Publicado em Agosto - 31 - 2009

Dúvida

Dúvida é um filme fascinante. Baseado na peça de mesmo nome, de John Patrick Stanley, seu ponto forte é a interpretação dos atores e os diálogos, cortantes e diretos.

Padre Flynn: “A dúvida pode ser um elo tão poderoso e forte como a certeza. Quando você está perdido, não está sozinho”.

A história se passa em St Nicholas, uma escola católica em Nova Iorque, no ano de 1964. A Irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), diretora da escola, suspeita que o Padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) tem tido uma conduta imprópria com um dos alunos. Donald Miller, de 12 anos, é o primeiro aluno negro do colégio. O recém-chegado é tímido, e ajuda no altar durante a missa. O padre Flynn, sempre bem-humorado e popular entre os alunos e alunas, parece proteger o rapaz para que ele não sofra nenhuma perseguição.

Suspeitando que há algo errado entre padre e aluno, a Irmã Aloysius pede à jovem professora Irmã James (Amy Adams) que fique atenta para qualquer comportamento suspeito. Ela conta à diretora que o Padre pediu que o garoto fosse à reitoria durante à aula, e que ao voltar, estava agindo de forma estranha e que sentiu hálito de bebida no menino.

A diretora então confronta Padre Flynn e o acusa de pedofilia. Não há provas, não há testemunhas, mas ela tem certeza de que a acusação é verdadeira. A partir de então o espectador acompanha os diálogos, justificativas e explicações dos diversos personagens, e cabe a nós decidirmos se o padre é culpado ou inocente.

Além de decidirmos sobre a verdade da acusação, o filme nos faz pensar sobre dúvidas e certezas; devemos ou não confiar em nossas suspeitas, na ausência de provas? até que ponto uma acusação infundada pode destruir a vida de uma pessoa? quais são os prejuízos que uma fofoca ou calúnia pode causar? podemos realmente confiar na declaração de inocência de uma pessoa? é lícito mentir para chegar à verdade?

Outro ponto de vista que abala nossas convicções é o da Sra Miller (Viola Davis), mãe de Donald. Ao saber da acusação sobre o comportamento do padre, ela reage de forma inesperada, ao menos para os padrões atuais e de “classe média”. Em um diálogo franco e chocante com a Irmã Aloysius, ela conta que está mais preocupada que Donald complete os estudos no colégio para que consiga vaga em uma boa escola de ensino médio e, quem sabe, possa chegar à universidade. Conta que o pai do garoto bate nele, e sugere que seja por causa da “natureza do menino”, não por causa do vinho.

“- Não se pode responsabilizar uma criança pelo que Deus lhe fez ser. Meu filho veio para sua escola porque o teriam matado na escola pública. O pai não gosta dele; ele vem para sua escola, os garotos não gostam dele. Um homem é bom para ele, esse padre. Então o homem tem suas razões, sim. Todos têm suas razões. Mas eu pergunto a esse homem por que ele é bom para meu filho? Não. Não me importa. Meu filho precisa de um homem que cuide dele e o ajude a chegar aonde ele quer ir. E graças a Deus que esse homem educado com um pouco de bondade quer fazer isso.

- Não vai dar certo.

- É só até junho.

(…)

- Irmã, não sei se a senhora e eu estamos do mesmo lado. Ficarei do lado do meu filho e daqueles que são bons para ele. Seria bom encontrar a senhora lá.”

Além das excelentes interpretações, o filme mostra o contraste entre os mundos masculino e feminino e a estrutura de poder e autoridade com base no gênero. Por exemplo, o jantar das irmãs é austero, silencioso, frugal. O jantar dos padres e o monsenhor é alegre, ruidoso, com vinho, conversas e piadas. Como a Igreja é uma instituição patriarcal, isso não causa espanto. Das mulheres é esperado, além da devoção e disciplina, o sacrifício.

Talvez por isso a luta da irmã Aloysius seja tão feroz; além de se opor a um padre e professor, ela está enfrentando todo o sistema patriarcal, e não pode vacilar. Ela não se permite ter dúvida, e no entanto todos os personagens têm seu lado humano, suas fraquezas; não há preto ou branco aqui, mas a complexidade de tons da verdadeira vida.

