Publicado em Março - 27 - 2009
12 homens e uma sentença
Esta é a prova que não são necessários efeitos especiais, cenários deslumbrantes ou uma produção caríssima para se fazer um bom filme. Com uma boa história, diálogos brilhantes e uma direção mais que competente, aqui temos um dos melhores filmes ‘de tribunal’ já feitos.
Estrelado e produzido por Henry Fonda, com roteiro de Reginald Rose e dirigido por Sidney Lumet, 12 Angry Men (1957) conta a história dos doze jurados em um caso de homicídio, que devem decidir se o réu é inocente ou culpado. O filme não mostra o julgamento; todo ele (exceto as cenas inicial e final) se passa dentro da sala dos jurados. Com o mínimo de distrações como música e mudanças de cenário, o filme concentra-se nos diálogos e nas ótimas interpretações. Além de Fonda, no elenco estão Lee J. Cobb, Martin Balsam, Jack Warden, E. G. Marshall e Ed Begley.
Sidney Lumet, em atividade como diretor, produtor, ator e roteirista desde 1951, realizou ótimos filmes como Serpico (1973). Assassinato no Expresso do Oriente (1974), Um dia de cão (1975), Rede de Intrigas (1976), O Veredito (1982) e o mais recente Antes que o Diabo saiba que você está morto (2007).
Os personagens dos jurados não têm nome. Eles não estão interessados em se conhecer, apenas querem terminar logo a tarefa e ir para casa. Na primeira votação todos escolhem ‘Culpado’, e só o Jurado 8 (Henry Fonda) escolhe ‘Inocente’. Ele não sabe se o réu (um garoto de 18 anos acusado de matar o pai a facadas após uma briga) é inocente, mas também não tem certeza se ele é culpado, e quer discutir mais antes de decidirem. A decisão deve ser unânime e se o veredito for culpado o réu será executado na cadeira elétrica, sem direito à apelação.
A partir daí estas doze pessoas de temperamentos, profissões e personalidades diferentes começam a analisar as provas apresentadas, os testemunhos, o álibi; aos poucos eles vão mudando seus votos. Durante a discussão os preconceitos dos jurados vêm à tona: contra a pobreza, os imigrantes, a velhice. Conforme eles se dão conta dos próprios preconceitos e percebem a contradição de seus argumentos, começam a rever sua opinião.
Uma cena especialmente tocante é quando o jurado 10 começa a ‘argumentar’, destilando preconceitos de todo tipo, enquanto os outros jurados levantam e lhe dão as costas, ou apenas o ignoram.
Jurado #10: Eu não os entendo! Todos esses pequenos detalhes que vocês insistem em trazer à tona. Eles não querem dizer nada. Vocês viram o garoto, do mesmo modo que eu. Não vão dizer que acreditam naquela história fajuta sobre perder a faca, ou naquele negócio de ter ido ao cinema. Olhe, vocês sabem que essas pessoas mentem! Eles nasceram assim! Que diabos? Não tenho que lhes dizer. Eles não sabem o que é a verdade! E vou lhes dizer, eles não precisam de nenhum motivo para matar alguém! Não, senhor!
[Cinco levanta da cadeira]
Jurado #10: Eles ficam bêbados… oh, eles bebem muito, todos eles – vocês sabem – e pronto: alguém está caído no chão. Oh, ninguém irá culpá-los disso. É assim que eles são! É a natureza deles! A natureza! Sabe o que quero dizer? VIOLENTOS!
Jurado #10: [Nove levanta e vai até a janela] Aonde está indo?
Jurado #10: A vida humana não significa para eles o mesmo que para nós!
[Nove levanta e vai até a outra janela]
Jurado #10: Olhe, eles gritam e brigam o tempo todo e se alguém morre, alguém morre! Eles não se importam! É claro, eles também têm algumas coisas boas. Olhe, sou o primeiro a afirmar isso.
[Oito levanta e caminha até a parede mais próxima]
Jurado #10: Conheci um casal que era legal, mas eles eram exceção, sabem como é?
[Dois e Seis levantam da mesa. Todos estão de costas para Dez]
Jurado #10: A maioria deles, eles não têm sentimentos! Podem fazer qualquer coisa! Que está havendo aqui? Estou tentando lhes dizer… estão cometendo um grande erro! O garoto é um mentiroso! Sei disso. Sei tudo sobre eles! Escutem! Eles não são bons! Nenhum deles é bom! Mas o que está havendo aqui? estou dizendo o que penso e vocês…
[o Líder dos jurados levanta e caminha para longe dele. Doze faz o mesmo]
Jurado #10: Escutem. Estamos… este garoto em julgamento… esse tipo, bem, vocês não os conhecem? Existe, existe um perigo aqui. Essas pessoas são perigosas. Eles são selvagens. Escutem o que digo. Escutem.
Jurado #4: Já escutei. Agora sente-se e não abra mais a boca.

