Publicado em Outubro - 27 - 2009

Vírus Fatal

Este filme de 2006 feito para a TV (em cartaz na HBO) fala de uma suposta epidemia mundial causada pelo vírus da gripe aviária, que felizmente não aconteceu (e esperamos que não aconteça nunca; já explicarei por quê).

A história começa com uma infecção de aves na China pelo vírus H5N1, o vírus da gripe aviária. As aves são mortas, e vemos a reação das pessoas que se revoltam com isso e tentam esconder as aves, pois os animais significam sua fonte de renda e seu sustento. Ed Connelly, americano de Richmond, Virgínia, está em visita a uma fábrica na China, mas um funcionário da fábrica está doente.

Quando Connelly volta aos EUA, começa a espalhar o vírus já dentro do avião, sem saber que está doente. Com isso, a doença começa a se espalhar. Através de múltiplas imagens em sequência, podemos compreender como é fácil a transmissão do vírus.

A Dra Iris Varnack (Joely Richardson) vai até a China investigar alguns casos de morte pela gripe aviária, e constata que o vírus deve estar se espalhando entre humanos, em vez de das aves para humanos. Isso é muito grave, e ela informa o governo que há o risco de uma pandemia pior que a Gripe Espanhola de 1918, com possibilidade de até 30 milhões de mortes.

Connelly morre e todas as pessoas que tiveram contato com ele devem ser isoladas. O governador da Virgínia, Mike Newsome (Scott Cohen), ordena que o bairro de Richmond onde Connelly morava seja colocado em quarentena, assim como os bairros onde houver pessoas infectadas. A Dra Iris diz ao governador que a quarentena não adianta, pois as pessoas sentem-se como animais enjaulados, e isso tira delas o sentido de humanidade.

Logo vemos que a médica estava certa; com a progressão da epidemia e o aumento do número de mortes, o egoísmo começa a predominar e as pessoas não se importam com os outros, apenas consigo mesmas. Os hospitais estão superlotados, todos querem remédios e vacinas, na vizinhança em quarentena as pessoas não se aproximam dos vizinhos, ninguém ajuda ninguém.

O pânico se espalha junto com o vírus, e vemos o caos nas cidades; falta comida, a violência aumenta, as autoridades tentam em vão controlar a epidemia, milhares de pessoas morrem, o desespero toma conta de alguns, e a situação traz à tona o melhor e o pior das pessoas.

O filme também mostra pessoas dedicadas, como a enfermeira Alma Ansen (Justina Machado), que trabalha incessantemente no hospital. Seu marido Curtis (David Ramsey) está em missão no Iraque, e mais tarde retorna aos EUA para atuar na Guarda Nacional. Quando os hospitais não comportam mais o número de doentes, as estações de metrô são transformadas em hospitais improvisados, e Alma continua tentando ajudar os doentes. Faltam remédios, vacinas e há milhares de mortos, que a princípio são incinerados; mais adiante no filme, vemos uma enorme vala comum onde são postos os cadáveres de milhares de pessoas, e cobertos com cal. Uma cena chocante.

Após a morte de Ed Connelly, sua esposa Denise (Ann Cusack) entra em depressão e distancia-se da família e de tudo. Sua filha tenta cuidar da família, buscando suprimentos com os militares que guardam o bairro em quarentena e cuidando do irmão menor. O menino também fica doente; isso tira a mãe de seu torpor, e ela começa a cuidar dele. Quando a febre cede, Denise vê que não há comida para dar ao filho, e começa a perceber a situação ao seu redor.

Quando seu filho morre pela gripe, apesar do isolamento e dos cuidados de que sua família desfrutava, o governador Newsome percebe que só o isolamento não adiantava e manda suspender a quarentena. A família de Denise Connelly decide ir embora, e vê o cãozinho da vizinha solto. Ela entra na casa e vê a vizinha inconsciente no sofá. Denise percebe que a velha não tem gripe mas está morrendo de fome, pois não há comida na casa, e a leva para sua casa para cuidar dela.

Nas cenas seguintes vemos que os Connelly começam a organizar a vizinhança em serviços voluntários para ajuda e apoio mútuos; a solidariedade retorna, e as pessoas agora se ajudam. Alma e Curtis descobrem que vão ter um filho, e Alma para de trabalhar no hospital.

Apesar do número de mortes começar a diminuir, a Dra Iris explica que isso era esperado e também aconteceu na Gripe Espanhola; as pessoas adquirem certa resistência ao vírus, mas em uma segunda fase uma nova mutação causará muito mais mortes que antes, e eles devem se preparar. Quando recebem a notícia de muitas mortes em uma aldeia em Angola, Iris e sua equipe vão até lá para investigar.

O cenário é devastador – todas as pessoas na aldeia estão mortas. Mesmo que isso tenha ocorrido por causa da baixa imunidade e resistência daquelas pessoas, isso é sinal que a nova mutação do vírus já está acontecendo. E na cena final, vemos um bando de aves migratórias em voo, indicando que a pandemia se tornará incontrolável.

*     *     *

Apesar do filme parecer pessimista e catastrófico, caso o vírus H5N1 passasse a ser transmitido entre humanos esse cenário terrível poderia acontecer. Felizmente o vírus ainda só é transmitido das aves para os humanos, pois ele é muito mais perigoso que o vírus H1N1, causador da gripe suína.

O número de mortes pela gripe aviária é baixo por causa da transmissão ave-humana e pelas medidas efetivas que são tomadas, como a separação do comércio de aves domésticas e silvestres na China, o extermínio de todas as aves de criação próximas de locais infectados e o sequenciamento e acompanhamento dos vírus aviários por laboratórios do mundo todo. Tudo isso diminui a probabilidade do surgimento de uma linhagem humana do vírus, o que seria o começo de uma catástrofe como a mostrada no filme, pois o vírus H5N1 (altamente perigoso) costuma matar mais de 50% dos infectados.

Apesar dos EUA atualmente estarem preocupados com o aumento de casos da gripe suína, tendo o Presidente Obama declarado a epidemia de gripe suína uma emergência nacional, ela não é um problema tão sério quanto uma suposta epidemia de gripe aviária. O vírus H1N1, causador da gripe suína, apesar de ser facilmente transmitido entre humanos (altamente infectante), não tem tanta virulência e pode ser controlado com o uso de medicamentos como o Tamiflu em pacientes corretamente diagnosticados.

