Publicado em Novembro - 30 - 2009

Resultado da enquete: Sobre qual assunto você gosta mais de ler no Rato de Biblioteca?

E aqui estão os resultados da primeira enquete do blog. Perguntamos sobre qual assunto você mais gosta de ler no Rato de Biblioteca, e apesar de ter recebido poucos votos pudemos perceber qual é o assunto preferido do pessoal.

Filmes e livros ficaram em primeiro lugar, com 40%  (6 votos). Como esse é o foco principal do blog, não foi uma surpresa e fiquei feliz de ver que várias pessoas preferem esse assunto.

Em segundo lugar está o gosto de todos, com 4 votos (27%). Obrigada, pessoal! :-)

Empatados no terceiro lugar, com 2 votos cada (13%), estão TV e ecologia e natureza. Legal, também são assuntos que me interessam e sobre os quais gosto de escrever.

Com apenas 1 votinho (7%) está a opção Artigos informativos sobre saúde e medicina. É um assunto interessante e ainda vou escrever mais sobre ele.

E finalmente, as outras opções não receberam nenhum voto. São: artigos sobre a Índia (parece que o interesse aqui diminuiu depois do fim da novela, que pena), recomendações de outros blogs e sites, papo sério e, felizmente, o famigerado “não gosto de nenhum“. Ufa!

Obrigada a todos que votaram e em especial à zelia_santos, crisboterra, allansempresk2, nizardoluiza, izaiasq, lenildapm59 e aos amigos  janioalcantara, diana.padua e a querida aduateresa, pelos comentários tão simpáticos. Valeu, pessoal!

Estamos começando outra enquete hoje, e a pergunta é: “Você compraria um e-book reader?” Pessoalmente, estou doidinha por um, mas ainda vou esperar um pouco. E você? Vote aí do lado e deixe seu comentário (costumo responder lá mesmo no SodaHead, fique de olho), e obrigada a todos desde já.

Grande abraço!

Publicado em Novembro - 30 - 2009

Entre Dois Amores

“Eu tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas Ngong. O Equador passa por essas terras, cem milhas ao norte, e a fazenda ficava a uma altitude de seis mil pés. Durante o dia parecia que havíamos subido perto do sol, mas as manhãs e o fim da tarde eram límpidos e agradáveis, e as noites eram frias”.

“Eu tive uma fazenda na África, no sopé das montanhas Ngong… Ali era a África mais pura, a seis mil pés de altitude, como a essência forte e refinada de um continente… Nas montanhas você acorda de manhã e pensa: estou aqui, onde deveria estar.”


Este belíssimo filme de 1985 é baseado na história real de Karen Blixen, a escritora dinamarquesa que escreveu diversos livros com o pseudônimo de Isak Dinesen, e mostra os anos em que ela viveu no Quênia, África.

Em 1914 Karen Dinesen (Meryl Streep) partiu para o Quênia para casar-se com seu primo, o Barão Bror Von Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer). Eles iriam iniciar uma criação de gado leiteiro, mas antes de sua chegada Bror mudou os planos para uma plantação de café, sem consultá-la.

A princípio o casamento ia bem, mas as sucessivas infidelidades dele (que transmitiram sífilis a ela, fazendo que tivesse de voltar à Dinamarca para o tratamento) e as diferenças de temperamento levaram ao divórcio em 1925. Após a separação ela envolveu-se com o caçador britânico Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que foi o grande amor de sua vida. O casal esteve junto até 1931, ano da morte de Denys em um acidente com seu avião.

Após o fracasso de sua plantação de café e a morte de Denys, Karen voltou para a Dinamarca, onde viveu até sua morte, em 1962. Lá ela escreveu diversos livros, sendo o mais famoso deles Out of Africa (A Fazenda Africana), no qual esse filme foi baseado. Outra história conhecida de Dinesen é Festa de Babette, que também foi transformada em filme na década de 80.

