Publicado em Dezembro - 28 - 2009
Tempo de Despertar
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(Awakenings - 1990) Este filme dirigido por Penny Marshall foi baseado no livro de mesmo nome do neurologista Oliver Sacks. O filme foi indicado a três Oscar (Melhor Filme, Melhor Ator - Robert De Niro e Melhor Roteiro adaptado - Steven Zaillian).
O Dr Sacks descreveu no livro seus esforços para auxiliar pacientes do Beth Abraham Hospital (Bronx - NY) no final da década de 60, que haviam sido vítimas da epidemia de encefalite letárgica nos anos 20. Esses pacientes haviam passado décadas em estado catatônico, sem reação ao mundo externo.
Oliver Sacks (nascido em 9 de julho de 1933 em Londres) é um neurologista e vive em Nova Iorque. Ele é professor de neurologia, psiquiatria e redação na Universidade de Columbia. Também lecionou de 1966 a 2007 no Albert Einstein College of Medicine e é o autor de diversos livros, incluindo várias coleções de estudos de casos de pessoas com distúrbios neurológicos. O asteróide 84928 Oliversacks, descoberto em 2003, recebeu esse nome em sua homenagem.
(Oliver Sacks em 2005)
Filme
O Dr. Malcolm Sayer (Robin Williams) é um médico dedicado que, apesar de sua facilidade para lidar com os pacientes, tem problemas em manter relacionamentos sociais. Trabalhando exaustivamente com os pacientes sobreviventes da epidemia de encefalite, auxiliado pela enfermeira Eleanor Costello (Julie Kavner), ele percebe que algumas coisas provocam reações nos pacientes, como uma bola atirada em sua direção, uma música em particular ou o toque de outra pessoa.
Leonard Lowe (Robert De Niro) contraiu a doença ainda na adolescência, e em 1969 é um homem maduro que está há 30 anos sem contato com o mundo. A mãe de Leonard (Ruth Nelson) conta ao Dr Sayer que ele gostava muito de ler. O médico então usa uma tábua Ouija com Leonard, que soletra “RILKE PANTHER”. Sayer vai até a biblioteca e encontra um livro de poemas de Rainer Maria Rilke, um dos quais é chamado “A Pantera”:
“De percorrer as grades o seu olhar cansou-se
e não retém mais nada lá no fundo,
como se a jaula de mil barras fosse
e além das barras não houvesse mundo.
O andar elástico dos passos fortes dentro
da ínfima espiral assim traçada
é uma dança da força em torno ao centro
de uma grande vontade atordoada.
Mas por vezes a cortina da pupila
ergue-se sem ruído - e uma imagem então
vai pelos membros em tensão tranquila
até desvanecer no coração.”

O médico fica ainda mais determinado a ajudar seu paciente a retornar para a realidade, e decide usar a (então) nova droga, L-DOPA, que havia tido sucesso com pacientes com doença de Parkinson. Ele imaginava que aqueles pacientes poderiam ter convulsões semelhantes às do Parkinson, mas aceleradas de forma que o corpo se tornasse rígido como pedra; portanto, ele esperava que o medicamento para Parkinson, em doses altas, pudesse trazer os pacientes de volta ao mundo. Para começar o tratamento, seria necessária a autorização por escrito da família do paciente.
“Dr Sayer: Não. Não, seus sintomas são como os do Parkinson… mas também não são.
Sra Lowe: E o que esse remédio fará com ele?
Dr Sayer: Não sei o que fará com ele, nem se fará alguma coisa.
Sra Lowe: O que pensa que acontecerá?
Dr Sayer: Não sei.
Sra Lowe: E o que espera que aconteça?
Dr Sayer: Espero que o traga de volta de onde ele está.
Sra Lowe: Para quê?
Dr Sayer: Para o mundo.
Sra Lowe: E o que há para ele aqui, depois de todos esses anos?
Dra Sayer: A senhora está aqui.”
[Atenção: daqui em diante, há alguns spoilers sobre o filme.]
Os resultados da droga em Leonard são assombrosos; ele recupera a consciência e aos poucos vai se adaptando ao novo mundo que o cerca. O sucesso da experiência faz Sayer solicitar fundos aos patronos do hospital para estender o tratamento aos outros pacientes. Os enfermeiros também contribuem com seus contracheques para ajudar na conta dos medicamentos.
Após a administração do medicamento, os pacientes acordam animados e cheios de energia, pensando que ainda estão na década de 20. Toda essa agitação atordoa os enfermeiros (”Eu gostava mais deles do outro jeito”, comenta um deles). Leonard começa a interessar-se por Paula (Penelope Ann Miller), filha de um paciente que sofreu AVC e que lê para o pai quando o visita. Ela comenta que não sabe se o pai percebe que ela lê para ele, e Leonard, ao despedir-se dela diz que sim, o pai sabe que ela está ali.