A declaração do estado de emergência aumenta a capacidade dos hospitais, médicos e postos de saúde de atender ao aumento da demanda por tratamento em um eventual novo pico de infecções pelo vírus H1N1. Com o estado de emergência, as autoridades não precisam seguir algumas exigências burocráticas federais e o estabelecimento de planos de emergência pode ser feito com maior rapidez. Isso é essencial em caso de uma epidemia.

Portanto, não há motivo para pânico. Apesar dos americanos adorarem um filme-catástrofe (onde tudo acontece nos EUA), alguns deles podem ter um resultado positivo; por exemplo, as pessoas podem perceber que há um perigo potencial e começar a tomar medidas práticas de prevenção, como por exemplo evitar aglomerações e lavar as mãos com frequência; ao menos por aqui esses foram bons resultados da preocupação com a gripe suína.

O filme está disponível no YouTube (em 9 partes, em inglês e sem legendas - veja vídeo no final do artigo); conforme o texto do usuário que publicou os vídeos,”esta é a verdadeira essência da programação preditiva, lembranças suprimidas de uma situação que foi implantada através do uso de filmes de cinema e programas de TV. O tema do filme apresenta uma crise ainda não enfrentada pelo público, e então mostra reações específicas que afetarão de forma subconsciente a reação racional dos espectadores caso tais eventos ocorram no mundo real”.

Visto por tal perspectiva, um filme como esse pode ter efeitos indesejáveis caso uma epidemia ocorra; esperamos que isso continue apenas na ficção.

Para saber mais:

Vídeo: Fatal Contact: Bird Flu in America (parte 1)

veja também: parte 2 / parte 3 / parte 4 / parte 5 / parte 6 / parte 7 / parte 8 / parte 9

Publicado em Outubro - 26 - 2009

Músicas Traduzidas - A Junkie´s Lament

A Junkie´s Lament foi composta e gravada por James Taylor e faz parte de seu sétimo álbum, “In the Pocket” (1976). Este foi o último álbum de Taylor pela Warner Bros, antes de assinar contrato com a Columbia, e tem outros sucessos como Shower the People, Daddy´s All Gone e Don´t Be Sad Because Your Sun is Down (com Stevie Wonder). Art Garfunkel participa de A Junkie´s Lament e Captain Jim´s Drunken Dream, fazendo dueto com Taylor.

James Taylor teve problemas de depressão já na adolescência, tendo ficado internado no Hospital MacLean durante o ano de 1965. A partir de 1966 ele começou sua carreira na música e a usar drogas, especialmente heroína. Durante vários anos ele teve períodos de uso pesado de drogas e de recuperação, até abandonar o vício completamente em 1983.

Esta música fala sobre o vício de heroína e como isso pode afetar uma pessoa, tornando-a irreconhecível até para si mesma. A melodia é belíssima, e lembro de tê-la ouvido em um comercial, na década de 70. Alguém também lembra disso?

Veja no final do artigo um vídeo com cenas do seriado House, ao som da música de James Taylor; a ótima interpretação de Hugh Laurie mostra bem o inferno em que vivem as vítimas das drogas.

Ouça a música e acompanhe a letra e a tradução. Boa semana!

Clique aqui para ouvir a música

A Junkie´s Lament

James Taylor

Ricky’s been kicking the gong
Lickety split didn’t take too long
A junkie’s sick
A monkey’s strong
That’s what’s wrong

Well, I guess he’s been messing around downtown
So sad to see the man losing ground
Winding down behind closed doors
On all fours
Mama, don’t you call him my name
He can’t hear you anymore

And even if he seems the same to you
That’s a stranger to your door
Ask him what’s he come here for

Oh my god, a monkey can move a man
Send him to hell
And home again
With an empty hand in the afternoon
Shooting for the moon

It’s halfway sick
And it’s halfway stoned
He’d sure like to kick
But it’s too far gone
They wind him down with the methadone
He’s all on his own

But baby, don’t you throw your love away
I hate to seem unkind
It’s only that I understand the man
That the monkey can leave behind
I used to think he was a friend of mine

A Junkie´s Lament (o lamento de um viciado)

tradução: Cristine Martin

Ricky tem fumado ópio
E fica alto rapidamente
O viciado está doente
O macaco está forte
E é isso que está errado.

Acho que ele tem causado confusão pela cidade
É tão triste ver o homem ficando para trás
Vagando por trás de portas fechadas
De quatro no chão

Mãe, não o chame pelo meu nome
Ele não consegue mais ouvi-la
E mesmo que pareça o mesmo para você
Ele é um estranho à sua porta
Pergunte a ele o que veio fazer aqui

Oh, meu Deus, o animal pode controlar um homem
Enviá-lo ao inferno
E de volta para casa
De mãos vazias no meio da tarde
Numa última tentativa

Ele está meio doente
E meio chapado
Ele gostaria de desistir
Mas já foi longe demais
Eles o acalmam com a metadona
Ele está por sua própria conta

Mas, meu bem, não jogue fora o seu amor
Detesto parecer rude
Mas é que compreendo o homem
Que o animal pode deixar para trás
Eu costumava pensar que ele era meu amigo

*     *     *

James Taylor na Wikipedia (em inglês)

Vídeo: montagem de House, M.D. ao som de “A Junkie´s lament”

Publicado em Outubro - 19 - 2009

QB VII

QB VII é um livro especial para mim. Li-o pela primeira (de muitas) vezes quando era pequena, e fiquei impressionada com as histórias contadas no julgamento. Foi a primeira vez que eu ouvi falar do Holocausto, bem antes de aprender a respeito nas aulas de História. Depois disso, li muitos outros romances sobre o assunto, como O Dossiê Odessa (Frederick Forsyth), Exodus (também de Leon Uris), Os Meninos do Brasil (Ira Levin) e Holocausto (Gerald Green), entre outros. Não se deixa um livro destes ao alcance de uma criança de 12 anos impunemente.

O romance de Leon Uris (1924 – 2003) conta o julgamento de libelo entre o médico polonês Adam Kelno e o escritor (e judeu) Abraham Cady. Cady é o autor do romance “O Holocausto”, e em certa passagem do livro acusa Kelno de ter realizado muitas experiências de castração de judeus no (fictício) campo de concentração de Jadwiga, durante a 2ª Guerra Mundial. Kelno, então, move uma ação judicial exigindo o pedido de desculpas público e uma indenização por parte de Cady. O julgamento acontece na Corte nº 7 dos Tribunais da Rainha (Queen´s Bench Court VII), em Londres.