O filme nos faz pensar sobre a justiça, a imparcialidade humana e o poder dos preconceitos e a experiência pessoal de cada um na formação de opiniões. Pensamos também nas falhas do sistema, e em como deve ser difícil ter nas mãos a decisão de vida ou morte de uma pessoa.
Jurado #8: É sempre difícil manter os preconceitos pessoais fora de uma coisa dessas. E em qualquer parte, o preconceito sempre esconde a verdade. Realmente não sei qual é a verdade. Não creio que alguém possa saber. Nove de nós parecem pensar que o réu é inocente, mas estamos jogando com probabilidades – podemos estar errados. Podemos estar libertando um homem culpado, não sei. Ninguém pode saber. Mas temos uma dúvida razoável, e isso é algo muito valioso em nosso sistema. Nenhum júri pode declarar um homem culpado a menos que tenha CERTEZA. Nós nove não podemos entender como vocês três têm tanta certeza. Talvez vocês possam nos dizer.
Este filme brilhante, que apesar de ter agradado aos críticos não teve muito sucesso de bilheteria na época, é hoje um clássico; o que aparentemente poderia ser um filme monótono e aborrecido (apenas 12 pessoas durante uma hora e meia trancadas em uma sala) revela-se um filme inteligente e emocionante, que prende a atenção do espectador do início ao fim. Imperdível!

Algumas curiosidades:
- Em Portugal, o filme teve o título de “Doze Homens em Fúria”.
- Em 1997 foi feita uma refilmagem para a TV e Jack Lemmon interpretou o Jurado 8, o mesmo papel de Henry Fonda.
- O filme teve orçamento baixo (apenas 350 mil dólares) e foi filmado em apenas 21 dias, após duas semanas exaustivas de ensaios.
- O diretor começa o filme com ângulos mais abertos e de um nível elevado, o que dá sensação de maior distância entre os atores. Conforme o filme avança as câmeras descem ao nível dos olhos. No final as tomadas são quase todas em close-ups e abaixo do nível dos olhos, o que aumenta a tensão e a sensação de claustrofobia.
- Indicado para 3 Oscars (Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado), o filme perdeu todos para ‘A Ponte do Rio Kwai’.
- Devido à baixa bilheteria, Henry Fonda nunca recebeu seu salário referente a este filme. Ainda assim, Fonda sempre considerou que este foi um de seus três melhores filmes; os outros são “As Vinhas da Ira” (1940) e “Consciências Mortas” (The Ox-Bow Incident - 1943).
* * *
- Doze Homens e uma Sentença no IMDb e na Wikipédia (em português)
- Henry Fonda na Wikipédia (em português)
- Assista o filme completo no YouTube (em 10 partes, com legendas em português) - link para a parte 1
- Resenha sobre o filme (muito boa!) no Tudo é Crítica
Mais Henry Fonda no Rato de Biblioteca:
* * *
Vídeo: Trailer de 12 Angry Men (note o estilo ‘dramalhão’ da época!)









“Esta é a prova que não são necessários efeitos especiais, cenários deslumbrantes ou uma produção caríssima para se fazer um bom filme.”
eses são os melhores filmes, aqueles que desafiam sua imagnação. bravo! mais um review excelente!
[Responder]
Obrigadinha, flor!
Também adoro filmes inteligentes, que até podem ter efeitos especiais, mas cuja base estão uma boa história e boas interpretações.
Beijão!
[Responder]
Cara blogueira,
Parabéns mais uma vez pelos seus comentários e ilustração da postagem. “12 Homens…” é um de meus filmes favoritos. Impactante a cada reassistida. Um soco no estomago dos que insistem em julgar máscaras com outras máscaras. Somos muito mais que isto. Abs,
Janio
[Responder]
Cristine Reply:
Março 31st, 2009 at 14:36
Obrigada por seu comentário, Janio!
Você disse exatamente o que eu estava tentando dizer, não podemos julgar máscaras com outras máscaras, nem deixar-nos cegar por nossos preconceitos.
É mesmo um filme excelente!
Abraços,
Cristine
[Responder]