Publicado em Fevereiro - 28 - 2009

A Mulher do Viajante do Tempo

O Rato de Biblioteca está participando da Blogagem Coletiva: Meu melhor livro do ano, organizada pelo escritor e blogueiro William Lial.

No meu caso foi uma releitura. Já havia lido “The Time Traveller´s Wife” e o reli este ano. Não sei se foi o melhor livro que li, mas certamente gostei muito dele, mais ainda na segunda leitura. Na primeira vez li rapidamente, envolvida pela história, que é mesmo muito interessante. Ao relê-lo, como eu já sabia o que iria acontecer, fui saboreando cada capítulo e a leitura foi ainda mais gostosa.

O livro é muito bem escrito e estruturado, com muitos detalhes que percebemos apenas da segunda vez que o lemos. Gostei muito do recurso de dividir a narrativa entre o casal; apesar de não ser um recurso narrativo inédito, funcionou muito bem neste caso, pois vemos os pontos de vista de ambos e podemos saber tudo o que acontece enquanto Henry está ausente, em outra época.

Boa leitura, e não deixem de conferir no blog do William Lial os links para os outros blogs participantes da Blogagem coletiva.

*     *     *

“Clare: É duro ser deixada para trás. Espero por Henry, sem saber onde ele está, imaginando se ele está bem. É difícil ser aquela que fica. (…)

Há muito tempo, os homens partiam para o mar e as mulheres esperavam por eles, paradas junto à água, examinando o horizonte à procura de um pequenino navio. Agora espero por Henry. Ele desaparece involuntariamente, sem aviso. Eu espero por ele. Cada momento de espera parece um ano, uma eternidade. Cada momento é lento e transparente como vidro. Em cada momento posso ver infinitos momentos alinhados, esperando. Por que ele foi para onde não posso segui-lo?”

Este é o primeiro romance de Audrey Niffenegger, artista plástica, escritora e professora de arte em uma Universidade de Chicago. Como adoro histórias sobre viagens no tempo, quando li um comentário sobre este livro em um fórum sobre literatura, pensei: “Quero lê-lo”. E já o li duas vezes. Da primeira vez, rapidamente, mergulhada na história e querendo saber mais, saber como as coisas aconteceriam, como iriam terminar. Da segunda vez li devagar, saboreando a história, sem querer que tudo terminasse.

O personagem principal, Henry De Tamble, é um bibliotecário em Chicago e fã de punk rock. Ele tem uma disfunção genética que o faz viajar involuntariamente no tempo para momentos significativos de sua vida, no passado e no futuro. Apesar de viajar no tempo e no espaço, ele não leva nada consigo, como roupas, dinheiro, objetos ou obturações dentárias. Ou seja, após momentos de estresse ele se vê nu e sozinho, em local e época desconhecidos (ou não). E sua sobrevivência depende de ele roubar, arrombar, mentir, esconder-se e, principalmente, correr.

A mulher do viajante do tempo é Clare Abshire, escultora. Quando conhece Henry, ela tem 6 anos e ele, 36. Ela o encontra em uma clareira da Campina, que é parte da propriedade da família de Clare em Michigan. Ao longo da infância e adolescência de Clare ela recebe muitas visitas de Henry, que se torna seu melhor amigo, e acaba se apaixonando por ele.

“Henry: estou na Campina, esperando. Espero um pouco longe da clareira, nu, porque as roupas que Clare mantém para mim em uma caixa não estão lá; a caixa também não está lá, e sou grato por esta ser uma bela tarde, talvez no início de setembro, em um ano não identificado. (…) Clare está contente, absorta. Ela deve ter seis anos, e se estamos em setembro ela deve ter acabado de começar a primeira série. Ela obviamente não espera por mim, sou um estranho, e estou certo que a primeira coisa que se aprende na primeira série é não dar confiança para estranhos que aparecem nus no seu local secreto favorito e sabem seu nome e lhe dizem para não contar nada à mamãe e ao papai. Imagino se este é o dia em que nos encontramos pela primeira vez.”

Quando Henry conheceu Clare, ela tinha 20 anos e ele, 28. Ela já o amava durante toda sua vida; ele não sabia nada sobre ela.

“Henry!” Quase não consigo evitar enlaçá-lo em meus braços. É óbvio que ele nunca me viu antes em sua vida.

“Nós nos conhecemos? Desculpe, eu não…” (…)

Eu tento explicar. “Sou Clare Abshire, eu o conheci quando era uma garotinha…” Estou perdida porque estou apaixonada por um homem que está parado à minha frente, sem nenhuma lembrança a meu respeito. Tudo está no futuro para ele. Sinto vontade de rir da estranheza de tudo isto, estou inundada de conhecimentos sobre Henry, enquanto ele me olha perplexo e temeroso. “

O livro é narrado alternadamente por Clare e Henry, e segue uma sequência cronológica peculiar; após narrar os primeiros encontros, seguimos pelo cotidiano de Clare e Henry no presente, com capítulos que contam como foram as primeiras viagens no tempo de Henry, eventos significativos da infância de ambos, por exemplo como um Henry adulto ensinou truques de sobrevivência a um pequenino Henry que ainda não compreendia o que se passava com ele, a morte da mãe de Henry, e acontecimentos da adolescência de Clare.

Conhecemos também a família de Clare (seus pais Philip e Lucille, e seus irmãos, Mark e Alicia) e de Henry (seu pai Richard, violinista, e sua mãe, Annette Lyn Robinson, cantora lírica), seus amigos Gomez e Charisse, a ex-namorada de Henry, Ingrid, e outros personagens como Kimy, senhoria e amiga de Richard, pai de Henry, e Celia Atley, amiga de Ingrid.