A Irmã Aloysius quer manter o colégio como antigamente: nada de rádios transistores, canetas esferográficas, músicas seculares no coral de Natal. O Padre Flynn, por outro lado, usa as tais canetas, conversa amigavelmente com os alunos e alunas, acha que o coral de Natal precisa ser modernizado para “chegar aos fiéis”, e que as crianças e seus pais devem ver os padres e freiras com parte de sua família. São duas visões e opiniões diferentes, e o confronto entre ambos não envolve apenas a acusação de pedofilia, mas também a administração da escola e a estrutura de autoridade e poder.

“Irmã Aloysius: - Esta manhã, antes de falar com a Sra Miller, tomei a precaução de ligar para sua última paróquia.

Padre Flynn: - E o que ele disse?

- Quem? -

- O pastor.

- Não falei com o pastor. Falei com uma freira.

- Você deveria ter falado com o pastor.

- Falei com uma freira.

- Você sabe que esse não é o procedimento correto a ser tomado, Irmã. A igreja é muito clara. Você deveria ter falado com o pastor.

- Por quê? Vocês tem um acordo, você e ele?”

A Irmã James quer acreditar na inocência do padre, enquanto a Irmã Aloysius tem certeza do contrário. A Sra Miller tem seus motivos para não querer um confronto, e o Padre Flynn afirma sua inocência. Cabe ao espectador decidir onde está a verdade. Como na peça de teatro, o final fica aberto para que nós decidamos se a acusação é verdadeira ou falsa. E como no teatro, o autor John Patrick Stanley contou apenas ao ator que interpreta o Padre Flynn se ele é inocente ou culpado. Nenhum dos outros atores ficou sabendo.

A peça ganhou o Prêmio Pullitzer de Drama de 2005, e o filme teve 5 indicações ao Oscar de 2009 (Melhor Ator Coadjuvante – Philip Seymour Hoffman, Melhor Atriz – Meryl Streep, Melhor Atriz Coadjuvante – Amy Adams e Viola Davis e melhor Roteiro Adaptado), sem receber nenhum dos prêmios.

Gostei muito do filme, e o recomendo. É muito bom poder ver um filme com bons diálogos e boas interpretações, e que ainda por cima nos faz pensar um pouco. Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman estão impecáveis como sempre, e o ótimo roteiro nos garante uma hora e meia de bom entretenimento.

*    *    *

Para saber mais:

  • Entrada do filme no IMDb
  • Crítica do filme no Cine Players (Emílio Franco Jr)
  • Crítica do filme no Escreva Lola Escreva
  • Crítica do filme no Cine Pop (Edu Fernandes)

Trailer – Dúvida (2008)

Publicado em Agosto - 21 - 2009

Exposição de carros antigos

Hoje fui ver a exposição de carros antigos no Mogi Shopping, aqui na minha cidade. Sou maluca por carros antigos, até mais que os novos. Depois de ver as fotos abaixo, imaginem só qual o que mais me chamou a atenção?

Claro, o Fordinho T 1926. Essa fofura está muito bem conservada, e dá para perceber como o bichinho era robusto e resistente. Segundo o cartaz, ele estrelou na novela da Globo “O Cravo e a Rosa”, chique não? Interessante a manivelinha para dar a partida.

Mais um calhambeque antigo: o Ford A 1929, uma caminhonetezinha reluzente e muito bem conservada, com cromados reluzentes. Como a maioria dos carros da exposição, com bancos de couro. Note os dois pares de faróis e as rodas brancas. Caminhãozinho chique esse…

Este pretinho é o Ford 1931. Meu marido contou que quando ele era criança, o pai tinha um Ford 1929 com a frente igual à deste aqui, e com a parte traseira igual à do modelo abaixo, o vermelho. O carro era vermelho também, e a família toda ia fazer piqueniques nos finais de semana; papai, mamãe e a filha na frente, e 3 filhos empoleirados no banquinho de trás. E o carro era conversível, imagine só quando chovia… Infelizmente o carro foi vendido na década de 60, só sobraram as (muitas) fotos, mas todas em preto e branco.

