Publicado em Março - 16 - 2010

Cidade dos Anjos - Asas do Desejo

Cidade dos Anjos é um dos filmes preferidos de nove entre dez mulheres; por que será? Romântico do primeiro ao último quadro, ele toca no desejo de encontrar o amor verdadeiro, que transcenda a morte, a dor, a imortalidade.

Esse filme foi inspirado em Asas do Desejo, filme alemão de 1987 do diretor Wim Wenders (que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 1987). A história básica é a mesma, mas os detalhes diferem um pouco.

Asas do Desejo

Damiel (Bruno Ganz) é um dos muitos anjos que vivem como guardiões entre os mortais na Terra. Eles estão presos a um só local (no caso, Berlim) e devem registrar durante toda a eternidade todas as vezes em que os seres humanos expressam seu “espírito”. Contudo, apesar de ouvirem seus pensamentos e entenderem todos os idiomas, eles não podem sentir as emoções, alegrias e tristezas que sentimos. Ele se apaixona por Marion (Solveig Dommartin), uma trapezista, e decide abrir mão de sua imortalidade para ficar com ela. Marion também representa a liberdade que os anjos não têm.

O filme é em preto e branco quando conta a história sob o ponto de vista de Damiel, pois os anjos não veem em cores, e passa a ser colorido quando o ponto de vista é de Marion. Isso simboliza a riqueza de experiências sensoriais e de sentimentos vivida pelos humanos, a que os anjos em sua perfeição não tem acesso. Damiel quer ser humano e sentir o amor, e todas as outras experiências dos humanos mortais.

Damiel: É ótimo viver espiritualmente, dia a dia testemunhar para a eternidade apenas o que há de espiritual nas mentes das pessoas. Mas às vezes sinto-me enfastiado pela minha existência espiritual. Em vez de pairar nas alturas para sempre eu preferiria sentir um peso sobre mim que interrompesse a eternidade e me prendesse à Terra. Gostaria de, a cada passo, a cada golpe de vento, poder dizer: “Agora, agora, agora!”,  não mais ‘para sempre’ e ‘pela eternidade’. Sentar-me à mesa de cartas e ser cumprimentado, mesmo que por um aceno. Todas as vezes que participamos, era um fingimento. Lutando com alguém, fingimos que deslocamos o quadril. Fingimos que pescávamos. Fingimos que comíamos e bebíamos. Carneiro assado e vinho em tendas no deserto, era tudo fingimento. Não quero gerar um filho, plantar uma árvore, mas seria bom chegar em casa após um longo dia e alimentar o gato, como Philip Marlowe, ter febre e os dedos sujos da tinta do jornal, ficar entusiasmado não só pelas coisas do espírito mas também com uma refeição, pela curva de uma nuca ou um ouvido. Mentir descaradamente. Enquanto andamos, sentir os ossos se movendo. E supor, em vez de tudo saber. Poder dizer ‘ah’ e ‘oh’ e ‘ei’, em vez de ’sim’ e ‘amém’.

Cassiel: Sim, poder, ao menos uma vez, entusiasmar-me com o mal. Retirar os demônios das pessoas que passam por nós e enviá-los para bem longe. Ser selvagem.

Damiel: Ou pelo menos saber como é tirar seus sapatos sob a mesa e mexer os dedos dos pés, descalço. assim.

Cassiel: Ficar sozinho. Deixar as coisas acontecerem. Ser sério. Somente podemos ser selvagens na medida em que somos sérios. Não fazer nada além de observar. Reunir. Testemunhar. Preservar. Continuar espírito. Manter a distância. Manter a palavra.”

Quando o filme foi feito ainda havia o Muro de Berlim, e a limitação dos anjos também simboliza a limitação imposta aos alemães orientais, cuja cidade era dividida e sua liberdade, restrita. O muro também simboliza a separação entre as pessoas; ao observar seus pensamentos, vemos que quase todos são solitários, isolados em uma cidade dividida. Apesar de sozinhos, todos compartilham as mesmas preocupações mundanas, a mesma angústia e insatisfação. E os anjos nada podem fazer para mudar isso, apenas observar.

