Publicado em Novembro - 09 - 2010

09 - Meme literário - melhor cena que já li

Dia 9 - A melhor cena que já li

Lembro de várias cenas bem escritas e que me emocionaram muito em livros, como a escolha dos nomes dos gêmeos em A Leste do Éden, a explicação de Max de Winter em Rebecca, a batalha de Minas Tirith em O Senhor dos Anéis (chorei lendo uma cena de guerra, pode?), o desespero de Heathcliff com a morte de Cathy em O Morro dos Ventos Uivantes, entre outros.

Uma das cenas mais bonitas que lembro de ter lido está no romance Em algum lugar do passado, de Richard Matheson.

A história ficou muito conhecida por causa do filme de 1985, com Christopher Reeve e Jane Seymour, um primor de romantismo com a bela música de Rachmaninoff. E o livro também é excelente.

Richard Collier é um autor teatral que está morrendo, e decide fazer uma viagem sozinho. Um impulso o faz parar no Hotel del Coronado, onde se hospeda. Ao ver o retrato da atriz Elise MacKenna no museu do hotel, ele se apaixona imediatamente por ela, e fará de tudo para reencontrá-la.

A cena que gostei foi quando, depois de vencer o tempo, Richard volta a 1912 para encontrar sua amada Elise, ele a encontra caminhando na praia perto do hotel. E o encontro dos dois é surpreendente para ele, que nunca imaginaria as primeiras palavras dela.

“Não sei dizer quando ela primeiro tomou consciência de mim. Minha única certeza é de que parou quando me viu, imóvel junto da água, com a silhueta destacada contra as últimas e pálidas fulgurâncias do sol que se punha. Seus olhos pousaram em
mim, eu podia dizer, embora sem vê-los e sem ver sua face ou imaginar com que
emoções ela via a minha aproximação. Sentiria medo? Eu não previra que Elise
pudesse acolher minha chegada com receio. Nosso encontro havia sido tão inevitável,
que nunca considerei essa possibilidade. Sopesei-a agora. O que fazer, se ela corresse
em fuga ou gritasse por socorro?
Depois de muito tempo, parei diante dela, silencioso, e nos entreolhamos. Ela
era mais baixa do que eu imaginara. Quase precisava tombar a cabeça para trás, a fim
de olhar-me no rosto. Eu não conseguia ver bem o dela, porque Elise tinha as costas
contra o sol que se punha. Por que estava tão quieta, tão estática? Senti algum alívio,
por ela não pedir socorro nem dar-me as costas e fugir. Entretanto, por que a falta
absoluta de reação? Seria possível que o medo a deixara muda, tolhera-lhe os
movimentos? Tal idéia deixou-me nervoso.
O que eu sentira, quando me aproximava dela, nada era em comparação ao que
sentia agora. Meu corpo e mente pareciam paralisados. Não me moveria nem falaria,
se minha vida dependesse disso. Um pensamento penetrou-me no cerebro. Por que
também ela estava ali, parada e muda, olhando para mim? De certa forma, percebia
que não era por causa de nenhum terror paralisante, mas, além disso, era impossível
avaliar seu comportamento ou reagir a ele.
Então, abrupta e inesperadamente, ela falou, e o som de sua voz me
sobressaltou.
— É você? — perguntou.
Se eu houvesse compilado uma lista de todas as frases de abertura que ela
poderia dirigir-me, aquela estaria no fim ou talvez nem mesmo fizesse parte dela. Fiteia,
incrédulo. Teria acontecido algum encantamento, inteiramente além de minhas
visões, para permitir-lhe já saber a meu respeito? Era difícil de crer. Entretanto, um
instante depois que ela falou, senti que me vinha ao encontro a miraculosa oportunidade
de ultrapassar o que poderiam constituir horas em persuadi-la a aceitar-me.
— Sou, Elise — ouvi-me respondendo.
Ela começou a tremer e estendi o braço rapidamente para ampará-la. E como
descrever, após todos os meus sonhos com ela, a constatação de que aqueles sonhos
adquiririam carne, a mesma que sentia sob meus dedos? Ela ficou tensa ao contato,
mas não a soltei.”

Para saber mais sobre o livro e o filme, leia o artigo que escrevi aqui no Rato.

Veja os links dos outros participantes no dia 9 no Blog da Happy Batatinha.

Ficha:

Em Algum Lugar do Passado (Bid Time Return,  1975)

Richard Matheson

1ª edição - 2007 - Ed. Best Bolso

Compre o livro na Livraria Cultura (livro de bolso)

Publicado em Fevereiro - 14 - 2009

Em algum lugar do passado

Esta bela história de amor e viagem no tempo foi um grande sucesso no Brasil desde seu lançamento, em 1980, mas curiosamente não fez tanto sucesso nos Estados Unidos. Apesar da fraca bilheteria e críticas desfavoráveis, ele conquistou uma legião de fãs quando foi lançado em vídeo e na TV, e hoje é considerado um clássico, tanto lá quanto aqui.