Este é o Ford 1932, pena que na foto não dá para ver o tal “banquinho para as crianças”. Uma graça, não? Outro detalhe é que há um estribo sobre o para lamas traseiso para apoiar o pé e subir no banco traseiro. Com a lataria de hoje em dia, nem pensar…

Este lindão é o Hudson Commodore six, de 1947. Dá até para imaginar o Al Capone saindo dele, não? A cor é linda, e esse capô é mesmo uma coisa!

Também elegante, mas com o capô um pouco mais discreto, este é o Styline 1952, da Chevrolet. Note o vidro duplo com divisão no para brisa.

Aqui está o DKW Candango, de 1960. Não conhecia este carro, mas lembra um pouco o Gurgel (que também estava na exposição). Bem quadradinho, não?

Deste eu lembro; o DKW sedan 1960. Vi muitos desse andando pelas ruas quando era criança, e lembro que ninguém falava o nome do jeito certo, era “DE-KÁ-VÊ”. O bichinho é mesmo simpático.

E olha aí o Opalão! Não lembro o ano desse aí, mas deve ser um dos primeiros. Meu pai teve 2 deles, e era uma banheira, mas uma delícia para viajar. Quando casamos, fui de noiva até o salão em um Opala 4 portas novinho (não era nosso, foi emprestado), era mesmo um carrão.

Não poderia faltar o Fusca, claro! Esta gracinha é o Sedan 1962, muito bem conservado. O fusca é a paixão nacional, e tem fãs e apaixonados até hoje, que cuidam de seus carrinhos a pão-de-ló. Este está muito lustroso, com rodas de faixa branca e todos os cromadinhos originais.

O maridão adorou este aqui: o Ford Mustang Grandee 1972; deve ser o avô da Super Máquina, um belo carro esporte. Mas ainda fico com os calhambeques lá de cima.. ;-)

Este é uma banheira: o Landau 1976, um verdadeiro beberrão. Dizia-se que o Landau e o Galaxy não faziam x quilômetros por litro, mas x litros por quilômetro. Imagina só andar com um bichão destes hoje em dia? Nem pensar… Mas a cor dele é linda, adorei  esse lilás.

E por fim, o nosso brasileirinho Gurgel (acho que esse é 1980). Até que era um carro bonitinho e compacto, foi mesmo uma pena que a fábrica tivesse fechado, mas ela foi mais uma das vítimas da hiperinflação e das trocas de moedas antes do Real.

*   *   *

A exposição está no Mogi Shopping até 31 de agosto, mas na semana que vem os carros serão trocados por outros modelos. Voltarei lá, com certeza! Se você mora em Mogi das Cruzes ou região, não deixe de ver essas gracinhas ao vivo!

Publicado em Agosto - 10 - 2009

As Horas

Já havia assistido ao filme e adorado; agora li o livro, pensando se iria achar o livro melhor que o filme, como costuma acontecer. E me surpreendi: livro e filme são igualmente bons. Aliás, poucas vezes vi uma adaptação tão bem feita e fiel ao livro, e que conseguisse transpor a história para uma mídia diferente sem perder a essência.

As Horas, o romance, foi escrito por Michael Cunningham e publicado em 1998. O livro ganhou o Prêmio Pullitzer e o Prêmio PEN/Faulkner de ficção em 1999.

A história se passa em um dia na vida de três mulheres em épocas diferentes, unidas pelo romance Mrs Dalloway, de Virginia Woolf. As três histórias se alternam durante o “dia”, com capítulos dedicados a Mrs Woolf, Mrs Brown e Mrs Dalloway, que era como Richard carinhosamente chamava Clarissa Vaughn.

A primeira história mostra a própria Virginia (Nicole Kidman) em 1923, começando a escrever Mrs. Dalloway. Virginia está morando em Sussex com o marido, Leonard, e se recuperando de um colapso nervoso que a fez sair de Londres. Durante o dia ela planeja os rumos que seu romance tomará, se Clarissa deverá morrer ou não. À tarde Virginia recebe a visita da irmã Vanessa e os três filhos desta, e à noite arrisca uma tentativa de tomar o trem para Londres.