A história teve uma continuação, Tão Longe, Tão Perto, dirigida por Wim Wenders em 1993, e com os mesmos atores. A sequência mostra a vida de Damiel e Marion, que agora têm uma filhinha, e as muitas reviravoltas quando seu amigo Cassiel (Otto Sander), também um anjo, torna-se humano por acidente enquanto tenta ajudar as pessoas. Quanto mais ele tenta se ajustar ao nosso mundo, mais as coisas dão errado. Na época não gostei muito dessa continuação, achei um pouco confusa. Mas talvez isso seja porque vi o segundo filme sem ter antes visto o primeiro.

Cidade dos Anjos

Em 1997 Brad Silberling dirigiu Cidade dos Anjos, que muitos consideram aquém da obra original, apesar de ser um grande sucesso de público.

Nesta versão, Seth (Nicolas Cage) é um dos anjos que protegem a cidade de Los Angeles e cuja missão é acompanhar as almas durante a transição da morte. Eles ouvem os pensamentos das pessoas, confortam-nas e desfrutam da música celestial ao nascer e ao pôr do sol, mas não podem sentir as emoções dos humanos.

Seth sempre pergunta às pessoas que acompanha em direção ao “outro lado” qual a coisa que mais sentirão falta aqui da Terra, e fica curioso com as respostas, que discute com seu amigo Cassiel (Andre Braugher). Durante uma cirurgia, enquanto aguardava para acompanhar o homem que estava sendo operado, ele presta atenção aos pensamentos da cirurgiã Maggie Rice (Meg Ryan), que fica desesperada quando o paciente morre. Em um momento de desespero, seus olhos se encontram e Seth fica desnorteado e interessado nela.

Cassiel: Ninguém pode vê-lo, a menos que você queira.”

Ele começa a segui-la e descobre que ela o vê e pode conversar com ele, sem saber de sua condição imortal. Seth se apaixona por ela e decide abrir mão de sua imortalidade para viver a seu lado como humano.

O operário Nathaniel Messinger (Dennis Franz), paciente de Maggie, também consegue ver e falar com os anjos. Ele conta a Seth que já foi um anjo e que abriu mão de sua condição para viver ao lado da mulher amada, e que ambos eram felizes há algumas décadas.

“Nathaniel Messinger: Seth não conhece o medo, a dor, a fome, ele ouve música celestial ao nascer do sol. Mas ele desistiria de tudo isso, porque a ama muito.

Maggie: Não compreendo.

Nathaniel: Ele pode cair, ele pode desistir da existência que conhece, ele pode desistir da eternidade e tornar-se… um de nós.”

Mesmo que seu amigo Cassiel seja contrário a isso, Seth está decidido. Após tornar-se mortal, ele vai ao encontro de Maggie e quando tudo parecia pronto para um final feliz, o destino nos mostra que as coisas nem sempre saem como planejamos…

Além da história comovente, o filme nos encanta pelas belas imagens, que mostram Los Angeles vista do alto, pois os anjos adoram ficar em locais altos (como o famoso letreiro de Hollywood). A trilha sonora também é sensacional, e inclui  as belas músicas “In the arms of the Angel”, de Sarah McLachlan, “Iris”, de Goo Goo Dolls e a lindíssima “Uninvited”, de Alanis Morisette, que é tocada nos créditos finais.

Gostei das duas versões (Asas do Desejo e Cidade dos Anjos) e recomendo ambas. Apesar de contarem quase a mesma história, têm estilos bem diferentes; um é um filme de arte, com visual esplêndido e diálogos quase filosóficos; outro é um filme romântico, feito para emocionar e com músicas inesquecíveis.  Vale a pena assistir aos dois.

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Para saber mais:

Trailer- Cidade dos Anjos

Trecho do filme com a música “Angel” de Sarah McLachlan

Trailer: Asas do Desejo

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