(publicado no Alma Carioca em 07/12/2009)
Está começando (de 07 a 18 de dezembro) em Copenhague a COP15, Convenção do Clima organizada pelas Nações Unidas para discutir o aquecimento global e estabelecer regras para combatê-lo. O Protocolo de Kioto, assinado em 1997, estabelecia regras validas até 2012. Contudo, agora serão discutidas novas metas para a redução da emissão de gases de efeito estufa (especialmente o dióxido de carbono, ou CO2) a serem cumpridas a partir de 2013 ou 2014.
Participarão do encontro ministros do meio ambiente e representantes dos 192 paÃses signatários da Convenção Marco sobre Mudança Climática (UNFCCC), além de autoridades da ONU, presidentes, diplomatas e jornalistas.
O objetivo do encontro é obter o comprometimento dos paÃses com a redução de 25 a 40% das emissões até 2020 - nÃveis mais ousados que os do Protocolo de Kioto, que previam reduções de 5% apenas dos paÃses desenvolvidos (Ãndia e Brasil, por exemplo, não eram obrigados). O sucesso das negociações depende da participação e o comprometimento dos Estados Unidos, segundo maior poluidor do mundo.
Os paÃses com maiores emissões de CO2 são, em ordem decrescente: China, EUA, Rússia, Ãndia, Japão, Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Coréia do Sul e Irã. O Brasil está em 17º lugar na lista.
Mas quando se trata de aquecimento global, as decisões não podem ser tomadas como se fosse um problema polÃtico, ou seja, pequenas mudanças a longo prazo. O adversário desta vez não são outros paÃses, os partidos de oposição, problemas econômicos, inflação, recessão, nada disso. O adversário é a FÃsica.
Há dois anos a equipe de James Hansen na NASA anunciou que existe um ponto crucial no problema do aquecimento global: Qualquer valor de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera maior que 350 partes por milhão não é compatÃvel “com o planeta onde a civilização desenvolveu-se e para o qual a vida está adaptada”. Esse ponto crucial não mudará: após ser atingido as consequências previstas (aumento de temperaturas, derretimento da calota polar, aumento do nÃvel do mar, etc.) começarão a acontecer.

A fÃsica não impõe apenas o ponto crucial, mas também um limite de tempo. A cada ano que não fizermos nada a respeito, o problema ficará muito pior e poderá tornar-se insolúvel - com o derretimento das calotas polares os nÃveis de metano na atmosfera tornarão impossÃvel voltar à zona de segurança. Mesmo que americanos e chineses proibissem todos os automóveis e fábricas de funcionar, seria tarde demais.
O nÃvel atual de CO2 na atmosfera já atingiu 390 partes por milhão, e os nÃveis de metano têm aumentado nos últimos anos. Isso quer dizer que já chegamos lá. Não podemos mais “evitar” o aquecimento global, mas apenas evitar que atinja uma escala que destrua nossa civilização.
Infelizmente, quando observamos o cenário polÃtico, vemos que este problema continua a ser tratado de forma polÃtica: os EUA prometem reduzir 17% de suas emissões até 2020, o que é considerado um número alto para o Senado americano. Na semana passada, o senador Jim Webb escreveu ao presidente Obama:
“Gostaria de expressar minha preocupação com os relatos de que a Administração possa acreditar que tem o poder unilateral de comprometer o governo dos Estados Unidos a certas normas que podem ser decididas em Copenhague… A frase ‘comprometimento polÃtico’ foi utilizada. Como o Sr. sabe, de seu tempo no Senado, apenas uma legislação especÃfica decidida pelo Congresso, ou um tratado ratificado pelo Senado, podem na verdade criar um comprometimento como esse em nome de nosso paÃs”.
Os chineses aparentemente estão preparados para oferecer uma redução de 40% nas emissões até 2020. Por outro lado, os indianos quase destituÃram seu ministro do meio ambiente após notÃcias que ele estaria disposto a comprometer os interesses nacionais ao envolver-se em verdadeiras negociações sobre o aquecimento global. E a oposição australiana demitiu seu lÃder na última semana por afirmar que desejava comprometer-se um Esquema existente de Redução de Emissões.
Essas notÃcias mostram que os lÃderes pretendem lidar com o problema de forma polÃtica, como sempre - com sacrifÃcios mÃnimos, reduzindo a pressão polÃtica e ‘empurrando com a barriga’, para decidir outras medidas no futuro.
O movimento 350.org está divulgando informações sobre o limite de 350 ppm de dióxido de carbono na atmosfera e a importância das decisões que serão tomadas nestas duas semanas na Dinamarca. Noventa e duas nações, pobres e vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, apóiam este movimento radical. Seus lÃderes estão dispostos a lutar, pois assinar um acordo brando em Copenhague significaria um pacto suicida para seus paÃses.

Em 24/10, 5200 eventos em 181 paÃses marcaram o “maior dia de ação polÃtica na história do planeta”, segundo a CNN. No próximo sábado, 12 de dezembro, acontecerá uma vigÃlia em muitos locais pelo mundo todo para chamar a atenção para a importância do que será decidido agora.
O mundo inteiro, incluindo 200 organizações da sociedade civil que representam milhões de indivÃduos, bem como muitos governos e praticamente todos os especialistas e cientistas climáticos estão se unindo em torno do que está sendo chamado de um “Acordo pra Valer” - que se traduz em 3 pontos chave: justo, ambicioso e vinculante. São metas concretas para deixar clara nossa demanda, impedindo polÃticos de disfarçarem resultados medÃocres como uma vitória heróica. (fonte: movimento Avaaz)
Mesmo que daqui a duas semanas os jornais noticiem que o encontro de Copenhague foi um sucesso, e que um acordo otimista foi assinado, as leis da fÃsica continuarão a operar, as calotas polares continuarão a derreter, a temperatura continuará a aumentar.
É algo que nunca enfrentamos antes - e não pode ser enfrentado da maneira de sempre. Esse é o problema.
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Para saber mais:
- Why Copenhagen May Be a Disaster, artigo de Bill McKibben publicado no site AlterNet em 07/12/2009
- Convenção do Clima de Copenhague - perguntas e respostas - revista Veja online, outubro de 2009
- Página especial do site da BBC Brasil sobre o acordo de Copenhague
- 350 Science - informações sobre o limite de 350 partes por milhão de CO2 na atmosfera
- site da Avaaz - procure o local de vigÃlia mais perto de você para participar neste sábado, 12 de dezembro.








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