“Virginia pousa a caneta. Gostaria de escrever todo o dia, de encher trinta páginas em lugar de três, mas passadas as primeiras horas alguma coisa vacila dentro dela, e receia, se insistir para além dos seus limites, prejudicar todo o projeto. O deixe transviar-se para um reino de incoerência do qual talvez nunca possa regressar. Ao mesmo tempo, detesta passar qualquer das suas horas límpidas a fazer outra coisa que não seja escrever. Trabalha sempre em luta com o medo de uma recaída. (…) Tem pavor das suas quedas na dor e na luz e desconfia que são necessárias. Há algum tempo que está livre delas, há anos já. Sabe que a dor de cabeça pode voltar de repente, mas ignora isso na presença de Leonard, mostra-se mais vigorosamente saudável do que por vezes se sente. Regressará a Londres. Será melhor morrer doida varrida em Londres do que evaporar-se em Richmond.”

A segunda história se passa em Los Angeles, em 1949. A dona de casa Laura Brown (Julianne Moore) tem um filho de 3 anos, Richie, e está grávida novamente. Hoje é aniversário de seu marido Dan, e ela decide fazer um bolo para ele. Laura está lendo Mrs Dalloway, e durante o dia ela reflete sobre sua infelicidade, presa a um casamento e a uma situação da qual deseja escapar. À tarde ela deixa o filho com uma vizinha e vai para um hotel, para ler o romance de Virginia Woolf. À noite, após a pequena festa familiar, ela namora o vidro de pílulas para dormir e imagina se isso seria uma saída fácil para seu destino.

“Ela está ali presa, encurralada para sempre, posando como esposa. Tem de suportar esta noite, e depois amanhã de manhã, e depois outra noite aqui, nestas salas, sem nenhum outro lugar para onde ir. Tem de agradar; tem de continuar. Talvez fosse como sair para um campo de neve brilhante. Podia ser terrível e maravilhoso. “Pensávamos que as suas mágoas eram mágoas comuns; não fazíamos nenhuma idéia.” A cólera passa. Está tudo bem, diz a si mesma. Está tudo bem. Controla-te, pelo amor de Deus.”

Na terceira história temos Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora na Nova York do fim do século 20. Clarissa vive com Sally há 18 anos e hoje é o dia em que Richard (Ed Harris), seu amigo escritor, receberá um prêmio literário. Ela irá comprar as flores para a festa que lhe oferecerá em seu apartamento. Richard e Clarissa são amigos e já estiveram apaixonados, antes que ambos assumissem sua homossexualidade. Durante o dia Clarissa lembra do verão em que tinha 18 anos e que passou com Richard, e do beijo que trocaram ao pôr-do-sol. Aquela foi uma época em que “tudo podia acontecer, tudo mesmo”. Mas hoje Richard está muito doente, com AIDS, e perdeu a energia e a vontade de viver.

“- Não sei se posso enfrentar isto - diz. - A festa e a cerimônia, sabes, e depois a hora a seguir, e a outra depois dessa.

- Não tens de ir à festa. Não tens de ir à cerimônia. Não tens de fazer nada, absolutamente nada.

- Mas ainda há as horas, não é verdade? Uma e depois outra, e nós suportamo-las e depois, meu Deus, há mais outra. Estou tão doente!

- Ainda te restam dias bons. Tu sabes que sim.

- Não, na verdade, não. É gentil da tua parte dizê-lo, mas há algum tempo já que a sinto, a fechar-se à minha volta como as mandíbulas de uma flor gigantesca.”

Alguns temas repetem-se nas três histórias do romance: problemas mentais, a idéia de suicídio, uma visita, um beijo entre mulheres. Através do recurso de fluxo de consciência, também usado em Mrs Dalloway, vemos que as três protagonistas estão insatisfeitas com o presente, e que há um momento em que tudo foi melhor, quase perfeito. Para Virginia, os anos em Londres, com a agitação da qual ela sente falta. Para Laura é qualquer tempo, passado ou futuro, em que ela estivesse livre da prisão de sua vida de esposa, mãe e dona de casa. E Clarissa lembra daquele verão com infinitas possibilidades, e imagina o que teria acontecido se ela tivesse ficado com Richard.