Leonard está redescobrindo o mundo, e tem muita vontade de viver; uma noite, ele liga para o Dr Sayer e diz que precisa conversar com ele (veja vídeo dessa parte no final do artigo); é interessante perceber como realmente tomamos as coisas como certas e não damos a elas a devida importância; coisas simples, como as alegrias da vida cotidiana.
“Leonard: Dr. Sayer, sente-se…
Dr Sayer: Por quê? O que há de errado?
Leonard: Precisamos contar a todos; precisamos lembrar a eles de como é bom.
Dr Sayer: Como é bom o quê, Leonard?
Leonard: Veja este jornal, veja o que diz; tudo ruim, está tudo ruim. As pessoas se esqueceram do que importa na vida; elas se esqueceram do que é estar vivo. Elas precisam ser lembradas, precisam se lembrar do que têm, do que podem perder. Eu sinto isto, a… a alegria de viver, a liberdade de viver, o presente da vida. É isso que elas esqueceram; é isso que precisam lembrar. E é o que vamos lhes dizer.”
Leonard quer ter uma vida normal, sair sozinho do hospital para passear, e pede isso aos médicos, que recusam. Leonard fica agitado e é posto em uma ala com pacientes psiquiátricos, ao mesmo tempo em que começa a desenvolver tiques nervosos e pequenas convulsões.
Por ter sido o primeiro paciente a tomar a medicação, ele também é o primeiro a mostrar os efeitos colaterais da droga, cujo efeito é apenas temporário. Ao perceber isso, Leonard diz a Paula durante um almoço que não poderá vê-la mais; quando ele lhe estende a mão, ela o segura e começa a dançar com ele no refeitório, numa cena emocionante. Leonard, sacudindo convulsivamente, vai se acalmando com a proximidade dela e sorri, enquanto tem sua primeira dança com uma garota.
Incapaz de aceitar a regressão de Leonard, o Dr Sayer tenta aumentar a dosagem do medicamento, mas a mãe de Leonard lhe pede para parar com aquilo:
“Sra Lowe: Meu filho está sofrendo! Por favor, pare com isso!
Dr Sayer: Ele está lutando, Sra Lowe.
Sra Lowe: Ele está perdendo”.
No final, vemos que Leonard voltou ao estado catatônico e recebe a visita de Paula, que lê para ele. Do mesmo modo, os outros pacientes também retornam à catatonia, e no final vemos o Dr Sayer explicando aos patronos do hospital que o efeito do medicamento foi temporário, mas que a experiência teve efeitos além do esperado.
“O que percebemos é que, quando a janela química se fechou, outro despertar aconteceu: a consciência que o espírito humano é mais poderoso que qualquer droga - e é ISSO que precisa ser alimentado: com trabalho, diversão, amizades, família. ESSAS são as coisas que importam. E foi isso que esquecemos - as coisas mais simples”.
Já perdi a conta de quantas vezes assisti a este filme; além da história ser comovente, e extremamente bem dirigida por Penny Marshall, as interpretações dos dois atores principais estão excelentes. Robin Williams mostra que não é bom apenas na comédia, interpretando seu personagem de maneira séria e convincente, enquanto Robert De Niro transmite todas as emoções de Leonard, desde a redescoberta do mundo até a frustração com o fracasso do tratamento, com dignidade e sem tornar o personagem caricato. Dois ótimos atores que nos contam uma história verdadeira, sensível mas sem sentimentalismo, e que nos emociona.
Os atores que interpretam os outros pacientes que despertam também estão excelentes, especialmente Alice Drummond, que interpreta Lucy. O famoso saxofonista de jazz Dexter Gordon, que interpreta o músico Rolando (um dos pacientes), faleceu 8 meses antes do lançamento do filme.
Se você ainda não viu este filme, recomendo uma visita à locadora; se já o viu, que tal assisti-lo de novo?
Para saber mais:
- Página do filme no IMDb
- Tempo de Despertar na Wikipédia
- Oliver Sacks na Wikipédia (em inglês)
- Site oficial do Dr Oliver Sacks
- Roteiro do filme no IMSDb
- Artigo no site ArScientia: “Oliver Sacks e a maravilhosa obra do acaso” - Maicol Martins de López Coelho
- Reflexão sobre as mães a partir do filme “Tempo de Despertar” - Juliana Dacoregio, no site Amálgama
Vídeo: Trailer de Tempo de Despertar
Vídeo: trecho do filme (a alegria de viver)











Esta história teve muitas adaptações para o cinema, mas vi apenas 3: a clássica versão de 1939, com 










