Publicado em Dezembro - 28 - 2009

Tempo de Despertar

(Awakenings - 1990) Este filme dirigido por Penny Marshall foi baseado no livro de mesmo nome  do neurologista Oliver Sacks. O filme foi indicado a três Oscar (Melhor Filme, Melhor Ator - Robert De Niro e Melhor Roteiro adaptado - Steven Zaillian).

O Dr Sacks descreveu no livro seus esforços para auxiliar pacientes do Beth Abraham Hospital (Bronx - NY) no final da década de 60, que haviam sido vítimas da epidemia de encefalite letárgica nos anos 20. Esses pacientes haviam passado décadas em estado catatônico, sem reação ao mundo externo.

Oliver Sacks (nascido em 9 de julho de 1933 em Londres) é um neurologista e vive em Nova Iorque. Ele é professor de neurologia, psiquiatria e redação na Universidade de Columbia. Também lecionou de 1966 a 2007 no Albert Einstein College of Medicine e é o autor de diversos livros, incluindo várias coleções de estudos de casos de pessoas com distúrbios neurológicos. O asteróide 84928 Oliversacks, descoberto em 2003, recebeu esse nome em sua homenagem.

(Oliver Sacks em 2005)

(Oliver Sacks em 2005)

Filme

O Dr. Malcolm Sayer (Robin Williams)  é um médico dedicado que, apesar de sua facilidade para lidar com os pacientes, tem problemas em manter relacionamentos sociais.  Trabalhando exaustivamente com os pacientes sobreviventes da epidemia de encefalite, auxiliado pela enfermeira Eleanor Costello (Julie Kavner), ele percebe que algumas coisas provocam reações nos pacientes, como uma bola atirada em sua direção, uma música em particular ou o toque de outra pessoa.

Leonard Lowe (Robert De Niro) contraiu a doença ainda na adolescência, e em 1969 é um homem maduro que está há 30 anos sem contato com o mundo. A mãe de Leonard (Ruth Nelson) conta ao Dr Sayer que ele gostava muito de ler. O médico então usa uma tábua Ouija com Leonard, que soletra “RILKE PANTHER”. Sayer vai até a biblioteca e encontra um livro de poemas de Rainer Maria Rilke, um dos quais é chamado “A Pantera”:

“De percorrer as grades o seu olhar cansou-se
e não retém mais nada lá no fundo,
como se a jaula de mil barras fosse
e além das barras não houvesse mundo.

O andar elástico dos passos fortes dentro
da ínfima espiral assim traçada
é uma dança da força em torno ao centro
de uma grande vontade atordoada.

Mas por vezes a cortina da pupila
ergue-se sem ruído - e uma imagem então
vai pelos membros em tensão tranquila
até desvanecer no coração.”

O médico fica ainda mais determinado a ajudar seu paciente a retornar para a realidade, e decide usar a (então) nova droga, L-DOPA, que havia tido sucesso com pacientes com doença de Parkinson. Ele imaginava que aqueles pacientes poderiam ter convulsões semelhantes às do Parkinson, mas aceleradas de forma que o corpo se tornasse rígido como pedra; portanto, ele esperava que o medicamento para Parkinson, em doses altas, pudesse trazer os pacientes de volta ao mundo. Para começar o tratamento, seria necessária a autorização por escrito da família do paciente.

Dr Sayer: Não. Não, seus sintomas são como os do Parkinson… mas também não são.

Sra Lowe: E o que esse remédio fará com ele?

Dr Sayer: Não sei o que fará com ele, nem se fará alguma coisa.

Sra Lowe: O que pensa que acontecerá?

Dr Sayer: Não sei.

Sra Lowe: E o que espera que aconteça?

Dr Sayer: Espero que o traga de volta de onde ele está.

Sra Lowe: Para quê?

Dr Sayer: Para o mundo.

Sra Lowe: E o que há para ele aqui, depois de todos esses anos?

Dra Sayer: A senhora está aqui.”

[Atenção: daqui em diante, há alguns spoilers sobre o filme.]

Os resultados da droga em Leonard são assombrosos; ele recupera a consciência e aos poucos vai se adaptando ao novo mundo que o cerca. O sucesso da experiência faz Sayer solicitar fundos aos patronos do hospital para estender o tratamento aos outros pacientes. Os enfermeiros também contribuem com seus contracheques para ajudar na conta dos medicamentos.