“Quantas vezes, depois disso, ela se perguntara o que poderia ter acontecido se tivesse tentado continuar com ele, se tivesse retribuído o beijo de Richard na esquina da Bleecker com a MacDougal, partido com ele para qualquer lado (para onde?), se nunca tivesse comprado o pacote de incenso ou o casaco de alpaca com os botões do feitio de rosas. Não poderiam ter descoberto alguma coisa… maior e mais estranha do que aquilo que tinham? É impossível não imaginar esse outro futuro, esse futuro recusado, como tendo sido vivido em Itália ou França, entre grandes salas cheias de sol e jardins; como tendo sido cheio de infidelidades e grandes batalhas; como um imenso e duradouro romance assente numa amizade tão abrasadora e profunda que os acompanharia até à sepultura e, quem sabe, talvez mesmo para lá dela. Ela podia, pensa, ter entrado noutro mundo. Podia ter tido uma vida tão intensa e perigosa como a própria literatura.

Ou, por outro lado, talvez não, pensa. Aquilo é quem eu era. Isto é quem eu sou: uma mulher decente com um bom apartamento, com um casamento estável e afetuoso, que vai dar uma festa. Aventura-te longe de mais no amor, lembra a si mesma, e renuncias à cidadania no país que fizeste para ti. Acabas simplesmente a navegar de porto em porto.”

Ao construir sua história dentro de um único dia, Cunningham (assim como Virginia em Mrs Dalloway) tenta mostrar a beleza e a profundidade da vida cotidiana e como podemos analisar toda a vida de uma pessoa através de um único dia.

O livro começa com o suicídio de Virginia Woolf em 1941, enquanto o filme começa e termina por essa cena.

Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.

O filme de 2002 é uma adaptação fiel do romance de Cunningham, e consegue transpor para a tela os detalhes psicológicos das personagens menos pelos diálogos que pela interpretação de um excelente elenco. Dirigido por Stephen Daldry a partir de roteiro de David Hare, este filme recebeu inúmeras indicações e prêmios, como o Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman), o Globo de Ouro de Melhor Filme e o Urso de Prata de Melhor Atriz (Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore). A propósito, a interpretação de Julianne é um show à parte.

Um exemplo de como uma adaptação cinematográfica pode melhorar certos detalhes do livro é a cena do hotel, quando Laura busca um momento consigo mesma para ler Mrs Dalloway, enquanto flerta com a ideia de suicídio. Stephen Daldry criou uma sequência de sonho tecnicamente perfeita, com a inundação do quarto de hotel por uma onda gigante, que simboliza Laura sendo arrastada por seus impulsos e, ao mesmo tempo, é o momento em que ela decide voltar para casa e para seu papel de esposa e mãe.

Três mulheres insatisfeitas, obcecadas por detalhes e tentando obter uma inatingível perfeição para compensar seu desequilíbrio interno. Elas procuram colocar ordem em suas vidas, enquanto lutam para se encontrar e tomar uma decisão. As três protagonistas tomarão essa decisão, apesar de compreenderem que a dificuldade para isso reside no conhecimento, frustrações e experiência acumulados ao longo dos anos, que torna mais difícil decidir com base em um impluso, como na juventude, pois elas agora sabem que toda decisão tem seu preço.

Um livro e filme imperdíveis.

*    *    *

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Para saber mais:

  • Entrada do filme no IMDb
  • As Horas (livro) na Wikipédia (em inglês)
  • As Horas (filme) na Wikipédia (em inglês e em português)
  • Resenha do livro no site Curled Up (de April Galt - em inglês)
  • Resenha do livro no site Salon, comparando As Horas a Mrs Dalloway (de Georgia Jones-Davies - em inglês)

Trailer: As Horas

Publicado em Agosto - 07 - 2009

Evelyn - uma história verdadeira

Evelyn conta a história de um pai que luta para reconquistar a custódia de seus filhos depois que a esposa o abandonou, em 1953. O fime é baseado na história verdadeira de Desmond Doyle (1924 – 1986), um pintor e decorador irlandês cujos seis filhos foram entregues à custódia da NSPCC (Sociedade nacional de prevenção da crueldade contra crianças). A lei irlandesa na época negava ao pai a custódia das crianças na ausência da mãe, a menos que ela estivesse viva e desse permissão por escrito para que ele ficasse com os filhos.