Primeira Parte – O Queixoso

O livro é dividido em 4 partes: na primeira parte, conhecemos a história do queixoso, Dr. Adam Kelno.

Em novembro de 1945, o médico Adam Kelno chega a um campo de refugiados na Itália e após sua recuperação, começa a trabalhar como médico. Conhece a enfermeira Angela Brown (Leslie Caron), com quem se casa mais tarde. Em 1947, pouco antes do nascimento de seu filho, Kelno descobre que o governo polonês pediu sua extradição para a Polônia, para ser julgado como criminoso de guerra. Isso significaria sua condenação e morte certas. Enquanto o processo de extradição se arrasta por dois anos, Adam fica preso. Por falta de provas e após o testemunho de uma das vítimas de Jadwiga que não o identificou, ele é considerado inocente das acusações e libertado.

Depois disso, Adam, Angela e o filho Stephan mudam-se para Sarawak, em Bornéu. Lá ele tenta melhorar a vida e a saúde dos nativos, mas depara-se com os tabus, preconceitos e tradições da cultura local, e a burocracia dos funcionários públicos britânicos. A certa altura, exasperado, Adam reclama:

“— Lá no baixo Lemanak eles pescam com lanças, caçam com zarabatanas, e lavram o campo com pedaços de pau. Quando se consegue meter uma idéia na cabeça deles vem um Clifton-Meek e a enterra num monte de papel.

— Bem, Kelno, com o tempo vai entender a inutilidade de tanto esforço. As coisas aqui andam muito lentamente. E, depois, a maioria dos ibans são gente boa, só que pensam e vivem de um modo diferente do nosso.

— São uns selvagens, uns miseráveis selvagens.

— O senhor acha realmente que sejam selvagens?

— O que mais posso pensar?

— Isto é muito inesperado vindo do senhor, Doutor Kelno.

— O que quer dizer?

— Nós não procuramos nos meter na vida passada de quem chega aqui. Mas o senhor foi prisioneiro num campo de concentração. O que quero dizer é que, depois do que passou na Polônia, tudo obra de um povo civilizado, parece-me um tanto difícil estabelecer quem realmente sejam os selvagens neste mundo.”

Depois de 15 anos brigando com a burocracia inglesa e dedicando-se a melhorar as condições de vida dos nativos, o trabalho de Adam sobre desnutrição é publicado e reconhecido, e ele é sagrado Cavaleiro. A família, então, volta para a Inglaterra. Terrence Campbell, filho de um amigo de Adam, vai junto com eles para estudar medicina em Londres.

O Dr Kelno instala-se em um bairro simples de Londres e volta a clinicar. Um dia, Terry Campbell mostra a ele o livro de Abe Cady, recém-publicado e sucesso de vendas, e o trecho que menciona Kelno. Este fica furioso por ter sido caluniado e decide processar o escritor, o editor e o impressor do livro.

Segunda parte – Os Acusados

Nesta parte conhecemos a história de Abraham Cady. Filho de um padeiro, este adolescente rebelde decide escrever a história do irmão Ben após a morte deste na Guerra Civil espanhola, e envia seu manuscrito para o editor David Shawcross, que lhe dá conselhos e lhe diz para reescrever a história para que possa ser publicada. O livro é um sucesso. Abe então alista-se na Força Aérea Canadense e parte para a guerra. Ele é ferido em combate e no hospital conhece Samantha, com quem se casa mais tarde.

A carreira de escritor de Abe vai de vento em popa; seus livros crescem em sucesso mas declinam em qualidade; da mesma forma, após vinte anos e dois filhos (Ben e Vanessa), seu casamento está em crise. Abe é mulherengo e frustrado por não conseguir escrever o que deseja e o que acha que deveria. Abe e Samantha se divorciam, e ele parte para a Europa e Jerusalém para pesquisar sobre os judeus e escrever seu próximo livro.

O Holocausto é lançado e 1965 e muito bem recebido pela crítica e público. Enquanto descansa sobre os louros de seu trabalho recente, Abe recebe um telegrama de David Shawcross, que o alerta do processo de libelo movido contra ele por Adam Kelno.

Terceira Parte – Instruções aos Advogados

Após a notícia do processo, ambas as partes começam o processo de preparação para o julgamento. Então somos apresentados ao sistema judiciário inglês, os diversos prédios e cargos, e aos atores do próximo ato: advogados, assistentes e o juiz, e do longo processo de elaboração do processo e contato com as testemunhas, especialmente da defesa.

Quarta Parte – O Julgamento

Em 16 de abril de 1967 começa o julgamento do processo de libelo. Após a apresentação de abertura Sir Robert Highsmith, advogado de Kelno, lê para o júri o trecho de O Holocausto onde Kelno é citado:

“Ele mostrou um exemplar de O Holocausto e o abriu, com lentidão estudada, na página 167. Outro momento se passou enquanto ele olhava para cada homem e mulher do júri, separadamente. Então, começou a ler, pausadamente.

— “De todos os campos de concentração nenhum foi mais infame do que o de Jadwiga. Foi aqui que o Coronel-Médico Adolph Voss, da SS, organizou um campo de experiências com o propósito de criar métodos de esterilização em massa, usando cobaias humanas, e o Coronel-Médico Otto Flensberg, também da SS, e seus assistentes levaram a efeito estudos igualmente horripilantes com os prisioneiros. No notório Alojamento V, uma cirurgia experimental secreta era dirigida pelo Dr. Kelno, que perpetrou mais de quinze mil operações experimentais sem o uso de anestésico.” Senhores e senhoras do júri, deixem-me repetir esta passagem… “mais de quinze mil operações experimentais sem o uso de anestésico.” “

Adam Kelno faz o juramento e começa seu depoimento. Ele nega ter feito as cirurgias para remoção de ovários e testículos sadios, mas admite ter feito algumas dezenas dessas cirurgias para remover órgãos danificados pelas experiências de Voss, que expunha alguns judeus de Jadwiga a doses maciças de raios-X. Ele afirma que as cirurgias eram feitas com anestesia local, pois a anestesia geral não estava disponível, e que era dada uma injeção prévia de morfina antes da raquidiana. Kelno diz que fez as cirurgias para salvar a vida dos pacientes, pois Voss ameaçara que os ajudantes enfermeiros as realizariam, caso os médicos se recusassem.