Após a administração do medicamento, os pacientes acordam animados e cheios de energia, pensando que ainda estão na década de 20. Toda essa agitação atordoa os enfermeiros (”Eu gostava mais deles do outro jeito”, comenta um deles). Leonard começa a interessar-se por Paula (Penelope Ann Miller), filha de um paciente que sofreu AVC e que lê para o pai quando o visita. Ela comenta que não sabe se o pai percebe que ela lê para ele, e Leonard, ao despedir-se dela diz que sim, o pai sabe que ela está ali.

Leonard está redescobrindo o mundo, e tem muita vontade de viver; uma noite, ele liga para o Dr Sayer e diz que precisa conversar com ele (veja vídeo dessa parte no final do artigo); é interessante perceber como realmente tomamos as coisas como certas e não damos a elas a devida importância; coisas simples, como as alegrias da vida cotidiana.

Leonard: Dr. Sayer, sente-se…

Dr Sayer: Por quê? O que há de errado?

Leonard: Precisamos contar a todos; precisamos lembrar a eles de como é bom.

Dr Sayer: Como é bom o quê, Leonard?

Leonard: Veja este jornal, veja o que diz; tudo ruim, está tudo ruim. As pessoas se esqueceram do que importa na vida; elas se esqueceram do que é estar vivo. Elas precisam ser lembradas, precisam se lembrar do que têm, do que podem perder. Eu sinto isto, a… a alegria de viver, a liberdade de viver, o presente da vida. É isso que elas esqueceram; é isso que precisam lembrar. E é o que vamos lhes dizer.”

Leonard quer ter uma vida normal, sair sozinho do hospital para passear, e pede isso aos médicos, que recusam. Leonard fica agitado e é posto em uma ala com pacientes psiquiátricos, ao mesmo tempo em que começa a desenvolver tiques nervosos e pequenas convulsões.

Por ter sido o primeiro paciente a tomar a medicação, ele também é o primeiro a mostrar os efeitos colaterais da droga, cujo efeito é apenas temporário. Ao perceber isso, Leonard diz a Paula durante um almoço que não poderá vê-la mais; quando ele lhe estende a mão, ela o segura e começa a dançar com ele no refeitório, numa cena emocionante. Leonard, sacudindo convulsivamente, vai se acalmando com a proximidade dela e sorri, enquanto tem sua primeira dança com uma garota.

Incapaz de aceitar a regressão de Leonard, o Dr Sayer tenta aumentar a dosagem do medicamento, mas a mãe de Leonard lhe pede para parar com aquilo:

Sra Lowe: Meu filho está sofrendo! Por favor, pare com isso!

Dr Sayer: Ele está lutando, Sra Lowe.

Sra Lowe: Ele está perdendo”.

No final, vemos que Leonard voltou ao estado catatônico e recebe a visita de Paula, que lê para ele. Do mesmo modo, os outros pacientes também retornam à catatonia, e no final vemos o Dr Sayer explicando aos patronos do hospital que o efeito do medicamento foi temporário, mas que a experiência teve efeitos além do esperado.

“O que percebemos é que, quando a janela química se fechou, outro despertar aconteceu: a consciência que o espírito humano é mais poderoso que qualquer droga - e é ISSO que precisa ser alimentado: com trabalho, diversão, amizades, família. ESSAS são as coisas que importam. E foi isso que esquecemos - as coisas mais simples”.

Já perdi a conta de quantas vezes assisti a este filme; além da história ser comovente, e extremamente bem dirigida por Penny Marshall, as interpretações dos dois atores principais estão excelentes. Robin Williams mostra que não é bom apenas na comédia, interpretando seu personagem de maneira séria e convincente, enquanto Robert De Niro transmite todas as emoções de Leonard, desde a redescoberta do mundo até a frustração com o fracasso do tratamento, com dignidade e sem tornar o personagem caricato. Dois ótimos atores que nos contam uma história verdadeira, sensível mas sem sentimentalismo, e que nos emociona.

Os atores que interpretam os outros pacientes que despertam também estão excelentes, especialmente Alice Drummond, que interpreta Lucy. O famoso saxofonista de jazz Dexter Gordon, que interpreta o músico Rolando (um dos pacientes), faleceu 8 meses antes do lançamento do filme.

Se você ainda não viu este filme, recomendo uma visita à locadora; se já o viu, que tal assisti-lo de novo?

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Para saber mais:

Vídeo: Trailer de Tempo de Despertar

Vídeo: trecho do filme (a alegria de viver)

Publicado em Dezembro - 24 - 2009

Natalício - crônica de Hila Flávia

(texto de autoria da escritora Hila Flávia, publicado no Alma Carioca em 13/12/2009)

Gostei tanto deste texto da Hila Flávia que o escolhi como mensagem de Natal para o blog; desejo a todos os amigos um Natal muito feliz, com muitos bons momentos e que o ano de 2010 nos traga aquilo que precisamos, algumas coisas que queremos e muita energia para continuar nosso caminho e fazer novas realizações.

A Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana - Leonardo da Vinci

Natalício

Hila Flávia

Brilhou na árvore um vagalume. Não estava preso nos galhos. Apenasmente se encostou um pouco para iluminar. Depois veio outro; e depois outro; e mais um. Num instante mágico pequenas luzes piscavam, de alto a baixo.
E o menino sorriu.
Um sorriso de puro encantamento.
Afinal, era seu aniversário. Não sabia bem porque era ainda um menino, já que, para usar de franqueza, ele fazia mais de dois milênios. A única diferença que tinha dos bebês era que sabia sorrir. Um sorriso consciente, por algo. Os pequeninos até sorriem, mas o motivo é uma barriguinha cheia ou um ataque de extremo bem-estar.
O menino, não. Sorria e sabia porque sorria. Sabia sorrir.
E eu via aquele menino sorrindo. Não queria ter a presunção tamanha de dizer que ele sorriu para mim. Poderia ter sorrido de mim. Os meninos sempre riem de mim, ou para mim, sei lá.
Mas, pensando bem, vou ser presunçosa e afirmar que o menino sorriu para mim.
Então fiquei pensando: como é difícil viver um dia de aniversário em que o aniversariante adota como tema a singeleza.
É a mesma coisa de um adulto que tem loucura por um dia de sol e detesta se deitar tarde, e os amigos lhe oferecem uma noite inteira da maior barulheira.
Dá vontade de gritar!
Só quem não quer ver e não quer ouvir e não quer perceber é que não vê, não ouve e não percebe que ele quer paz.
E o que lhe oferecem?
Algazarra, loucuras, comilança, bebedeira, obrigações cumpridas de procurar parentes que não se procura o ano inteiro, votos formais, presentes acima das posses e abaixo das expectativas, confusão, correria, mau-humor, brigas, descontentamentos, desilusões, violências de toda ordem, enfim, uma festa de aniversário tendo por base um enorme fingimento, uma incomensurável hipocrisia.
Menino, perdão!
A experiência de vida vai dando à gente noção exata das coisas e a medida certa das ações. E sabemos, com o tempo, que o vazio que sente o ser humano, após uma busca frenética, vem do simples fato de que não foi preenchido o que ele tem de mais sublime, de mais doce, de mais delicado: O AFETO.
Percebemos que cada pessoa do mundo é um mundo inteiro.
E em cada coração cabe todo o universo e toda a solidão. E também todo o amor. E toda a esperança. É sozinho que o ser humano resolve ser ou não feliz. É decisão dele, pessoal, intransferível. Ninguém pode decidir por outro a felicidade e ninguém tem, realmente, o poder de tirá-la de ninguém, se a pessoa não quer perdê-la.
No seu aniversário, menino, compreendo, todo ano, porque você não fica velho: porque a esperança é eterna. É tão nova que renasce a cada dia, não somente a cada ano. Esse simbolismo de ano novo é só um lembrete.é só uma comemoração. O que realmente se comemora é o nascer de cada dia, é a estrela luminosa, é a lua, é o sol, são as águas, os pássaros, as cores e os sons. O que realmente se comemora é o AMOR, é a VIDA.
Quer presente melhor?
Ofereço-lhe, menino, de presente, a minha vida, a minha alegria, meu trabalho, minha lida. Meu imenso amor por você.
E não faço isto por bondade não. Ofereço-lhe o que recebi de graça.
E foi me sentindo assim, tão pequena e tão grande, tão cheia de ternura no coração, que me tornei um vagalume e me encostei também na árvore que sombreava o lugar do menino. Brilhei, pisquei, voei, dei cambalhotas, fui para lá e para cá, fiz estripulias.
E ele sorriu para mim.
Desta vez, vi mesmo.

**************************
Neste natal, que o MENINO DEUS sorria para você também.
E encha seu coração de PAZ.
São os votos da Hila Flávia.

*      *       *

E os meus também!

Feliz Natal!

Cristine

Publicado em Dezembro - 11 - 2009

Músicas traduzidas - Wuthering Heights

Esta música, composta pela inglesa Kate Bush, é baseada no livro de mesmo nome (em português, O Morro dos Ventos Uivantes) e foi o destaque de seu álbum de estréia, The Kick Inside (1978). Kate tinha 19 anos quando o álbum foi lançado, mas algumas das músicas foram compostas por ela aos 13 anos.