O subúrbio de Nairobi que fica onde antes foi a fazenda de Karen é hoje chamado Karen. Nesse distrito, perto da antiga casa dela, fica o Karen Blixen Coffee House and Museum. Blixen foi muito respeitada por seus pares, como Ernest Hemingway e Truman Capote. Durante uma visita aos EUA em 1959, ela foi visitada por Arthur Miller, E. E. Cunnings e Pearl Buck. Após vários problemas gástricos ela morreu em 1962 em Rungstedlund, Dinamarca, aos 77 anos. Alguns de seus trabalhos foram publicados postumamente, incluindo contos removidos de antigas coleções e ensaios inéditos.

Confesso que o filme nunca me atraiu muito, apesar de adorar o trabalho de Meryl Streep. A princípio achei que era mais uma história de aristocrata entediada que arruma um amante (o péssimo título em português também não ajudou muito), mas resolvi dar uma chance à Meryl e por fim fiquei encantada com a história.

Karen é independente e inteligente, e esforça-se para o casamento dar certo; quando percebe que Bror não deixará seus casos, ela pede que ele se mude da fazenda. Ela administra o negócio sozinha (como, aliás, já vinha fazendo antes da separação) e põe as mãos na massa, inclusive trabalhando na secagem do café.

Ela também se preocupa com seus trabalhadores, pessoas da tribo Kikuyu que foram desalojados de suas terras com a chegada dos britânicos, passando a trabalhar para eles. Karen consegue a aprovação do chefe da tribo para alfabetizar as crianças, e fornece tratamentos médicos e vacinas a eles. Gostei do relacionamento de respeito e amizade entre ela e o criado Farah, que a ajuda como intérprete junto ao chefe da tribo. Quando ela está indo embora para a Dinamarca, pede que ele a chame pelo nome. Farah responde: “Seu nome é Karen, msabu“.

Apesar de não ser o ponto central do livro, o romance entre Karen e Denys é o foco do filme. A certa altura, ela pergunta se ele não se importa por ela ser casada com outro homem. Ele responde que o importante foi que ela tentou ao máximo.

No filme, Karen quer casar-se com Denys, mas ele não abre mão de sua liberdade, e alega que não irá amá-la mais por causa de um papel.

“Karen: Quando você parte… não vai sempre em um safári, não? Você só quer ficar longe.

Denys: Não queria magoá-la.

Karen: Mas magoou.

Denys: Estou com você porque quero estar com você. Não quero viver da forma que outra pessoa acha certo. Não me peça isso. Não quero descobrir um dia que estou no final da vida de outra pessoa.”".

Robert Redford parece que repete sua atuação em Nosso Amor de Ontem (coincidentemente, também dirigido por Sydney Pollack); tive vontade de dizer a ele, “você já perdeu Barbra Streisand, vai acabar ficando também sem a Meryl Streep, seu babaca”. Apesar de ser um ótimo ator ele destoa um pouco do personagem (na verdade, Denys era britânico e Redford desistiu de interpretar com sotaque britânico e passou a interpretá-lo como um americano). Mas não sei quem ficaria melhor no lugar dele; David Warner ou Jeremy Irons, talvez?

Em compensação, Meryl Streep está perfeita como Karen; sua interpretação meticulosa inclui o sotaque dinamarquês (aparentemente convincente), e a atenção aos detalhes, como de costume. Meryl criou o sotaque ouvindo gravações da própria Karen Blixen lendo seus textos. Pena ela não ter recebido o Oscar de melhor atriz nesse ano, que seria merecido.

A fotografia do filme é belíssima, especialmente na cena do passeio de avião, com imagens de tirar o fôlego (veja o vídeo no final do artigo). A trilha sonora de John Barry combina perfeitamente com o clima do filme, e ainda temos diversas músicas de Mozart como a cereja do bolo.

Tudo isso rendeu 11 indicações e 7 prêmios da Academia, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.

“Entre dois amores” me conquistou, e sinto só tê-lo assistido agora. Se você ainda não o viu, recomendo uma passadinha na locadora.

“Eu conheço uma canção sobre a África, sobre a girafa e a lua nova africana deitada de costas, os arados nos campos e os rostos suados dos trabalhadores que colhem o café, mas será que a África conhece uma canção sobre mim? O ar sobre a planície terá uma cor que eu usei, ou as crianças inventarão um jogo com meu nome, ou a lua cheia lançará uma sombra sobre os cascalhos do caminho que se pareça comigo, ou será que as águias das montanhas Ngong procurarão por mim?”