Apesar das idas e vindas da narrativa através de vários pontos no tempo, a história segue num ritmo coerente e bem explicado e ficamos envolvidos com a vida e o destino dos personagens. Apesar de viajar pelo tempo, Henry não consegue alterar o rumo dos acontecimentos. Em uma cena interessante, Clare prova café pela primeira vez e não gosta. Henry comenta que ela gosta de café com muito creme e açúcar, ao que ela responde que ele a está transformando em uma aberração.

“Não estou”. Faço uma pausa. “O que quer dizer, estou transformando-a em uma aberração? Não estou fazendo nada”.

“Você sabe, me dizendo que eu gosto de café com creme e açúcar antes de eu o ter provado. Quer dizer, como vou descobrir se eu realmente gosto disso ou se eu gosto apenas por que você o disse?”

“Mas Clare, é apenas seu gosto pessoal. Você vai descobrir como gosta do café quer eu lhe diga ou não. Além do mais, você é quem sempre me perturba, querendo saber coisas sobre o futuro”.

“Contar coisas sobre o futuro é diferente de me dizer do que eu gosto”, diz Clare.

“Por quê? Tem tudo a ver com o livre arbítrio”.

Ao longo da narrativa vamos nos encantando com a história de amor de Henry e Clare, sua tentativa de viver uma vida normal, com trabalho, um lar, amigos, filhos, e como tudo é perturbado por uma condição que eles não conseguem controlar ou prever. Esta história de amor e ficção científica é ao mesmo tempo contemporânea e romântica, intensa e envolvente, e nos faz sorrir e chorar.

Em uma entrevista de 2003 (link no fim do artigo), Audrey Niffenegger fala sobre o livro:

Pergunta: “Havia um tema central ao qual os leitores deveriam se ater?

Audrey Niffenegger: Queria que as pessoas pensassem sobre a intimidade do amor, quão inefável ele é, e como ele nos molda. Eu queria escrever sobre a espera, mas como a espera é essencialmente negativa (tempo gasto na ausência de algo), escrevi sobre todas as coisas que acontecem ao redor da espera.”

Normalmente comento o livro todo, mas desta vez não vou falar muito para não estragar a surpresa para quem não o leu. Sorry, guys! (vão ler o livro!)

Filme

Os direitos de filmagem da história foram comprados pela Plan B,a produtora de Brad Pitt e Jennifer Anniston, que na época estavam juntos e pretendiam interpretar o casal de personagens principais. Mas então veio Angelina Jolie, e o resto é história.

Apesar dos direitos ainda pertencerem a Brad, que hoje é o único proprietário da Plan B, outro casal foi escolhido para interpretar Henry e Clare no filme que deve estrear em fevereiro de 2010; Eric Bana (de Tróia – 2004  e Munique – 2005  )  e Rachel McAdams (de O Retrato de Nossa Paixão e Meninas Malvadas, ambos de 2004).  O diretor do filme é o alemão Robert Schwentke , que dirigiu Plano de Voo (2005)  e o roteiro foi escrito por Bruce Joel Rubin, que também escreveu o roteiro de Ghost (1990),  pelo qual recebeu o Oscar.

O filme deveria ter estreado em 2008, mas foi adiado supostamente por causa de “O curioso caso de Benjamim Button”, que apesar de ter uma história diferente, também fala sobre a passagem do tempo.

No fórum sobre o filme no IMDb, alguns fãs reclamam de alguns personagens provavelmente serem deixados de fora do filme, como Kimy e Ingrid, cujos nomes não constam da lista do elenco. Outras reclamações são sobre o elenco escolhido; apesar de bons atores, não correspondem à descrição minuciosa que a autora faz no livro. Por exemplo, o Gomez do livro é loiro e magro, e o ator escolhido (Ron Livingston, de Band of Brothers)  é moreno.

Apesar das queixas dos fãs (algum fã de livro já ficou 100% feliz com o resultado de uma adaptação para o cinema?), acredito que podemos esperar um bom filme, sem efeitos especiais (desnecessários neste caso) e com uma boa história. Eu, pelo menos, estou esperando ansiosamente.

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Atualização: o filme estreia em 16 de outubro no Brasil, com o título de Te Amarei para Sempre. Confira o trailer no final do artigo; parece que será muito bom, apesar de terem se concentrado mais na parte romântica da história em vez do aspecto de ficção científica. Não vejo a hora!

Atualização 2: Uma boa crítica do filme, escrita por Valéria Fernandes (blog Shoujo Café)

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Livro: The Time Travellers´s Wife (A Mulher do Viajante do tempo) - Audrey Niffenegger

2003 – Mac Adam/Cage Publishers / 2004 – Ed. Objetiva / 2009 - Suma de Letras Brasileira

  • Entrada do filme no IMDB
  • Fórum de discussões sobre o livro e o filme
  • Site oficial de Audrey Niffenegger (ainda inacabado)
  • Entrada sobre o livro TTW na Wikipédia (em inglês)
  • Entrada sobre Audrey Niffenegger na Wikipédia (em inglês)
  • Entrevista de 2003 com Audrey Niffenegger

Linhas do tempo de TTW

Compiladas por Jack Humprey, que organizou os eventos do livro em ordem cronológica para compreender melhor a história. - (pdfs para download – não veja sem ter lido o livro - CONTÉM SPOILERS!)

(tradução de trechos do livro – Cristine Martin)

Bolsa Clare no Terracota Bolsas - aqui

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Trailer do filme A Mulher do Viajante do Tempo - legendado:

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