ajuda de pessoas bondosas, após ele e os cães sofrerem agressões e espancamentos, a Abeac ofereceu moradia e trabalho para ele no canil, e também abrigo para os cães. Agora o Rogério precisa de objetos para seu novo lar, como roupas, sapatos, roupa de cama, utensílios, fogão, geladeira, etc. Vamos ajudar este ser humano a recuperar sua dignidade, pois ele merece! Veja mais informações sobre o Rogério e como ajudá-lo aqui. (via Rede Bichos) Atualização: veja aqui como terminou esta história (infelizmente não muito bem)

Esta semana tivemos boas notícias de nossos amigos peludos:

Depois de ver tantas notícias tristes, essas já nos deixam mais felizes. Fiquem com a foto do Fubá se despedindo da @ClaudiaPinelli, quanto carinho!

  • Lembra de quando todo mundo se bronzeava (com óleo de bronzear, veja só), quando as crianças brincavam ao ar livre e quando era legal exibir um lindo bronze durante o verão? Hoje estamos virando ‘vampiros’ de tanto que nos escondemos do sol, pois ele “faz mal”. Já dizia Confúcio que o melhor caminho é o caminho do meio; nem muito sol, nem sol nenhum. O ótimo artigo do Dr Feldman explica a necessidade de tomarmos um pouqunho de sol todo dia (de preferência, sol a pino) para fixação da vitamina D. Leia o artigo aqui, e depois, vá tomar seu solzinho! (dica de @cachorro_verde)

foto: blog Cuidar de Bebê

foto: blog Cuidar de Bebê

  • Esta semana tem fofura extrema na Batata Transgênica: não deixem de ver os vídeos de uma família muito fofa, e uma campanha divertida para a castração de animais, ao som dos Beatles!
  • A Índia cria o tablet mais barato do mundo, com custo de $ 35 dólares. O aparelho tem tela sensível ao toque, navegador de internet, leitor de PDF e é baseado em Linux. O ministro do Desenvolvimento de Recursos Humanos pretende oferecer o aparelho a um preço ainda menor aos estudantes. O país investe 3% de seu orçamento anual em educação escolar e hoje 64% da população do país está alfabetizada, mas muitos estudantes mal conseguem ler e escrever e as instalações escolares ainda são precárias. (via @klau15)
  • A Barbara (Baxt) comenta de forma sensata e bem-humorada sobre a experiência da amamentação. Cada caso é um caso, mas em geral amamentar é algo positivo, pois traz muito mais vantagens (para a mãe e o bebê) que desvantagens. Amamentei por 7 meses (das duas vezes) e acho que valeu a pena para todos os envolvidos. Leia também os artigos dela sobre blusas de amamentação e sobre parar de trabalhar ou não depos que o bebê nasce.
  • O Inagaki lembra a cena mais emocionante de Wall-E em imagens, e cada uma traz o link para um artigo, trailer ou resenha do filme. Vale a pena conferir; depois aproveite para ver o filme novamente!
  • E para terminar, a fofura extrema da semana é exatamente a sequência final dos créditos de Wall-E, um belo panorama da história da arte e que também conta o que aconteceu depois do filme terminar. Bom domingo!

Publicado em Julho - 19 - 2010

Seminário dos Ratos

capa da primeira edição

Seminário dos Ratos é um livro de contos de Lygia Fagundes Telles, publicado pela primeira vez em 1977. Nos 14 contos, ela fala de temas como a morte e os dramas íntimos dos personagens, como o remorso, a repressão, amores não correspondidos e o medo da morte.

Os contos são bem diferentes entre si, apesar dos temas em comum. Os protagonistas podem ser um homem que analisa sua vida e percebe os erros cometidos e as consequências de suas decisões (A Sauna), uma mulher de meia idade que, ao redigir mentalmente uma carta, expõe menos sua indignação e mais suas frustrações e desejos reprimidos (Senhor Diretor), uma mulher que, em um devaneio ou projeção mental, encontra seus familiares em uma reunião de catarse e perdão pelos erros do passado (Noturno Amarelo) ou uma moça suburbana que persegue sua obsessão pelo homem “ideal”, mesmo após décadas após ter casado e constituído família com outro (Pomba Enamorada).

“Pior do que a ausência do amor, a memória do amor.”