O Children´s Act de 1941 afirmava que a criança só poderia ser retiradas das instituições administradas pela igreja com o consentimento de ambos os “pais”. A lei irlandesa interpretou a lei exigindo o consentimento de ambos os pais vivos. Se a esposa de Desmond tivesse morrido ele poderia ficar com os filhos, mas como ela estava viva, não.

Ele então inicia uma batalha legal para recuperar as crianças, alegando que o Children´s Act contrariava diversos artigos da Constituição irlandesa. Em dezembro de 1955, a Corte Suprema decidiu em favor de Desmond Doyle, que recuperou a guarda de seus filhos.

A história foi mais tarde contada em livro pela filha mais velha, Evelyn Doyle (no livro Evelyn: A True Story), e adaptada para o cinema em 2002 no filme Evelyn.

O filme é uma versão ficcional dos fatos, com algumas alterações. Ali só há três crianças, em vez das seis da família real. No filme a mãe parte para a Austrália e está incomunicável, enquanto na realidade ela foi para a Inglaterra e começou nova vida e uma nova família.

Mesmo com essas diferenças, este é um filme tocante e bem feito, que merece ser visto. Dirigido por Bruce Beresford (que também dirigiu Conduzindo Miss Daisy) e produzido e estrelado por Pierce Brosnan, a história concentra-se na batalha judicial e nas mudanças de Desmond, que passa a ser um pai melhor para as crianças. Desempregado e, como a maioria dos irlandeses, amigo da bebida, ele tem poucas chances de tê-las de volta.

Doyle acredita que poderá recuperar as crianças conforme prometido, se conseguir um emprego. Mesmo assim, a corte ainda recusa o retorno das crianças.

Com o apoio de Bernadette Beattie (Juliana Margulies), ele consegue manter-se empregado e sóbrio, e a ajuda de Michael Beattie (Stephen Rea) e Nick Barron (Aidan Quinn), dois advogados irlandeses, leva o caso até os tribunais e, mais tarde, até a Suprema Corte. Eles também contam com os conselhos do advogado e jogador de rugbi aposentado Tom Connoly (Alan Bates)

Michael Beattie: Lutar contra a Igreja e o Estado é como enfrentar Golias.
Desmond Doyle: Bem, no livro que eu li, David venceu Golias.

Brosnan está muito bem e convence no papel de Doyle, mostrando que é bom ator não apenas em filmes de ação. A pequena Sophie Vavasseur, que interpreta Evelyn, é uma gracinha e também boa atriz. Mesmo que a história não explique em detalhes os aspectos legais, pois é baseada nas memórias de infância da verdadeira Evelyn, a dedicação e a determinação do pai em busca da guarda dos filhos é emocionante, e conseguimos nos identificar com Desmond e sua história.

A verdadeira Evelyn decidiu contar a história de sua infância para contar as conquistas de seu pai. Antes de morrer, ele estava muito preocupado, e dizia que gostaria de ter feito mais em sua vida. Ela sabia da batalha que ele havia lutado para ficar com os filhos, como ele havia mudado a lei e como enfrentou dificuldades para manter a família unida. “Eu sabia que ele havia tocado milhares de vidas, então decidi contar sua história, mas não tinha nada de onde começar. Ele havia guardado apenas um recorte de jornal, o que dizia que ‘Evelyn vai para casa amanhã’”. Após alguma pesquisa, ela escreveu um rascunho e o entregou a um editor da BBC. Alguns anos depois o escritor Paul Bender adaptou a história para um roteiro e o enviou à produtora de Brosnan.

Mais tarde Pierce Brosnan ligou para Evelyn Doyle e disse que gostaria de contar a história de seu pai. Curiosamente, Evelyn começou a escrever o livro apenas após o roteiro ter sido aceito. Ele chegou ao primeiro lugar em vendas na Irlanda e ao segundo lugar nas listas de best-sellers do Reino Unido.

O livro trouxe discórdia para ela junto à nova família de sua mãe. Suas meio-irmãs afirmam que ela havia retratado a mãe como culpada e insensível, e alegam que Desmond batia na esposa e abusava dela. Evelyn admite que o pai era violento e explosivo e que isso era normal naquela época (!?), mas que o ponto principal de sua história era que o pai não os abandonou nunca. A mãe, sim.

