Os Embalos de Sábado à Noite

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Recentemente assisti este filme pela segunda vez; a primeira havia sido há 32 anos, quando foi lançado no cinema (cof cof). É claro que vi inúmeras vezes os trechos mais conhecidos do filme, os números de dança, mas não havia tido a oportunidade de vê-lo inteiro novamente.

Algumas coisas me surpreenderam: a primeira foi que o filme é amargo e realista, como a maioria dos filmes da década de 70; eles eram de uma franqueza brutal, sem disfarces politicamente corretos e com uma censura bem mais branda que a atual. Apesar de estarmos hoje cercados pela banalização do sexo, filmes como SNF, Perdidos na Noite, A Primeira Noite de um Homem, Taxi Driver e outros daquela época mostravam a realidade nua e crua, sem meias medidas.

É como comparar High School Musical com seu “avô”, Grease – Nos tempos da brilhantina. Enquanto o mais recente, apesar de adorável, é uma versão pasteurizada na medida certa para agradar crianças, jovens e adultos, Grease falava de temas mais fortes como aborto e a gravidez na adolescência.

Ao pesquisar qual a censura de SNF, vi que nos Estados Unidos ele foi classificado como “R” (o equivalente a ‘proibido para menores de 17′) enquanto no Brasil ele teve censura para 12 anos. Eu tinha 14 quando o assisti no cinema, e na época o que me marcou foram mesmo os números de dança. Em 1978, devido ao enorme sucesso do filme e da trilha sonora e com o objetivo de alcançar o público mais jovem, foi lançada uma versão editada do filme nos EUA, com 5 minutos a menos e com classificação PG (permitido para crianças acompanhadas dos pais ou responsável). As duas versões foram lançadas em VHS nos EUA mas apenas a versão “R” foi lançada em DVD.

Outra coisa que me surpreendeu foi que, apesar do enredo parecer fraco, há mais ali do que parece à primeira vista. E John Travolta convence como o jovem que procura nas pistas de dança o apoio e a aceitação que não encontra em casa. Não sem motivo, este foi o filme que o tornou famoso. Na época, Travolta era conhecido apenas por seu trabalho em uma série de TV (Welcome back, Kotter) e nos filmes “O Garoto da Bolha de Plástico” e “Carrie, a estranha” (ambos de 1976).

[ATENÇÃO: alguns spoilers no texto, cuidado se não viu o filme]

John Travolta é Tony Manero, um rapaz de 19 anos que mora no Brooklin com a família, trabalha em uma loja de tintas e nos sábados à noite dança em uma discoteca local.Como a maioria dos rapazes, ele anda com um bando de amigos também sem objetivo na vida, tem pouco ou nenhum diálogo com a família e quer ser bom em alguma coisa, e ser reconhecido por isso.

E Tony dança bem; sua parceira de dança habitual é Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele, mas a quem Tony dispensa após conhecer Stephanie Mangano (Karen Lynn Gorney), uma garota mais velha que trabalha em Manhattan como secretária/relações públicas (isso não fica muito claro, mas ela vive se gabando de como conhece pessoas importantes). Eles começam a ensaiar para o concurso de dança da discoteca. Tony está fascinado por Stephanie, mas ela é crítica a respeito dele:

“Deixe-me adivinhar. Você trabalha o dia todo em um emprego qualquer, mora com os pais e vai à 2001 nos finais de semana, certo? Você é comum. Você não é nada, indo para lugar nenhum”.

Em casa as coisas não vão bem; o pai de Tony está desempregado, o irmão mais velho, Frank Jr. (Martin Shakar), que é padre e o orgulho da família, anuncia sua decisão de largar a batina e quando Tony anuncia que recebeu um aumento, o pai reclama: “Só quatro dólares? Sabe o que quatro dólares compram hoje? Não compram nem 3 dólares”. Para a família italiana e católica a decisão de Frank é uma desgraça (a mãe fazia o sinal da cruz sempre que olhava a foto do filho sobre a lareira), e Tony comenta com o irmão:

“Tony: Sabe o que é estranho? Sempre me considerei o ruim, e você, o modelo.