Wuthering Heights ficou no topo das paradas do Reino Unido e da Austrália e tornou-se um sucesso internacional.

Kate Bush compôs a música aos 18 anos, inspirada pelos dez minutos finais da versão de 1970 de O Morro dos Ventos Uivantes. Mais tarde ela leu o livro e descobriu que seu aniversário era no mesmo dia que o de Emily Brontë.

Kate usou na música várias citações de Catherine Earnshaw no livro, como “Let me in! I´m so cold”; a canção foi composta do ponto de vista de Catherine, que pede para que Heathcliff a deixe entrar. Isso é um pouco sinistro, pois nessa altura da história Cathy está morta há muitos anos.

O solo de guitarra no final é de Ian Bairnson, que trabalhava com Alan Parsons. Foram feitos dois vídeos para a música: no mais conhecido (e medonho) ela canta e dança em um cenário escuro, vestida de branco (veja o vídeo no final do artigo); este foi lançado no Reino Unido. Na versão americana, ela usa um vestido vermelho e canta ao ar livre.  Apesar da música ser linda, o vídeo inglês é de dar arrepios, e teve a ‘honra’ de aparecer no programa “Os piores videoclipes do mundo”, da MTV brasileira.

Wuthering Heights foi regravada por vários artistas, como a banda brasileira Angra (os vocais de André Matos são idênticos aos de Kate Bush), Pat Benatar, Placebo, Hayley Westenra e o grupo The Ukulele Orchestra of Great Britain, que criou uma versão deliciosa e original da música.

Clique aqui para ouvir a música

Wuthering Heights

(Kate Bush)

Out on the wiley, windy moors
We’d roll and fall in green
You had a temper, like my jealousy
Too hot, too greedy
How could you leave me?
When I needed to possess you?
I hated you, I loved you too

Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight
Leave behind my wuthering, wuthering
Wuthering Heights

(Chorus) Heathcliff, its me, Cathy come home
I’m so cold, let me in-a-your window

Oh it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine alot, I find the lot
Falls through without you
I’m coming back love, cruel Heathcliff
My one dream, my only master

Too long I roam in the night
I’m coming back to his side to put it right
I’m coming home to wuthering, wuthering,
Wuthering Heights

(Chorus)
Oh let me have it, let me grab your soul away
Oh let me have it, let me grab your soul away
You know it’s me, Cathy
(Chorus)

Wuthering Heights

(tradução de Cristine Martin)

Nas charnecas traiçoeiras e ventosas
Brincaremos e rolaremos pela relva
Seu gênio é como meu ciúme,
Muito quente e guloso
Como você pôde me deixar?
Quando eu precisava possuí-lo?
Eu o odiei, eu o amei também

Os pesadelos na noite
Disseram-me que eu iria perder a luta
E deixar para trás minha ruidosa, ruidosa
Wuthering Heights

(coro) Heathcliff, sou eu Cathy, voltei para casa
Tenho tanto frio, deixe-me entrar pela sua janela
Oh, é tão frio e solitário
Do outro lado de você

Eu sofro tanto, sinto que tudo
Desmorona sem você
Estou voltando, amor, cruel Heathcliff,
Meu único sonho, meu único mestre

Tanto tempo vagueei pela noite
Estou voltando para ele para acertar tudo
Estou voltando para casa, minha ruidosa, ruidosa
Wuthering Heights

(coro) Heathcliff, sou eu Cathy, voltei para casa
Tenho tanto frio, deixe-me entrar pela sua janela
Oh, deixe-me tê-la, deixe-me levar sua alma
Oh, deixe-me tê-la, deixe-me levar sua alma
Você sabe que sou eu, Cathy

(coro) Heathcliff, sou eu Cathy, voltei para casa
Tenho tanto frio, deixe-me entrar pela sua janela…

*       *       *

Para saber mais:

Vídeo - Wuthering Heights - Kate Bush

Publicado em Dezembro - 09 - 2009

Novidade: parceria do Rato com a Livraria Cultura

Estamos começando uma parceria entre o blog Rato de Biblioteca e a Livraria Cultura.

Escrevo aqui no Rato e colaboro com outros sites (como o Alma Carioca) por hobby; adoro escrever, e os filmes e livros sobre os quais escrevo são escolhidos por mim. Em geral são obras que me impressionaram pela qualidade, e os meus filmes e livros preferidos. Também falo sobre assuntos que me interessam, como questões ambientais e sociais.