O filme não mostra a verdadeira importância deste caso para o sistema judiciário irlandês. A Corte Suprema da Irlanda reluta em mudar um estatuto de uma lei criada pelo parlamento. Apesar da Constituição de 1937 dar à Suprema Corte o poder de revisar os estatutos judicialmente, a Corte nunca havia exercido o poder de invalidar um estatuto até o caso Doyle. Por isso, este caso tornou-se célebre na Irlanda.

Apesar de pouco conhecido, este é um filme que vale a pena assistir. Recomendo!

*     * *

Para saber mais:

  • Entrada do filme no IMDb
  • Entrada sobre Desmond Doyle na Wikipédia (em inglês)
  • Entrada sobre o filme Evelyn na Wikipédia (em inglês)
  • Artigo de 22/10/2003 no site The Independent - “Evelyn Doyle: From heroics to heartache”
  • Artigo de Taunya Lovell Banks no site Picturing Justice – “Government at War With Parents: Evelyn”

Trailer: Evelyn

Publicado em Agosto - 03 - 2009

Mulheres: o sexo forte

Este é o filme mais “mulherzinha” que já vi; para ser exata, desde o título até o elenco, só há mulheres na tela. E quando digo mulherzinha, isso não é um elogio.

O enredo é simples: Mary Haines (Meg Ryan) é rica, mora em uma mansão em Connecticut, é estilista da empresa de seu pai “nas horas vagas”, organiza almoços beneficentes, cuida do jardim e tem três grandes amigas: Sylvie, Edie e Alex.

Nota: Não vou poupar spoilers desta vez, porque sinceramente, não creio que o filme valha muito a pena. Mas, vão lendo.

Sylvie (Annette Bening) é editora de uma revista feminina, “Cachet” (mas que bem poderia ser “clichet”). E clichês não faltam neste filme. Sylvie é o retrato da editora poderosa, perua e impecavelmente arrumada, com o cãozinho a tiracolo. No início da história Mary é a típica dona-de-casa rica suburbana, enquanto Edie (Debra Messing) é a mãezona com pencas de filhas, e ainda tentando um menino. E para ser moderninho e agradar o público GLS, Alex (Jada Pinkett Smith) é a amiga gay, cuja namorada é a top model mal-humorada porque está “com fome”.

Sylvie descobre através da manicure fofoqueira da Saks (Debi Mazar) que Stephen, o marido de Mary, tem um caso com a vendedora de perfumes da loja, Crystal Allen (Eva Mendes). Mary também fica sabendo da história através da mesma manicure (afinal, Nova York é como uma aldeia pequena, e tudo gira em torno da Saks). A princípio, Mary segue o conselho da mãe (Candice Bergen) e tenta ignorar o caso, esperando que ele se canse da amante e volte para ela. Quando conhece Crystal e descobre que o marido não só continua se encontrando com ela, mas também paga suas contas, ela confronta Stephen, o invisível marido, e pede o divórcio. Para completar, ela é despedida pelo pai.

A seguir temos mais clichês; Sylvie ‘deixa escapar’ a notícia do divórcio para uma escritora de fofocas por medo de perder o emprego, o que causa o fim da amizade entre Mary e Sylvie; Mary vai para um spa e decide mudar de vida, recomeçar sua carreira e ser independente.

Sylvie tenta reatar a amizade com Mary, que a ignora; ela acaba se aproximando da filha de Mary, que está perdida e abandonada pela mãe que tenta “se encontrar”; quem melhor para ser uma mãe substituta legal que a amiga da mãe, que não tem filhos?

Após chegar à conclusão que a culpa pela infidelidade do marido era dela, que não era bonita o suficiente (pelo menos não tão bonita quanto Crystal, o perfeito estereótipo da bonitona à caça de um amante rico), Mary descobre os poderes da chapinha, muda seu guarda-roupa para o uniforme da executiva bem-sucedida e lança sua linha de roupas, com patrocínio (ou mãetrocínio) da herança da mamãe.

Mas para Mary não basta ser uma profissional bem-sucedida, ser admirada pela filha, ter o apoio das amigas, receber uma mega encomenda da Saks (que, a propósito, ela não sabe se irá aceitar; medo do sucesso, talvez?). Para tudo ser perfeito, ela precisa ter o marido de volta.