Frank Jr: Agora sou uma desgraça e perdi a aura de perfeição… talvez não seja mais o ruim.

Tony: Se você não for tão bom, talvez eu não seja tão ruim”.

Quando Frank vai embora, dá um conselho ao irmão: ” Tony, o único modo de sobreviver é fazer o que você acha certo, não o que querem que você faça. Se fizer o que eles querem, vai estragar a sua vida”.

Ele vai bem no trabalho, mas não vê futuro naquilo. O único momento em que Tony brilha é na discoteca 2001 Odyssey, onde ele é o ‘Rei da pista de dança’. Mas mesmo isso não é o suficiente. No decorrer do filme Tony questiona a vida que leva e o que quer no futuro, até tomar a decisão de mudar para Manhattan e começar vida nova. Este é um dos temas do filme: aprender a crescer e tornar-se adulto.

Tony Manero: Sr. Fusco, vim buscar o meu dinheiro.

Sr Fusco: Tony, perdemos o controle, não?

Tony: Como?

Sr Fusco: Não quero perdê-lo. É um bom rapaz, e os fregueses o adoram. Fique.

Tony: Então, não fui demitido?

Sr Fusco: Não. Vamos lá!

Tony: Nossa, não acredito!

Sr Fusco: Tem futuro aqui. Harold está aqui há 18 anos, desde a inauguração! Mike, há 15 anos. Vá ajudar o Harold. Está todo enrolado.

No dia do concurso Tony e Stephanie brilham na pista de dança, mas logo depois deles um casal de porto-riquenhos se apresenta e são visivelmente melhores que eles (sua coreografia lembra os shows de dança do “So you think you can dance?”); os latinos ficam com o segundo lugar e Tony e Stephanie são os vencedores. Mesmo com a festa dos amigos, Tony sabe que eles só ganharam porque a discoteca nunca daria o primeiro prêmio para latinos; revoltado, ele entrega o troféu e o dinheiro ao casal latino.

O outro tema refere-se à visão que Tony tem das mulheres. No início do filme ele é o ‘pegador’, e trata as mulheres como objetos. Apesar de Annette oferecer-se para ele, Tony a rejeita, pois não quer ser pego na armadilha da gravidez e possível casamento, situação em que está seu amigo Bobby C. (Barry Miller). Bobby é um rapaz franzino que aparentemente só é aceito pelo grupo por ter um carro; ele não recebe apoio dos amigos (cada um fechado em seu egoísmo) e não vê uma saída para seu caso, pois a namorada não quer abortar e ele terá de casar com ela. Depois de uma cena forte em que Annette oferece-se a todos os rapazes (esperando, talvez, ficar também com Tony?), o que era oferecimento transforma-se em estupro, do qual Tony não participa.

O grupo segue para a Ponte Verrazano Narrows (thanks, IMDb!), onde costumavam se exibir andando na borda da ponte. Bobby, desesperado com sua situação e falta de apoio, começa a andar sobre a mureta, chorando e reclamando que os amigos nunca lhe deram apoio nem conversaram com ele, e apesar de Tony tentar alcançá-lo, ele acaba caindo.

“Tony: É possível cometer suicídio sem se matar”

Por fim, Tony percebe que aquela vida não o levaria a lugar algum (como os americanos gostam de dizer, andar com um bando de ‘perdedores’) e resolve mudar. Crescer não é fácil, e em geral é acompanhado de decepções e perda das ilusões. Neste caso, não foi diferente.

A trilha sonora do filme é uma delícia; além das músicas dos Bee Gees (Night Fever, Staying Alive, How Deep is Your Love, More than a Woman, You Should Be Dancing) ela tem outras boas músicas disco, como If I can´t have you (Yvonne Elliman), More than a woman (Tavares) e Disco Inferno (The Trammps).