Entretanto, quando começam os depoimentos das testemunhas da defesa, conhecemos histórias terríveis de crueldade e castração de pessoas sadias, mortes por hemorragia decorrentes de operações mal feitas, experiências com choques elétricos entre presos judeus para testar os limites da resistência humana antes da loucura, histórias de sacrifícios para salvar outras pessoas, descrições do inferno na terra que era Jadwiga.

“Ele estudou o pedido de Bannister. Legalmente parecia muito bem redigido, e qualquer juiz inglês poderia dar seu parecer sem muita hesitação.

Mas, por alguma razão, ele continuou a contemplá-lo, sem realmente prestar muita atenção à leitura. O que via era aquele desfile sem fim.

Aquele julgamento haveria de marcá-lo para o resto da vida. Ele os vira… seres humanos… mutilados. Já não era mais a culpa ou a inocência de Kelno que se tornava importante, mas sim o que um homem podia sofrer nas mãos de um outro homem. Por um momento ele conseguiu atravessar a fronteira e entender aquela estranha lealdade de um judeu para com outro judeu. Os judeus que viviam livremente, na Inglaterra, sabiam que estavam livres graças a um acaso do destino, que não os conduzira a Jadwiga. Cada judeu sabia que o genocídio poderia ter sucedido com ele e toda à sua família, e que apenas haviam sido poupados por esse acaso do destino. Gilray simpatizara muito com os dois belos jovens, o filho e a filha de Cady. Afinal, eles eram meio ingleses.

No entanto, enquanto o tempo se mantinha estático, Gilray pensava também como um inglês, e não poderia nunca entender, completamente, um judeu. Poderia ser amigo deles, trabalhar com eles, mas não os entenderia. Ele era como os homens brancos que nunca podem entender completamente os negros. Como os negros que nunca podem entender os brancos. Como todos os homens normais que podem ser amigos e tolerar os homossexuais, mas não podem nunca entendê-los.

Há em todos nós essa espécie de resistência em entender o que é diferente de nós.”

Por fim, após um longo julgamento de vários meses, o júri delibera em uma hora e meia o veredito e a sentença. Eles decidem a favor de Kelno e estipulam a indenização em meio penny, a menor moeda do reino.

Como diz Abe Cady, “Ninguém vai ganhar este caso. Somos todos perdedores”. As verdades trazidas à tona durante o julgamento mexeram com antigas feridas, relembraram uma época negra que, naqueles anos, ninguém queria lembrar. Mas essas verdades não podem ser esquecidas.

O Holocausto, ou Shoah, foi uma abominação tão grande que os próprios nazistas duvidavam que alguém pudesse acreditar na verdade, se a soubessem. Quando os aliados chegaram aos campos de concentração o cenário dantesco que encontraram era inacreditável: pilhas de mortos, fornos crematórios para assassinatos em massa, cadáveres ambulantes arrastando-se pelo lugar, em condições desumanas de doença e desnutrição.

Hoje, depois de mais de sessenta anos após o final da guerra que acreditava-se ter sido a “guerra para acabar com todas as guerras”, não tivemos um só ano em que não houvesse algum país em guerra no planeta. Já presenciamos outros genocídios, ataques a civis, massacres, ditaduras sangrentas, crueldade sem limites.

Durante uma guerra os valores são invertidos; soldados são recompensados por matar o “inimigo”, enquanto os mesmos atos seriam condenáveis em uma situação normal. Pessoas pacíficas revelam seu egoísmo e crueldade quando em situações extremas; outras podem revelar abnegação e heroísmo dos quais nem suspeitavam.

Da mesma forma, indivíduos com tendências sádicas e sérias perversões morais, se estiverem em um contexto de guerra e em posição de comando, podem ser os responsáveis por verdadeiros genocídios como os que ocorreram nos campos de concentração. A morte tornou-se banalizada; as vidas humanas não valem nada. Sob a desculpa de experimentos científicos, verdadeiras atrocidades são cometidas. É o inferno na terra.

“— Por quê? Por que Kelno moveu esta ação? Claro, eu sei que ele tem que ser o peixe maior do aquário. Ele se sente inferior, então tem que procurar lugares onde seja superior aos outros. Em Sarawak, em Jadwiga, na clínica de operários em Londres.

— Kelno? É uma figura trágica — disse Bannister. — Ele tem uma paranóia qualquer, isto é óbvio. Sendo assim, ele não pode ter nenhum tipo de introspecção. Acho que ele não diferencia o certo do errado.

— E o que fez com que ele ficasse assim?

— Talvez alguma crueldade sofrida enquanto era criança. A Polônia tornou-o anti-semita. Era uma válvula para sua doença. Sabe, Cady, os cirurgiões são uma estranha fauna. Às vezes parece-me que se alimentam de sangue. Enquanto Adam Kelno se encontrou em um país civilizado, a cirurgia satisfazia as suas necessidades. Mas quando se pega um homem assim para colocá-lo em um lugar onde toda a ordem social foi abolida, ele se transforma em um monstro. E então, quando voltou para a sociedade civilizada, e retomou sua posição de cirurgião correto, esqueceu o que ficou para trás, sem ter consciência de culpa.

— Depois de tudo o que ouvi naquele tribunal — disse Abe —, depois de compreender o que as pessoas podem ser obrigadas a fazer, e depois de ver que o holocausto continua sempre e sempre, sinto que estamos destruindo nosso mundo e que não poderemos mais nos salvar. Nós poluímos nosso planeta e todas as criaturas que vivem nele. Juro por Deus, nós estamos nos destruindo uns aos outros. Acho que nós já passamos dos limites de tempo e de espaço e que agora não é mais uma questão de “se” mas de “quando” tudo vai acabar. E, do modo como estamos nos comportando, acho que Deus deve andar muito impaciente.

— Oh, Deus tem bastante paciência — disse Thomas Bannister. — Nós, mortais, somos tão pomposos que vivemos imaginando que em toda a eternidade, e em todo o universo imenso, nós somos os únicos que sofremos a experiência humana. Eu sempre acreditei que tudo isso já aconteceu antes, aqui mesmo nesta terra.

— Aqui?… Como?

— Bem, na mente de Deus, o que representará um bilhão de anos a mais ou a menos? Talvez já tenha havido outras civilizações há milhões e milhões de anos, das quais não se saiba nada. E, depois que esta civilização na qual estamos vivendo se destruir, tudo vai recomeçar, daqui a uns cem milhões de anos, depois que o mundo tiver se recomposto. Então, pode ser que uma dessas civilizações, digamos, daqui a uns cinqüenta bilhões de anos, dure para toda a eternidade, porque os homens aprenderam a tratar bem uns aos outros.”