E com uma pequena ajuda das amigas e um pouco de fofoca, convenientemente espalhada pela mesma manicure, ela consegue amedrontar a rival e despertar interesse novamente no marido, que envia flores e um bilhetinho, pedindo uma segunda chance. Agora sim, a vida está perfeita (e talvez nem precise de uma encomenda tão grande da Saks…)

Para fechar com chave de ouro, depois do desfile a amiga grávida entra em trabalho de parto e todas vão ao hospital; entre contrações, urros e confissões, Mary recebe uma ligação de Stephen e diz a ele que, se recomeçarem, terá de ser nos termos dela; que as coisas serão diferentes agora, pois ela é uma nova mulher. Palmas, palmas, e depois de mais alguns urros e gritos Edie finalmente ganha o tão sonhado menininho. A propósito: o recém-nascido é a única pessoa do sexo masculino que vemos durante todo o filme.

Os recursos usados para contornar a falta de elenco masculino até que são interessantes; discussões são contadas por terceiros, os maridos estão ao telefone, mandam bilhetes, só há filhas e não há nenhum filho ou irmão. Até o elenco canino é de fêmeas.

Esta é uma refilmagem de “As Mulheres”, de 1939, dirigido por George Cukor e estrelado por Joan Crawford, Norma Shearer, Joan Fontaine e Rosalind Russell. O filme original, por sua vez, é baseado na peça de Clare Boothe Luce, que teve grande sucesso na Broadway em 1936.

Não assisti ao filme de Cukor, mas a julgar pelos comentários no IMDb, a graça da comédia cáustica e da interpretação ferina das atrizes originais se perdeu nesta refilmagem, que não chega a ser uma atualização da peça de Clare Boothe Luce nem mesmo uma boa refilmagem. Pelo contrário, apesar do elenco contar com boas atrizes, não temos uma verdadeira interação entre as quatro amigas, que parecem não ter nada em comum. Meg Ryan está insossa e muito distante das ótimas interpretações de seus antigos filmes.

Outro ponto que salta aos olhos é o excesso de merchandising do filme; nem em “O Diabo Veste Prada” temos tantos produtos e marcas exibidos tão ostensivamente. Sylvie não larga de seu iPhone; há um Mac na cozinha (!) de Mary; e além de metade do filme se passar na Saks, temos a pérola final na cena em que as amigas, acompanhadas das filhas de Edie, vão à Saks confrontar Crystal. Uma das meninas, impaciente, quer ir embora e grita “eu odeio esta loja”. Sylvie, numa demonstração de sabedoria de perua mais velha, diz à menina que vai lhe dizer algo do qual ela nunca deve se esquecer: “Ninguém… odeia… a… Saks.” E a menina balança a cabeça, carneiramente.

Uma pena desperdiçar um bom elenco e uma história interessante na sua época com uma refilmagem desnecessária. O excesso de estereótipos e machismo talvez fosse aceitável em 1939, mas em 2008 parece forçado e artificial, como a maioria das interpretações. As exceções são Candice Bergen e Cloris Leachman, duas atrizes veteranas que conseguem manter a dignidade neste mar de clichês.

Resumindo: com este filme aprendemos que, se o marido nos trai, a culpa é nossa; que temos de ser lindas, estar sempre arrumadas, com o cabelo liso e ter sucesso profissional, mas não muito, pois sucesso demais assusta. Se formos egoístas, pensarmos em nós e fizermos o que queremos, tudo dará certo. E nada disso vale se estivermos sozinhas (l´amour, ah, l´amour…)  Ah, e mais uma coisa: ninguém odeia a Saks!

Uma sugestão: se quiser ver bons filmes sobre amizades femininas, prefira Flores de Aço, Amigas para Sempre, Tomates Verdes Fritos ou até mesmo Thelma e Louise. As mulheres destes filmes é que são o verdadeiro “sexo forte”.

* * *

  • Entrada do filme no IMDb: versão de 2008 e versão de 1939
  • Entrada sobre a peça “The Women” de Clare Boothe Luce, na Wikipédia (em inglês)
  • Entrada sobre o filme de 2008 na Wikipédia (em inglês)
  • Entrada sobre o filme de 1939 na Wikipédia (em inglês)

Outras opiniões:

Trailer: Mulheres: o sexo forte

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