Tudo isso é feito nas horas livres, e apesar do Rato usar um subdomínio, o terracotabolsas.com é um domínio próprio, do qual pago o registro e a hospedagem.

Não gosto muito de propagandas ostensivas em blogs, como Adsense e excesso de banners. Mas gosto da ideia de sugerir links de uma empresa séria onde o leitor possa comprar o livro ou DVD que o interessou, após ler o artigo.

Para isso, comparei as diversas lojas virtuais que vendem esses produtos, e escolhi a Livraria Cultura. Além de ser uma empresa séria, sólida e confiável, eles têm um grande acervo e a possibilidade de colocar links diretamente para um produto específico, que é o que eu tinha em mente.

Atualizei todos os artigos já publicados para os quais existe um livro, DVD/Blu-ray ou CD disponível na Livraria Cultura, colocando imagens em miniatura com links que levam diretamente à página do produto no site.

Se você leu o artigo e se interessou pelo livro, por exemplo, basta clicar na imagem e será aberta outra aba ou janela onde você poderá comprá-lo. Claro, o blog ganha uma comissão, e o Ratinho agradece. ;-)

As figuras com os links estarão sempre no final do artigo, para não ser uma propaganda invasiva. Dependendo da disponibilidade na loja, há links para CDs, DVDs, Blu-rays e livros (indicando se são em inglês ou português).

Se você quiser visitar o site da Livraria Cultura e ver outros produtos, clique na figura ali na barra lateral (acima do passarinho do Twitter) ou clique aqui para ir ao site.

Agradeço desde já, e boas compras!

Publicado em Dezembro - 08 - 2009

Por que o encontro de Copenhague pode ser um desastre

(publicado no Alma Carioca em 07/12/2009)

Está começando (de 07 a 18 de dezembro) em Copenhague a COP15, Convenção do Clima organizada pelas Nações Unidas para discutir o aquecimento global e estabelecer regras para combatê-lo. O Protocolo de Kioto, assinado em 1997, estabelecia regras validas até 2012. Contudo, agora serão discutidas novas metas para a redução da emissão de gases de efeito estufa (especialmente o dióxido de carbono, ou CO2) a serem cumpridas a partir de 2013 ou 2014.

Participarão do encontro ministros do meio ambiente e representantes dos 192 países signatários da Convenção Marco sobre Mudança Climática (UNFCCC), além de autoridades da ONU, presidentes, diplomatas e jornalistas.

O objetivo do encontro é obter o comprometimento dos países com  a redução de 25 a 40% das emissões até 2020 - níveis mais ousados que os do Protocolo de Kioto, que previam reduções de 5% apenas dos países desenvolvidos (Índia e Brasil, por exemplo, não eram obrigados). O sucesso das negociações depende da participação e o comprometimento dos Estados Unidos, segundo maior poluidor do mundo.

Os países com maiores emissões de CO2 são, em ordem decrescente: China, EUA, Rússia, Índia, Japão, Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Coréia do Sul e Irã. O Brasil está em 17º lugar na lista.

Mas quando se trata de aquecimento global, as decisões não podem ser tomadas como se fosse um problema político, ou seja, pequenas mudanças a longo prazo. O adversário desta vez não são outros países, os partidos de oposição, problemas econômicos, inflação, recessão, nada disso. O adversário é a Física.

Há dois anos a equipe de James Hansen na NASA anunciou que existe um ponto crucial no problema do aquecimento global: Qualquer valor de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera maior que 350 partes por milhão não é compatível “com o planeta onde a civilização desenvolveu-se e para o qual a vida está adaptada”. Esse ponto crucial não mudará: após ser atingido as consequências previstas (aumento de temperaturas, derretimento da calota polar, aumento do nível do mar, etc.) começarão a acontecer.

A física não impõe apenas o ponto crucial, mas também um limite de tempo. A cada ano que não fizermos nada a respeito, o problema ficará muito pior e poderá tornar-se insolúvel - com o derretimento das calotas polares os níveis de metano na atmosfera tornarão impossível voltar à zona de segurança. Mesmo que americanos e chineses proibissem todos os automóveis e fábricas de funcionar, seria tarde demais.

O nível atual de CO2 na atmosfera já atingiu 390 partes por milhão, e os níveis de metano têm aumentado nos últimos anos. Isso quer dizer que já chegamos lá. Não podemos mais “evitar” o aquecimento global, mas apenas evitar que atinja uma escala que destrua nossa civilização.