A Minissérie

QB VII foi transformado em uma minissérie de TV em 1974. Estrelada por Anthony Hopkins (Adam Kelno) e Ben Gazzara (Abe Cady), esta foi a primeira produção de TV no formato de minissérie, que inaugurou uma década de excelentes produções como Raízes, Holocausto, Jesus de Nazaré, Pássaros Feridos e diversas histórias de Sidney Sheldon.

Apesar de ser visualmente datada, com o estilo de produção e fotografia típicos da época, a história envolvente e as excelentes interpretações fazem a minissérie valer a pena. Anthony Hopkins rouba a cena como Kelno; ele consegue transmitir a confiança e simpatia do médico prisioneiro de guerra que se dedica ao bem estar dos pacientes, e começamos a torcer por ele durante o julgamento. Contudo, após a reviravolta final, vemos os melhores momentos de Hopkins, durante seu segundo testemunho. Seu embaraço e nervosismo nos fazem duvidar do que acreditamos até agora, e queremos que tudo aquilo não seja verdade.

Ben Gazzara interpreta Abe no padrão da TV americana; o herói galã mulherengo que se redime escrevendo um bom livro e abraçando sua origem judaica. As cenas de amor entre Gazzara e Juliet Mills (Samantha) e mais tarde com Lee Remick (Margaret), com violinos ao fundo, seriam um bom momento para ir tomar um cafezinho, a não ser que não queiramos perder o andamento da trama.

Houve algumas modificações na adaptação da história para a TV; os rios de Sarawak transformaram-se no deserto do Kuwait; as personagens Laura Margarita Alba e Lady Sarah Wydman foram unidas em Lady Margaret Weidman, interpretada por Lee Remick. Terrence Campbell não existe no filme, e em seu lugar está Stephan, o filho de Kelno. Mas são apenas detalhes que não prejudicam o ritmo da história.

Apesar da história ser ficção e de não ter existido um campo de concentração chamado Jadwiga (ao que eu saiba), horrores semelhantes aos descritos no livro e minissérie aconteceram realmente, apesar de algumas pessoas ainda hoje não acreditarem que o Holocausto tenha acontecido.

Leon Uris escreveu o livro baseado em um episódio verdadeiro: após o lançamento de seu livro Exodus, o médico polonês Dr. Wladislaw Dering, que havia trabalhado em Auschwitz, o processou por calúnia no livro. O caso foi levado a julgamento e o médico ganhou a causa e a indenização de meio penny (e os custos de 20 mil libras pelo processo).

Em resumo, o livro e a série são excelentes; mesmo tendo lido e visto muitas obras sobre o Holocausto, ao reler o livro depois de algumas décadas, o choque de ler as descrições das atrocidades e de imaginá-las reais ainda é o mesmo.

Em uma guerra todos são perdedores; embora imaginemos que podemos resistir à pressão e à crueldade como as que ocorreram nos campos de concentração, é impossível saber ao certo quem poderia resistir e quem sucumbiria ao lado negro que todos nós trazemos no íntimo. Rezemos para que nunca tenhamos que descobrir isso na prática.

*     *     *

Para saber mais:

Publicado em Outubro - 15 - 2009

Mudanças Climáticas e O Dia Depois de Amanhã

Este artigo tem dois objetivos: falar sobre o filme O Dia Depois de Amanhã e participar do Blog Action Day deste ano, cujo tema são as mudanças climáticas. Pensei que este filme interessante seria um bom ponto de partida para falarmos sobre os mitos e verdades que envolvem o aquecimento global e as mudanças climáticas.

O filme de 2004, apesar de seguir a linha de cinema-catástrofe, foi lançado em um momento em que a causa da catástrofe em questão é um assunto que diz respeito a todos nós. O Dia Depois de Amanhã foi dirigido por Roland Emmerich, co-produzido e escrito por ele, e é baseado no livro “The Coming Global Superstorm“, de Art Bell e Whitley Strieber. Emmerich já fez outros trabalhos nessa linha, como Independence Day, e está preparando o lançamento (em 13/11/2009) de seu novo filme-catástrofe, “2012” (que, assim como este, esperamos que fique apenas na ficção).

A premissa do livro (e explicada no filme) é que, com o aumento do aquecimento global e o derretimento das calotas polares, o excesso de água doce nos oceanos causará o desequilíbrio entre água doce e salgada, alterando a Corrente do Atlântico Norte.

A Corrente do Golfo e a Corrente do Atlântico Norte geram um fluxo de água quente em frente ao Pólo Norte, que por sua vez cria um fluxo de ar quente que ’segura’ a massa de ar polar. Isso evita o super resfriamento do Hemisfério Norte. Com esse desequilíbrio, a barreira deixa de existir e libera o fluxo de ar congelado em direção ao sul, causando uma queda drástica de temperatura. Ironicamente, o aquecimento global causaria uma nova Era Glacial.

E como estamos falando de cinema catástrofe, tudo acontece muito rápido, e temos o drama pessoal dos personagens, que dá um aspecto humano e aumenta o interesse do filme. Desde Aeroporto 75 a Titanic, esse gênero de filmes sempre traz um drama pessoal para acompanharmos. O que, convenhamos, funciona bem.

Jack Hall (Dennis Quaid), um paleoclimatologista, está na Antártida com seus colegas coletando amostras de gelo quando a plataforma onde estão começa a rachar e separa-se do resto do continente. A seguir, Jack mostra suas descobertas e teoria em uma conferência sobre aquecimento global em Nova Délhi, onde surpreendentemente, está nevando.

O vice-presidente americano não acredita em sua teoria, mas o Professor Terry Rapson (Ian Holm, o Bilbo Baggins de O Senhor dos Anéis), um meteorologista escocês, concorda com ele e conta que algumas bóias no Atlântico Norte mostraram queda repentina de mais de 13 graus de temperatura, o que indica que o resfriamento já pode estar começando.

Outros estranhos eventos climáticos estão acontecendo pelo mundo; tornados devastam Los Angeles; pedras de granizo do tamanho de melões caem em Tóquio; uma grande nevasca cobre a Europa e os helicópteros que iam buscar a família real britânica congelam em pleno voo.