Filme

O jovem autor teatral Richard Collier (Christopher Reeve), durante a estréia de sua primeira peça na faculdade, recebe de uma velha senhora um relógio, e ela lhe diz: “Volte para mim”. Alguns anos depois, ao sair sem rumo, ele decide hospedar-se no Grand Hotel, e fica fascinado ao ver a foto de uma linda mulher na galeria do hotel. Ele descobre que ela é Elise MacKenna (Jane Seymour), atriz famosa que hospedou-se no hotel e lá encenou uma peça em 1912.

Richard fica mais intrigado ainda quando, ao pesquisar na biblioteca da cidade, descobre que ela é a senhora que havia lhe dado o relógio, e que havia morrido mais tarde naquela noite; que Elise era uma jovem cheia de vida e que isso mudou após sua apresentação no hotel, tornando-se reclusa e solitária.

Ele decide então usar as técnicas de auto-hipnotismo e fazer uma viagem de volta a 1912, para encontrá-la. Após muito esforço, ele é bem-sucedido e consegue encontrá-la. Ao vê-lo, Elise pergunta: ‘É você?”, ao que ele responde “Sim”.

Porém, William Robinson (Christopher Plummer), o empresário de Elise, teme que Richard a influencie negativamente e que ela deixe de atuar, e tenta afastá-lo dela. Mas Richard consegue convencer Elise a passear com ele, e aos poucos eles vão se aproximando. Durante a peça, ela improvisa um monólogo dirigido a Richard, na platéia. Isso enfurece Robinson, que faz uma armadilha para espancar e amordaçar Richard nos estábulos do hotel.

No dia seguinte ele consegue escapar e volta ao hotel, onde descobre que a companhia teatral já havia partido. Mas Elise volta e o encontra, e os dois passam sua primeira e única noite juntos. Após pedir Elise em casamento, numa brincadeira ele encontra uma moeda de 1979 no bolso e volta abruptamente ao presente.

Richard tenta em vão voltar a 1912, e vaga pelo hotel por algum tempo, até trancar-se no quarto, onde é encontrado em estado catatônico por Arthur, funcionário do hotel. Quando o médico chega, Richard vê a si mesmo pairando acima de seu corpo, e segue até a luz da janela, onde encontra Elise, que lhe estende a mão.

Livro

O roteiro do filme foi escrito por Richard Matheson, autor do livro ‘Bid Time Return‘, lançado em 1975 e que foi relançado após a estreia do filme com o mesmo título, ‘Somewhere in Time‘. Matheson afirmou que ” ‘Em algum lugar do passado‘ é a história de um amor que transcende o tempo, e ‘Amor além da vida‘ é a história de um amor que transcende a morte… Sinto que eles representam o melhor que escrevi em forma de romance”.

Richard também é o autor de vários livros e roteiros, como ‘Eu sou a lenda’ (filmado duas vezes, com Will Smith e Charlton Heston no papel principal), ‘Encurralado’, e diversos episódios de ‘Além da Imaginação’.

Durante uma viagem com sua família, Richard Matheson ficou encantado pelo retrato da atriz Maude Adams na Casa de Ópera Piper em Nevada. Maude era reclusa e misteriosa, e Matheson imaginou seu novo romance. Para escrevê-lo, ele hospedou-se por muitas semanas no Hotel del Coronado, cenário da história. Muitas informações biográficas de Elise MacKenna foram baseadas em Adams.

No livro, Richard Collier é um roteirista que sofre de tumor cerebral e decide passar seus últimos dias no Hotel Del Coronado. A maior parte do livro é o diário escrito por Richard em sua viagem. Richard fica fascinado pelo retrato de Elise MacKenna, que apresentou-se no hotel em 1896, quando teria tido um caso de amor com um homem misterioso que mudou sua vida. Richard se convence que pode voltar no tempo e ser esse homem misterioso.

O livro segue de maneira semelhante ao filme, e na parte final sabemos que Richard morre devido ao tumor, após voltar ao presente. Apesar do médico afirmar que a viagem ao passado acontecera apenas na mente de Richard o irmão dele, Robert Collier, decide publicar o diário em forma de romance.

No filme, Robinson havia dito a Elise que sabia que um homem surgiria na vida dela e a mudaria; no livro, essa informação é dada por duas videntes.

O relógio paradoxal

Se Richard recebeu o relógio de Elise em 1972, voltou a 1912 e o deu a ela, de onde veio o objeto? Esse paradoxo nunca é explicado, e existe apenas no filme (assim como o próprio relógio). Esse ‘furo’ é criticado por muitos fãs da história, mas ainda assim é perdoado.