(Lua crescente em Amsterdã)

Alguns contos têm elementos sobrenaturais, seja no desfecho das histórias, seja no estilo de narração. Por vezes não sabemos se aquilo é um sonho ou realidade, se é um sintoma de perturbação mental ou algo de outro mundo. Essa ambiguidade torna os contos interessantes e a prosa ágil de Lygia nos envolve no drama das personagens criadas por ela.

Os contos que mais gostei foram A mão no ombro e a divertida Pomba Enamorada; alguns contos foram mais difíceis de compreender, mas no geral é uma boa opção de leitura. Eu já conhecia vários contos de Lygia, mas este foi o primeiro livro de contos dela que li por inteiro. Também havia lido trechos de vários romances no volume dedicado a ela da coleção “Literatura Comentada”, vendida em bancas na década de 80 e que comprei para ajudar na preparação para o vestibular, mas que me mostrou diversos autores novos e muitos futuros livros preferidos.

Na minha opinião, no volume de LC sobre Lygia destacaram-se os contos “A confissão de Leontina” (publicado em “O cacto vermelho”, de 1949) e “Apenas um saxofone” (do livro Antes do baile verde, de 1969), trechos do romance “As Meninas” (de 1973) e a interpretação da autora do conto de Machado de Assis, “Missa do Galo”.

Lygia Fagundes Telles (19/04/1923) é advogada e escritora, eleita para a Academia Paulista e a Academia Brasileira de Letras; seus livros  foram traduzidos para diversos idiomas e receberam diversos prêmios. Lygia, junto com seu companheiro Paulo Emilio Salles, adaptou para o cinema a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro, no filme Capitu. Após a morte de Paulo Emilio ela assumiu a direção da Cinemateca Brasileira, fundada por ele. Ativa até hoje, Lygia participa de eventos literários e em maio deste ano, participou do programa Letra Livre, da TV Cultura de SP.

Nas palavras de Lygia:

“A função do escritor? Escrever por aqueles que muitas vezes esperam ouvir de nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e, se possível, mesmo por caminhos ambíguos, ajudá-lo no seu sofrimento. Na sua fé. Isso requer amor - o amor e a piedade que o escritor deve ter no coração.”

Esta foi a resenha de junho para o Desafio Literário 2010, cujo tema era “livro de escritora brasileira”. Devido ao excesso de trabalho naquele mês, não tive tempo de terminar o livro e publicar a resenha, então, mesmo com atraso, aqui está ela. Agora vou começar um dos livros escolhidos para julho, e espero não atrasar mais!

*     *      *

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Para saber mais:

Publicado em Julho - 18 - 2010

Semana do Rato

  • O @hbariani começou uma série de “pequenas biografias de grandes figuras”, com fatos curiosos sobre a vida de pessoas conhecidas como Richard Feynman, a Rainha Ana (essa é bem curiosa), Jack London e vários outros. Fique de olho, pois a série continua lá no Depokafe.
  • E o Blog do Timoneiro também traz biografias de personalidades famosas. Com a mudança de rumo do blog, o foco agora são as biografias, que começaram muito bem, com Chico Xavier, Santos Dumont e Beethoven, entre outros. Vale a pena conhecer!
  • Uma boa alternativa para o chuveiro elétrico é o aquecedor solar. No blog Dicas do Timoneiro, um artigo (com vídeo) sobre um projeto caseiro de construção do aquecedor solar. Aqui em casa instalamos um modelo comercial, e a economia de energia elétrica é notável, além de termos banhos (bem) quentinhos o ano todo. Os projetos caseiros são uma boa opção para quem é habilidoso e quer economizar. No site Sociedade do Sol você também encontra várias informações sobre esses projetos.