O filho de Jack, Sam (Jake Gyllenhaal) está em Nova York com seus amigos Brian (Arjay Smith) e Laura (Emmy Rossum, de O Fantasma da Ópera) para participar de uma competição acadêmica. Após o evento, eles não conseguem sair de NY devido às péssimas condições climáticas. Sem eletricidade e com as ruas inundadas, eles tentam se abrigar na Biblioteca Pública, e por pouco não são cobertos por uma onda gigante que atinge Manhattan. Muitas pessoas conseguem se abrigar lá, inclusive um morador de rua e seu cachorro (Buda, um lindo cão preto e branco).

Sam consegue ligar de um telefone público no saguão inundado e fala com seus pais. Jack o aconselha a não saírem dali, tentarem se aquecer e aguardar o final da grande tormenta que deve durar de uma a duas semanas, e diz que ele irá buscá-lo em Nova Iorque.

Para a surpresa das pessoas ali abrigadas, um navio russo à deriva percorre as ruas de Manhattan e pára em frente à Biblioteca. O frio aumenta e a água congela. Eles começam a queimar livros para se aquecer, o que gera algumas discussões sobre quais livros podem ou não ser queimados.

Mais tarde, eles veem muitas pessoas caminhando na neve, tentando sair da cidade. Muitos querem ir também, mas Sam pede que não saiam dali e explica o que acontecerá, e que eles acabarão congelados. Mesmo assim, alguns vão.

O governo americano ordena a evacuação dos estados do Sul, e muitas pessoas tentam entrar no México que, assustado com o grande número de “imigrantes” indesejados, fecha a fronteira. O presidente americano então faz um acordo para a abertura da fronteira, perdoando todas as dívidas dos países latino-americanos. Essa cena irônica é muito lembrada (e apreciada).

Após um episódio dramático em que Sam e seus amigos procuram penicilina no navio russo para tratar a infecção de Laura, que cortou a perna ao tentar chegar à biblioteca, eles são atacados por lobos que fugiram do zoológico e por um triz conseguem voltar em segurança para a biblioteca antes da chegada da grande tempestade, com temperaturas de -101ºC e congelamento instantâneo.

Por fim, Jack e seu colega Jason conseguem chegar a Nova Iorque e encontram Sam e seu grupo na biblioteca (inclusive Buda, o único cão sobrevivente de Nova Iorque). Quando os helicópteros chegam para resgatá-los, vemos que há muitas outras pessoas em segurança no topo dos prédios, e na cena final os astronautas que estão na Estação Espacial observam a Terra, cuja metade superior está quase totalmente coberta por neve e gelo. Uma nova Era Glacial começou.

Muitos cientistas e ambientalistas criticaram duramente o filme; o paleoclimatologista William Hyde, da Duke University, disse que “o filme era para a ciência climática o que ‘Frankenstein’ era para as cirurgias de transplantes cardíacos”. Outro ponto muito criticado é que essas mudanças climáticas acontecem no filme durante alguns dias ou semanas, enquanto em um cenário mais plausível, todas as mudanças mostradas no filme demorariam algumas décadas ou séculos para acontecer. Bom, não esqueçamos que isto é um filme, e essa aceleração é uma liberdade artística necessária para criar o drama.

Um detalhe interessante é que Roland Emmerich pagou 200 mil dólares do próprio bolso para tornar a produção do filme “carbono-neutro”; isto é, todo o dióxido de carbono emitido durante a produção foi compensado pelo plantio de árvores e investimentos em energia renovável. Esta foi a primeira atitude deste tipo em Hollywood.

Agora, falando sério:

No site CISCI, há uma análise científica de alguns aspectos do filme. Em resumo, há 90% de probabilidade de conexão entre o aquecimento global e o consumo de combustíveis fósseis pelos humanos, e a consequente emissão de carbono. Apesar do resfriamento causado pelo aquecimento global ser possível em teoria, a temperatura média do planeta irá ficar mais quente, e não mais fria. Pelo menos, nos próximos séculos.

Até o ano 2100 prevê-se um aumento entre 1,1 e 6,4 graus Celsius nas temperaturas mundiais. Se todo o gelo dos pólos derretesse, o nível dos oceanos poderia aumentar até 90 metros. Um aumento de 15 metros no nível do mar, como mostrado no filme, é possível, mas não tão rápido. Isso demoraria algumas décadas para acontecer.

Como vimos, o aquecimento global já está acontecendo, e está diretamente ligado à emissão de carbono. Apesar de muitas pessoas culparem a explosão demográfica pelas mudanças climáticas, o verdadeiro culpado é o consumo, não a população.

George Monbiot, em um artigo interessante publicado no site AlterNet, mostra que a pequena parcela de consumidores muito ricos causa mais dano ao meio ambiente que uma grande população de pessoas pobres com quase nenhum consumo e emissão de carbono. Os locais com maior crescimento populacional também são os com menor aumento de produção de dióxido de carbono, e vice-versa. Entre 1980 e 2005, a África sub-saariana produziu 18,5% do crescimento populacional e apenas 2,4% do aumento de CO2. Por sua vez, a América do Norte respondeu por 4% do aumento populacional, mas por 14% das emissões de carbono. Um sexto da população mundial é tão pobre que não produz emissões significativas de carbono.

Como exemplo do extremo oposto, Monbiot cita os grandes iates de luxo, como o Wally Power 118, que consome 3.400 litros de combustível por hora na velocidade de 60 nós. Isso significa 31 litros por quilômetro, ou quase um litro por segundo. Somado aos acabamentos de luxo, jet skis, helicóptero particular, caviar beluga e sushi de salmão, o proprietário de um desses iates causa mais dano à biosfera em dez minutos que muitos africanos causariam em toda sua vida.

Apesar das taxas médias de natalidade estarem diminuindo em toda parte, a população mundial continua a aumentar. A maior parte do crescimento populacional está entre as pessoas que não consomem quase nada. As pessoas têm menos filhos quando ficam mais ricas, mas não diminuem seu consumo; pelo contrário, elas consomem mais. Ironicamente, a camada mais rica da população mundial não reconhece que pode estar causando tal dano ao meio ambiente, e prefere culpar os bilhões de pessoas que vivem na Índia e na China pelo aquecimento global. Claro que, se esses bilhões tivessem o estilo de vida (e consumo) ocidental, o planeta não suportaria.

Também concordamos que a melhoria da educação, seguida pelo planejamento familiar e consequente diminuição da taxa de fertilidade desses países, só poderia ajudar a adiar cada vez mais as mudanças climáticas previstas no filme. Mas também fica claro que, se os países mais ricos não mudarem seus hábitos de consumo, nisso incluindo as grandes empresas e corporações, as atitudes individuais sozinhas não conseguirão deter a onda de aquecimento global.