*     *     *


Para saber mais:

Vídeo: sequência do voo sobre a África, com a linda música de John Barry: (o vídeo foi removido do YouTube)

Vídeo: música tema do filme, composta por John Barry:

Publicado em Novembro - 25 - 2009

Músicas Traduzidas - Don’t Stop Believing

Esta música “chiclete” (duvido que não fique o dia todo com ela na cabeça) da banda americana Journey foi gravada em 1981, e faz parte do álbum Escape. Considerada a música símbolo da banda, que é formada por ex-integrantes do Santana, ela recentemente voltou a ter destaque por causa do episódio piloto da série Glee, da Fox.

O Journey foi formado em 1973 e seu maior sucesso comercial aconteceu no final dos anos 70 e início da década de 80. A banda teve muitas formações ao longo dos anos, e está preparando o lançamento de um novo disco para 2010.

Don’t Stop Believing ficou muito conhecida no Brasil por fazer parte da famosa série de comerciais dos cigarros Hollywood. Quem não lembra dos comerciais com esportes radicais, gente bonita e músicas gostosas, que ficavam na cabeça?

A música teve outras “participações” em filmes e séries (Afinado no Amor, Monster, South Park, Os Sopranos, American Idol e Glee, entre outros), além de fazer parte do jogo Guitar Hero e ter sido a música de encerramento dos shows da turnê da oitava temporada do American Idol.

Curta a música junto com a letra e a tradução, e não deixe de ver o vídeo do episódio piloto de Glee no final do artigo.

Clique aqui para ouvir a música

Don’t Stop Believing

(Jonathan Cain, Steve Perry,Neal Schon)

Just a small town girl
Livin’ in a lonely world
She took the midnight train goin’ anywhere
Just a city boy
Born and raised in south Detroit
He took the midnight train goin’ anywhere

A singer in a smoky room
A smell of wine and cheap perfume
For a smile they can share the night
It goes on and on and on and on

Strangers waiting
Up and down the boulevard
Their shadows searching in the night

Streetlight people
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night
Working hard to get my fill
Everybody wants a thrill
Payin’ anything to roll the dice just one more time

Some will win, some will lose
Some were born to sing the blues
Oh, the movie never ends
It goes on and on and on and on

Strangers waiting
Up and down the boulevard
Their shadows searching in the night
Streetlight people
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night

Don’t stop believin’
Hold on to that feelin’
Streetlight people

Don’t stop believin’
Hold on
Streetlight people

Don’t stop believin’
Hold on to that feelin’
Streetlight people

Don’t Stop Believing

(tradução de Cristine Martin)

Apenas uma garota do interior
Vivendo em um mundo solitário
Ela pegou o trem da meia noite para qualquer lugar

Apenas um garoto da cidade
Nascido e criado no sul de Detroit
Ele pegou o trem da meia noite para qualquer lugar

Um cantor em uma sala enfumaçada
Cheiro de vinho e perfume barato
Eles podem dividir a noite apenas por um sorriso
E isso continua e continua e continua

Estranhos esperando
Do início ao fim da avenida
Suas sombras procurando pela noite

Pessoas nas luzes da rua
Vivendo apenas para buscar emoções
Escondidas em algum lugar na noite

Trabalhando duro para conseguir o que quero
Todos querem emoção
E farão qualquer coisa para rolar os dados só mais uma vez

Alguns vencerão, outros perderão
Alguns nasceram para cantar os blues
Ah, o filme nunca termina
Ele continua e contnua e continua

Estranhos esperando
Do início ao fim da avenida
Suas sombras procurando pela noite
Pessoas nas luzes da rua
Vivendo apenas para buscar emoções
Escondidas em algum lugar na noite

Não parem de acreditar
Agarrem-se a esse sentimento
Pessoas nas luzes da rua

Não parem de acreditar
Aguentem firme
Pessoas nas luzes da rua

Não parem de acreditar
Agarrem-se a esse sentimento
Pessoas nas luzes da rua

*     *     *

Vídeo: Don’t Stop Believing (episódio piloto de Glee)

Publicado em Novembro - 23 - 2009

Holocausto

Este romance de Gerald Green conta o vergonhoso episódio da história da humanidade através da história da família fictícia Weiss. O narrador é Rudi Weiss, o único sobrevivente da família, que nos narra sua história em 1952, quando está vivendo com sua nova família em um kibbutz em Israel.