O filme também é um retrato do estado de espírito americano na época (1977): depois do fiasco da Guerra do Vietnã e antes que Reagan trouxesse de volta o orgulho e patriotismo, não havia guerra para protestar nem muita fé no país. O melhor a fazer era dançar e aproveitar o momento, pois o futuro não trazia nada de promissor.

Curiosidades
  • Connie, a garota que se oferece para dançar com Tony, é Fran Drescher (a Nanny) em seu primeiro papel no cinema. Sem a voz anasalada que tornou-se sua marca registrada, quase não a reconhecemos.
  • A mãe e a irmã de John Travolta fazem pontas no filme; Ann Travolta, a irmã, é a mulher das pizzas e Helen Travolta, a mãe, é a senhora que compra a lata de tinta, no início do filme.
  • A trilha sonora (álbum duplo) vendeu mais de 20 milhões de cópias, e foi o álbum mais vendido da história até ser superado seis anos depois por Thriller, de Michael Jackson.
  • Travolta trabalhou duro para a coreografia solo de You Should Be Dancing e ameaçou sair do filme quando o estúdio sugeriu que cortassem a cena.
  • Na cena em que o pai de Tony lhe bate na cabeça, a fala dele “Ei, cuidado com o cabelo” foi um improviso de Travolta, mas combinou tão bem com o personagem que acabou ficando no filme.
  • Este foi um dos primeiros filmes a utilizar a Steadicam (câmera móvel com dispositivo estabilizador inventada por Garrett Brown, que recebeu um Oscar em 1978 por sua invenção).
  • No quarto de Tony há posters de Rocky (Sylvester Stallone), Bruce Lee, Al Pacino (de Um dia de cão) e o famoso poster de Farrah Fawcett.
  • Saturday Night Fever foi indicado para apenas um Oscar, o de Melhor Ator (John Travolta). Quem ganhou foi Richard Dreyfuss, por A Garota do Adeus.
  • Nenhuma das músicas dos Bee Gees foi indicada ao Oscar de Canção original, e a Trilha Sonora do filme também não recebeu uma indicação. Que injustiça…
  • Robin Gibb, um dos Bee Gees, admitiu à BBC News em 2007 que ele nunca havia assistido ao filme.

Saturday Night Fever (1977) - Dirigido por John Badham, com roteiro de Nik Cohn e Norman Wexler

Para saber mais:

Outras visões sobre o filme:

Vídeo: More Than a Woman

This entry was posted on 14/07/2009 at 9:02 and is filed under Filmes (Tags: , , , , , , , ). You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Comments (5)

  • Rossana says:

    Maravilhoso!!!! Vivi esta época de muito dance. Quando ouço e vejo, o tempo retorna e todo o glamour se estabelece novamente.

    [Responder]

    Cristine Reply:

    Obrigada pela visita e comentário, Rossana; é interessante rever um filme que nos marcou depois de algum tempo, não? Parece que todas as lembranças voltam à mente.

    Um abraço!

    [Responder]

  • Com certeza esse é um dos meus grandes filmes. Não importa a data e o horário, anunciou na tv, dou um jeito de ver. Gostei de sua análise, realmente tem vários aspectos do filme que só enxergamos quando o olhamos com olhar contemporâneo.
    Parabéns!

    [Responder]

    Cristine Reply:

    Obrigada pela leitura e comentário, Patrícia; realmente foi interessante rever o filme depois de tanto tempo, mesmo sendo um pouco datado ele continua ótimo, e não é só um filme sobre dança.

    Beijos!

    [Responder]

  • Os Embalos de Sábado à Noite…

    Crítica e análise do filme que lançou a moda disco nos anos 70, e que é popular e querido até hoje. Apesar de parecer apenas um ótimo musical (com destaque para as canções dos Bee Gees), há mais ali do que parece à primeira vista….

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