  • Você sabe de onde vêm todos os animais abandonados nas ruas? Esse é um problema que pode ser resolvido com adoção e castração. Muitas pessoas ainda não castram seus animais, e caso ocorra uma ninhada indesejada, os filhotes podem vir a engrossar as estatísticas de animais abandonados. O site Adotacão explica quais as vantagens da castração, e que quanto antes esta for feita, melhor. E para quem acha o procedimento caro, muitas cidades têm programas e campanhas de castração gratuita, como a do CCZ de São Paulo. Informe-se e seja um tutor responsável, castrando seu bichinho.
  • A querida Fal comenta no Oba Gastronomia sobre a vida corrida de hoje e como o problema não está no fast-food, mas sim em nós mesmos. O modo como vivemos (ou não) define quem somos, e nossa falta de tempo para tudo, até para saborear uma refeição, se reflete em nossa qualidade de vida, ou na falta dela. Ótimo artigo, com a sensibilidade típica da Fal.
  • Mais um texto sensato e sensível, desta vez da Patrícia Daltro; ela fala sobre as mentiras necessárias, e sobre quando podemos (e até devemos) mentir, e quando nunca fazê-lo. Bárbaro!
  • E a Patrícia também sabe ser divertida: se seu saldo bancário está magrinho,veja algumas sugestões bem-humoradas para engordá-lo no A Vida Sem Manual.
  • O casco de um navio do século 18 foi encontrado sob o World Trade Center; após a descoberta, arqueólogos estão tentando preservar o que for possível. A tarefa não é fácil, pos a madeira começa a se decompor após entrar em contato com o ar. (via @jamespenido)
  • Está quase chegando o primeiro e-book reader brasileiro; a Positivo Informática lança em agosto seu modelo fabricado na China, que será vendido por aqui. O bichinho terá 2 GB de memória, tela touchscreen de 6 polegadas e vem com o dicionário Aurélio. Só falta ver quanto vai custar. Tendo em vista que o Kindle sai por pouco mais de R$ 500,00 e tem Wi-fi, o pessoal da Positivo terá de apresentar um preço atratente para atrair os consumidores. Saiba mais detalhes no Verdes Trigos.

  • E para alegrar o domingo, a capivara surfista (fazia tempo que eu não falava do @CaplinROUS por aqui); veja que fofinho!

Publicado em Julho - 12 - 2010

Memento Mori: retratos da morte

Um dos costumes estranhos da era vitoriana eram os memento mori, ou fotografias dos mortos. Após a invenção do daguerreótipo na metade do século 19, tornou-se possível registrar imagens de pessoas e eventos especiais, o que antes era feito apenas em retratos pintados, um luxo só acessível aos muito ricos.

Com a popularização das fotos, a classe média podia guardar lembranças de pessoas queridas. Mas frequentemente, a única oportunidade de ter um retrato de alguém era após a morte, especialmente se o falecido era uma criança. Esse costume popularizou-se na segunda metade do século 19 e desapareceu no início do século 20, quando as fotografias ficaram mais baratas e acessíveis, e deixaram de ser novidade.

Memento mori significa “lembre-se que você vai morrer”; na Roma antiga, quando um general desfilava comemorando seu triunfo em batalha, um escravo seu tinha a tarefa de lembrá-lo que, apesar de estar saboreando a glória, amanhã ele poderia experimentar a desgraça e a morte. O escravo diria: “Memento mori“, e provavelmente o general responderia “Respice post te! Hominem te memento!” (Olhe atrás de si; lembre-se que não és nada além de um homem).

Na Idade Média, era comum haver igrejas com coleções de ossos e crânios, para lembrar os fiéis da transitoriedade da vida.  Ainda restam algumas igrejas com esse tipo de ‘decoração’ na República Tcheca e em Évora, Portugal.  Também eram comuns obras de arte moralizantes, com temas que lembrassem a morte e a necessidade de evitar os pecados para garantir a vida eterna.

detalhe do Ossuário Kostnice, na República Tcheca

Uma forma atual de culto aos mortos e lembrete de que a vida é efêmera são os eventos de Finados, especialmente as celebrações do Dia de los Muertos, no México e em outros países da América Latina. A data é celebrada com festas, doces e pães em formato de ossos e crânios, muitas flores e cores vivas nas oferendas aos mortos.

Antes da Idade Média, a morte era simplesmente parte da vida; os mortos eram enterrados rapidamente e sem cerimônias, a vida prosseguia normalmente, de forma coletiva. Com o passar dos séculos, a vida e a morte ganharam um aspecto individualista, primeiro nas classes mais altas, e bem mais tarde, nas camadas populares. No século 19, a morte era um assunto doloroso e que afetava emocionalmente a família. Os funerais ganharam grande importância, e as cerimônias eram uma forma de demonstrar a dor dos familiares pela perda do falecido. Era comum, entre as pessoas abastadas, a realização de funerais caríssimos e elaborados e túmulos luxuosos.