Para dar verossimilhança à história e especialmente, para mostrar o ponto de vista dos nazistas, o autor utiliza os diários de Eric Dorf, um major da SS, cujos relatos intercala com os de Rudi Weiss em ordem cronológica. Através de “testemunhos” de várias pessoas sobreviventes, Rudi nos conta o que aconteceu com as outras pessoas de sua família.

Os Weiss eram uma família de judeus de Berlim. O pai, Josef, era um médico querido e respeitado. Bertha, mãe de Rudi, Karl e Anna, era uma mulher refinada e educada, que não acreditava que a ascensão de Hitler e a perseguição aos judeus pudesse representar um perigo real para eles. Por sua causa, a família permanece em Berlim até quando não é mais possível fugir do destino que os aguarda.

“A música de piano parecia mais alta, enchendo a casa. Por tudo o que ele simbolizava, nos manteve preso a Berlim. Éramos prósperos, seguros, pessoas com piano. Quem nos podia atingir? (Agora, um kibbutznik, um homem que não possui virtualmente nada e entrega seu magro salário à comunidade, percebo quão pouco as pessoas necessitavam para viver, como essas coisas materiais podem ser destrutivas. Não quero dizer que a fome ou a pobreza sejam enobrecedoras; longe disso. Mas ser um escravo das coisas? Definir nossa vida em termos de pianos e casacos de pele? Talvez isso explicasse - em parte, apenas - por que nós nos tínhamos cegado).”

O filho mais velho, Karl, era um artista e casado com a cristã Inga Helms. A família de Inga não aprova seu casamento e não esconde sua hostilidade aos judeus. Rudi era rebelde e determinado, e essas características o ajudarão a sobreviver. A caçula, Anna, era voluntariosa e esperta.

O livro começa em 1935 no casamento de Inga e Karl; Eric Dorf leva sua esposa Marta ao consultório do Dr Weiss, e mais tarde, por insistência da esposa, procura o General Reinhard Heydrich para pedir um trabalho na SS.

Em 1938 Dorf está lentamente progredindo na SS, sob as boas graças de Heydrich; vemos a Kristallnacht, ou noite dos vidros quebrados, que foi a primeira manifestação aberta de ódio aos judeus, com destruição material, violência e mortes. Aos poucos o cerco vai se fechando em torno dos judeus, que são forçados a usar a estrela amarela, não podem mais trabalhar ou ter propriedades, são deportados e começam a ser assassinados.

Através das histórias da família Weiss conhecemos os espancamentos nas prisões, a deportação para a Polônia, os estupros e mortes, o gueto de Varsóvia, os campos de Buchenwald, Theresienstadt, Babi Yar e finalmente, Auschwitz.

Um aspecto interessante do livro é o diário de Eric Dorf; a princípio relutante em participar da SS, ele começa a sugerir uma terminologia especial, cheia de eufemismos, para designar as atividades de extermínio: “recolonização”, “tratamento especial”, “remoção”, “comunidades judaicas autônomas”, “despiolhamento”. Podemos ver a metamorfose de Eric, de um rapaz tímido ao major insensível e frio que participa de operações de extermínio de milhares de pessoas sem demonstrar o mínimo de compaixão.

“Aproximou-se do Coronel Nebe e fez continência.

- Todos mortos, senhor, com exceção das duas crianças. Às vezes, as mães as protegem.

Caminhamos de volta ao carro do estado-maior.

- Não é um bom trabalho - falei.

- Sim, a gente pode ficar chocado mesmo quando se trata de judeus. Alguns dos homens não aguentam.

Olhei para Nebe com desprezo. Ele havia ordenado o massacre de centenas de milhares. Certamente estas eram as maiores lágrimas de crocodilo já derramadas por alguém. Duro e frio, como meus mestres, reprimi qualquer sentimento de piedade. Tornou-se relativamente fácil para mim desfazer a humanidade daqueles de que estamos livrando o mundo. A gente pode realizar milagres com a vontade.