No início de dezembro de 2009, as Nações Unidas esperam unir 190 governos em Copenhague para finalizar um acordo sobre as emissões de gases do efeito estufa, para substituir o protocolo de Kyoto, que expirará em 2012.

Apesar dos Estados Unidos terem ficado fora do protocolo de Kyoto, desta vez esperamos que o presidente Obama participe e lidere seu país em direção às mudanças necessárias. A participação dos Estados Unidos é muito importante, pois o país é o maior emissor de dióxido de carbono (CO2) para a produção de eletricidade, seguido pela China. Contudo, é pouco provável que o Senado norte-americano aprove até dezembro uma lei que restrinja as emissões de gases do efeito estufa.

E o que podemos fazer? Além de, através do poder da opinião pública, pressionar os governos a aprovar as leis necessárias, reduzir o desmatamento e reduzir as emissões de carbono de indústrias e dos grandes consumidores, também podemos fazer a nossa parte.

Algumas atitudes individuais podem ajudar, como reduzir o uso do automóvel, reciclar tudo o que for possível, reduzir o consumo de plásticos, diminuir o consumo de eletricidade, comer menos (ou nenhuma) carne, usar a energia solar para aquecimento de água e diminuir as viagens, especialmente de avião. Um voo transatlântico torna uma pessoa responsável pela mesma quantidade de emissão de carbono que causaria dirigindo um carro durante um ano. Ao reduzir o consumo de uma forma geral, estamos diminuindo também o consumo da energia necessária para a fabricação dos bens de consumo, o que em última análise significa a redução da emissão de dióxido de carbono.

Uma iniciativa curiosa vem sendo tomada pela empresa aérea japonesa All Nippon Airways (ANA), que tem pedido para os passageiros usarem o banheiro antes de embarcar, para reduzir o consumo de combustível. A empresa estima que se todos os passageiros fizerem isso, a rredução da emissão de dióxido de carbono pode chegar a 4,2 toneladas por mês. Outras medidas tomadas pela empresa são a reciclagem de copos e garrafas de plástico e o uso de hashis feitos com madeira de projetos de poda de florestas, em um esforço de sustentabilidade. As revistas e louças usadas nos aviões também serão mais leves.

O cenário catastrófico mostrado no filme felizmente está ainda bem distante, mas não é impossível. Cabe a todos nós fazermos nossa parte e tentarmos adiar o máximo possível o aquecimento global e as mudanças climáticas que ele trará. Se não fizermos nada, as consequências afetarão a vida de todos nós.

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Para saber mais:

Outros posts legais participando do Blog Action Day 2009:

Trailer - O Dia Depois de Amanhã:

Publicado em Outubro - 09 - 2009

Músicas Traduzidas - Lady

Lady foi composta e produzida por Lionel Richie, e foi um dos maiores sucessos de Kenny Rogers, tendo ficado em primeiro lugar em quatro listas da Billboard em 1980 – Country, Hot 100, Adult Contemporary e Top Black Singles. Ela foi lançada como single e está no álbum Greatest Hits de Kenny Rogers.

Sempre que ouço esta música lembro de um especial de Dia dos Namorados da Disney que foi exibido na TV há uns vinte anos, “Os Amores de Disney“, e Lady ganhou um clipe com cenas de “A Dama e o Vagabundo”.  Alguns anos mais tarde tivemos uma cachorrinha cocker que era igualzinha a Dama, e depois disso a música me lembrava a Laila. Saudades da minha lady…

Aparentemente o vídeo do especial da Disney não existe na Internet, mas encontrei um vídeo no YouTube que é uma montagem feita por fãs com a música de Kenny Rogers e cenas do desenho, bem parecida com o que vi na TV. Vejam o vídeo no final do artigo, é uma graça!

Curta a música acompanhando a letra, e veja a tradução. Abraços!

Clique aqui para ouvir a música

Lady

Lionel Richie

Lady! I’m your knight in shinning armor and I love you!
You have made me what I am and I am yours.
My love! There’s so many ways I want to say, “I love you.”
Let me hold you in my arms forever more.
You have gone and made me such a fool.
I’m so lost in your love.
And oh, we belong together.
Won’t you believe in my song?

Lady! For so many years, I thought I’d never find you.
You have come into my life and made me whole.
Forever let me wake to see you each and every morning
Let me hear you whisper softly in my ear.
In my eyes, I see no one else but you.
There’s no other love like our love
And yes, oh yes I’ll always want you near me.
I’ve waited for you for so long.

Lady! Your love’s the only love I need.
Beside me is where I want you to be.
Cause my love there’s something I want you to know.
You’re the love of my life. You’re my lady!

Lady (Dama)

Tradução de Cristine Martin

Dama! Sou seu cavaleiro com armadura brilhante e eu a amo!
Você fez de mim quem eu sou, e sou seu.
Meu amor! Há tantas maneiras de lhe dizer, “Eu te amo”.
Quero segurá-la em meus braços para todo o sempre.
Você se foi e fez de mim um tolo.
Estou perdido em seu amor.
Pertencemos um ao outro.
Você não acredita na minha canção?

Dama! Por tantos anos pensei que nunca a encontraria.
Você chegou em minha vida e me completou.
Para sempre, quero acordar e vê-la em todas as manhãs,
Quero ouvi-la murmurar docemente em meus ouvidos.
E meus olhos não veem ninguém além de você.
Não há outro amor como o nosso.
E sim, quero tê-la sempre ao meu lado.
Esperei tanto tempo por você.

Dama! Seu amor é o único amor de que preciso.
Ao meu lado é onde quero que você esteja.
Pois, meu amor, há algo que quero que saiba.
Você é o amor da minha vida. Você é minha dama!

Vídeo – Lady

Publicado em Outubro - 07 - 2009

Lipstick - batom e coragem contra o câncer de mama

Vi este filme algumas vezes no canal Fox Life, e achei um modo leve e bem-humorado de tratar um tema tão sério.  Feito para a TV americana, “Lipstick” foi indicado ao Emmy Awards 2007 na categoria de Melhor Filme Produzido para a TV.