Infelizmente, quando observamos o cenário político, vemos que este problema continua a ser tratado de forma política: os EUA prometem reduzir 17% de suas emissões até 2020, o que é considerado um número alto para o Senado americano. Na semana passada, o senador Jim Webb escreveu ao presidente Obama:

“Gostaria de expressar minha preocupação com os relatos de que a Administração possa acreditar que tem o poder unilateral de comprometer o governo dos Estados Unidos a certas normas que podem ser decididas em Copenhague…  A frase ‘comprometimento político’ foi utilizada. Como o Sr. sabe, de seu tempo no Senado, apenas uma legislação específica decidida pelo Congresso, ou um tratado ratificado pelo Senado, podem na verdade criar um comprometimento como esse em nome de nosso país”.

Os chineses aparentemente estão preparados para oferecer uma redução de 40% nas emissões até 2020. Por outro lado, os indianos quase destituíram seu ministro do meio ambiente após notícias que ele estaria disposto a comprometer os interesses nacionais ao envolver-se em verdadeiras negociações sobre o aquecimento global. E a oposição australiana demitiu seu líder na última semana por afirmar que desejava comprometer-se um Esquema existente de Redução de Emissões.

Essas notícias mostram que os líderes pretendem lidar com o problema de forma política, como sempre - com sacrifícios mínimos, reduzindo a pressão política  e ‘empurrando com a barriga’, para decidir outras medidas no futuro.

O movimento 350.org está divulgando informações sobre o limite de 350 ppm de dióxido de carbono na atmosfera e a importância das decisões que serão tomadas nestas duas semanas na Dinamarca. Noventa e duas nações, pobres e vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, apóiam este movimento radical. Seus líderes estão dispostos a lutar, pois assinar um acordo brando em Copenhague significaria um pacto suicida para seus países.

Em 24/10, 5200 eventos em 181 países marcaram o “maior dia de ação política na história do planeta”, segundo a CNN. No próximo sábado, 12 de dezembro, acontecerá uma vigília em muitos locais pelo mundo todo para chamar a atenção para a importância do que será decidido agora.

O mundo inteiro, incluindo 200 organizações da sociedade civil que representam milhões de indivíduos, bem como muitos governos e praticamente todos os especialistas e cientistas climáticos estão se unindo em torno do que está sendo chamado de um “Acordo pra Valer” - que se traduz em 3 pontos chave: justo, ambicioso e vinculante. São metas concretas para deixar clara nossa demanda, impedindo políticos de disfarçarem resultados medíocres como uma vitória heróica. (fonte: movimento Avaaz)

Mesmo que daqui a duas semanas os jornais noticiem que o encontro de Copenhague foi um sucesso, e que um acordo otimista foi assinado, as leis da física continuarão a operar, as calotas polares continuarão a derreter, a temperatura continuará a aumentar.

É algo que nunca enfrentamos antes -  e não pode ser enfrentado da maneira de sempre. Esse é o problema.

*       *       *

Para saber mais:

Publicado em Dezembro - 07 - 2009

O Morro dos Ventos Uivantes

Apesar de ser um dos meus livros preferidos, demorei a escrever sobre ele. É difícil explicar o que torna um livro tão importante para nós. Li-o pela primeira vez na adolescência, e ele me conquistou de vez. Desde então já o reli inúmeras vezes (xingando algumas traduções que insistiam em traduzir nomes próprios - como suportar Catarina, Helena e A Granja Thrushcross?), e vi algumas adaptações para a tela. Foi por causa de uma delas que decidi escrever sobre esta história.

(Retrato de Emily pintado por seu irmão Branwell)

Esse clássico da literatura inglesa e mundial foi o único romance de Emily Brontë. A quinta de seis filhos de um pastor do Yorkshire, sua família passou por diversas tragédias, como a morte precoce da mãe e das duas irmãs mais velhas por tuberculose, e o fracasso da carreira e o alcoolismo do único irmão, Branwell. Toda a família amava os livros, e as três irmãs nos deixaram alguns dos melhores romances de língua inglesa: Anne Brontë escreveu Agnes Grey e Charlotte é a autora de Jane Eyre, Shirley e Villette.

(Retrato das irmãs Brontë, pintado por seu irmão, Branwell. Da esquerda para a direita: Anne, Emily e Charlotte)

As irmãs tiveram de publicar seus romances sob pseudônimos, pois na época não era de bom tom que uma mulher fosse escritora, ou qualquer outra profissão além de governanta ou professora, enquanto aguardava um bom casamento. Charlotte assinava como Currer Bell, Emily como Ellis Bell e Anne, como Acton Bell. Mais tarde elas revelaram a verdadeira identidade das autoras; ainda assim, o preconceito continuou imperando, além da pressão para que se casassem. Apenas alguns meses separam as mortes de Anne e Emily, pela tuberculose; Emily tinha 30 anos e Anne tinha 29. Charlotte foi a última sobrevivente da família; pouco menos de um ano após casar-se, ela morreu por complicações da gravidez aos 38 anos.