- Não foi isto que eu quis dizer - falei. - Mas sim que é extremamente ineficaz e dispendioso.”

Além da crueldade extrema com que os judeus são tratados, o romance também mostra que a bondade humana encontra ocasião de se manifestar até em condições extremas, como na cena em que Bertha Weiss, consciente do que a esperava,  oferece carinho e confiança a uma jovem em estado de choque enquanto elas vão para as câmaras de gás. Ou a devoção de Inga, que entrega-se aos nazistas para ir para Theresienstadt e ficar perto de Karl.

Mesmo que a grande maioria dos judeus preferisse não acreditar na verdade cruel, continuando a crer que estavam sendo enviados para campos de trabalho, uma minoria resistiu e lutou, como os últimos remanescentes do gueto de Varsóvia e os grupos de guerrilheiros errantes pelas estradas e campos, entre os quais estava Rudi.

“Os judeus estavam sendo mortos a tiros às centenas. (…) As vítimas caíam sem ruído, quase em câmara lenta, sobre a terra arenosa.

- Rudi, Rudi, são tantos - chorou Helena - As crianças, os bebês…

Apertei-a em meus braços, perguntando-me para onde iríamos, como poderíamos evitar as patrulhas da SS. As cidades representavam a perdição, a morte. Nossa única esperança era vaguear pelo campo. Seguramente alguns judeus haviam escapado. Parte da população local teria pena de nós.

- Quero morrer com eles - chorava ela.

- Não, não, nada disso - falei. - Você vai ficar comigo. Não vamos morrer parados, nus, humilhados. Mataremos alguns deles quando morrermos.

Ela começou a gritar.

- Chega! Chega!

Puxei-a para junto de mim e apertei uma das mãos sobre sua boca. Ela teria de aprender a não chorar, não gritar, não correr o risco de trair nossa presença. Também teria de aprender a odiar, a desejar vingança, a perceber que não havia nenhuma saída para nós senão correr, esconder e tentar lutar. Eu teria que lhe contar coisas piores, também. Que precisávamos estar preparados para morrer, mas morrer de uma maneira corajosa, oferecendo resistência. Eu estava cansado de ver pessoas placidamente se colocando em fila, dando desculpas a si mesmas, obedecendo a ordens e caminhando para a morte.

O dia todo os fuzilamentos continuaram. Filas de judeus eram conduzidas para o ponto de reunião atrás da ravina. A terra ficou escura com o sangue judeu. Os nazistas compreenderam algo que o mundo levou muito tempo para aprender. Quanto maior o crime, menos as pessoas acreditarão que ele aconteceu. Mas eu o vi ocorrer. Nunca mais seria o mesmo; nem Helena.”".

A partir do final de 1943, os nazistas percebem que a derrota é iminente e inevitável, e ordenam o desmantelamento dos campos de concentração. Temem que a opinião pública os condene por terem “escrito uma página de glória na história alemã”. Os russos tomam o campo de Lublin e aos poucos o segredo nazista vai sendo revelado ao mundo.

“Hoje estou de novo em Auschwitz, tentando executar as ordens de Himmler: desmantelar, destruir, queimar, oblitar as provas. Que farsa! Mas estou tentando fazer o que ele mandou.

E, no entanto, há ocasiões em que me pergunto se esses esforços serão tão fúteis quanto parecem. Durante muitos anos, apesar de rumores e até mesmo de informações diretas, o mundo recusou-se a acreditar que estivéssemos fazendo o que fazíamos. Nós sabíamos enganar. E encontramos pessoas dispostas a crer em nós. Nossa linguagem esopiana funcionava muito bem. Naturalmente. Os judeus. Problemas. Têm de ser recolonizados, vocês compreendem.

Como foi espantosa a maneira como o mundo recuou, aceitou nossa palavra, confiou em nós!”

Quanto maior o crime, mais difícil será acreditar nele; infelizmente tudo aquilo foi verdade, e através da história da família Weiss Gerald Green conseguiu traçar um retrato do que aconteceu a milhões de pessoas naqueles anos negros. Os fatos narrados ultrapassaram o limite do que podemos imaginar para a crueldade humana; talvez por isso ainda hoje existam pessoas que não acreditam que o Holocausto aconteceu. Nem mesmo os fatos e provas conseguem convencê-los da terrível verdade.