A morte foi tratada na sociedade do século 20 da mesma forma que o sexo na sociedade do século 19; o assunto era evitado, eram utilizados  eufemismos e isso não devia ser mencionado em público. Entretanto, a morte no século 19 era como o sexo no final do século 20: um assunto discutido abertamente, sem preconceitos.

Dessa forma, as fotografias eram uma forma de expressar essa dor e manter viva a lembrança do morto. No século 19, a sociedade estava mudando de um sistema coletivo de grandes famílias para núcleos familiares menores, em que a perda de uma pessoa querida era irreparável. Nessas situações é comum a negação do fato, e por isso muitos retratos de mortos tentavam mostrar a pessoa como se estivesse viva, ou dormindo. Contudo, também havia fotos dos mortos dentro dos caixões, e fotos do morto junto aos parentes vivos, como uma foto normal de família.

A alta taxa de mortalidade infantil explica o grande número de fotos de crianças pequenas e até recém-nascidas. Essa era a única oportunidade de registrar a imagem da criança. Nas primeiras décadas desse costume, isso também era verdade para as fotos post-mortem de pessoas idosas. Essas fotografias eram uma forma de  ajudar a família a superar a dor da perda.

Apesar de hoje parecer um costume macabro, as fotos eram apenas um modo de preservar a memória da pessoa falecida. Ainda hoje há pessoas que fotografam pessoas queridas mortas, e em alguns hospitais nos Estados Unidos, a equipe médica oferece aos pais de bebês que morreram ou de natimortos, câmeras descartáveis com fotos da criança, para que os pais revelem quando estiverem preparados para vê-las. Nesses casos, é a única lembrança do filho perdido e um gesto bonito da equipe médica, pois os pais poderiam nem se lembrar de registrar imagens do bebê.

A fotógrafa Annie Leibovitz usou a fotografia como modo de registrar e expressar a dor pela perda da companheira Susan Sontag, e fotografou-a em seu leito de morte e após o falecimento. Outros fotógrafos contemporâneos também registram imagens de pessoas mortas de forma artística, por vezes criando imagens com gosto duvidoso.

Como todas as formas de expressão, que parecem normais e aceitáveis no contexto da época, mas podem parecer bizarras ou estranhas com o passar do tempo, as fotos dos mortos foram um costume normal na era Vitoriana, como os hábitos alimentares (em especial os pratos de vísceras), os gêneros literários como os romances góticos, os shows de aberrações, as coleções de espécimes raros de culturas “primitivas” em museus de história natural, tudo isso nos parece estranho hoje, mas são frutos de sua época.

As fotos dos mortos aparecem no filme Os Outros, e além de ampliar o clima sombrio e misterioso da história, também auxiliam na revelação final.  Em outro filme excelente, Sociedade dos Poetas Mortos, o professor Keating mostra aos alunos as fotos dos ex-alunos do colégio, àquela altura já falecidos, e lhes diz uma mensagem importante: “Carpe diem” (aproveitem o dia). Esta também é uma forma de memento mori: vivam intensamente, pois um dia todos estaremos mortos.

Os monumentos em homenagem aos mortos em grandes catástrofes coletivas, como memoriais de guerra ou das vítimas do atentado ao World Trade Center, e também os campos de concentração como Auschwitz, transformados em museus, são formas de lembrar os que partiram e também um tipo coletivo de memento mori; hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar.

Memorial de Auschwitz - Birkenau

Apesar de todo o desenvolvimento tecnológico e material de nossa época, ainda somos os mesmos seres humanos primitivos que devem enfrentar o medo da morte. Vivemos sem pensar nisso, e quando somos surpreendidos pela “indesejada das gentes”, temos dificuldade em aceitar o fato. Ainda assim visitamos os cemitérios, guardamos lembranças das pessoas queridas que partiram, lembramos aniversários de morte. O equivalente do século 21 dos memento mori seriam os perfis de pessoas falecidas mantidos nas redes sociais, que tornam-se locais onde os amigos podem deixar mensagens e demonstrar sua dor e saudade. Ainda precisamos nos lembrar de que morreremos um dia, e estar preparados para aceitar essa parte da vida.

(Texto publicado no Alma Carioca em 07/07/2010)

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Para saber mais:

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