O Morro dos Ventos Uivantes, publicado em 1847, é a história de uma paixão violenta e possessiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff. Este foi trazido para casa (Wuthering Heights, a propriedade que dá o nome ao livro) pelo pai de Cathy e Hindley durante uma viagem a Liverpool. Taciturno e reservado, o menino é alvo do ciúme e crueldade de Hindley e do afeto irrestrito de Cathy. Após a morte do Sr. Earnshaw, a crueldade e ódio de Hindley aumentam cada vez mais, assim como o desejo de vingança de Heathcliff.

O amor entre ele e Cathy encontra alguns obstáculos; voluntariosa e caprichosa, Cathy fica dividida entre o selvagem e indomado Heathcliff e o cavalheiro e gentil Edgar Linton. Ferido, Heathcliff foge e Cathy decide casar-se com Edgar. Após alguns anos, o antigo amor de Cathy retorna, com a aparência de um cavalheiro e disposto a vingar-se de todos.

“Nelly, deve imaginar que sou uma egoísta; mas nunca lhe ocorreu que se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos mendigos? Enquanto que, se eu me casar com Linton poderei ajudar Heathcliff a erguer a cabeça, e retirá-lo de sob o poder de meu irmão.

-Com o dinheiro de seu marido, Srta Catherine? - perguntei - perceberá que ele não é tão maleável como imagina; e apesar de eu ser um péssimo juiz, creio que este é o pior motivo que já apresentou para tornar-se a esposa do jovem Linton.

- Não é, - retrucou ela, - é o melhor! Os outros eram para a satisfação dos meus caprichos; e também os de Edgar, para satisfazê-lo. Este é para o bem de alguém que compreende em si mesmo meus sentimentos por Edgar e por mim mesma. Não consigo exprimi-lo; mas certamente você e todos imaginam que há ou deve haver uma existência além desta. Qual o motivo de eu existir, se me limitasse a isto? Minhas grandes tristezas neste mundo têm sido as tristezas de Heathcliff, e eu as acompanhei e as senti desde o início; meu maior pensamento na vida é ele. Se tudo o mais perecesse, e ELE permanecesse, eu ainda continuaria a existir; e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim estranho e poderoso: eu não mais faria parte dele. - Meu amor por Linton é como a folhagem nas árvores: o tempo o mudará, estou certa, como as árvores se transformam com o inverno. Meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas que nos sustentam: talvez não sejam agradáveis, mas são necessárias. Nelly, EU SOU Heathcliff! Ele está sempre, sempre em minha mente: não como um prazer, do mesmo modo que nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser. Não fale mais sobre separação: isso é impraticável; e -’

Ela parou, e ocultou seu rosto nas dobras do meu vestido; mas eu o retirei à força. Havia perdido a paciência com suas tolices!”

Atormentada pela presença de Heathcliff, que decide conquistar Isabella Linton, irmã de Edgar, como parte de sua vingança, Cathy definha e morre ao dar à luz  Catherine Linton. Heathcliff chora a morte de Cathy como um animal ferido, e persiste em seus planos de vingança até na geração seguinte.

Mas Heathcliff não encontra a paz, mesmo após realizar sua vingança. Assombrado pelo fantasma de Cathy, ele só encontrará o seu paraíso quando ambos estiverem novamente juntos.

“Sim, ela está morta! Respondi, controlando meus soluços e secando os olhos. ‘Foi para o céu, e espero que um dia possamos todos ir para junto dela se tomarmos cuidado e deixarmos de lado o caminho do mal para fazer o bem!’ (…)

- E… ela mencionou meu nome? - ele indagou, hesitante, como se temesse que a resposta à sua pergunta trouxesse detalhes que ele não suportaria ouvir.

-Ela nunca recobrou a consciência: não reconheceu ninguém desde o momento em que a deixou, - disse eu - Ela jaz com um doce sorriso nos lábios, e seus últimos pensamentos a levaram de volta aos dias felizes. Sua vida encerrou-se como um sonho suave - que ela possa despertar tão suavemente no outro mundo!