Minissérie

Em 1978 foi ao ar na TV americana a minissérie de 7 horas e meia dirigida por Marvin J Chomsky e baseada no livro Holocausto. Recentemente exibida pelo canal TCM e disponível em DVD pela Amazon, a minissérie conta com atores como Meryl Streep (Inga Weiss), James Woods (Karl Weiss), Sam Wanamaker (Moisés Weiss), Rosemary Harris (Bertha Weiss), Joseph Bottoms (Rudi Weiss), Michael Moriarty (Eric Dorf) e David Warner como Reinhard Heydrich. Warner foi Jack, o estripador no filme Um Século em 43 minutos e Lovejoy em Titanic. Uma curiosidade; no filme Hitler’s S.S.: Portrait in Evil, de 1985, ele também interpretou Heydrich.

Reli o livro enquanto assistia à minissérie e pude comparar as cenas e diálogos (idênticos); as condições e fatos contados no livro são bem piores que o que aparece na tela. Aparentemente o horror das imagens vai apenas até o ponto que o telespectador suporta ver em horário nobre (ao menos em 1978); a realidade era muito pior.

Quando a minissérie foi exibida na TV alemã, a polícia recebeu inúmeros telefonemas durante a cena da “Kristallnacht”, de confissões de pessoas que participaram dos acontecimentos reais quebrando vitrines  de estabelecimentos judeus e sinagogas. Como o Estatuto da Libertação estava em vigor, apesar das confissões nenhuma ação pôde ser tomada quanto àquelas pessoas.

Filmes como Holocausto, A Lista de Schindler, QB VII, O Julgamento de Nuremberg e tantos outros podem não ser agradáveis, mas cumprem a missão de lembrar o mundo desses horrores, para que isso não aconteça mais. Mesmo que não tenhamos tido um único dia sem guerra no mundo no último século, hoje não é possível exterminar seis milhões de vidas sem que o mundo saiba, e permanecer impune. Felizmente.

Para saber mais:

Outros artigos relacionados:

  • QB VII - livro e minissérie

A minissérie está disponível no YouTube, em 59 partes (em inglês, sem legendas). Na lista de reprodução há os links para todos os vídeos. A seguir, o vídeo da primeira parte:

Publicado em Novembro - 18 - 2009

Músicas traduzidas - Vincent

Esta bela música de Don McLean é uma homenagem ao pintor holandês Vincent Van Gogh (1853 – 1890), com imagens de seus quadros e referência a seus problemas mentais. O cantor a compôs em 1970, após ler um livro sobre o pintor. Lançada no álbum American Pie, de 1971, esta música e a canção-título tornaram-se seus dois maiores sucessos.

“Quanto mais eu pensava a respeito, mais interessante e desafiadora se tornava a ideia. Pus o livro de lado e peguei o violão, que estava sempre junto a mim, e comecei a dedilhar tentando dar forma a esta ideia, enquanto observava uma reprodução de “Noite Estrelada”. Ao olhar a imagem, compreendi a essência da vida do artista e sua obra. Então, deixei que a pintura escrevesse a música por mim. Todos conhecem esse quadro”.

O quadro Noite Estrelada, que está no Museu de Arte Moderna de Nova York “constitui uma síntese cósmica de todos os estudos humanos e visuais de Van Gogh. É como e estrelas, terra e céu estivessem se revolvendo numa atmosfera em chamas, prelúdio para a solidão desesperadora do indivíduo” (fonte: Mestres da Pintura, Ed. Abril, 1977).

Van Gogh o pintou após o triste episódio em que cortou a própria orelha após uma briga com Gauguin e foi internado no hospital Saint Paul para doentes nervosos, em Saint Rémy-de-Provence. Alguns quadros dessa fase foram pintados ao ar livre, quando lhe permitiam sair com um acompanhante. Mas a maioria deles, como Noite Estrelada, foram pintados de memória, recriando ambientes ou personagens familiares.