A história real de Geralyn Lucas (Sarah Chalke), contada por ela em seu livro “Why I wore Lipstick to my Mastectomy” é um bom exemplo de atitude positiva e determinação diante de uma situação terrível. Geralyn é uma jornalista, produtora de TV e escritora, que aos 27 anos descobriu (durante o banho) um caroço no seio. Após consultar vários médicos, ela decide fazer uma mastectomia.

O filme mostra o apoio que ela recebe das pessoas próximas, como o marido Tyler (Jay Harrington), a família e as amigas, e também de fontes inesperadas, como o motorista de táxi que, ao saber da história dela, pára o carro e lhe conta que ele também é um sobrevivente do câncer, e lhe assegura que tudo dará certo. Ela encontra apoio também nos cabeleireiros que a ajudam a escolher uma peruca, e nas ‘colegas’ de quimioterapia, especialmente Moneisha (Patti LaBelle) uma mulher de espírito forte e divertida, que apesar de sua atitude ‘para cima’, infelizmente não sobrevive à doença.

A chefe de Geralyn, Meredith (Julie Khaner) - que ela admira e secretamente chama de ‘Deusa’ - também é um auxílio inesperado que, além de apoio durante as ausências para o tratamento, lhe conta que também é uma sobrevivente do câncer e lhe dá esperança.

Mesmo com tanta ajuda, o filme não esconde as dificuldades dessa jornada; o medo, a preocupação, a ansiedade por não se sentir desejada após a mastectomia, os enjôos da quimioterapia, a preocupação por não poder engravidar no futuro devido ao risco da carga hormonal na gravidez causar o retorno do câncer, tudo isso é mostrado no filme.

Felizmente tudo deu certo para Geralyn; ela faz a mastectomia e vai para a sala de cirurgia usando um batom vermelho que simbolizava sua atitude positiva (uma parte divertida é quando a enfermeira pergunta qual a marca do batom, pois durou todas as horas da cirurgia), e depois de todo o tratamento e da cirurgia de reconstrução da mama, ela decide posar para uma série de fotos em uma revista e contar sua história.

No final do filme ficamos sabendo que mais tarde ela teve uma filha, e que usou batom vermelho durante o parto. Seu segundo filho nasceu em 2006.

Na entrevista com Geralyn Lucas e Sarah Chalke (link no final do artigo), Geralyn define bem o espírito do filme:

Lifetime: O que foi mais desafiador ao ver este filme tornar-se realidade?
Lucas: Foi a ideia de que estava tudo bem, podíamos rir sobre o câncer, e ainda assim ser muito sensíveis sobre como essa era uma experiência horrível e sombria. Existe uma linha muito tênue entre a comédia e a tragédia, e muitas pessoas não conseguem trilhá-la. Certamente é uma corda bamba, e Sarah dançou nela!”

na foto: Sarah Chalke, Geralyn Lucas (de óculos) e sua filha

Antigamente o câncer era um tabu, e poucas pessoas famosas admitiam publicamente que estavam ou estiveram lutando contra a doença. Nos últimos anos, os depoimentos de várias celebridades e outras pessoas em destaque ajudaram a divulgar informações importantes sobre a doença e sua prevenção. Câncer tem cura, especialmente quando o diagnóstico é feito na fase inicial da doença. E filmes como este ajudam a transmitir essa mensagem. A luta não é fácil, mas há uma esperança.


O câncer de mama é a causa mais frequente de morte por câncer na mulher, e pode ser detectado pelo auto-exame das mamas, mamografia e ultrassonografia. Recomenda-se o auto-exame todos os meses (por exemplo, logo após a menstruação, para não esquecer) e a mamografia anual para mulheres com mais de 40 anos.

O estrógeno protege a mulher, e por isso a incidência de casos é maior após a menopausa. Contudo, a exposição excessiva a hormônios aumenta os riscos de câncer de mama. Converse com seu ginecologista sobre o uso de anticoncepcionais hormonais e se eles são a melhor opção para você, e qual a fórmula mais adequada (existem muitas variações). Não tome pílulas anticoncepcionais sem orientação médica.

Entre os fatores de risco estão:

  • idade acima de 50 anos (mas casos precoces como o de Geralyn também podem acontecer; é bom estar atenta)
  • história própria ou familiar de câncer de mama, especialmente em parentes de primeiro grau – mães, irmãs ou filhas (ou histórico de outros tipos de câncer na família)
  • não ter filhos
  • exposição significativa a raios X
  • ter tido a primeira menstruação muito cedo (com 11 anos ou menos)
  • menopausa tardia
  • classe socieoeconômica alta
  • primeira gestação após os 30 anos
  • dieta rica em gorduras
  • uso prolongado de anticoncepcional oral (ainda é discutível, mas o problema está nas pílulas que contém apenas progesterona - são as pílulas de uso contínuo, que evitam a menstruação – o uso desta pílula por vários anos pode aumentar os riscos de câncer de mama)
E para prevenir, o que devemos fazer?
  • toda mulher após os 20 anos deve fazer o auto-exame mensalmente; o exame clínico deve ser iniciado aos 20 anos e repetido a cada três anos até os 40; a partir disso, anualmente.
  • a primeira mamografia deve ser feita aos 35 anos, repetida aos 40 e então, de dois em dois anos até os 50, quando deve ser feita anualmente.
  • deve-se evitar o ganho excessivo de peso, especialmente após a menopausa
  • evitar o consumo excessivo de álcool; ingerir bebida alcoólica em excesso está associado a um discreto aumento da possibilidade de desenvolver câncer de mama, e o risco está diretamente relacionado à quantidade ingerida. Quanto mais, pior.
  • é bom ter uma dieta rica em alimentos de origem vegetal como frutas, verduras e legumes, e pobre em gordura animal. Uma dieta mais saudável ajuda a diminuir o risco de vários tipos de câncer.
  • fazer exercícios físicos regularmente. O exercício físico normalmente diminui a quantidade de hormônio feminino circulante. Como este tipo de câncer está relacionado aos hormônios, é uma boa ideia manter-se ativa e fazer exercícios sempre.
  • amamentar. A amamentação, especialmente por um longo tempo (um ano ou mais no total de todos os períodos de amamentação) pode diminuir o risco de câncer de mama.

Portanto, não deixe de se cuidar e divulgar essas informações; o câncer é uma doença terrível, mas pode ser evitado e tratado. Nenhuma história precisa ter um final triste; melhor fazer a prevenção e manter uma atitude positiva. E usar um batom vermelho!

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Para saber mais:

Vídeo - entrevista com Geralyn Lucas no Today Show

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