EALDP e Titanic: coincidências demais

Estas duas histórias românticas têm muitas similaridades, que nos fazem duvidar de uma simples coincidência e imaginar até que ponto James Cameron era fã do romance e filme de Richard Matheson.

Nos dois casos a história começa com uma velha mulher, temos um retrato de um momento de felicidade, uma peça de jóia que faz um círculo completo no tempo, e uma tragédia que separa os dois amantes para sempre depois de uma única noite de amor. Até a cena final é bem parecida; após a morte de Rose, ela retorna ao Titanic e reencontra Jack, que lhe estende a mão enquanto a imagem dos dois dilui-se na luz; após a morte de Richard, ele vai em direção à luz, onde encontra Elise, que espera por ele e lhe dá a mão.

Outras coincidências:

  • Elise é atriz, e Rose será uma; ambas perdem o amor de suas vidas em circunstâncias dramáticas e suas vidas mudam radicalmente depois disso.
  • As duas atrizes, Kate Winslet e Jane Seymour, são inglesas e interpretam o papel de uma americana.
  • As duas posam para uma foto/retrato enquanto olham nos olhos do homem que amam.
  • Ambas devolvem a jóia (o relógio a Richard e o colar, ao mar) e morrem logo em seguida, cercadas por objetos e lembranças do passado.
  • Tanto Jack quanto Richard morrem jovens; ambos são artistas, e passam por dificuldades para ficar junto da mulher amada.
  • Ambos vestem roupas inadequadas ao ambiente social em que estão, na maior parte do tempo.
  • As duas histórias começam no presente, voltam ao passado, e terminam no presente.
  • As duas histórias acontecem no mesmo ano, 1912.

    Curiosidades sobre o filme

    • O Grand Hotel, onde foram feitas as filmagens, fica na Ilha Mackinac, onde não são permitidos automóveis; alguns carros foram levados para lá especialmente para as filmagens, mas não podiam ser usados pelos atores ou a equipe fora dos momentos da filmagem.
    • O diretor Jeannot Szwarc chamava tanto Christopher Reeve quanto Christopher Plummer de ‘Chris’, e ao dirigir aos dois em uma cena, ambos responderam ao mesmo tempo; para evitar confusões, ele passou a chamar Christopher Plummer de ‘Mr Plummer‘ e Chris Reeve de ‘Big Foot‘ (pé grande).
    • O momento em que Richard vê o retrato de Elise também foi a primeira vez que Chris Reeve o viu. O diretor quis obter uma reação verdadeira, e manteve o retrato escondido do ator até o momento da filmagem.
    • Foi perguntado às atrizes que fizeram teste para o papel de Elise se haviam se apaixonado antes; Jane Seymour foi a única que respondeu ‘não’. Ela compareceu ao teste vestindo um traje de 1912 e chegou dizendo: ‘Eu sou Elise McKenna e tenho de fazer este papel’.
    • O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Figurino, mas perdeu para Tess. EALDP ficou em cartaz nos cinemas americanos por apenas 3 semanas; hoje ele é um dos filmes mais alugados nos Estados Unidos, e quando estreou nos cinemas do Oriente em 1984, ficou em cartaz por 18 meses em um cinema de Hong Kong, com filas.
    • A trilha sonora, composta por John Barry, foi um sucesso de vendas e a mais vendida desse compositor, mais que o total de todas suas outras trilhas sonoras (que incluem sucessos como Perdidos na Noite, King Kong (1976), Entre Dois Amores, Dança com Lobos e vários filmes de James Bond, como Goldfinger, Dr No, Os diamantes são para sempre, Moonraker, Octopussy e outros).
    • Jane Seymour e Christopher Reeve tornaram-se grandes amigos após as filmagens, até a morte do ator, em 2004.
    • Fãs do filme organizaram o primeiro ‘Somewhere in Time Weekend‘ no Grand Hotel em 1991, com participação do autor, Richard Matheson, o diretor, Jeannot Szwarc, entre outros; em 1994 Christopher Reeve participou do encontro anual e em 2002, Jane Seymour voltou à ilha pela primeira vez após as filmagens, para participar da reunião.

    *   *   *

    Para saber mais:

    - Entrada do filme no IMDb

    - Entrada do filme na Wikipedia (em inglês)

    - Entrada do livro na Wikipédia (em inglês)

    - Website oficial dos fãs do filme

    - Artigos sobre EALDP e Titanic: aqui e aqui

    - Vídeo: coleção dos melhores momentos do filme, ao som de ‘Rapsódia sobre um tema de Paganini’, de Sergei Rachmaninoff, e ‘Somewhere in Time’, de John Barry, cantada por Martin Nieverra.

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    Bolsas Elise no Terracota Bolsas: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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