-Que ela desperte em tormento! - gritou ele, com veemência assustadora, batendo o pé e gritando em um paroxismo repentino de paixão desgovernada. - Ela é uma mentirosa até o fim! Onde está ela? Não LÁ - não no céu - nem morta - onde? Oh, você diz que não se importa com meu sofrimento! Pois faço uma única prece - e vou repeti-la até que minha língua endureça - Catherine Earnshaw, que você não descanse enquanto eu viver; você diz que eu a matei - assombre-me, então! A vítima costuma assombrar seu assassino, creio eu. Sei que os fantasmas costumam vagar pela terra. Fique comigo sempre - sob qualquer forma - enlouqueça-me! Mas NÃO me deixe neste abismo, onde não posso encontrá-la! Oh, Deus, é indizível! NÃO POSSO viver sem minha vida! NÃO POSSO viver sem minha alma!”.

Recentemente o romance recebeu novas atenções por ter sido mencionado nos romances da série Crepúsculo; a nova edição americana tem capa parecida com os romances da série, e traz na orelha do livro a frase “o livro favorito de Edward e Bella”. Pode ser uma jogada de marketing, mas se despertar o interesse de novos leitores, tanto melhor.

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Esta história teve muitas adaptações para o cinema, mas vi apenas 3: a clássica versão de 1939, com Sir Laurence Olivier e Merle Oberon, que me deixou irritada no final, pois conta apenas a primeira metade do livro, omitindo a segunda geração. Apesar da interpretação de Olivier ser esplêndida, o filme me pareceu muito datado (de 1939, não da época em que se passa a história, a metade do século 18). Merle Oberon não convence como Cathy. Olivier queria que o papel ficasse com sua namorada, Vivien Leigh, mas os produtores não aceitaram, pois queriam Oberon como Cathy. Leigh e Olivier decidiram que o melhor para suas carreiras era ceder, e Vivien Leigh concentrou seus esforços em conseguir o papel de Scarlett O’Hara em E O Vento Levou. Perdemos uma ótima Cathy, mas ganhamos dois clássicos do cinema.

A segunda versão e minha preferida até então foi a de 1992, dirigida por Peter Kosminski e com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Faço parte do seleto grupo de gatos pingados que adorou esta versão, e gostei do clima sombrio e desolado das charnecas e da interpretação dos atores principais; esta foi a versão mais fiel aos detalhes do livro, e a trilha sonora de Ryuichi Sakamoto combina muito bem com o ambiente e a história.

A terceira versão que vi, graças à indicação da Naomi (sênquis, flor!) foi a minissérie de 2009 de PBS/ITD para a TV. Tom Hardy e Charlotte Riley são Heathcliff e Cathy, com as melhores interpretações que vi até agora. O Heathcliff de Hardy é contido mas intenso, exatamente como imaginei no livro. Selvagem e rude, ele tem uma verdadeira obsessão por Catherine e mesmo sob a aparência civilizada, podemos perceber sua natureza bruta e vingativa.

Outro detalhe interessante desta versão é que sugere como Heathcliff poderia ter sido uma pessoa diferente se não fosse pela crueldade de Hindley (Burn Gorman). Nas cenas em que Heathcliff e Cathy passeiam pelos campos, sem a presença de Hindley e sob a proteção do Sr Earnshaw, podemos imaginar um futuro feliz para o casal, sem obsessão por vingança ou o desespero pela ausência. Mas então, não haveria história.

Apesar de deixar de lado alguns detalhes, como o senhorio Sr. Lockwood, que narra a história no livro (ele está presente na versão de 1992), e da interpretação um pouco liberal de alguns detalhes, como o suicídio de Heathcliff, inexistente no papel, esta minissérie divide agora o posto de minha versão favorita de Wuthering Heights.

Um ponto em que todas as versões diferem do livro é que boa parte da história da primeira geração se passa na infância e início da adolescência dos personagens, enquanto que nas versões do cinema eles ‘crescem’ muito rápido e essas cenas (como quando Cathy é hóspede dos Lintons) são interpretadas pelos atores adultos.

Ainda há algumas versões recomendadas que (ainda) não vi, como a de 1998 para a TV britânica (com Robert Cavanah e Orla Brady), considerada pela Naomi como a melhor adaptação da obra; e em 2010 teremos mais uma versão, com Gemma Arterton e Ed Westwick. Pelo visto não há uma versão “definitiva” para o romance de Emily Brontë; a melhor versão ainda é a que criamos em nossa imaginação, ao ler o livro. E essa será perfeita, do jeito que quisermos.

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Para saber mais:


Veja também:

  • Músicas traduzidas - Wuthering Heights, de Kate Bush (em breve)
  • Bolsas Cathy no Terracota Blog: aqui, aqui, aqui e aqui.
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