A música Vincent foi gravada por muitos artistas, como Josh Groban, Tori Amos, Garth Brooks, Rick Astley e até mesmo Julie Andrews e Julio Iglesias. Brian Kennedy cantou-a durante o funeral do jogador de futebol George Best. A música também fez parte da trilha sonora de diversas séries de TV, como Heart of Greed, Nip/Tuck e Os Simpsons.

A partitura da música foi incluída, junto com uma coleção de pincéis de Van Gogh, em uma cápsula do tempo enterrada junto ao Museu Van Gogh, em Amsterdam, quando de sua inauguração em 1973.

Curta a música acompanhando com a letra e a tradução, e veja o belo vídeo no final do artigo, com imagens de obras de Van Gogh acompanhando esta linda homenagem.

Clique aqui para ouvir a música

Vincent

Don McLean

Starry

starry night

paint your palette blue and grey

look out on a summer’s day

with eyes that know the

darkness in my soul.

Shadows on the hills

sketch the trees and the daffodils

catch the breeze and the winter chills

in colors on the snowy linen land.

And now I understand what you tried to say to me

how you suffered for your sanity

how you tried to set them free.

They would not listen

they did not know how

perhaps they’ll listen now.

Starry

starry night

flaming flo’rs that brightly blaze

swirling clouds in violet haze reflect in

Vincent’s eyes of China blue.

Colors changing hue

morning fields of amber grain

weathered faces lined in pain

are soothed beneath the artist’s

loving hand.

And now I understand what you tried to say to me

how you suffered for your sanity

how you tried to set them free.

perhaps they’ll listen now.

For they could not love you

but still your love was true

and when no hope was left in sight on that starry

starry night.

You took your life

as lovers often do;

But I could have told you

Vincent

this world was never

meant for one

as beautiful as you.

Starry

starry night

portraits hung in empty halls

frameless heads on nameless walls

with eyes

that watch the world and can’t forget.

Like the stranger that you’ve met

the ragged men in ragged clothes

the silver thorn of bloddy rose

lie crushed and broken

on the virgin snow.

And now I think I know what you tried to say to me

how you suffered for your sanity

how you tried to set them free.

They would not listen

they’re not

list’ning still

perhaps they never will.

Vincent

(tradução de Cristine Martin)

Noite estrelada,

pinte com sua paleta azul e cinza,

cauteloso em um dia de verão

com olhos que conhecem

a escuridão de minha alma.

Sombras nas colinas

desenhe as árvores e os narcisos

capture a brisa e o frio do inverno

nas cores da neve sobre a terra branca.

E agora eu compreendo o que você tentava me dizer

como você lutou por sua sanidade

como tentou libertá-los.

Eles não o ouviram

pois não sabiam como

talvez o ouçam agora.

Noite estrelada

flores flamejantes em uma explosão de brilho

nuvens rodopiantes de neblina violácea refletida

nos olhos azuis porcelana de Vincent.

Cores de matizes variados

campos matinais com grãos de âmbar

rostos desgastados vincados pela dor

são confortados pela mão

amorosa do artista.

E agora eu compreendo o que você tentava me dizer

Como você sofreu por sua sanidade

e como tentou libertá-los.

talvez eles o ouçam agora.

Pois mesmo que não fossem capazes de amá-lo

ainda assim seu amor era verdadeiro

e quando não restava mais esperança

naquela noite estrelada

Você tirou sua vida

como os amantes costumam fazer;

Mas eu poderia ter lhe dito

Vincent

o mundo não foi feito

para alguém

tão belo como você.

Noite estrelada

retratos suspensos em paredes vazias

cabeças sem moldura em paredes sem nome

com olhos

que observam o mundo e não podem esquecer.

Como o estranho que você encontrou

o homem castigado com roupas em farrapos

o espinho prateado da rosa rubra

jaz pisado e quebrado

sobre a neve virgem.

E agora creio que sei o que você tentava me dizer

como você lutou por sua sanidade

Eles não o ouviram,

ainda

não o ouvem

e talvez nunca o façam.

*      * *

Clique para comprar o CD American Pie na Livraria Cultura

Para saber mais:

Vídeo: Vincent (Starry Starry Night)

Related Posts with Thumbnails